segunda-feira, 28 de maio de 2018

104. MEMÓRIAS DO ALTO MAR



Até a máquina pára 
 
A máquina

1.Gorazes

Foi desta vez. A conjugação dos factores assim o permitiu.
Fomos quatro, faltando-nos apenas o Forte.
A sardinha foi difícil de arranjar, porque o resto temporal das Festas do Senhor de Matosinhos, arrematou quase a safra toda. Recorreu-se à congelada. Era molenga mas serviu.

Sardinha

O Cheta ainda comprou umas cavalas ranhosas. Também foram aplicadas.
Saímos da Marina às 06h00, enfrentámos vaga contrária e adversa para a navegação e às 08h00 já procurávamos os gorazes em profundidade média de 180 metros, num mar aceitável.
O Malheiro imediatamente abriu o activo, pescando dois magníficos gorazes quileiros, pelo que o resto da malta logo se entusiasmou.

Malheiro, o melhor do barco

2. Até a máquina pára

O mote desta vez foi o Malheiro que o repetiu muitas vezes, acabando por se transformar no refrão deste dia de pesca.
- Até a máquina pára – gritava ele todas as vezes que trazia mais um voraz.
Mas, qual o porquê deste slogan? Simples. Como os pescadores de gorazes muito bem sabem, o goraz é um peixe valente, maciço, musculoso, rápido e lutador. Ora, um exemplar de 1 quilo “bota” luta a sério e mesmo com o carreto eléctrico, a força é muita. Então quando pegam três em simultâneo mais difícil se torna “guindá-los ó pra cima”, pelo que o carreto (a máquina) pára por instantes. Quando tal acontecia, o Malheiro gritava:
- Até a máquina pára.

Gorazes

Em resumo, o Malheiro estava a informar o resto da malta de peixe fisgado, que ele é que pescava e aos 3 de cada vez. Claro, que esta atitude é vaidade ou orgulho, competitividade ou controlo, alegria ou exuberância. Com o Malheiro nunca se sabe, mas que foi o melhor pescador do barco, lá isso foi. Parabéns!

3. Eles passam
Há quem afirme que os gorazes são atletas do mar. Que se deslocam em cardumes constituídos por elementos mais ou menos do mesmo tamanho. Onde encontram comida páram e alimentam-se com sofreguidão. Por isso a tática é haver sempre no fundo uma cana com os anzóis bem cheio de nacos de sardinha ou cavala, a fim de o cardume não dispersar. Isto à vez, claro, fazendo -se jogo de equipa entre pescadores. Resulta quase sempre.

Baldear o peixe

Às vezes, quando os cardumes são pequenos, tal não se verifica. Ou esgota-se o cardume (o que é difícil de acontecer por uma questão de sobrevivência) ou deixa de haver competitividade entre eles, por falta de número suficiente de indivíduos, pelo que demandam outras paragens.
Assim, este dia de pesca foi dual: de manhã a pesca foi intermitente, aparecendo os gorazes de vez em quando, com pausas temporais diferenciadas; de tarde, quase não se verificaram pausas a partir das 15h30 até às 17h30. Foi uma pesca muito intensa.
Em resumo, êxito total.

Um goraz pronto para o forno

4. Tamboril
Tamboril capturado nos Açores

No Reino dos peixes estranhos há um que se distingue- o tamboril.
Também é um pescador…pesca com cana…admirados? Leiam a informação da Wikipédia:

Tamboril, tamboril ou peixe sapo (na Galiza) é o nome vulgar dos peixes lophiiformes pertencentes aos géneros Lophius e Lophiodes. O tamboril é um peixe bentónico, que vive junto do fundo, que pode ser encontrado desde a zona de maré até aos 600 metros de profundidade.
O tamboril é caracterizado pela cabeça desproporcionalmente grande, com boca semicircular munida de dentes pontiagudos. Enquanto adulto, o tamboril pode medir até 170 cm de comprimento. Como todos os outros peixes lophiiformes, o tamboril apresenta uma barbatana dorsal característica, onde o raio anterior está isolado e modificado para a função de cana de pesca. O raio apresenta uma excrescência carnosa na ponta (a isca) que atrai as presas para a boca do animal. As presas preferenciais são outros peixes, mas já foram registados casos onde se descobriu aves marinhas no estômago de tamboris. A camuflagem eficiente do tamboril contra o fundo do mar é essencial para o sucesso deste tipo de caça.
A maturação sexual ocorre relativamente tarde. Após a fecundação, a fêmea liberta cerca de 5 milhões de ovos, agregados em fitas gelatinosas flutuantes. As larvas eclodem após cerca de 20 dias e passam a fazer parte do zooplâncton. Cerca de quatro meses depois assentam no fundo e desenvolvem os juvenis.
O tamboril, em particular as espécies Lophius piscatorius e Lophius budegassa, é um dos peixes tradicionais da Gastronomia Portuguesa.
WikipédiA”
 Excelente qualidade da sua carne

