segunda-feira, 13 de abril de 2015

37. MEMÓRIAS DO ALTO MAR


"Tanta hora somada a nada"


Ah, mar de Matosinhos, que já foi mar e que deu peixe. "Tanta hora somada a nada".
A pesca deste dia, foi de novo absurda, cega para a memória, hermética para a acção, miserável para a jorna. Uma merda!
Duas dúzias de serranos, meia dúzia de fanecas e outro tanto de sargos, menos que meia dúzia de carapaus, um besugo e uma cabra.
Não gosto assim do meu mundo, pois acho que nem eu o mereço, nem os meus colegas o aceitam. Um dia inteiro para ver como acabava a tarde. E o mar e os peixes, a abusarem de nós, na perfídia de uma grande anedota, feita pescaria. Hoje, estou mais pobre, pois perdi o ritmo, perdi a confiança nos meus conhecimentos, perdi a minha auto-estima, perdi a boa disposição. Foi quase um amor de perdição, mas sem o amor. "Merda iminentíssima"!
E depois veio de novo o inefável Malheiro, com a apresentação de um cozido à portuguesa para o almoço, com uma cana de Big-Game para os congros e com uma tintureira, pescada ao acaso. Foi demais! 
"Uma espuma de sal bateu-lhe alto na cabeça, nunca mais foi o mesmo..." Teria sido isto? Bateu-lhe uma espuma de sal na cabeça?
Deixo a questão à boa análise da malta.


Dou vivas a estes resignados pescadores, altruístas a rodos, a pensarem que amanhã, num certo dia ou dias, é que se fará o ajuste de contas. Alguém será capaz de rir?
Não, os capítulos da nossa vida é que fazem o nosso livro. Por enquanto, ainda temos esperança de continuar a escrever com as nossas canas, magníficos capítulos. O livro será um êxito. 

Marina de Leça, 11 de Abril de 2015.
Luís M. Borges
Bibliografia: "Servidões" de Herberto Helder



domingo, 12 de abril de 2015

36. MEMÓRIAS DO ALTO MAR



Sexta-feira Santa
 
Esteve para ser no sábado. O forte sugeriu a véspera. Verificou-se a unanimidade. Gosto de dias santificados…
Sob o signo de uma Primavera radiosa, o mar correspondeu, não se atrevendo a contrariar a tendência do eterno retorno.

O Pentágono definido e cada um por si, sentiam-se animados. Já distava no tempo a última saída, a qual não teve sequer substância. E para que o pleno fosse de novo alcançado, houve contributos: o Malheiro trouxe a fisga; o Forte a canção religiosa; o Óscar um fio novo; o Cheta as calças azuis e o Borges as iscas de fígado. Pentágono da perfeição!

No rumo definido, enquanto a embarcação cortava a ondulação ligeira, desenvolviam-se histórias lembradas: sobre a tradição da limpeza das casas na Páscoa, exagerada pelas mulheres; sobre as exigências e minúcias das vistorias navais; sobre a caixa do Malheiro, já dotada de chipes; sobre gorazes não pescados pelo Forte; sobre a recente taquicardia, que deu ao Borges…

Parou-se no 04 e logo as novidades se induziram nos olhos e na admiração. A mais relevante foram os flutuadores aplicados pelo Malheiro nos estralhos perto dos anzóis – pedaços de rolha de cortiça. Defendia-se ele assim:
- É para fazer flutuar o isco e o anzol.
- Olha se a rolha pega!

Concerto afinado de risadas. O certo, é que após o almoço, as rolhas de cortiça das garrafas consumidas, foram todas parar ao bolso do Malheiro. Mas, refira-se com seriedade e com vontade de analisar a questão: as únicas choupas e boas, pescadas no barco, foram pescadas por ele (5 delas, lindas e gordas). Os outros, sim os outros, só carapaus…
Depois, vieram os abelhões-peludos. Grandes, não diria ameaçadores, a pousarem nas mãos, canas, iscos e roupa dos admirados pescadores. Alguém gritou:
- Matem esses bichos.
- Não mata nada. São inofensivos. Não têm ferrão.
Já todos permitiam que os bichinhos lhes corressem pelas mãos e à primeira brisa mais forte, acabaram por levantar voo, a procurarem os seus destinos. 

Houve igualmente um cangulo meio bêbado, atonado, caçado pelo Óscar com o camaroeiro.
- Vai dar uns bons filetes.

