terça-feira, 20 de outubro de 2009

CONTOS DO FAROL 4. Ao choco


CONTOS DO FAROL 4. Ao choco
Tínhamos combinado em Agosto, quando ambos lamentávamos o acidente, que o Amadeu sofreu na sua empresa, ao perder praticamente o dedo polegar da mão esquerda. Uma máquina de corte, uma desatenção…e pronto!
Às 7 horas da manhã o Amadeu apanhou-me no Cais de embarque da Ilha do Farol. Ainda era noite. A delícia daquela brisa aromática, inconfundível, à mistura com a maresia inebriava-me. Nunca me canso de o referir. Era um ar rico e puro, a provocar sensações agradáveis, de um prazer saudável e primevo.
O barco rumou para a barra e dirigiu-se para o largo, passando junto de outros três barcos. Os seus ocupantes, à deriva, pescavam cavalas, destinadas a servirem de isco para a pesca da corvina, do robalo, do pargo e até da anchova.
Iniciámos as lides a cerca de uma milha deles, por volta das 07h30, já o dia se tornara claro. A corrente não era muito propícia, estava fraca. Para a pesca ao choco convém que a maré corra bem, de modo a permitir que a embarcação varra com relativa rapidez a maior superfície possível de fundo, descobrindo assim mais chocos.
Os “palhaços”, assim se designavam os pequenos e vistosos simulacros de peixes, com os seus aguçados alfinetes de metal, foram acoplados a um terminal chumbado. Com movimentos sincopados, fomos batendo o fundo, à medida que o barco se deslocava ao sabor da corrente. O choco sente-se atraído pelo colorido e movimento deste peixinho artificial e atacava com decisão. De referir, que estávamos a tentar pescar o choco-comum (sepia officinalis), muito abundante na plataforma continental portuguesa. Esta espécie pode alcançar o comprimento de 50 cm e pesar mais de 7 quilos.
É evidente, que nem sequer nos passava pela cabeça pescar um monstro destes. Tínhamos em mira capturar chocos de quilo, no máximo.
- Tenho um. É pesado. – Com rapidez fui puxando o fio, que enrolava em novelo nos meus pés. O Amadeu correu a preparar o camaroeiro. Enfiou o gordo e anafado choco nas malhas verdes da rede e executou o ritual de segurança. Agarrou o trombudo com alguma dificuldade pelo lombo escorregadio e volumoso, enfiou de seguida o dedo na parte superior da cabeça, obrigando-o a esguichar água, atirando-o de seguida para o balde, a tempo de o ver disparar rajadas de tinta negra, enquanto roncava desesperado.
- Não há vida como esta vida! És um choco maravilhoso. Sinto-me também maravilhoso – sentenciei eu, orgulhoso e feliz. O Amadeu sorria deliciado.
Às 08h30 tínhamos no balde 4 chocos, todos mais ou menos do mesmo tamanho (meio quilo cada um).
Sentei-me de novo na borda do barco, com o braço a dar, a dar, conversando sobre coisas triviais com o Amadeu. As gaivotas voavam esperançosas sobre o barco e grasnavam aflitas, como que a implorar alimento. Ao fundo, através de uma limpidez irreal, sobressaía o Farol de Sta Maria. Miro e remiro o recorte da Ilha e vem-me ao pensamento aquele desejo intenso de poder passar o resto da minha vida neste local mágico, remoto e calmo, sem me importar com o pouco futuro que me resta e sobretudo com o mundo. A olhar os horizontes, sempre, sempre mais largos e a pescar. Eu, a pescar. Eu. Claro, que subscrevo a visão egocêntrica da pesca: sou EU quem está no meio de tudo e tudo se estende à minha volta em todas as direcções; eu estar a pescar é NORMAL, normalíssimo; o que é IMPORTANTE para mim é dominar a arte da pesca, pescar…; SIGNIFICATIVO é tudo aquilo a que eu dou valor.
- Mais um e grande – gritou o Amadeu. Seguiu-se a repetição do mesmo filme: recolha, jactos e avaliação (este pesava bem um quilo).
– A maré já corre mais. Vai dar mais choco.
Tinha acabado de o afirmar e eu acabava de prender mais um. Desta vez uma bela lula. Parecia vidro, com tons suaves de verde, que mudavam para vermelho e amarelo. Linda de morrer!
