
CONTOS DO FAROL 3. O cais da SOMEQUE
Era sempre por volta das 06h00, às vezes mais cedo, que abríamos a porta da cozinha e analisávamos as condições do estado do tempo.
- Está frio. Levem os blusões. Este vento desgraçado não nos larga – era o Adérito.
Seguia-se o mastigar de uma pequena “bucha”, fruta ou folar do Algarve, com um pouco de café com leite, ou simplesmente água, para limpar. Depois, apressadamente, arrumávamos os iscos, os materiais e ala que se fazia tarde!
- Vamos, que a maré não espera!
O Adérito comandava, seguro de que teríamos êxito, se a pesca se iniciasse nos limites do estabelecido, ou seja, uma hora antes e uma hora depois da mudança da maré. A baixa-mar seria justamente às 07h00. Ora, todos os bons pescadores sabem, que é durante estas duas horas milagrosas, conjugadas com o nascer do dia, que os peixes se mostravam mais activos, sobretudo os granjolas. Todos queriam vê-los a contorcer-se no fundo do balde, a reflectirem a luz das nossas lanternas, enquanto um sorriso leve de satisfação nos amenizava o rosto.
O cais da Someque era pequeno, velho e mal cheiroso. Dantes, servia o barco da carreira, mas agora o cais pertencia por inteiro ao barco encarregado da salubridade da Ilha, o qual recolhia diariamente os contentores carregados com sacos de lixo, vasilhames de vidro e plástico, embalagens de papel, electrodomésticos estafados e todo o género de coisas, que a nossa dita sociedade de consumo produzia. Este cais tinha um aspecto desagradavelmente gorduroso, negro de sujidade, com as estruturas metálicas corroídas pela ferrugem, à mistura com cordames verdes desfiados. O piso do patamar estava emendado com tábuas a cobrir as enormes rachadelas provocadas por amarrações violentas. Por volta das 08h00 acabava-se a pesca, pois os pescadores ficavam sem cais para pescar, bem como sem peixe, por causa da trepidação e dos barulhos provocados pela recolha do lixo, que eram em excesso.
- Ora bem, cá estamos. Cuidado com o prego saliente nessa tábua – o Adérito avisava.
- A maré ainda corre bem. Chumbada de 30/40 gramas – avisava eu.
- Vou iniciar as lides com berbigão, pois as choupas pegam-lhe bem – sentenciava o Serafim.
- Eu quero sargos, grandes e gordos. Vou no camarão congelado – prometia o Paiva.
O cais da Someque era demasiado pequeno para 4 pescadores, pelo que tivemos que ajustar posicionamentos, a fim de evitar os desnecessários cruzamentos de linhas. Desfazer fios ensarilhados, fazia perder muito tempo e geralmente provocava aborrecimentos.
- Aí está – gritava o Adérito – é uma choupa das boas! Não sei se precisarei do camaroeiro. Esperem, talvez não seja preciso.
Com determinação, a choupa foi içada para cima do cais, estrebuchando desesperadamente. Era uma choupa para meio quilo, pescada com fio grosso de 0,33 (o Adérito não brincava em serviço). Finuras é para os pescadores de rio, afirmava ele, ciente de que valia mais tirar uma só choupa grande do que muitas pequenas. Peixe pequeno é para crescer, não é para ser pescado. Era uma boa atitude, condizente com a tendência de preservação das espécies, que actualmente se vivia, face à rarefacção do peixe, provocada pelas constantes agressões ao meio marinho e pelos excessos dos pescadores profissionais. Então nesta Ilha do Farol, é ver os “filhos da Culatra”, a cometerem autênticas barbaridades e a saírem impunes!
- Aqui está outro. Eh…raios, está tudo preso. Sorte malvada!
E lá se viu o Serafim, completamente desanimado a puxar na horizontal a cana, de modo a libertar a chumbada e o anzol das garras das rochas.
- Pronto. Mais um aparelho completo que foi à vida. Ah…que paciência!
