CONTOS DO FAROL 4. Ao choco
Tínhamos combinado em Agosto, quando ambos lamentávamos o acidente, que o Amadeu sofreu na sua empresa, ao perder praticamente o dedo polegar da mão esquerda. Uma máquina de corte, uma desatenção…e pronto!
Às 7 horas da manhã o Amadeu apanhou-me no Cais de embarque da Ilha do Farol. Ainda era noite. A delícia daquela brisa aromática, inconfundível, à mistura com a maresia inebriava-me. Nunca me canso de o referir. Era um ar rico e puro, a provocar sensações agradáveis, de um prazer saudável e primevo.
O barco rumou para a barra e dirigiu-se para o largo, passando junto de outros três barcos. Os seus ocupantes, à deriva, pescavam cavalas, destinadas a servirem de isco para a pesca da corvina, do robalo, do pargo e até da anchova.
Iniciámos as lides a cerca de uma milha deles, por volta das 07h30, já o dia se tornara claro. A corrente não era muito propícia, estava fraca. Para a pesca ao choco convém que a maré corra bem, de modo a permitir que a embarcação varra com relativa rapidez a maior superfície possível de fundo, descobrindo assim mais chocos.
Os “palhaços”, assim se designavam os pequenos e vistosos simulacros de peixes, com os seus aguçados alfinetes de metal, foram acoplados a um terminal chumbado. Com movimentos sincopados, fomos batendo o fundo, à medida que o barco se deslocava ao sabor da corrente. O choco sente-se atraído pelo colorido e movimento deste peixinho artificial e atacava com decisão. De referir, que estávamos a tentar pescar o choco-comum (sepia officinalis), muito abundante na plataforma continental portuguesa. Esta espécie pode alcançar o comprimento de 50 cm e pesar mais de 7 quilos.
É evidente, que nem sequer nos passava pela cabeça pescar um monstro destes. Tínhamos em mira capturar chocos de quilo, no máximo.
- Tenho um. É pesado. – Com rapidez fui puxando o fio, que enrolava em novelo nos meus pés. O Amadeu correu a preparar o camaroeiro. Enfiou o gordo e anafado choco nas malhas verdes da rede e executou o ritual de segurança. Agarrou o trombudo com alguma dificuldade pelo lombo escorregadio e volumoso, enfiou de seguida o dedo na parte superior da cabeça, obrigando-o a esguichar água, atirando-o de seguida para o balde, a tempo de o ver disparar rajadas de tinta negra, enquanto roncava desesperado.
- Não há vida como esta vida! És um choco maravilhoso. Sinto-me também maravilhoso – sentenciei eu, orgulhoso e feliz. O Amadeu sorria deliciado.
Às 08h30 tínhamos no balde 4 chocos, todos mais ou menos do mesmo tamanho (meio quilo cada um).
Sentei-me de novo na borda do barco, com o braço a dar, a dar, conversando sobre coisas triviais com o Amadeu. As gaivotas voavam esperançosas sobre o barco e grasnavam aflitas, como que a implorar alimento. Ao fundo, através de uma limpidez irreal, sobressaía o Farol de Sta Maria. Miro e remiro o recorte da Ilha e vem-me ao pensamento aquele desejo intenso de poder passar o resto da minha vida neste local mágico, remoto e calmo, sem me importar com o pouco futuro que me resta e sobretudo com o mundo. A olhar os horizontes, sempre, sempre mais largos e a pescar. Eu, a pescar. Eu. Claro, que subscrevo a visão egocêntrica da pesca: sou EU quem está no meio de tudo e tudo se estende à minha volta em todas as direcções; eu estar a pescar é NORMAL, normalíssimo; o que é IMPORTANTE para mim é dominar a arte da pesca, pescar…; SIGNIFICATIVO é tudo aquilo a que eu dou valor.
- Mais um e grande – gritou o Amadeu. Seguiu-se a repetição do mesmo filme: recolha, jactos e avaliação (este pesava bem um quilo).
– A maré já corre mais. Vai dar mais choco.
Tinha acabado de o afirmar e eu acabava de prender mais um. Desta vez uma bela lula. Parecia vidro, com tons suaves de verde, que mudavam para vermelho e amarelo. Linda de morrer!
E assim foi correndo esta manhã de pesca, com alguma intensidade, que resultou num balde repleto destas admiráveis criaturas do mar. Perdemos alguns “palhaços”, que se enfiaram por entre rochas esburacadas e redes velhas. Tivemos a paciência de desfazer nós, como resultado do enrolamento do fio calcado pelos nossos pés, com a azáfama da recolha dos chocos. Tudo isto emergia naturalmente, fazendo parte de rituais, como se de dificuldades menores e superáveis se tratasse.
O dia chegava entretanto perto do meio-dia, pelo que o regresso se fazia urgente. O Amadeu propôs, com a sua calma habitual e simpatia genuína:
- Vamos abalar. Em Olhão almoçamos no Restaurante “O Franguinho”.
- De acordo. Come-se bem nesse restaurante.
Tomou-se o rumo da barra, entrámos na ria por entre as sentinelas dos pequenos farolins dos dois molhes. No molhe grande, na parte dos “pés-de-galinha”, surgiam as silhuetas esbeltas dos pescadores de canas a tentarem os robalos e os sargos. Procurei identificar alguns deles, quase todos meus amigos e conhecidos. A distância dificultou e desisti.