E assim foi correndo esta manhã de pesca, com alguma intensidade, que resultou num balde repleto destas admiráveis criaturas do mar. Perdemos alguns “palhaços”, que se enfiaram por entre rochas esburacadas e redes velhas. Tivemos a paciência de desfazer nós, como resultado do enrolamento do fio calcado pelos nossos pés, com a azáfama da recolha dos chocos. Tudo isto emergia naturalmente, fazendo parte de rituais, como se de dificuldades menores e superáveis se tratasse.
O dia chegava entretanto perto do meio-dia, pelo que o regresso se fazia urgente. O Amadeu propôs, com a sua calma habitual e simpatia genuína:
- Vamos abalar. Em Olhão almoçamos no Restaurante “O Franguinho”.
- De acordo. Come-se bem nesse restaurante.
Tomou-se o rumo da barra, entrámos na ria por entre as sentinelas dos pequenos farolins dos dois molhes. No molhe grande, na parte dos “pés-de-galinha”, surgiam as silhuetas esbeltas dos pescadores de canas a tentarem os robalos e os sargos. Procurei identificar alguns deles, quase todos meus amigos e conhecidos. A distância dificultou e desisti.
Luís M. Borges, Setembro 2009.

CONTOS DO FAROL 3.O cais da Someque


CONTOS DO FAROL 3. O cais da SOMEQUE

Era sempre por volta das 06h00, às vezes mais cedo, que abríamos a porta da cozinha e analisávamos as condições do estado do tempo.
- Está frio. Levem os blusões. Este vento desgraçado não nos larga – era o Adérito.
Seguia-se o mastigar de uma pequena “bucha”, fruta ou folar do Algarve, com um pouco de café com leite, ou simplesmente água, para limpar. Depois, apressadamente, arrumávamos os iscos, os materiais e ala que se fazia tarde!
- Vamos, que a maré não espera!
O Adérito comandava, seguro de que teríamos êxito, se a pesca se iniciasse nos limites do estabelecido, ou seja, uma hora antes e uma hora depois da mudança da maré. A baixa-mar seria justamente às 07h00. Ora, todos os bons pescadores sabem, que é durante estas duas horas milagrosas, conjugadas com o nascer do dia, que os peixes se mostravam mais activos, sobretudo os granjolas. Todos queriam vê-los a contorcer-se no fundo do balde, a reflectirem a luz das nossas lanternas, enquanto um sorriso leve de satisfação nos amenizava o rosto.
O cais da Someque era pequeno, velho e mal cheiroso. Dantes, servia o barco da carreira, mas agora o cais pertencia por inteiro ao barco encarregado da salubridade da Ilha, o qual recolhia diariamente os contentores carregados com sacos de lixo, vasilhames de vidro e plástico, embalagens de papel, electrodomésticos estafados e todo o género de coisas, que a nossa dita sociedade de consumo produzia. Este cais tinha um aspecto desagradavelmente gorduroso, negro de sujidade, com as estruturas metálicas corroídas pela ferrugem, à mistura com cordames verdes desfiados. O piso do patamar estava emendado com tábuas a cobrir as enormes rachadelas provocadas por amarrações violentas. Por volta das 08h00 acabava-se a pesca, pois os pescadores ficavam sem cais para pescar, bem como sem peixe, por causa da trepidação e dos barulhos provocados pela recolha do lixo, que eram em excesso.
- Ora bem, cá estamos. Cuidado com o prego saliente nessa tábua – o Adérito avisava.
- A maré ainda corre bem. Chumbada de 30/40 gramas – avisava eu.
- Vou iniciar as lides com berbigão, pois as choupas pegam-lhe bem – sentenciava o Serafim.
- Eu quero sargos, grandes e gordos. Vou no camarão congelado – prometia o Paiva.
O cais da Someque era demasiado pequeno para 4 pescadores, pelo que tivemos que ajustar posicionamentos, a fim de evitar os desnecessários cruzamentos de linhas. Desfazer fios ensarilhados, fazia perder muito tempo e geralmente provocava aborrecimentos.
- Aí está – gritava o Adérito – é uma choupa das boas! Não sei se precisarei do camaroeiro. Esperem, talvez não seja preciso.
