
CONTOS DO FAROL 1.INTENSIDADE
Precisamente, foram 3 manhãs e 2 tardes de pesca.
Se mais houvesse, mais não seria preciso, pois eu e o Adérito extasiamo-nos. As belas choupas, os gordos sargos, as esguias dobradas (chamam-lhes viúvas?), todos de bom tamanho, tivessem sido pescadas à bóia ou à chumbadinha, deram-nos um sinal de intensidade, cujo resultado fez transbordar a nossa auto-estima. Se pescar assim nos transforma, melhorando-nos a disposição, o bem-estar e todo um infinito leque de aspectos, só nos resta intensificar esta prática.
Na Ilha denominada de FAROL, passo sempre as férias da minha predilecção em acto de pesca lúdica. De lazer absoluto. Diria mais, quase uma purificação, face à sociedade emparedada a que nos subjugamos diariamente. Que enlevo, todas as manhãs inalar profundamente aquele ar perfumado a camomila, vindo das ervas e flores orvalhadas da Ria; que dominância, à noite, deixar-me envolver pelo mistério de um céu negro, pontilhado de miríades de estrelas; que êxtase, alongar-me pela imensidão do mar, quebrado aqui e ali pelas asas brancas das gaivotas; que admiração, percorrer com o olhar até à distância, aquelas praias de jade, imaculadas de seres.
Depois, com o companheiro Adérito, a escolha criteriosa dos pesqueiros, caminhando pelo molhe carregados de canas, baldes e sacolas. Teríamos asas nos pés e tempo infinito, se as limitações humanas não nos coartassem a ânsia da pesca. Contudo, ponderamos sempre a melhor hora de chegar ao local de pesca em função das marés; pesamos a minúcia das montagens mais eficazes, tendo em conta as condições do estado do mar e dos locais; avaliamos as incertezas, dadas as nossas reconhecidas incapacidades de conhecimento do comportamento dos peixes. Tudo isto, conduzia sempre ao enigma destes 4 dias de pesca na Ilha, em que as histórias viraram factos vulgares. Lembro-me de algumas, particularmente da cena do camaroeiro do Adérito, daquele velho e disfuncional camaroeiro, de estimação. Dizia-me o Adérito:
- Sabe Borges, tenho um camaroeiro novinho em casa, mas decidi trazer este por causa do Barbosa, por consideração. Quando se estragou, o Barbosa prontificou-se a arranjá-lo…agora, é um camaroeiro de estimação.
Deixou de o ser rapidamente, pois este horrível camaroeiro virou personagem principal, pela negativa. Primeiro, numa manhã de pesca à chumbadinha no Cais da Someque, ficou esquecido…valeu o “zelo” do Pisca que o guardou com segundas intenções; Segundo, porque no dia seguinte, o camaroeiro mostrou à evidência que tinha terminado a sua existência útil. Fez perder uma bela choupa, para desespero do Adérito, que bradava e esbracejava, justificando vezes sem conta a “terrível” perda!
A história do vento, também marcou: quarta e quinta de tarde varreu furiosamente aquele molhe. As canas pesavam chumbo, os fios enleavam-se e os lançamentos saíam desarticulados. Quando assim acontece instala-se uma certa frustração, impedindo o pescador de cumprir calendários laboriosamente estabelecidos. Eu e o Adérito, atirávamo-nos aos afazeres rotineiros: fazer estralhos, reorganizar o saco de pesca, aferir os iscos guardados no frigorífico, conversar com as nossas amigas enfermeiras, dormir!
Afora estes pequenos contratempos e tarefas compensatórias, foram 4 dias de grande intensidade. No recorte dos “pés-de-galinha”, as canas de pesca, finas e nervosas, exerciam a sua função em sintonia com a concentração do pescador. Olhos fixos na bóia, corpos meio arqueados, eu e o Adérito revezávamo-nos em capturas: ferragem, luta, peixe a cair no cimento do molhe, exultação, desferragem, reiscagem, novo lançamento…os passos eram estes e o ritmo exigente. De vez em quando, lá acontecia o acidente costumeiro: tudo preso e bem preso nas rochas do fundo do mar. Chateamento à parte, impropério despropositado, impaciência inadequada, lá se recompunha todo o sistema. Retornava o ritmo de pesca, com o mesmo entusiasmo. E o balde acabou por transbordar…cheio de peixes prateados.
Engraçado, que a complementaridade da pesca se acabe por exercer nas conversas com os amigos e também na forma gastronómica de consumir o pescado, bem como entre nós, na aprofundada análise das condições de pesca, do tipo de iscos utilizados, dos melhores locais, das técnicas aplicadas e da persistência e perspicácia do pescador.
Parti sábado do Farol em direcção ao Porto, não sem antes e aproveitando todo o tempo disponível, ter exercido o supremo direito de partilhar uma sessão de pesca à lula e ao choco, no barco do amigo Amadeu. Borrifadelas à parte, valeu aquela manhã, ao largo da Ilha do Farol, num mar pacato, cómodo e suave. A tinta negra, o roncar do choco no balde e a transparência vítrea das lulas, emprestaram colorido e sonoridade ao momento. Foi assim, na bela Ilha do Farol.
Ilha do Farol, 19 de Setembro de 2009
Citação: “O valor das coisas não está no tempo que elas duram mas na intensidade com que acontecem. Por isso, existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis”. Fernando Pessoa
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