Entretanto o Paiva começa a trabalhar outro peixe, com a sua fleuma habitual, sem exultar antecipadamente, manejando o carreto e a cana numa conjugação equilibrada. O peixe parecia ser jeitoso, obrigando o Paiva a destravar o carreto de vez em quando, a fim de evitar a ruptura do fio. O Serafim, que estava livre, pegou no camaroeiro e dirigiu-se à escada da Someque.
- Paiva, trá-lo para aqui…
Mas o Paiva estava em dificuldades, pois o peixe ainda estava longe e tão cedo não o conseguiria trazer à superfície para poder colocá-lo a jeito de o Serafim o enfiar no camaroeiro.
O Serafim insistia: - Anda lá! Traz o peixe!
O Paiva, impassível e sereno, continuava com a cana bem vergada e com o carreto a chiar constantemente. Eu e o Adérito observávamos silenciosamente, depois de recolhidas as respectivas canas, a fim de não estorvarmos o trabalho do Paiva.
O Serafim continuava a berrar: - Estás a dar-lhe muito fio. Fecha o carreto. Traz lá o peixe. Ainda te foge o desgraçado. O Paiva, aqui, começou a mostrar sinais de inquietação, depois de ter ouvido ao Serafim a palavra fatídicia – FUGIR. Eu e o Adérito aconselhávamos calma. O Paiva entretanto ia puxando agora o peixe com mais ritmo.
- Penso que é um robalo e de bom tamanho.
Na realidade era um robalo, confirmando-se quando o peixe assumou à superfície. E que robalo! O Paiva foi-o chegando para o local onde se encontrava o Serafim, junto à escada, nervoso, excitado, ansioso. Com todo o cuidado, por causa do cordame abandonado nos ferros do cais, o peixe foi arrastado com dificuldade até ao alcance do camaroeiro.
- Chega mais o peixe, chega mais - gritava o Serafim – debruçado no último degrau da escada de ferro, já com os pés na água que corria bem, agarrado com uma mão ao corrimão, numa posição de total distensão, quase em desequilíbrio. O peixe decidiu reagir mais uma vez, tentando libertar-se do ferro do anzol, ao ver o Serafim a uns metros dele. O Paiva, conteve-o, fê-lo subir de novo, boca aberta à superfície da água, quietinho, cansado... O Serafim aproximou então o velho camaroeiro do peixe, que de novo restolhou com violência, num último assomo de energia, contorcendo-se, conseguindo libertar-se finalmente do anzol. Abalou rapidamente, desaparecendo nas águas azuis da ria, para desânimo do pobre Serafim. Por momentos, reinou um silêncio estranho.
- Era robalo para 3 quilos – cortou o Paiva, com a voz embargada.
Retomou-se a actividade de pesca, com algum desânimo, visível na forma como em silêncio se faziam os lançamentos.
É nestes momentos, que todos os pescadores sentem uma espécie de desígnio, que os levam a aceitar com naturalidade a liberdade que um peixe, enganado por um isco escondido num anzol. Respeita-se o peixe, respeita-se o pescador e respeita-se quem perde o peixe no camaroeiro.
Passados nem 5 minutos, houve-se um enorme barulho à mistura com um grito abafado. Aconteceu-me o que temia. Tinha escorregado naquele chão húmido e viscoso. Desamparado, fui aos trambolhões pela escada abaixo e estatelei-me no último degrau. Estuporei uma perna e a cabeça, ambas a sangrar. Levantei-me, com os meus colegas a ajudar. A cana partiu-se em três. Dorido, desanimado mas inteiro e vivo, calculei o grau de aceitação de sacrifício pessoal, que a paixão da pesca comporta. Eu sei, que há pescadores que perdem a vida, outros que ficam estropiados e ainda outros que ficam inválidos. Não está propriamente na pesca a razão destas tragédias, mas é concerteza a sua primeira causa. Na ânsia, na concentração objectiva sobre a captura do peixe, o pescador acaba por largar, esquecer, secundarizar o mundo em que vive, a realidade que o circunda, os perigos que o rodeiam, as cautelas necessárias à sua segurança. Digo e reafirmo, que não há peixe nenhum, por maior e mais raro que seja, que se sobreponha à vida de uma pessoa. Há viver e há pescar! O pescador intermedeia a relação mais apropriada entre estes dois paradigmas.