Com determinação, a choupa foi içada para cima do cais, estrebuchando desesperadamente. Era uma choupa para meio quilo, pescada com fio grosso de 0,33 (o Adérito não brincava em serviço). Finuras é para os pescadores de rio, afirmava ele, ciente de que valia mais tirar uma só choupa grande do que muitas pequenas. Peixe pequeno é para crescer, não é para ser pescado. Era uma boa atitude, condizente com a tendência de preservação das espécies, que actualmente se vivia, face à rarefacção do peixe, provocada pelas constantes agressões ao meio marinho e pelos excessos dos pescadores profissionais. Então nesta Ilha do Farol, é ver os “filhos da Culatra”, a cometerem autênticas barbaridades e a saírem impunes!
- Aqui está outro. Eh…raios, está tudo preso. Sorte malvada!
E lá se viu o Serafim, completamente desanimado a puxar na horizontal a cana, de modo a libertar a chumbada e o anzol das garras das rochas.
- Pronto. Mais um aparelho completo que foi à vida. Ah…que paciência!
Entretanto o Paiva começa a trabalhar outro peixe, com a sua fleuma habitual, sem exultar antecipadamente, manejando o carreto e a cana numa conjugação equilibrada. O peixe parecia ser jeitoso, obrigando o Paiva a destravar o carreto de vez em quando, a fim de evitar a ruptura do fio. O Serafim, que estava livre, pegou no camaroeiro e dirigiu-se à escada da Someque.
- Paiva, trá-lo para aqui…
Mas o Paiva estava em dificuldades, pois o peixe ainda estava longe e tão cedo não o conseguiria trazer à superfície para poder colocá-lo a jeito de o Serafim o enfiar no camaroeiro.
O Serafim insistia: - Anda lá! Traz o peixe!
O Paiva, impassível e sereno, continuava com a cana bem vergada e com o carreto a chiar constantemente. Eu e o Adérito observávamos silenciosamente, depois de recolhidas as respectivas canas, a fim de não estorvarmos o trabalho do Paiva.
O Serafim continuava a berrar: - Estás a dar-lhe muito fio. Fecha o carreto. Traz lá o peixe. Ainda te foge o desgraçado. O Paiva, aqui, começou a mostrar sinais de inquietação, depois de ter ouvido ao Serafim a palavra fatídicia – FUGIR. Eu e o Adérito aconselhávamos calma. O Paiva entretanto ia puxando agora o peixe com mais ritmo.
- Penso que é um robalo e de bom tamanho.
Na realidade era um robalo, confirmando-se quando o peixe assumou à superfície. E que robalo! O Paiva foi-o chegando para o local onde se encontrava o Serafim, junto à escada, nervoso, excitado, ansioso. Com todo o cuidado, por causa do cordame abandonado nos ferros do cais, o peixe foi arrastado com dificuldade até ao alcance do camaroeiro.
- Chega mais o peixe, chega mais - gritava o Serafim – debruçado no último degrau da escada de ferro, já com os pés na água que corria bem, agarrado com uma mão ao corrimão, numa posição de total distensão, quase em desequilíbrio. O peixe decidiu reagir mais uma vez, tentando libertar-se do ferro do anzol, ao ver o Serafim a uns metros dele. O Paiva, conteve-o, fê-lo subir de novo, boca aberta à superfície da água, quietinho, cansado... O Serafim aproximou então o velho camaroeiro do peixe, que de novo restolhou com violência, num último assomo de energia, contorcendo-se, conseguindo libertar-se finalmente do anzol. Abalou rapidamente, desaparecendo nas águas azuis da ria, para desânimo do pobre Serafim. Por momentos, reinou um silêncio estranho.
- Era robalo para 3 quilos – cortou o Paiva, com a voz embargada.
Retomou-se a actividade de pesca, com algum desânimo, visível na forma como em silêncio se faziam os lançamentos.
É nestes momentos, que todos os pescadores sentem uma espécie de desígnio, que os levam a aceitar com naturalidade a liberdade que um peixe, enganado por um isco escondido num anzol. Respeita-se o peixe, respeita-se o pescador e respeita-se quem perde o peixe no camaroeiro.