Outras informações provenientes do FishBase:
Designação científica: Lophius piscatorius
Designação: Tamboril
Comprimentos: Comprimento máximo 2 m; Comprimento médio: 1 m
Peso máximo: 57,7 kg
Idade máxima: 24 anos.
Apresentados estes dados sobre o tamboril e a respectiva foto, devo explicar o motivo que me obrigou a encarar este ser feioso - foi o Óscar.
Estava o Óscar sossegadamente a pescar gorazes quando sente um violento puxão na cana. Pela intensidade e tipo de puxão não poderia ser nem congro e muito menos goraz. Começa a içar e sente uma força descomunal. Lentamente vai conseguindo trazê-lo quase até a superfície, com muito esforço físico, do carreto e da cana. Esta vergava e rangia e o carreto parava. Pede com urgência o bicheiro pois era peixe de respeito. O Malheiro procura vislumbrar a “coisa” e brada.
- É uma pedra…larga, castanha…
O Óscar, desesperado, vai afirmando e repetindo que é um peixe, pois debatia-se.
- É um peixe, mas esquisito – já dizia o Malheiro que não parava de olhar e de tentar perceber o que ali vinha.

Mais um esforço em força do Óscar e a cana parte e o fio também. É lá se foi o peixe, que era nada mais nada menos que um enorme tamboril, com um metro de comprimento e por relação, com provavelmente 30 quilos de peso.
Pena nossa, lamentos repetidos do Óscar, felicidade para o peixe. Era feioso, mas tem fama de gostoso. A sua carne é divinal. Não há quem não aprecie arroz de tamboril.

5. De dieta em dieta

Segundo tinha dito o Cheta, neste dia o tacho seria carne assada, comprada num restaurante (na modalidade Wok). Preferia gastar um pouco mais de dinheiro e não ter de se aborrecer com alguém, que não apreciasse a comida elaborada pela sua esposa, às vezes com autênticas ofensas.

 Vitela assada

Eu, porém estava de dieta, cada vez mais frequentes, infelizmente. Disse portanto ao Cheta que não iria comer da comida dele. Ora, o Cheta quase se zangou comigo. Entendeu, que era uma rejeição e sentiu -se ultrajado. Tive de lhe explicar que não se tratava de tal atitude da minha parte. Impensável. O médico é que foi peremptório.  Assim, eu comi uma sandes de pão de centeio com uma fatia seca de peito de frango, mais uma alface sem molho. A acompanhar um sumo natural e nada de vinho, café e whisky. Vida dura a de um setentista. Os meus colegas regalaram-se com a vitela assada. Ainda bem.

6. Dia longo
Cheguei a casa às 20h30.
Ainda me esperava a tarefa de congelar o peixe, amanhar um goraz para segunda-feira, tomar banho, comer uma sopa de legumes e maçã cozida, programar as tarefas do dia seguinte…e só então…uma caminha onde fiquei como um urso. Foram só 19 horas de actividade (das 04h00 da manhã até às 23h00).
Aguentarei?


Sra da Hora, 26 de Maio de 2018
Luís M. Borges

domingo, 27 de maio de 2018

103. MEMÓRIAS DO ALTO MAR



Dá-me lume


Uma senhora Faneca


1.Poitadas 

O mar e o vento quedaram-se conforme o previsto. O sol também se quedou perante o filtro de uma neblina alta. Nós, quatro pescadores sempre motivados (O Cheta, o Óscar,  o Borges e o Américo), ansiávamos por peixe, dado quase o ano sabático a que nos vimos forçados, por causa do mar rebelde, com prejuízo para a pesca. Foram tempos de exclusão.

Serrano
Por isso neste dia, fizémo-nos portanto à refrega. Saíram assim umas fanecas desiludidas da vida, uns serranos aparvalhados, umas cavalas massudas, uns sarguitos de mão. Foi isto…durante toda a manhã. A desértica caixa amarela foi colhendo peixes como se fosse uma caixa de esmolas – trocos.