E ainda depois, apareceram as bogas do mar, as denominadas “cagonas”, pois misturadas aos outros peixes, borram-nos todos, dando-lhes péssimo aspecto e mau gosto. As gaivotas agradeceram.
Esta dádiva lembrou a hora do reforço alimentar, pelo que o Borges apresentou uma tachada de iscas de fígado de cebolada. Três de nós repetiram. O Malheiro e o Forte repudiaram! Gente fina é outra coisa!
Fiquemos por aqui nas novidades…

No lastro destas vivências, a carapauzada ia entrando aos magotes. Carapaus de corpo inteiro, difíceis de tirar, a estremecerem no cabaz em desespero.
De tarde, depois de umas garfadas de bacalhau dourado, abrandou a revoada chicharral e pintaram três gorazes (ás 14h00). A malta esperançou, mas logo se desiludiu. Estoiraram só aqueles foguetes. Não deu para fazer a festa.
Contudo, a festa foi realizada, mas com outra espécie: o congro. O Cheta arrancou dois valentes congros, o Óscar repetiu e pouco depois seguiu-se o Malheiro, este lá na proa para onde tinha emigrado, a fugir das trapalhadas com o Óscar.

Mais para o final das lides, seriam aí umas 17h00, eu dei-lhe bem nos carapaus, outra vez. Mas o regresso era uma urgência, estava na cara exausta do Forte, obviamente o melhor pescador do barco.
Ao som do guincho, foi-se repetindo um refrão, que o Malheiro tinha apresentado, em sua defesa. O Óscar acusava-o de ser ele o responsável pelos emaranhamentos constantes, por causa da utilização de bóias de cortiça nos estralhos.




Recitava ele, contra as iscagens de sardinha, utilizadas pelo Óscar.
- Iscos com sardinha, fazem ventoinha.
E esta, hem? O homem é poeta. Mas, eu gosto.


Marina de Leça, 03 de Abril de 2015
Luís M. Borges


35. MEMÓRIAS DO ALTO MAR



No intervalo da pesca

Quando o Óscar chega, move-se o meu mundo.
A tela da viagem foi-se preenchendo: Alto do Cavalinho e sandes de presunto, Rali de Jeeps, Mar de nuvens, Mesão Frio, Caldas do Moledo, Régua e rolhas, Intermarché e fígado, 3 pontes recortadas, o rio Douro e finalmente a subir, sempre a subir, Marmelal. O rei D. Sancho I concedeu foral a esta terra em 1194. Este rei viu o quê em Marmelal? E a rainha porque será que mandou construir uma capela, a Capela de Nossa Senhora das Neves? que acabei por visitar a insistência e simpatia da D. Noémia e da D. Carmen. Esplendor: demasiada beleza para tão pequena capela.

Mas o objectivo era o vinho: o Óscar dá o litro por um copo de vinho. Engarrafou-se, engarrafonou-se, enbidou-se, foi-se à beirada do lagar comer a bola de bacalhau e mirou-se com êxtase aquela cor rubi, beberricando de seguida em lenta e demorada apreciação o belo e saboroso vinho do Óscar. O Pai dele, de vez em quando, barafustava a dar sugestões e a orientar pormenores, naquele seu jeito de homem antigo.

Entretanto, noutro espaço, aprimorava-se o almoço, com o empenho das duas patroas, a mais velha e a mais nova. O aroma começou a invadir a adega, até que a frase esperada soou:
- Os rojões estão na mesa.
Logo se acomodaram na mesa da sala de jantar 11 valentes convivas, sedentos e famintos.

Fomos todos depois de bem regados e abastecidos, em excursão e alegre toada tomar café. Foi numa enorme janela panorâmica, plena de Douro, que me expandi de olhares e me senti no cimo da admiração: aquele Douro, aquela paisagem enorme e retalhada, aqueles dois rios (o Douro e o Tedo) a angularem e a conformarem o meu olhar, dando-me expressões de avaliação, perfeitamente adequadas: uma natureza soberba, um excesso de grandiosidade, a mão do homem em socalcos sem fim. Lembraram-me as minhas origens, pois passaram em revisão da memória a minha vivência infantil em Caldas do Moledo, onde pequenino vivi entre a pacatez do rio Douro e a soberba dos montes, a ver lá no cimo Fontelas.



O resto da tarde decorreu nas últimas, pois durante a manhã, o serviço de enchimento quase se tinha concluído.
O regresso foi outro retorno comum. Carregado de vinho, acomodei em casa 50 litros de mil trabalhos, feitos pela conjugação da mãe natureza com a invenção dos homens durienses.

- Quando bebo, saboreio, quando bebo lembro-me, quando bebo saúdo, quando bebo alegro-me.
Já compreendo o porquê do Foral do rei e da Capela da rainha.

Marmelal, 28 de Março de 2015,
Luís M. Borges