Passados nem 5 minutos, houve-se um enorme barulho à mistura com um grito abafado. Aconteceu-me o que temia. Tinha escorregado naquele chão húmido e viscoso. Desamparado, fui aos trambolhões pela escada abaixo e estatelei-me no último degrau. Estuporei uma perna e a cabeça, ambas a sangrar. Levantei-me, com os meus colegas a ajudar. A cana partiu-se em três. Dorido, desanimado mas inteiro e vivo, calculei o grau de aceitação de sacrifício pessoal, que a paixão da pesca comporta. Eu sei, que há pescadores que perdem a vida, outros que ficam estropiados e ainda outros que ficam inválidos. Não está propriamente na pesca a razão destas tragédias, mas é concerteza a sua primeira causa. Na ânsia, na concentração objectiva sobre a captura do peixe, o pescador acaba por largar, esquecer, secundarizar o mundo em que vive, a realidade que o circunda, os perigos que o rodeiam, as cautelas necessárias à sua segurança. Digo e reafirmo, que não há peixe nenhum, por maior e mais raro que seja, que se sobreponha à vida de uma pessoa. Há viver e há pescar! O pescador intermedeia a relação mais apropriada entre estes dois paradigmas.
- Borges, está tudo bem consigo? Perguntava o Adérito, lançando-me um olhar preocupado. Tenho uma cana suplente. Pode utilizá-la à vontade, mas vamos agora é tratar desses ferimentos. Deixe ver…
O Adérito era médico. Abriu o estojo de primeiros socorros e aplicou com mestria o algodão com álcool, isolando de seguida todas as partes feridas com pensos rápidos, rodeado pelo Paiva e Serafim.
- Obrigado. Já estou melhor. Vão pescar, vão, que temos pouco tempo.
Entretanto já clareava. Olhando as águas da ria a correrem, viam-se à superfície os agulhas a perseguirem a petinga. A meia água as pachorrentas tainhas sorviam os pequenos detritos que a corrente transportava. No fundo, as salemas misturavam-se com os sargos. Aqui e ali surgia um peixe-porco e outras espécies de reduzido tamanho.
- Já só temos uma hora de pesca. Vamos a eles ó pessoal. - Era o Serafim.
Entretanto surgiu a corveta da marinha. Parou ao largo e largou um pequeno pneumático, que rapidamente se dirigiu para o local onde nos encontrávamos.
- Vamos parar de pescar. Podemos ser multados. - Avisou o Adérito.
- Não acredito que tenham parado por nossa causa, quatro humildes pescadores. Mas, seja como for, convém mostrar respeito, pois é proibido pescar neste local - Comentei com pouca convicção.
Todos aceitaram actuar como sugeri. Encostaram as respectivas canas e aguardaram a chegada do pequeno bote, que acostou à fatídica escada do cais e dele desembarcou um agente fardado, que nos deu os bons dias e apressado, se dirigiu para o Restaurante “À do João”. O barquito regressou no sentido da corveta, que aguardava. Não tardaram 5 minutos até que a corveta retomasse o rumo da barra. Todos, meio espantados e aliviados, acabaram por sorrir e aprontaram as canas para o reinício da pesca, afincando-se no pouco tempo que lhes restava de acção de pesca. Esta cena de receio e de prevaricação, tem uma explicação. A nova lei, imposta por um Governo desleal, começou a ser aplicada em 2008. Esse Governo atreveu-se a proibir a pesca de cana, em locais onde há séculos ela fazia o tempo de lazer e de ocupação útil, de reformados, crianças e em geral de amantes da pesca. Passou esta actividade de lazer a ser considerada crime e obviamente a ser multada de forma violenta. Os motivos? Sabem-se lá! Debruçar-me-ei mais tarde sobre este assunto absurdo. Mais para denunciar do que para remediar.
A azáfama continuou. O Serafim pesca um bom rascasso, para aí de 750 gr. Os espinhos venenosos exigiam o máximo cuidado com a desferragem, pelo que dois de nós ajudámos o Serafim nessa perigosa operação. O Adérito especializou-se nas choupas de bom porte, enquanto eu fui fisgando uns sargos mesmo junto aos pilares do cais, enquanto o Paiva os tirava no sentido da corrente ascendente e o Serafim andava aos “papos” com polvos. Depois, aconteceu mais uma inexplicável falta de eficácia: o Adérito deixou escapar uma bela choupa que eu tinha cravado pelo rabo. Aquele camaroeiro velho e inútil, acabou lançado naquele dia no lixo. Furiosamente. Contudo, a fúria da pesca retomou-se e este clímax aconteceu ainda mais durante cerca de meia hora, quando a maré mudou e as águas quase pararam. Eram umas 7h30.
Depois, lentamente, a maré começou a orientar-se no sentido contrário ???. Com o sol já a raiar, a levantar-se quente e acolhedor e a pesca a declinar, o peixe miúdo começou a atacar com uma destreza admirável os iscos, deixando descarnados os anzóis. Eram os infantis (choupinhas, e sarguinhos), mais as judias, as marachombas e os ?, que com empenho e voracidade nos faziam desesperar.