- Borges, está tudo bem consigo? Perguntava o Adérito, lançando-me um olhar preocupado. Tenho uma cana suplente. Pode utilizá-la à vontade, mas vamos agora é tratar desses ferimentos. Deixe ver…
O Adérito era médico. Abriu o estojo de primeiros socorros e aplicou com mestria o algodão com álcool, isolando de seguida todas as partes feridas com pensos rápidos, rodeado pelo Paiva e Serafim.
- Obrigado. Já estou melhor. Vão pescar, vão, que temos pouco tempo.
Entretanto já clareava. Olhando as águas da ria a correrem, viam-se à superfície os agulhas a perseguirem a petinga. A meia água as pachorrentas tainhas sorviam os pequenos detritos que a corrente transportava. No fundo, as salemas misturavam-se com os sargos. Aqui e ali surgia um peixe-porco e outras espécies de reduzido tamanho.
- Já só temos uma hora de pesca. Vamos a eles ó pessoal. - Era o Serafim.
Entretanto surgiu a corveta da marinha. Parou ao largo e largou um pequeno pneumático, que rapidamente se dirigiu para o local onde nos encontrávamos.
- Vamos parar de pescar. Podemos ser multados. - Avisou o Adérito.
- Não acredito que tenham parado por nossa causa, quatro humildes pescadores. Mas, seja como for, convém mostrar respeito, pois é proibido pescar neste local - Comentei com pouca convicção.
Todos aceitaram actuar como sugeri. Encostaram as respectivas canas e aguardaram a chegada do pequeno bote, que acostou à fatídica escada do cais e dele desembarcou um agente fardado, que nos deu os bons dias e apressado, se dirigiu para o Restaurante “À do João”. O barquito regressou no sentido da corveta, que aguardava. Não tardaram 5 minutos até que a corveta retomasse o rumo da barra. Todos, meio espantados e aliviados, acabaram por sorrir e aprontaram as canas para o reinício da pesca, afincando-se no pouco tempo que lhes restava de acção de pesca. Esta cena de receio e de prevaricação, tem uma explicação. A nova lei, imposta por um Governo desleal, começou a ser aplicada em 2008. Esse Governo atreveu-se a proibir a pesca de cana, em locais onde há séculos ela fazia o tempo de lazer e de ocupação útil, de reformados, crianças e em geral de amantes da pesca. Passou esta actividade de lazer a ser considerada crime e obviamente a ser multada de forma violenta. Os motivos? Sabem-se lá! Debruçar-me-ei mais tarde sobre este assunto absurdo. Mais para denunciar do que para remediar.
A azáfama continuou. O Serafim pesca um bom rascasso, para aí de 750 gr. Os espinhos venenosos exigiam o máximo cuidado com a desferragem, pelo que dois de nós ajudámos o Serafim nessa perigosa operação. O Adérito especializou-se nas choupas de bom porte, enquanto eu fui fisgando uns sargos mesmo junto aos pilares do cais, enquanto o Paiva os tirava no sentido da corrente ascendente e o Serafim andava aos “papos” com polvos. Depois, aconteceu mais uma inexplicável falta de eficácia: o Adérito deixou escapar uma bela choupa que eu tinha cravado pelo rabo. Aquele camaroeiro velho e inútil, acabou lançado naquele dia no lixo. Furiosamente. Contudo, a fúria da pesca retomou-se e este clímax aconteceu ainda mais durante cerca de meia hora, quando a maré mudou e as águas quase pararam. Eram umas 7h30.
