Sexta-feira Santa
Esteve para ser no
sábado. O forte sugeriu a véspera. Verificou-se a unanimidade. Gosto de dias
santificados…
Sob o signo de uma
Primavera radiosa, o mar correspondeu, não se atrevendo a contrariar a
tendência do eterno retorno.
O Pentágono definido e
cada um por si, sentiam-se animados. Já distava no tempo a última saída, a qual
não teve sequer substância. E para que o pleno fosse de novo alcançado, houve
contributos: o Malheiro trouxe a fisga; o Forte a canção religiosa; o Óscar um
fio novo; o Cheta as calças azuis e o Borges as iscas de fígado. Pentágono da
perfeição!
No rumo definido,
enquanto a embarcação cortava a ondulação ligeira, desenvolviam-se histórias
lembradas: sobre a tradição da limpeza das casas na Páscoa, exagerada pelas
mulheres; sobre as exigências e minúcias das vistorias navais; sobre a caixa do
Malheiro, já dotada de chipes; sobre gorazes não pescados pelo Forte; sobre a
recente taquicardia, que deu ao Borges…
Parou-se no 04 e logo
as novidades se induziram nos olhos e na admiração. A mais relevante foram os
flutuadores aplicados pelo Malheiro nos estralhos perto dos anzóis – pedaços de
rolha de cortiça. Defendia-se ele assim:
- É para fazer flutuar
o isco e o anzol.
- Olha se a rolha
pega!
Concerto afinado de
risadas. O certo, é que após o almoço, as rolhas de cortiça das garrafas
consumidas, foram todas parar ao bolso do Malheiro. Mas, refira-se com
seriedade e com vontade de analisar a questão: as únicas choupas e boas,
pescadas no barco, foram pescadas por ele (5 delas, lindas e gordas). Os
outros, sim os outros, só carapaus…
Depois, vieram os
abelhões-peludos. Grandes, não diria ameaçadores, a pousarem nas mãos, canas,
iscos e roupa dos admirados pescadores. Alguém gritou:
- Matem esses bichos.
- Não mata nada. São
inofensivos. Não têm ferrão.
Já todos permitiam que
os bichinhos lhes corressem pelas mãos e à primeira brisa mais forte, acabaram
por levantar voo, a procurarem os seus destinos.
Houve igualmente um
cangulo meio bêbado, atonado, caçado pelo Óscar com o camaroeiro.
- Vai dar uns bons
filetes.
E ainda depois,
apareceram as bogas do mar, as denominadas “cagonas”, pois misturadas aos
outros peixes, borram-nos todos, dando-lhes péssimo aspecto e mau gosto. As
gaivotas agradeceram.
Esta dádiva lembrou a
hora do reforço alimentar, pelo que o Borges apresentou uma tachada de iscas de
fígado de cebolada. Três de nós repetiram. O Malheiro e o Forte repudiaram!
Gente fina é outra coisa!
Fiquemos por aqui nas
novidades…
No lastro destas vivências,
a carapauzada ia entrando aos magotes. Carapaus de corpo inteiro, difíceis de
tirar, a estremecerem no cabaz em desespero.
De tarde, depois de
umas garfadas de bacalhau dourado, abrandou a revoada chicharral e pintaram
três gorazes (ás 14h00). A malta esperançou, mas logo se desiludiu. Estoiraram só
aqueles foguetes. Não deu para fazer a festa.
Contudo, a festa foi
realizada, mas com outra espécie: o congro. O Cheta arrancou dois valentes
congros, o Óscar repetiu e pouco depois seguiu-se o Malheiro, este lá na proa
para onde tinha emigrado, a fugir das trapalhadas com o Óscar.
Mais para o final das
lides, seriam aí umas 17h00, eu dei-lhe bem nos carapaus, outra vez. Mas o
regresso era uma urgência, estava na cara exausta do Forte, obviamente o melhor
pescador do barco.
Ao som do guincho,
foi-se repetindo um refrão, que o Malheiro tinha apresentado, em sua defesa. O
Óscar acusava-o de ser ele o responsável pelos emaranhamentos constantes, por
causa da utilização de bóias de cortiça nos estralhos.
Recitava ele, contra
as iscagens de sardinha, utilizadas pelo Óscar.
- Iscos com sardinha,
fazem ventoinha.
E esta, hem? O homem é
poeta. Mas, eu gosto.
Marina de Leça, 03 de Abril de 2015
Luís M. Borges