- Então bom dia a todos sem excepção. Estão a ver? Sou sempre o primeiro a chegar ao serviço. São testemunhas. – Era o PISCA, o empregado da empresa municipal de recolha do lixo da Ilha. Não tardaria a chegar o tractor da recolha do lixo, conduzido pelo encarregado, acompanhado por outro funcionário, ucraniano. O Pisca tinha uma voz esganiçada e fazia-nos rir com as suas tiradas ingénuas sobre a pesca e sobre o mundo.
- Aí vem o barco do lixo. Encerrem os trabalhos! – Ditava eu – Toca a arrumar as “bicuatas”. De qualquer modo já não se pescava. Estávamos a alimentar os minorcas, a fazê-los crescer.
Todos se azafamaram a desmontar as canas, arrumar os iscos, fechar as sacolas. O balde negro apresentava-se reluzente, prateado, quase pleno de peixe. Não se pescou mal!
A pesca no Cais da Someque acabou sorridente, embora recheada de pequenos acidentes e peripécias. O regresso a casa, para o verdadeiro pequeno-almoço, trazia novas esperanças, repletas de peixes grandes. Já se planeava a pescaria para a tarde, lá na ponta do molhe. Porém, antes disso, algumas coisas teriam de ser definidas. Quem arranjava o peixe? O Borges. Quem arrumava no congelador o peixe a mais? O Adérito. Quem iria fazer o almoço, peixe assado na brasa? O Marcelino. Quem limpava a louça? O Paiva. Quem tratava do lixo? O Serafim. Quem limpava a casa? O Barbosa. Organização perfeita!
Luís M. Borges, Setembro, 2009

CONTOS DO FAROL 2.O Grupe


CONTOS DO FAROL 2.
O "GRUPE"

O “Grupe” é o nosso grupo de pesca. Não há sábado que não funcione, na voragem contínua dos dias do ano a correrem sem parar. É constituído por 5 artistas da cana e do anzol, mais 1 “ocasional” e 1 “suplente”. Já explico.
Temos primeiro o Adérito, o dono do carro/pesca, possuidor de uma enorme carrinha Peugeot, onde cabe toda a tralha de pesca. Carro cómodo, está certamente mais ao serviço do lazer, do que da profissão do seu proprietário. O Adérito, antes era um caçador, que na sua juventude em África, lá para os lados de Moçâmedes, em Angola, sempre se prontificou a olhar pela mira e a dar uns estoiros, a matar bichos. Alguns ferozes, de acordo com o que me contou. O Pai era possuidor de umas traineiras de pesca, que na vinda da labuta, contribuíam para o sustento da população local. Daí a herança do gosto pela pesca por parte do Adérito. Depois, veio para Portugal, tornou-se médico, casou em Amarante com a Eugénia e estabilizou na cidade invicta.
Conheci-o na Ilha do Farol, durante as manhãs auspiciosas da pesca ao robalo e à baila, no molhe, à compita com outros pescadores. Aumentámos a amizade, quando numa noite de pescaria em Agosto, tentávamos a pesca aos grandes sargos em longos lançamentos para o lado do mar, se espetou por aí abaixo num buraco manhoso, entre dois blocos de “pés-de-galinha”. Ajudei-o a sair dessa situação, acompanhei-o a casa, numa verdadeira lástima. Costelas partidas, arranhões e golpes profundos, desilusão e tristeza. Nesse trágico Verão, a pesca acabou para o Adérito. Depois, no Cais Velho, apresentei-o ao Marcelino. Este já tinha o seu próprio grupo de pesca, do qual eu já fazia parte há pouco tempo. A partir deste conhecimento o Adérito foi integrado e o verdadeiro “Grupe” formou-se. As trutas sedimentaram o conjunto dos seus elementos, através de imensas horas de pesca, lautos almoços ao ar livre, onde o fogareiro era rei, o vinho a rainha e os petiscos os príncipes. Esta côrte divertia-se sem precisarem de bobos e os palácios de verdura e quietude que os rodeavam, junto à mansidão do rio a correr, acatava esta felicidade natural, autêntica, legítima.