Depois, lentamente, a maré começou a orientar-se no sentido contrário ???. Com o sol já a raiar, a levantar-se quente e acolhedor e a pesca a declinar, o peixe miúdo começou a atacar com uma destreza admirável os iscos, deixando descarnados os anzóis. Eram os infantis (choupinhas, e sarguinhos), mais as judias, as marachombas e os ?, que com empenho e voracidade nos faziam desesperar.
- Então bom dia a todos sem excepção. Estão a ver? Sou sempre o primeiro a chegar ao serviço. São testemunhas. – Era o PISCA, o empregado da empresa municipal de recolha do lixo da Ilha. Não tardaria a chegar o tractor da recolha do lixo, conduzido pelo encarregado, acompanhado por outro funcionário, ucraniano. O Pisca tinha uma voz esganiçada e fazia-nos rir com as suas tiradas ingénuas sobre a pesca e sobre o mundo.
- Aí vem o barco do lixo. Encerrem os trabalhos! – Ditava eu – Toca a arrumar as “bicuatas”. De qualquer modo já não se pescava. Estávamos a alimentar os minorcas, a fazê-los crescer.
Todos se azafamaram a desmontar as canas, arrumar os iscos, fechar as sacolas. O balde negro apresentava-se reluzente, prateado, quase pleno de peixe. Não se pescou mal!
A pesca no Cais da Someque acabou sorridente, embora recheada de pequenos acidentes e peripécias. O regresso a casa, para o verdadeiro pequeno-almoço, trazia novas esperanças, repletas de peixes grandes. Já se planeava a pescaria para a tarde, lá na ponta do molhe. Porém, antes disso, algumas coisas teriam de ser definidas. Quem arranjava o peixe? O Borges. Quem arrumava no congelador o peixe a mais? O Adérito. Quem iria fazer o almoço, peixe assado na brasa? O Marcelino. Quem limpava a louça? O Paiva. Quem tratava do lixo? O Serafim. Quem limpava a casa? O Barbosa. Organização perfeita!
Luís M. Borges, Setembro, 2009
- Está frio. Levem os blusões. Este vento desgraçado não nos larga – era o Adérito.
Seguia-se o mastigar de uma pequena “bucha”, fruta ou folar do Algarve, com um pouco de café com leite, ou simplesmente água, para limpar. Depois, apressadamente, arrumávamos os iscos, os materiais e ala que se fazia tarde!
- Vamos, que a maré não espera!
O Adérito comandava, seguro de que teríamos êxito, se a pesca se iniciasse nos limites do estabelecido, ou seja, uma hora antes e uma hora depois da mudança da maré. A baixa-mar seria justamente às 07h00. Ora, todos os bons pescadores sabem, que é durante estas duas horas milagrosas, conjugadas com o nascer do dia, que os peixes se mostravam mais activos, sobretudo os granjolas. Todos queriam vê-los a contorcer-se no fundo do balde, a reflectirem a luz das nossas lanternas, enquanto um sorriso leve de satisfação nos amenizava o rosto.
O cais da Someque era pequeno, velho e mal cheiroso. Dantes, servia o barco da carreira, mas agora o cais pertencia por inteiro ao barco encarregado da salubridade da Ilha, o qual recolhia diariamente os contentores carregados com sacos de lixo, vasilhames de vidro e plástico, embalagens de papel, electrodomésticos estafados e todo o género de coisas, que a nossa dita sociedade de consumo produzia. Este cais tinha um aspecto desagradavelmente gorduroso, negro de sujidade, com as estruturas metálicas corroídas pela ferrugem, à mistura com cordames verdes desfiados. O piso do patamar estava emendado com tábuas a cobrir as enormes rachadelas provocadas por amarrações violentas. Por volta das 08h00 acabava-se a pesca, pois os pescadores ficavam sem cais para pescar, bem como sem peixe, por causa da trepidação e dos barulhos provocados pela recolha do lixo, que eram em excesso.
