domingo, 27 de maio de 2018

102. MEMÓRIAS DO ALTO MAR


Um dia de paixão

 
1.Segunda Fábula: o pescador da praia
Era uma vez um casal que vivia feliz junto à praia de Matosinhos. A esposa adorava fanecas e o marido pargos.
Um certo dia, no mar alto em dia de pesca, o marido da senhora capturou dois bons peixes: uma faneca de 1 kg e um pargo de 3 kgs. Os seus quatro companheiros pescaram mais 2 peixes médios (1 sargo e 1 choupa) e dois deles nem um toque sentiram.
Como era regra no barco, tinham que dividir equitativamente o pescado por 5 pescadores e só havia 4 peixes. Sendo assim, o mestre disse ao pescador da praia de Matosinhos, que escolhesse o peixe que pretendia levar para casa: ou o pargo ou a faneca.


O pescador da praia ficou nervoso e pôs-se meditativo.
Pensou assim: “Se levo o pargo fico eu a ganhar pois adoro esta espécie assada no forno. Se levo a faneca, a minha mulher irá fritá-la e regalar-se. Que fazer? Ora, a minha mulher merece tudo, mas eu também mereço. Ambos merecemos. Que fazer?”
O mestre insistia, dada a demora:
- Então pescador da praia? Decide-te lá. Que peixe escolhes afinal?
Após mais um longo silêncio, o pescador da praia falou:
- Não quero levar nem a faneca nem o pargo. Dá a faneca ao Zé Maria e o pargo ao Manuel.
Houve um clique: a admiração cresceu nos outros quatro pescadores, com se uma vaga enorme os tivesse submergido. Ficaram mudos como o vento.
Até que o Zé Maria e o Manuel sacudiram o silêncio e disseram quase em simultâneo:
- Os peixes são teus. Leva os dois. Obrigado Amigo.

2. Alheiras
Um pequeno-almoço cheio de prestígio. Alheiras minhas, gosto meu, dádiva aos amigos. Que formosas, que seguras, que formato, que cor acobreada, que delícia de fragrância...


Grelhadas no fogareiro de bordo, resumiram a sua existência a breves momentos de desejos incontroláveis, de puras vontades de comer e de saborear.  Cada “mulete” com meia alheira; as cervejas pretas ficaram a gelar na mão direita. Um equilíbrio perfeito.
Nunca um petisco desta natureza soube tão bem. Neste contexto de prazer as canas estiveram pousadas…raro…para os pescadores poderem tomar o pequeno-almoço em sossego e para, obviamente, se regalarem.
Conte-se, que na véspera e no acto de compra, ao contar à vendedeira qual o destino delas, ficou estupefacta:
- Alheiras ao pequeno-almoço no alto mar?
 Eu respondi seco:
- Diria, que destas singularidades, poucos se gabarão. Poucos, muito poucos…

2. Umanos?
O mar tresandava afectando todos os sentidos. O nosso amado mar salgado estava uma mixórdia. Todos vimos as manchas oleosas, amareladas de nojo, numa vasta área. Perto, à direita do nosso rumo, encontrava-se ancorado um enorme petroleiro. Deduzimos, que naquele enorme monstro, se procedia à limpeza dos porões lançando-se criminosamente a imundície para as águas. 


Era económico, era fácil, havia olhos fechados e ouvidos moucos, por parte de quem deveria ver, ouvir e actuar em conformidade.
- Porque há impunidade para tal crime?
Como diria alguém, esta é uma realidade estupidamente verdadeira…vivemos num mundo imundo de enganos, de mentiras, de condutas ardilosas. O ser humano deixou de o ser. Somos agora “UMANOS”, para nossa breve desgraça. Não há volta a dar-lhe!
No barco, “chorámos” todos de tristeza, ao anteciparmos o futuro negro dos nossos filhos e netos, tão negro como a cor do crude.

4. Somos adaptáveis 
O frio, esse sentir na nossa pele, estragou-nos um dia de eventual Primavera. Antes, ainda na Marina, todos nós muito vivos e animados, esperávamos um dia aberto de luz, quente, com aura macia, ou seja o revigorar da estação. Que líricos!
Vieram rajadas fortes, quando a calmaria estava prevista. Instalou-se a incredulidade face a uma previsão errada (made Windguru: o mago das nossas certezas), mas tão falível nos últimos tempos, infelizmente... Que inocentes!


Até choveu. Mais que molhados, diria encharcados, continuámos contudo os quatro imperturbáveis na faina da pesca, porque as caixas esperavam vazias.
Que representa uma encharcadela face ao prazer de se pescarem mais uns peixitos? Que resistentes, né!



Suportámos tudo (frio, vento, chuva, vaga) como se fosse normal. Somos muito adaptáveis. Compensámos a rir, a pescar, a comer, a beber… Que pescadores a sério, hem!




5. Quem me explica?
O relatório da pescaria resume-se assim: peixe escasso, mas suficiente. O reino do fundo estava deserto, exaurido ou desmotivado (é o que se diz), embora a Sonda indicasse muito peixe.




Porque será que nunca sabemos as causas das coisas, a origem dos acontecimentos, a disfuncionalidade dos sistemas?
Pergunto-me vezes sem conta, a tentar perceber, se a normalidade é o desequilíbrio ou se é o equilíbrio. Não consigo perceber, porque nuns dias de pesca há demais, noutros há escassez, noutros ainda há o meio-termo. Porquê? Para que tende afinal? Quem me explica? Porque é assim?
Sabemos muito pouco sobre a realidade que nos rodeia, embora presumamos, que a compreendemos.


Leça, 21 de Abril de 2018
Luís M. Borges

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