O Adérito era magro e muito moreno, embora não sofresse de falta de apetite, nem nutrisse muita simpatia pelos banhos de sol. Julguei o seu carácter quando numa manhã de pesca de barco, com o seu tio de Olhão, numa pescaria nos baixios onde os robalos e as douradas se atreviam a mariscar em 50 cm de água, logrei prender uma bela dourada. Com mestria, consegui metê-la a bordo. Era uma dourada que pesava cerca de 1 kg. Já em terra, o Adérito disse-me:
- Sabe Borges, quando fisgou a dourada, veio-me ao pensamento uma ideia ignominiosa. Desejei que a dourada lhe fugisse. Estou a contar-lhe isto, porque só assim me conseguirei libertar desta má consciência. Ainda bem que a capturou.
O Adérito é assim – um puro. Já sabemos qual será o destino do Adérito após a reforma: comprar ou alugar uma casa no Farol, arranjar um barquito e ala que se faz tarde para ir pescar grandes robalos e furiosas anchovas…e se ele o consentir, acompanhá-lo-ei sempre…nem que seja só para tratar e conduzir o barco!
Temos a seguir o Marcelino, o Mestre. Dantes, telefonava-lhe às sextas-feiras a perguntar-lhe:
- Marcelino, quais são as ordens?
Com firmeza e entusiasmo, ditava o programa e aconselhava. Quase sempre saíam certos os seus ditames, pois a pesca acabava por se revelar prolífera. Agora, o Marcelino perdeu qualidades como pescador. Aninhou-se numa rotina de comodismos, que entristece todos os elementos do grupe. O Marcelino era o melhor pescador de todos, cheio de iniciativas, pleno de aplicação, dotado de bons reflexos, atento aos mínimos pormenores da água e da localização do peixe e sábio nos conselhos. Aprendi imenso com ele. Agora, o Marcelino é um criador de ambientes de boa disposição. As suas histórias antigas, os seus insultos aceitáveis para com os opositores do grupe, os seus comentários solenemente arvorados em verdades absolutas, as suas falhas consentidas (como aquela em que me colocou a suplente), ainda mantém o Marcelino como um dos elementos imprescindíveis do grupe. Que, pelo menos, assim se mantenha, por longos anos.
Em terceiro, vem o Serafim. O Serafim é lixado! É um pescador compulsivo. Alto, esguio, nervoso, rosto de jovem, rápido no andar, olhos ávidos, só o vejo a caminhar sempre à minha frente no molhe, de balde na mão e ansioso por começar a pescar. No ano passado, o grupe teve que lhe pôr freio: todo o peixinho que lhe caía no anzol, ia direitinho para o balde – até que o proibimos. Foi mesmo assim, em jeito de brincadeira e meio a sério, só o peixe acima da medida mínima deveria ser embaldado, caso contrário, seria alvo da chacota dos seus colegas do grupe. O Serafim, contrariado, lá teve de aceitar com enorme relutância. O Serafim era compulsivo, porque em acto de pesca esquecia tudo e todos – sentir a cana a vergar com peixe – era o que lhe importava. Mais nada! Lembro-me, das carradas de tainhas pescadas no norte, que os seus vizinhos devem ter digerido com prazer, eventualmente de cebolada, cozidas, assadas ou dadas ao gato. Confiante nas suas capacidades, é um excelente pescador, sempre disposto a partilhar – para ele a pesca é verdadeiramente uma partilha – embora falhe muitas vezes às chamadas dos sábados de pesca, por causa de um portão que provavelmente ainda tem de ser pintado…
Segue-se o Paiva, o nosso pescador / maratonista. Homem metódico, pontual, sereno e infalível nos compromissos. O surf-casting iniciou-o, em esperas consistentes e muitas chumbadas perdidas…O certo, é que o Paiva, faz o favor ao grupe de pescar à bóia, pois a sua verdadeira inclinação vai para o lançamento, onde obtém êxito assinalável. Visualizo-o sempre naquela atitude de pescador paciente, que de tão ordenado, poucas situações lhe escapam ao controlo. É um amigo sólido!
O Barbosa tem um fetiche: cuequinhas. A prenda de Natal está já embrulhada em papel de cetim, com bolinhas e peixinhos del rei desenhados a rigor…acrescentou-se um certo perfume… No Farol o Barbosa goza o sol, a maresia e delicia-se a pescar sempre nos mesmos locais. Se os peixes fossem “fones”, o Barbosa era o melhor pescador do mundo, em permanente escuta, em constante actualização, em total sintonia! Um homem que estraga os ouvidos, chegando ao exagero de dormir com os fones ligados, comete a imprudência de deixar de ouvir o mundo real e consequentemente de escutar o som dos peixes.
