Um dia de paixão
1.Segunda Fábula: o pescador da praia
Era uma vez um casal
que vivia feliz junto à praia de Matosinhos. A esposa adorava fanecas e o
marido pargos.
Um certo dia, no mar
alto em dia de pesca, o marido da senhora capturou dois bons peixes: uma faneca
de 1 kg e um pargo de 3 kgs. Os seus quatro companheiros pescaram mais 2 peixes
médios (1 sargo e 1 choupa) e dois deles nem um toque sentiram.
Como era regra no
barco, tinham que dividir equitativamente o pescado por 5 pescadores e só havia
4 peixes. Sendo assim, o mestre disse ao pescador da praia de Matosinhos, que
escolhesse o peixe que pretendia levar para casa: ou o pargo ou a faneca.
O pescador da praia ficou nervoso e pôs-se meditativo.
Pensou assim: “Se levo
o pargo fico eu a ganhar pois adoro esta espécie assada no forno. Se levo a
faneca, a minha mulher irá fritá-la e regalar-se. Que fazer? Ora, a minha
mulher merece tudo, mas eu também mereço. Ambos merecemos. Que fazer?”
O mestre insistia,
dada a demora:
- Então pescador da
praia? Decide-te lá. Que peixe escolhes afinal?
Após mais um longo
silêncio, o pescador da praia falou:
- Não quero levar nem
a faneca nem o pargo. Dá a faneca ao Zé Maria e o pargo ao Manuel.
Houve um clique: a
admiração cresceu nos outros quatro pescadores, com se uma vaga enorme os tivesse
submergido. Ficaram mudos como o vento.
Até que o Zé Maria e o
Manuel sacudiram o silêncio e disseram quase em simultâneo:
- Os peixes são teus.
Leva os dois. Obrigado Amigo.
2. Alheiras
Um pequeno-almoço
cheio de prestígio. Alheiras minhas, gosto meu, dádiva aos amigos. Que
formosas, que seguras, que formato, que cor acobreada, que delícia de
fragrância...
Grelhadas no fogareiro de bordo, resumiram a sua existência a breves momentos de desejos incontroláveis, de puras vontades de comer e de saborear. Cada “mulete” com meia alheira; as cervejas pretas ficaram a gelar na mão direita. Um equilíbrio perfeito.
Nunca um petisco desta
natureza soube tão bem. Neste contexto de prazer as canas estiveram pousadas…raro…para
os pescadores poderem tomar o pequeno-almoço em sossego e para, obviamente, se
regalarem.
Conte-se, que na
véspera e no acto de compra, ao contar à vendedeira qual o destino delas, ficou
estupefacta:
- Alheiras ao pequeno-almoço
no alto mar?
Eu respondi seco:
- Diria, que destas
singularidades, poucos se gabarão. Poucos, muito poucos…
2. Umanos?
O mar tresandava
afectando todos os sentidos. O nosso amado mar salgado estava uma mixórdia. Todos
vimos as manchas oleosas, amareladas de nojo, numa vasta área. Perto, à direita
do nosso rumo, encontrava-se ancorado um enorme petroleiro. Deduzimos, que naquele
enorme monstro, se procedia à limpeza dos porões lançando-se criminosamente a
imundície para as águas.
Era económico, era fácil, havia olhos fechados e ouvidos moucos, por parte de quem deveria ver, ouvir e actuar em conformidade.
- Porque há impunidade
para tal crime?
Como diria alguém,
esta é uma realidade estupidamente verdadeira…vivemos num mundo imundo de
enganos, de mentiras, de condutas ardilosas. O ser humano deixou de o ser.
Somos agora “UMANOS”, para nossa breve desgraça. Não há volta a dar-lhe!
No barco, “chorámos”
todos de tristeza, ao anteciparmos o futuro negro dos nossos filhos e netos,
tão negro como a cor do crude.
4. Somos adaptáveis
O frio, esse sentir na
nossa pele, estragou-nos um dia de eventual Primavera. Antes, ainda na Marina, todos
nós muito vivos e animados, esperávamos um dia aberto de luz, quente, com aura macia,
ou seja o revigorar da estação. Que líricos!
Vieram rajadas fortes,
quando a calmaria estava prevista. Instalou-se a incredulidade face a uma
previsão errada (made Windguru: o mago das nossas certezas), mas tão falível nos
últimos tempos, infelizmente... Que inocentes!
Até choveu. Mais que molhados, diria encharcados, continuámos contudo os quatro imperturbáveis na faina da pesca, porque as caixas esperavam vazias.
Que representa uma
encharcadela face ao prazer de se pescarem mais uns peixitos? Que resistentes,
né!
Suportámos tudo (frio, vento, chuva, vaga) como se fosse normal. Somos muito adaptáveis. Compensámos a rir, a pescar, a comer, a beber… Que pescadores a sério, hem!
O relatório da
pescaria resume-se assim: peixe escasso, mas suficiente. O reino do fundo estava
deserto, exaurido ou desmotivado (é o que se diz), embora a Sonda indicasse
muito peixe.
Porque será que nunca sabemos as causas das coisas, a origem dos acontecimentos, a disfuncionalidade dos sistemas?
Pergunto-me vezes sem
conta, a tentar perceber, se a normalidade é o desequilíbrio ou se é o
equilíbrio. Não consigo perceber, porque nuns dias de pesca há demais, noutros
há escassez, noutros ainda há o meio-termo. Porquê? Para que tende afinal? Quem
me explica? Porque é assim?
Leça, 21 de Abril de 2018
Luís M. Borges
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