terça-feira, 20 de outubro de 2009

CONTOS DO FAROL 2.O Grupe


CONTOS DO FAROL 2.
O "GRUPE"

O “Grupe” é o nosso grupo de pesca. Não há sábado que não funcione, na voragem contínua dos dias do ano a correrem sem parar. É constituído por 5 artistas da cana e do anzol, mais 1 “ocasional” e 1 “suplente”. Já explico.
Temos primeiro o Adérito, o dono do carro/pesca, possuidor de uma enorme carrinha Peugeot, onde cabe toda a tralha de pesca. Carro cómodo, está certamente mais ao serviço do lazer, do que da profissão do seu proprietário. O Adérito, antes era um caçador, que na sua juventude em África, lá para os lados de Moçâmedes, em Angola, sempre se prontificou a olhar pela mira e a dar uns estoiros, a matar bichos. Alguns ferozes, de acordo com o que me contou. O Pai era possuidor de umas traineiras de pesca, que na vinda da labuta, contribuíam para o sustento da população local. Daí a herança do gosto pela pesca por parte do Adérito. Depois, veio para Portugal, tornou-se médico, casou em Amarante com a Eugénia e estabilizou na cidade invicta.
Conheci-o na Ilha do Farol, durante as manhãs auspiciosas da pesca ao robalo e à baila, no molhe, à compita com outros pescadores. Aumentámos a amizade, quando numa noite de pescaria em Agosto, tentávamos a pesca aos grandes sargos em longos lançamentos para o lado do mar, se espetou por aí abaixo num buraco manhoso, entre dois blocos de “pés-de-galinha”. Ajudei-o a sair dessa situação, acompanhei-o a casa, numa verdadeira lástima. Costelas partidas, arranhões e golpes profundos, desilusão e tristeza. Nesse trágico Verão, a pesca acabou para o Adérito. Depois, no Cais Velho, apresentei-o ao Marcelino. Este já tinha o seu próprio grupo de pesca, do qual eu já fazia parte há pouco tempo. A partir deste conhecimento o Adérito foi integrado e o verdadeiro “Grupe” formou-se. As trutas sedimentaram o conjunto dos seus elementos, através de imensas horas de pesca, lautos almoços ao ar livre, onde o fogareiro era rei, o vinho a rainha e os petiscos os príncipes. Esta côrte divertia-se sem precisarem de bobos e os palácios de verdura e quietude que os rodeavam, junto à mansidão do rio a correr, acatava esta felicidade natural, autêntica, legítima.
O Adérito era magro e muito moreno, embora não sofresse de falta de apetite, nem nutrisse muita simpatia pelos banhos de sol. Julguei o seu carácter quando numa manhã de pesca de barco, com o seu tio de Olhão, numa pescaria nos baixios onde os robalos e as douradas se atreviam a mariscar em 50 cm de água, logrei prender uma bela dourada. Com mestria, consegui metê-la a bordo. Era uma dourada que pesava cerca de 1 kg. Já em terra, o Adérito disse-me:
- Sabe Borges, quando fisgou a dourada, veio-me ao pensamento uma ideia ignominiosa. Desejei que a dourada lhe fugisse. Estou a contar-lhe isto, porque só assim me conseguirei libertar desta má consciência. Ainda bem que a capturou.
O Adérito é assim – um puro. Já sabemos qual será o destino do Adérito após a reforma: comprar ou alugar uma casa no Farol, arranjar um barquito e ala que se faz tarde para ir pescar grandes robalos e furiosas anchovas…e se ele o consentir, acompanhá-lo-ei sempre…nem que seja só para tratar e conduzir o barco!
Temos a seguir o Marcelino, o Mestre. Dantes, telefonava-lhe às sextas-feiras a perguntar-lhe:
- Marcelino, quais são as ordens?
Com firmeza e entusiasmo, ditava o programa e aconselhava. Quase sempre saíam certos os seus ditames, pois a pesca acabava por se revelar prolífera. Agora, o Marcelino perdeu qualidades como pescador. Aninhou-se numa rotina de comodismos, que entristece todos os elementos do grupe. O Marcelino era o melhor pescador de todos, cheio de iniciativas, pleno de aplicação, dotado de bons reflexos, atento aos mínimos pormenores da água e da localização do peixe e sábio nos conselhos. Aprendi imenso com ele. Agora, o Marcelino é um criador de ambientes de boa disposição. As suas histórias antigas, os seus insultos aceitáveis para com os opositores do grupe, os seus comentários solenemente arvorados em verdades absolutas, as suas falhas consentidas (como aquela em que me colocou a suplente), ainda mantém o Marcelino como um dos elementos imprescindíveis do grupe. Que, pelo menos, assim se mantenha, por longos anos.