- Ora bem, cá estamos. Cuidado com o prego saliente nessa tábua – o Adérito avisava.
- A maré ainda corre bem. Chumbada de 30/40 gramas – avisava eu.
- Vou iniciar as lides com berbigão, pois as choupas pegam-lhe bem – sentenciava o Serafim.
- Eu quero sargos, grandes e gordos. Vou no camarão congelado – prometia o Paiva.
O cais da Someque era demasiado pequeno para 4 pescadores, pelo que tivemos que ajustar posicionamentos, a fim de evitar os desnecessários cruzamentos de linhas. Desfazer fios ensarilhados, fazia perder muito tempo e geralmente provocava aborrecimentos.
- Aí está – gritava o Adérito – é uma choupa das boas! Não sei se precisarei do camaroeiro. Esperem, talvez não seja preciso.
Com determinação, a choupa foi içada para cima do cais, estrebuchando desesperadamente. Era uma choupa para meio quilo, pescada com fio grosso de 0,33 (o Adérito não brincava em serviço). Finuras é para os pescadores de rio, afirmava ele, ciente de que valia mais tirar uma só choupa grande do que muitas pequenas. Peixe pequeno é para crescer, não é para ser pescado. Era uma boa atitude, condizente com a tendência de preservação das espécies, que actualmente se vivia, face à rarefacção do peixe, provocada pelas constantes agressões ao meio marinho e pelos excessos dos pescadores profissionais. Então nesta Ilha do Farol, é ver os “filhos da Culatra”, a cometerem autênticas barbaridades e a saírem impunes!
- Aqui está outro. Eh…raios, está tudo preso. Sorte malvada!
E lá se viu o Serafim, completamente desanimado a puxar na horizontal a cana, de modo a libertar a chumbada e o anzol das garras das rochas.
- Pronto. Mais um aparelho completo que foi à vida. Ah…que paciência!
Entretanto o Paiva começa a trabalhar outro peixe, com a sua fleuma habitual, sem exultar antecipadamente, manejando o carreto e a cana numa conjugação equilibrada. O peixe parecia ser jeitoso, obrigando o Paiva a destravar o carreto de vez em quando, a fim de evitar a ruptura do fio. O Serafim, que estava livre, pegou no camaroeiro e dirigiu-se à escada da Someque.
- Paiva, trá-lo para aqui…
Mas o Paiva estava em dificuldades, pois o peixe ainda estava longe e tão cedo não o conseguiria trazer à superfície para poder colocá-lo a jeito de o Serafim o enfiar no camaroeiro.
O Serafim insistia: - Anda lá! Traz o peixe!
O Paiva, impassível e sereno, continuava com a cana bem vergada e com o carreto a chiar constantemente. Eu e o Adérito observávamos silenciosamente, depois de recolhidas as respectivas canas, a fim de não estorvarmos o trabalho do Paiva.
O Serafim continuava a berrar: - Estás a dar-lhe muito fio. Fecha o carreto. Traz lá o peixe. Ainda te foge o desgraçado. O Paiva, aqui, começou a mostrar sinais de inquietação, depois de ter ouvido ao Serafim a palavra fatídicia – FUGIR. Eu e o Adérito aconselhávamos calma. O Paiva entretanto ia puxando agora o peixe com mais ritmo.
- Penso que é um robalo e de bom tamanho.
Na realidade era um robalo, confirmando-se quando o peixe assumou à superfície. E que robalo! O Paiva foi-o chegando para o local onde se encontrava o Serafim, junto à escada, nervoso, excitado, ansioso. Com todo o cuidado, por causa do cordame abandonado nos ferros do cais, o peixe foi arrastado com dificuldade até ao alcance do camaroeiro.