Gosto de pescar com ele no rio. Como um felino, admiro-me a vê-lo a pescar agachado, numa concentração absoluta e uma vez escolhido um charco de água, não desiste do sítio, na esperança de sintonizar os peixes, que virão ter com ele e morder-lhe o anzol. Já assisti a excelentes pescarias do Barbosa! Agora, depois de ter ultrapassado uma grave crise de saúde, o Barbosa aproveita o seu tempo com tanta precaução…que até recusa ajudar o Adério com o camaroreiro, porque receia as alturas e teme os buracos dos pés-de-galinha…Faz ele muito bem! Por isso é que é considerado o pescador “ocasional” do grupe.
Quanto ao Fernando, o homem que trabalha numa das melhores casas de leitões do Porto, mas que não pode comer leitão e nunca trouxe leitão para as patuscadas da pesca! Nunca conseguiu ter disponibilidade para acompanhar o grupe ao Farol. Satisfaz-me pensar nele do seguinte modo: é um lobo da pesca. Fareja o peixe, ouve o cardume, sente a água, vive o presente com frémito, come o que pesca com deleite. Às vezes é quase também um compulsivo, pois sem dar cavaco às tropas, arranca com o balde de engodo e desaparece no meio das rochas. Quando fala de pesca, assume a sua sabedoria, como verdade absoluta. Claro, os outros membros do grupe saltam-lhe logo e nasce uma eterna discussão, que às vezes dura uma viagem de carro. Contudo, para ser justo, é o Fernando que faz as melhores pescarias…quase sempre!
Por último eu, o Borges, o dito “suplente”, carimbado desta forma pelo Marcelino. Estou convencido, que nunca mais me livrarei desta designação. Quando se lembrarem de falar de mim, já não dirão o Borges, mas o Suplente. Paciência! No fundo, talvez mereça ter descido a esta categoria, pois certamente sou o membro, que menos tem acompanhado o grupe. Os afazeres resultantes das minhas responsabilidades para com a EFSA, bem como diversas tarefas de cidadania em Matosinhos, têm-me impedido, infelizmente, de ir à pesca com os meus colegas. Azar meu e minha infelicidade, pois se há paixões que eu tenho na vida, a pesca é uma delas. Por outro lado, sou visto como um pescador, que desiste com facilidade. Quando o peixe não dá sinal de vida, durante uma ou duas horas, eu arrumo as “bicuatas”. Eu chamo-lhe realismo, pois para mim pescar não é de modo nenhum estar com uma cana na mão durante horas, sem sentir o agradável toque do peixe, numa atitude bizarra de espera infinita. Mas, quando eles surgem a debicar no meu anzol, aí temos Borges, temos, temos, a entusiasmar-se com a captura daqueles belos seres vivos. Até me costumo exceder, descuidando tantas e tantas vezes a segurança. Mas, o que mais me compraz é o espírito deste grupe, a amizade existente entre todos, a sintonia à volta da pesca. As férias no molhe com o grupe são uma catarse, já um exemplo a nível nacional, muito conhecido e admirado por todos os que frequentam o Farol e pelos amigos. O grupe do norte é único. Faz furor…desperta invejas…atrai simpatias…tudo graças ao Adérito. Bem-haja!
Citação: “É a própria vida com um encanto que não torna…”, Raúl Brandão
Luís M. Borges, 27 de Setembro de 2009

CONTOS DO FAROL 1.Intensidade


CONTOS DO FAROL 1.INTENSIDADE
Precisamente, foram 3 manhãs e 2 tardes de pesca.
Se mais houvesse, mais não seria preciso, pois eu e o Adérito extasiamo-nos. As belas choupas, os gordos sargos, as esguias dobradas (chamam-lhes viúvas?), todos de bom tamanho, tivessem sido pescadas à bóia ou à chumbadinha, deram-nos um sinal de intensidade, cujo resultado fez transbordar a nossa auto-estima. Se pescar assim nos transforma, melhorando-nos a disposição, o bem-estar e todo um infinito leque de aspectos, só nos resta intensificar esta prática.