Em terceiro, vem o Serafim. O Serafim é lixado! É um pescador compulsivo. Alto, esguio, nervoso, rosto de jovem, rápido no andar, olhos ávidos, só o vejo a caminhar sempre à minha frente no molhe, de balde na mão e ansioso por começar a pescar. No ano passado, o grupe teve que lhe pôr freio: todo o peixinho que lhe caía no anzol, ia direitinho para o balde – até que o proibimos. Foi mesmo assim, em jeito de brincadeira e meio a sério, só o peixe acima da medida mínima deveria ser embaldado, caso contrário, seria alvo da chacota dos seus colegas do grupe. O Serafim, contrariado, lá teve de aceitar com enorme relutância. O Serafim era compulsivo, porque em acto de pesca esquecia tudo e todos – sentir a cana a vergar com peixe – era o que lhe importava. Mais nada! Lembro-me, das carradas de tainhas pescadas no norte, que os seus vizinhos devem ter digerido com prazer, eventualmente de cebolada, cozidas, assadas ou dadas ao gato. Confiante nas suas capacidades, é um excelente pescador, sempre disposto a partilhar – para ele a pesca é verdadeiramente uma partilha – embora falhe muitas vezes às chamadas dos sábados de pesca, por causa de um portão que provavelmente ainda tem de ser pintado…
Segue-se o Paiva, o nosso pescador / maratonista. Homem metódico, pontual, sereno e infalível nos compromissos. O surf-casting iniciou-o, em esperas consistentes e muitas chumbadas perdidas…O certo, é que o Paiva, faz o favor ao grupe de pescar à bóia, pois a sua verdadeira inclinação vai para o lançamento, onde obtém êxito assinalável. Visualizo-o sempre naquela atitude de pescador paciente, que de tão ordenado, poucas situações lhe escapam ao controlo. É um amigo sólido!
O Barbosa tem um fetiche: cuequinhas. A prenda de Natal está já embrulhada em papel de cetim, com bolinhas e peixinhos del rei desenhados a rigor…acrescentou-se um certo perfume… No Farol o Barbosa goza o sol, a maresia e delicia-se a pescar sempre nos mesmos locais. Se os peixes fossem “fones”, o Barbosa era o melhor pescador do mundo, em permanente escuta, em constante actualização, em total sintonia! Um homem que estraga os ouvidos, chegando ao exagero de dormir com os fones ligados, comete a imprudência de deixar de ouvir o mundo real e consequentemente de escutar o som dos peixes.
Gosto de pescar com ele no rio. Como um felino, admiro-me a vê-lo a pescar agachado, numa concentração absoluta e uma vez escolhido um charco de água, não desiste do sítio, na esperança de sintonizar os peixes, que virão ter com ele e morder-lhe o anzol. Já assisti a excelentes pescarias do Barbosa! Agora, depois de ter ultrapassado uma grave crise de saúde, o Barbosa aproveita o seu tempo com tanta precaução…que até recusa ajudar o Adério com o camaroreiro, porque receia as alturas e teme os buracos dos pés-de-galinha…Faz ele muito bem! Por isso é que é considerado o pescador “ocasional” do grupe.
Quanto ao Fernando, o homem que trabalha numa das melhores casas de leitões do Porto, mas que não pode comer leitão e nunca trouxe leitão para as patuscadas da pesca! Nunca conseguiu ter disponibilidade para acompanhar o grupe ao Farol. Satisfaz-me pensar nele do seguinte modo: é um lobo da pesca. Fareja o peixe, ouve o cardume, sente a água, vive o presente com frémito, come o que pesca com deleite. Às vezes é quase também um compulsivo, pois sem dar cavaco às tropas, arranca com o balde de engodo e desaparece no meio das rochas. Quando fala de pesca, assume a sua sabedoria, como verdade absoluta. Claro, os outros membros do grupe saltam-lhe logo e nasce uma eterna discussão, que às vezes dura uma viagem de carro. Contudo, para ser justo, é o Fernando que faz as melhores pescarias…quase sempre!
Por último eu, o Borges, o dito “suplente”, carimbado desta forma pelo Marcelino. Estou convencido, que nunca mais me livrarei desta designação. Quando se lembrarem de falar de mim, já não dirão o Borges, mas o Suplente. Paciência! No fundo, talvez mereça ter descido a esta categoria, pois certamente sou o membro, que menos tem acompanhado o grupe. Os afazeres resultantes das minhas responsabilidades para com a EFSA, bem como diversas tarefas de cidadania em Matosinhos, têm-me impedido, infelizmente, de ir à pesca com os meus colegas. Azar meu e minha infelicidade, pois se há paixões que eu tenho na vida, a pesca é uma delas. Por outro lado, sou visto como um pescador, que desiste com facilidade. Quando o peixe não dá sinal de vida, durante uma ou duas horas, eu arrumo as “bicuatas”. Eu chamo-lhe realismo, pois para mim pescar não é de modo nenhum estar com uma cana na mão durante horas, sem sentir o agradável toque do peixe, numa atitude bizarra de espera infinita. Mas, quando eles surgem a debicar no meu anzol, aí temos Borges, temos, temos, a entusiasmar-se com a captura daqueles belos seres vivos. Até me costumo exceder, descuidando tantas e tantas vezes a segurança. Mas, o que mais me compraz é o espírito deste grupe, a amizade existente entre todos, a sintonia à volta da pesca. As férias no molhe com o grupe são uma catarse, já um exemplo a nível nacional, muito conhecido e admirado por todos os que frequentam o Farol e pelos amigos. O grupe do norte é único. Faz furor…desperta invejas…atrai simpatias…tudo graças ao Adérito. Bem-haja!
Citação: “É a própria vida com um encanto que não torna…”, Raúl Brandão
Luís M. Borges, 27 de Setembro de 2009

Nenhum comentário:

Postar um comentário