- Chega mais o peixe, chega mais - gritava o Serafim – debruçado no último degrau da escada de ferro, já com os pés na água que corria bem, agarrado com uma mão ao corrimão, numa posição de total distensão, quase em desequilíbrio. O peixe decidiu reagir mais uma vez, tentando libertar-se do ferro do anzol, ao ver o Serafim a uns metros dele. O Paiva, conteve-o, fê-lo subir de novo, boca aberta à superfície da água, quietinho, cansado... O Serafim aproximou então o velho camaroeiro do peixe, que de novo restolhou com violência, num último assomo de energia, contorcendo-se, conseguindo libertar-se finalmente do anzol. Abalou rapidamente, desaparecendo nas águas azuis da ria, para desânimo do pobre Serafim. Por momentos, reinou um silêncio estranho.
- Era robalo para 3 quilos – cortou o Paiva, com a voz embargada.
Retomou-se a actividade de pesca, com algum desânimo, visível na forma como em silêncio se faziam os lançamentos.
É nestes momentos, que todos os pescadores sentem uma espécie de desígnio, que os levam a aceitar com naturalidade a liberdade que um peixe, enganado por um isco escondido num anzol. Respeita-se o peixe, respeita-se o pescador e respeita-se quem perde o peixe no camaroeiro.
Passados nem 5 minutos, houve-se um enorme barulho à mistura com um grito abafado. Aconteceu-me o que temia. Tinha escorregado naquele chão húmido e viscoso. Desamparado, fui aos trambolhões pela escada abaixo e estatelei-me no último degrau. Estuporei uma perna e a cabeça, ambas a sangrar. Levantei-me, com os meus colegas a ajudar. A cana partiu-se em três. Dorido, desanimado mas inteiro e vivo, calculei o grau de aceitação de sacrifício pessoal, que a paixão da pesca comporta. Eu sei, que há pescadores que perdem a vida, outros que ficam estropiados e ainda outros que ficam inválidos. Não está propriamente na pesca a razão destas tragédias, mas é concerteza a sua primeira causa. Na ânsia, na concentração objectiva sobre a captura do peixe, o pescador acaba por largar, esquecer, secundarizar o mundo em que vive, a realidade que o circunda, os perigos que o rodeiam, as cautelas necessárias à sua segurança. Digo e reafirmo, que não há peixe nenhum, por maior e mais raro que seja, que se sobreponha à vida de uma pessoa. Há viver e há pescar! O pescador intermedeia a relação mais apropriada entre estes dois paradigmas.
- Borges, está tudo bem consigo? Perguntava o Adérito, lançando-me um olhar preocupado. Tenho uma cana suplente. Pode utilizá-la à vontade, mas vamos agora é tratar desses ferimentos. Deixe ver…
O Adérito era médico. Abriu o estojo de primeiros socorros e aplicou com mestria o algodão com álcool, isolando de seguida todas as partes feridas com pensos rápidos, rodeado pelo Paiva e Serafim.
- Obrigado. Já estou melhor. Vão pescar, vão, que temos pouco tempo.
Entretanto já clareava. Olhando as águas da ria a correrem, viam-se à superfície os agulhas a perseguirem a petinga. A meia água as pachorrentas tainhas sorviam os pequenos detritos que a corrente transportava. No fundo, as salemas misturavam-se com os sargos. Aqui e ali surgia um peixe-porco e outras espécies de reduzido tamanho.
- Já só temos uma hora de pesca. Vamos a eles ó pessoal. - Era o Serafim.
Entretanto surgiu a corveta da marinha. Parou ao largo e largou um pequeno pneumático, que rapidamente se dirigiu para o local onde nos encontrávamos.
- Vamos parar de pescar. Podemos ser multados. - Avisou o Adérito.
- Não acredito que tenham parado por nossa causa, quatro humildes pescadores. Mas, seja como for, convém mostrar respeito, pois é proibido pescar neste local - Comentei com pouca convicção.