Na Ilha denominada de FAROL, passo sempre as férias da minha predilecção em acto de pesca lúdica. De lazer absoluto. Diria mais, quase uma purificação, face à sociedade emparedada a que nos subjugamos diariamente. Que enlevo, todas as manhãs inalar profundamente aquele ar perfumado a camomila, vindo das ervas e flores orvalhadas da Ria; que dominância, à noite, deixar-me envolver pelo mistério de um céu negro, pontilhado de miríades de estrelas; que êxtase, alongar-me pela imensidão do mar, quebrado aqui e ali pelas asas brancas das gaivotas; que admiração, percorrer com o olhar até à distância, aquelas praias de jade, imaculadas de seres.
Depois, com o companheiro Adérito, a escolha criteriosa dos pesqueiros, caminhando pelo molhe carregados de canas, baldes e sacolas. Teríamos asas nos pés e tempo infinito, se as limitações humanas não nos coartassem a ânsia da pesca. Contudo, ponderamos sempre a melhor hora de chegar ao local de pesca em função das marés; pesamos a minúcia das montagens mais eficazes, tendo em conta as condições do estado do mar e dos locais; avaliamos as incertezas, dadas as nossas reconhecidas incapacidades de conhecimento do comportamento dos peixes. Tudo isto, conduzia sempre ao enigma destes 4 dias de pesca na Ilha, em que as histórias viraram factos vulgares. Lembro-me de algumas, particularmente da cena do camaroeiro do Adérito, daquele velho e disfuncional camaroeiro, de estimação. Dizia-me o Adérito:
- Sabe Borges, tenho um camaroeiro novinho em casa, mas decidi trazer este por causa do Barbosa, por consideração. Quando se estragou, o Barbosa prontificou-se a arranjá-lo…agora, é um camaroeiro de estimação.
Deixou de o ser rapidamente, pois este horrível camaroeiro virou personagem principal, pela negativa. Primeiro, numa manhã de pesca à chumbadinha no Cais da Someque, ficou esquecido…valeu o “zelo” do Pisca que o guardou com segundas intenções; Segundo, porque no dia seguinte, o camaroeiro mostrou à evidência que tinha terminado a sua existência útil. Fez perder uma bela choupa, para desespero do Adérito, que bradava e esbracejava, justificando vezes sem conta a “terrível” perda!
A história do vento, também marcou: quarta e quinta de tarde varreu furiosamente aquele molhe. As canas pesavam chumbo, os fios enleavam-se e os lançamentos saíam desarticulados. Quando assim acontece instala-se uma certa frustração, impedindo o pescador de cumprir calendários laboriosamente estabelecidos. Eu e o Adérito, atirávamo-nos aos afazeres rotineiros: fazer estralhos, reorganizar o saco de pesca, aferir os iscos guardados no frigorífico, conversar com as nossas amigas enfermeiras, dormir!
Afora estes pequenos contratempos e tarefas compensatórias, foram 4 dias de grande intensidade. No recorte dos “pés-de-galinha”, as canas de pesca, finas e nervosas, exerciam a sua função em sintonia com a concentração do pescador. Olhos fixos na bóia, corpos meio arqueados, eu e o Adérito revezávamo-nos em capturas: ferragem, luta, peixe a cair no cimento do molhe, exultação, desferragem, reiscagem, novo lançamento…os passos eram estes e o ritmo exigente. De vez em quando, lá acontecia o acidente costumeiro: tudo preso e bem preso nas rochas do fundo do mar. Chateamento à parte, impropério despropositado, impaciência inadequada, lá se recompunha todo o sistema. Retornava o ritmo de pesca, com o mesmo entusiasmo. E o balde acabou por transbordar…cheio de peixes prateados.
Engraçado, que a complementaridade da pesca se acabe por exercer nas conversas com os amigos e também na forma gastronómica de consumir o pescado, bem como entre nós, na aprofundada análise das condições de pesca, do tipo de iscos utilizados, dos melhores locais, das técnicas aplicadas e da persistência e perspicácia do pescador.
Parti sábado do Farol em direcção ao Porto, não sem antes e aproveitando todo o tempo disponível, ter exercido o supremo direito de partilhar uma sessão de pesca à lula e ao choco, no barco do amigo Amadeu. Borrifadelas à parte, valeu aquela manhã, ao largo da Ilha do Farol, num mar pacato, cómodo e suave. A tinta negra, o roncar do choco no balde e a transparência vítrea das lulas, emprestaram colorido e sonoridade ao momento. Foi assim, na bela Ilha do Farol.
Ilha do Farol, 19 de Setembro de 2009
Citação: “O valor das coisas não está no tempo que elas duram mas na intensidade com que acontecem. Por isso, existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis”. Fernando Pessoa