Luís M. Borges, Setembro 2009.
Tínhamos combinado em Agosto, quando ambos lamentávamos o acidente, que o Amadeu sofreu na sua empresa, ao perder praticamente o dedo polegar da mão esquerda. Uma máquina de corte, uma desatenção…e pronto!
Às 7 horas da manhã o Amadeu apanhou-me no Cais de embarque da Ilha do Farol. Ainda era noite. A delícia daquela brisa aromática, inconfundível, à mistura com a maresia inebriava-me. Nunca me canso de o referir. Era um ar rico e puro, a provocar sensações agradáveis, de um prazer saudável e primevo.
O barco rumou para a barra e dirigiu-se para o largo, passando junto de outros três barcos. Os seus ocupantes, à deriva, pescavam cavalas, destinadas a servirem de isco para a pesca da corvina, do robalo, do pargo e até da anchova.
Iniciámos as lides a cerca de uma milha deles, por volta das 07h30, já o dia se tornara claro. A corrente não era muito propícia, estava fraca. Para a pesca ao choco convém que a maré corra bem, de modo a permitir que a embarcação varra com relativa rapidez a maior superfície possível de fundo, descobrindo assim mais chocos.
Os “palhaços”, assim se designavam os pequenos e vistosos simulacros de peixes, com os seus aguçados alfinetes de metal, foram acoplados a um terminal chumbado. Com movimentos sincopados, fomos batendo o fundo, à medida que o barco se deslocava ao sabor da corrente. O choco sente-se atraído pelo colorido e movimento deste peixinho artificial e atacava com decisão. De referir, que estávamos a tentar pescar o choco-comum (sepia officinalis), muito abundante na plataforma continental portuguesa. Esta espécie pode alcançar o comprimento de 50 cm e pesar mais de 7 quilos.
É evidente, que nem sequer nos passava pela cabeça pescar um monstro destes. Tínhamos em mira capturar chocos de quilo, no máximo.
- Tenho um. É pesado. – Com rapidez fui puxando o fio, que enrolava em novelo nos meus pés. O Amadeu correu a preparar o camaroeiro. Enfiou o gordo e anafado choco nas malhas verdes da rede e executou o ritual de segurança. Agarrou o trombudo com alguma dificuldade pelo lombo escorregadio e volumoso, enfiou de seguida o dedo na parte superior da cabeça, obrigando-o a esguichar água, atirando-o de seguida para o balde, a tempo de o ver disparar rajadas de tinta negra, enquanto roncava desesperado.
- Não há vida como esta vida! És um choco maravilhoso. Sinto-me também maravilhoso – sentenciei eu, orgulhoso e feliz. O Amadeu sorria deliciado.
Às 08h30 tínhamos no balde 4 chocos, todos mais ou menos do mesmo tamanho (meio quilo cada um).
Sentei-me de novo na borda do barco, com o braço a dar, a dar, conversando sobre coisas triviais com o Amadeu. As gaivotas voavam esperançosas sobre o barco e grasnavam aflitas, como que a implorar alimento. Ao fundo, através de uma limpidez irreal, sobressaía o Farol de Sta Maria. Miro e remiro o recorte da Ilha e vem-me ao pensamento aquele desejo intenso de poder passar o resto da minha vida neste local mágico, remoto e calmo, sem me importar com o pouco futuro que me resta e sobretudo com o mundo. A olhar os horizontes, sempre, sempre mais largos e a pescar. Eu, a pescar. Eu. Claro, que subscrevo a visão egocêntrica da pesca: sou EU quem está no meio de tudo e tudo se estende à minha volta em todas as direcções; eu estar a pescar é NORMAL, normalíssimo; o que é IMPORTANTE para mim é dominar a arte da pesca, pescar…; SIGNIFICATIVO é tudo aquilo a que eu dou valor.
- Mais um e grande – gritou o Amadeu. Seguiu-se a repetição do mesmo filme: recolha, jactos e avaliação (este pesava bem um quilo).
– A maré já corre mais. Vai dar mais choco.
Tinha acabado de o afirmar e eu acabava de prender mais um. Desta vez uma bela lula. Parecia vidro, com tons suaves de verde, que mudavam para vermelho e amarelo. Linda de morrer!
E assim foi correndo esta manhã de pesca, com alguma intensidade, que resultou num balde repleto destas admiráveis criaturas do mar. Perdemos alguns “palhaços”, que se enfiaram por entre rochas esburacadas e redes velhas. Tivemos a paciência de desfazer nós, como resultado do enrolamento do fio calcado pelos nossos pés, com a azáfama da recolha dos chocos. Tudo isto emergia naturalmente, fazendo parte de rituais, como se de dificuldades menores e superáveis se tratasse.
O dia chegava entretanto perto do meio-dia, pelo que o regresso se fazia urgente. O Amadeu propôs, com a sua calma habitual e simpatia genuína:
- Vamos abalar. Em Olhão almoçamos no Restaurante “O Franguinho”.
- De acordo. Come-se bem nesse restaurante.
Tomou-se o rumo da barra, entrámos na ria por entre as sentinelas dos pequenos farolins dos dois molhes. No molhe grande, na parte dos “pés-de-galinha”, surgiam as silhuetas esbeltas dos pescadores de canas a tentarem os robalos e os sargos. Procurei identificar alguns deles, quase todos meus amigos e conhecidos. A distância dificultou e desisti.
Luís M. Borges, Setembro 2009.