 Cavala

A resposta do Mestre foi sempre oportuna:
- Mude-se de pesqueiro.
Teve de mudar 4 vezes. Só na última, as canas trabalharam em conformidade com os nossos desejos. E onde foi? No Cais Sul.Muitas fanecas, sargos e choupas.

Choupa

Só para dar um exemplo, refiro o Américo com 3 sargos em simultâneo, um feito único neste dia e a enorme faneca do Cheta.


Sargo

2. Dá-me lume
Jorge Palma inspirou-nos com a sua canção. 
- Oh Cheta, todas  as vezes que pescas um peixito, aumenta “o paraíso no teu olhar”.
Evidenciando esta alegria, eu cantava:
- Dá-me lume...dá-me lume…
E o Cheta repetia comigo. Lindo.

Cliquem e ouçam: 
https://youtu.be/MzlxnEm_CQw

O Cheta

3. O Américo
Todos gostamos do Américo, mais os seus panados. Deliciosos.
Mas, o mais interessante no Américo é o seu estilo, demasiado convincente. Quando ele diz “ vai sair pargo” sai mesmo. Quando ele se ri, bebe uma cerveja. Enquanto pesca, fala da sua horta, de favas, alfaces e ervilhas...Quando argumenta, defende o uso de anzois enferrujados (os peixes, querem lá saber, da ferrugem). 

 O Américo

Em estatura é um homem médio e faz-se baixo quando veste as calças de lampreieiro (diz que é por causa da esposa) para não sujar a roupa.
Aprecio imenso este homem de 73 anos tão a sério. Já não  se fabricam destes, no tempos que correm.

4. A langonha
Se mais água escura houvesse menos se pescaria. Os limos apegavam-se às argolas das canas, formando ranhos, no acto de recolha do fio dos carretos. Dava nojo.
Disseram-me na Marina, que quando assim acontece, a pesca é  sempre fraca. Que no fundo do mar, os peixes não vêem os iscos, dada a pouca limpidez e transparência da água. Tem lógica.
  para mim, acho que é o “pilado” o responsável por esta água suja. Nesta altura do ano são milhões e assim  sendo, porque têm de cagar, borram a água. Kkkkkkkkkkk!

5. O Óscar não gosta de cavala
 O Óscar não gosta

Valha -me o “Senhor de Matosinhos”. O Óscar não gosta de xavalas, desculpem, de cavalas. Porquê?
Por ser um peixe rápido? Por ser um peixe inoportuno? Por ser da família do tunídeos? Por ser o peixe dos pobres? Por ser um peixe elegante e bonito?
Ninguém saberá.
Nós, os outros, apreciamos as ditas. De que modo?
- Ó senhor Borges, vai uma cavalinha grelhada?
- Não obrigado senhor Malheiro, prefiro cavala cozida.
- Ó senhor Cheta, está aqui a sua cavala fritinha.
No Reino da variedade gastronómica que se vive em Portugal,  as receitas de cavala são às dezenas. Só o Óscar destoa. Até proíbe que se pesquem cavalas intencionalmente. Mas, elas acabam por vir nos nossos anzois.  Paciência. 

Todos gostaram

Leça da Palmeira, 22 de maio de 2018
Luís M Borges

102. MEMÓRIAS DO ALTO MAR


Um dia de paixão

 
1.Segunda Fábula: o pescador da praia
Era uma vez um casal que vivia feliz junto à praia de Matosinhos. A esposa adorava fanecas e o marido pargos.
Um certo dia, no mar alto em dia de pesca, o marido da senhora capturou dois bons peixes: uma faneca de 1 kg e um pargo de 3 kgs. Os seus quatro companheiros pescaram mais 2 peixes médios (1 sargo e 1 choupa) e dois deles nem um toque sentiram.
Como era regra no barco, tinham que dividir equitativamente o pescado por 5 pescadores e só havia 4 peixes. Sendo assim, o mestre disse ao pescador da praia de Matosinhos, que escolhesse o peixe que pretendia levar para casa: ou o pargo ou a faneca.


