domingo, 27 de maio de 2018

103. MEMÓRIAS DO ALTO MAR



Dá-me lume


Uma senhora Faneca


1.Poitadas 

O mar e o vento quedaram-se conforme o previsto. O sol também se quedou perante o filtro de uma neblina alta. Nós, quatro pescadores sempre motivados (O Cheta, o Óscar,  o Borges e o Américo), ansiávamos por peixe, dado quase o ano sabático a que nos vimos forçados, por causa do mar rebelde, com prejuízo para a pesca. Foram tempos de exclusão.

Serrano
Por isso neste dia, fizémo-nos portanto à refrega. Saíram assim umas fanecas desiludidas da vida, uns serranos aparvalhados, umas cavalas massudas, uns sarguitos de mão. Foi isto…durante toda a manhã. A desértica caixa amarela foi colhendo peixes como se fosse uma caixa de esmolas – trocos.

 Cavala

A resposta do Mestre foi sempre oportuna:
- Mude-se de pesqueiro.
Teve de mudar 4 vezes. Só na última, as canas trabalharam em conformidade com os nossos desejos. E onde foi? No Cais Sul.Muitas fanecas, sargos e choupas.

Choupa

Só para dar um exemplo, refiro o Américo com 3 sargos em simultâneo, um feito único neste dia e a enorme faneca do Cheta.


Sargo

2. Dá-me lume
Jorge Palma inspirou-nos com a sua canção. 
- Oh Cheta, todas  as vezes que pescas um peixito, aumenta “o paraíso no teu olhar”.
Evidenciando esta alegria, eu cantava:
- Dá-me lume...dá-me lume…
E o Cheta repetia comigo. Lindo.

Cliquem e ouçam: 
https://youtu.be/MzlxnEm_CQw

O Cheta

3. O Américo
Todos gostamos do Américo, mais os seus panados. Deliciosos.
Mas, o mais interessante no Américo é o seu estilo, demasiado convincente. Quando ele diz “ vai sair pargo” sai mesmo. Quando ele se ri, bebe uma cerveja. Enquanto pesca, fala da sua horta, de favas, alfaces e ervilhas...Quando argumenta, defende o uso de anzois enferrujados (os peixes, querem lá saber, da ferrugem). 

 O Américo

Em estatura é um homem médio e faz-se baixo quando veste as calças de lampreieiro (diz que é por causa da esposa) para não sujar a roupa.
Aprecio imenso este homem de 73 anos tão a sério. Já não  se fabricam destes, no tempos que correm.

4. A langonha
Se mais água escura houvesse menos se pescaria. Os limos apegavam-se às argolas das canas, formando ranhos, no acto de recolha do fio dos carretos. Dava nojo.
Disseram-me na Marina, que quando assim acontece, a pesca é  sempre fraca. Que no fundo do mar, os peixes não vêem os iscos, dada a pouca limpidez e transparência da água. Tem lógica.
  para mim, acho que é o “pilado” o responsável por esta água suja. Nesta altura do ano são milhões e assim  sendo, porque têm de cagar, borram a água. Kkkkkkkkkkk!

5. O Óscar não gosta de cavala
 O Óscar não gosta

Valha -me o “Senhor de Matosinhos”. O Óscar não gosta de xavalas, desculpem, de cavalas. Porquê?
Por ser um peixe rápido? Por ser um peixe inoportuno? Por ser da família do tunídeos? Por ser o peixe dos pobres? Por ser um peixe elegante e bonito?
Ninguém saberá.
Nós, os outros, apreciamos as ditas. De que modo?
- Ó senhor Borges, vai uma cavalinha grelhada?
- Não obrigado senhor Malheiro, prefiro cavala cozida.
- Ó senhor Cheta, está aqui a sua cavala fritinha.
No Reino da variedade gastronómica que se vive em Portugal,  as receitas de cavala são às dezenas. Só o Óscar destoa. Até proíbe que se pesquem cavalas intencionalmente. Mas, elas acabam por vir nos nossos anzois.  Paciência. 

Todos gostaram

Leça da Palmeira, 22 de maio de 2018
Luís M Borges

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