Todos aceitaram actuar como sugeri. Encostaram as respectivas canas e aguardaram a chegada do pequeno bote, que acostou à fatídica escada do cais e dele desembarcou um agente fardado, que nos deu os bons dias e apressado, se dirigiu para o Restaurante “À do João”. O barquito regressou no sentido da corveta, que aguardava. Não tardaram 5 minutos até que a corveta retomasse o rumo da barra. Todos, meio espantados e aliviados, acabaram por sorrir e aprontaram as canas para o reinício da pesca, afincando-se no pouco tempo que lhes restava de acção de pesca. Esta cena de receio e de prevaricação, tem uma explicação. A nova lei, imposta por um Governo desleal, começou a ser aplicada em 2008. Esse Governo atreveu-se a proibir a pesca de cana, em locais onde há séculos ela fazia o tempo de lazer e de ocupação útil, de reformados, crianças e em geral de amantes da pesca. Passou esta actividade de lazer a ser considerada crime e obviamente a ser multada de forma violenta. Os motivos? Sabem-se lá! Debruçar-me-ei mais tarde sobre este assunto absurdo. Mais para denunciar do que para remediar.
A azáfama continuou. O Serafim pesca um bom rascasso, para aí de 750 gr. Os espinhos venenosos exigiam o máximo cuidado com a desferragem, pelo que dois de nós ajudámos o Serafim nessa perigosa operação. O Adérito especializou-se nas choupas de bom porte, enquanto eu fui fisgando uns sargos mesmo junto aos pilares do cais, enquanto o Paiva os tirava no sentido da corrente ascendente e o Serafim andava aos “papos” com polvos. Depois, aconteceu mais uma inexplicável falta de eficácia: o Adérito deixou escapar uma bela choupa que eu tinha cravado pelo rabo. Aquele camaroeiro velho e inútil, acabou lançado naquele dia no lixo. Furiosamente. Contudo, a fúria da pesca retomou-se e este clímax aconteceu ainda mais durante cerca de meia hora, quando a maré mudou e as águas quase pararam. Eram umas 7h30.
Depois, lentamente, a maré começou a orientar-se no sentido contrário ???. Com o sol já a raiar, a levantar-se quente e acolhedor e a pesca a declinar, o peixe miúdo começou a atacar com uma destreza admirável os iscos, deixando descarnados os anzóis. Eram os infantis (choupinhas, e sarguinhos), mais as judias, as marachombas e os ?, que com empenho e voracidade nos faziam desesperar.
- Então bom dia a todos sem excepção. Estão a ver? Sou sempre o primeiro a chegar ao serviço. São testemunhas. – Era o PISCA, o empregado da empresa municipal de recolha do lixo da Ilha. Não tardaria a chegar o tractor da recolha do lixo, conduzido pelo encarregado, acompanhado por outro funcionário, ucraniano. O Pisca tinha uma voz esganiçada e fazia-nos rir com as suas tiradas ingénuas sobre a pesca e sobre o mundo.
- Aí vem o barco do lixo. Encerrem os trabalhos! – Ditava eu – Toca a arrumar as “bicuatas”. De qualquer modo já não se pescava. Estávamos a alimentar os minorcas, a fazê-los crescer.
Todos se azafamaram a desmontar as canas, arrumar os iscos, fechar as sacolas. O balde negro apresentava-se reluzente, prateado, quase pleno de peixe. Não se pescou mal!
A pesca no Cais da Someque acabou sorridente, embora recheada de pequenos acidentes e peripécias. O regresso a casa, para o verdadeiro pequeno-almoço, trazia novas esperanças, repletas de peixes grandes. Já se planeava a pescaria para a tarde, lá na ponta do molhe. Porém, antes disso, algumas coisas teriam de ser definidas. Quem arranjava o peixe? O Borges. Quem arrumava no congelador o peixe a mais? O Adérito. Quem iria fazer o almoço, peixe assado na brasa? O Marcelino. Quem limpava a louça? O Paiva. Quem tratava do lixo? O Serafim. Quem limpava a casa? O Barbosa. Organização perfeita!
Luís M. Borges, Setembro, 2009
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