O pescador da praia ficou nervoso e pôs-se meditativo.
Pensou assim: “Se levo o pargo fico eu a ganhar pois adoro esta espécie assada no forno. Se levo a faneca, a minha mulher irá fritá-la e regalar-se. Que fazer? Ora, a minha mulher merece tudo, mas eu também mereço. Ambos merecemos. Que fazer?”
O mestre insistia, dada a demora:
- Então pescador da praia? Decide-te lá. Que peixe escolhes afinal?
Após mais um longo silêncio, o pescador da praia falou:
- Não quero levar nem a faneca nem o pargo. Dá a faneca ao Zé Maria e o pargo ao Manuel.
Houve um clique: a admiração cresceu nos outros quatro pescadores, com se uma vaga enorme os tivesse submergido. Ficaram mudos como o vento.
Até que o Zé Maria e o Manuel sacudiram o silêncio e disseram quase em simultâneo:
- Os peixes são teus. Leva os dois. Obrigado Amigo.

2. Alheiras
Um pequeno-almoço cheio de prestígio. Alheiras minhas, gosto meu, dádiva aos amigos. Que formosas, que seguras, que formato, que cor acobreada, que delícia de fragrância...


Grelhadas no fogareiro de bordo, resumiram a sua existência a breves momentos de desejos incontroláveis, de puras vontades de comer e de saborear.  Cada “mulete” com meia alheira; as cervejas pretas ficaram a gelar na mão direita. Um equilíbrio perfeito.
Nunca um petisco desta natureza soube tão bem. Neste contexto de prazer as canas estiveram pousadas…raro…para os pescadores poderem tomar o pequeno-almoço em sossego e para, obviamente, se regalarem.
Conte-se, que na véspera e no acto de compra, ao contar à vendedeira qual o destino delas, ficou estupefacta:
- Alheiras ao pequeno-almoço no alto mar?
 Eu respondi seco:
- Diria, que destas singularidades, poucos se gabarão. Poucos, muito poucos…

2. Umanos?
O mar tresandava afectando todos os sentidos. O nosso amado mar salgado estava uma mixórdia. Todos vimos as manchas oleosas, amareladas de nojo, numa vasta área. Perto, à direita do nosso rumo, encontrava-se ancorado um enorme petroleiro. Deduzimos, que naquele enorme monstro, se procedia à limpeza dos porões lançando-se criminosamente a imundície para as águas. 


Era económico, era fácil, havia olhos fechados e ouvidos moucos, por parte de quem deveria ver, ouvir e actuar em conformidade.
- Porque há impunidade para tal crime?
Como diria alguém, esta é uma realidade estupidamente verdadeira…vivemos num mundo imundo de enganos, de mentiras, de condutas ardilosas. O ser humano deixou de o ser. Somos agora “UMANOS”, para nossa breve desgraça. Não há volta a dar-lhe!
No barco, “chorámos” todos de tristeza, ao anteciparmos o futuro negro dos nossos filhos e netos, tão negro como a cor do crude.

4. Somos adaptáveis 
O frio, esse sentir na nossa pele, estragou-nos um dia de eventual Primavera. Antes, ainda na Marina, todos nós muito vivos e animados, esperávamos um dia aberto de luz, quente, com aura macia, ou seja o revigorar da estação. Que líricos!
Vieram rajadas fortes, quando a calmaria estava prevista. Instalou-se a incredulidade face a uma previsão errada (made Windguru: o mago das nossas certezas), mas tão falível nos últimos tempos, infelizmente... Que inocentes!


Até choveu. Mais que molhados, diria encharcados, continuámos contudo os quatro imperturbáveis na faina da pesca, porque as caixas esperavam vazias.
Que representa uma encharcadela face ao prazer de se pescarem mais uns peixitos? Que resistentes, né!



Suportámos tudo (frio, vento, chuva, vaga) como se fosse normal. Somos muito adaptáveis. Compensámos a rir, a pescar, a comer, a beber… Que pescadores a sério, hem!




5. Quem me explica?
O relatório da pescaria resume-se assim: peixe escasso, mas suficiente. O reino do fundo estava deserto, exaurido ou desmotivado (é o que se diz), embora a Sonda indicasse muito peixe.




Porque será que nunca sabemos as causas das coisas, a origem dos acontecimentos, a disfuncionalidade dos sistemas?
Pergunto-me vezes sem conta, a tentar perceber, se a normalidade é o desequilíbrio ou se é o equilíbrio. Não consigo perceber, porque nuns dias de pesca há demais, noutros há escassez, noutros ainda há o meio-termo. Porquê? Para que tende afinal? Quem me explica? Porque é assim?
Sabemos muito pouco sobre a realidade que nos rodeia, embora presumamos, que a compreendemos.


Leça, 21 de Abril de 2018
Luís M. Borges