A máquina
1.Gorazes
Foi desta vez. A conjugação dos factores assim o permitiu.
Fomos quatro, faltando-nos apenas o Forte.
A sardinha foi difícil de arranjar, porque o resto temporal das Festas do
Senhor de Matosinhos, arrematou quase a safra toda. Recorreu-se à congelada. Era
molenga mas serviu.
Sardinha
O Cheta ainda comprou umas cavalas ranhosas. Também foram aplicadas.
Saímos da Marina às 06h00, enfrentámos vaga contrária e adversa para a
navegação e às 08h00 já procurávamos os gorazes em profundidade média de 180
metros, num mar aceitável.
O Malheiro imediatamente abriu o activo, pescando dois magníficos gorazes
quileiros, pelo que o resto da malta logo se entusiasmou.
Malheiro, o melhor do barco
2. Até a máquina pára
O mote desta vez foi o Malheiro que o repetiu muitas vezes, acabando por
se transformar no refrão deste dia de pesca.
- Até a máquina pára – gritava ele todas as vezes que trazia mais um
voraz.
Mas, qual o porquê deste slogan? Simples. Como os pescadores de gorazes
muito bem sabem, o goraz é um peixe valente, maciço, musculoso, rápido e
lutador. Ora, um exemplar de 1 quilo “bota” luta a sério e mesmo com o carreto
eléctrico, a força é muita. Então quando pegam três em simultâneo mais difícil
se torna “guindá-los ó pra cima”, pelo que o carreto (a máquina) pára por
instantes. Quando tal acontecia, o Malheiro gritava:
- Até a máquina pára.
Gorazes
Em resumo, o Malheiro estava a informar o resto da malta de peixe
fisgado, que ele é que pescava e aos 3 de cada vez. Claro, que esta atitude é
vaidade ou orgulho, competitividade ou controlo, alegria ou exuberância. Com o
Malheiro nunca se sabe, mas que foi o melhor pescador do barco, lá isso foi.
Parabéns!
3. Eles passam
Há quem afirme que os gorazes são atletas do mar. Que se deslocam em
cardumes constituídos por elementos mais ou menos do mesmo tamanho. Onde
encontram comida páram e alimentam-se com sofreguidão. Por isso a tática é
haver sempre no fundo uma cana com os anzóis bem cheio de nacos de sardinha ou cavala,
a fim de o cardume não dispersar. Isto à vez, claro, fazendo -se jogo de equipa
entre pescadores. Resulta quase sempre.
Baldear o peixe
Às vezes, quando os cardumes são pequenos, tal não se verifica. Ou
esgota-se o cardume (o que é difícil de acontecer por uma questão de
sobrevivência) ou deixa de haver competitividade entre eles, por falta de
número suficiente de indivíduos, pelo que demandam outras paragens.
Assim, este dia de pesca foi dual: de manhã a pesca foi intermitente,
aparecendo os gorazes de vez em quando, com pausas temporais diferenciadas; de
tarde, quase não se verificaram pausas a partir das 15h30 até às 17h30. Foi uma
pesca muito intensa.
Um goraz pronto para o forno
4. Tamboril
No Reino dos peixes estranhos há um que se distingue- o tamboril.
Também é um pescador…pesca com cana…admirados? Leiam a informação da
Wikipédia:
“Tamboril, tamboril ou peixe sapo (na Galiza) é o nome
vulgar dos peixes lophiiformes pertencentes aos
géneros Lophius e Lophiodes.
O tamboril é um peixe bentónico, que vive junto do fundo, que pode ser
encontrado desde a zona de maré até aos 600 metros de profundidade.
O tamboril é caracterizado pela cabeça desproporcionalmente grande, com
boca semicircular munida de dentes pontiagudos. Enquanto adulto, o tamboril
pode medir até 170 cm de comprimento. Como todos os outros peixes
lophiiformes, o tamboril apresenta uma barbatana dorsal característica, onde o
raio anterior está isolado e modificado para a função de cana de pesca. O raio
apresenta uma excrescência carnosa na ponta (a isca) que atrai as presas para a
boca do animal. As presas preferenciais são outros peixes, mas já foram
registados casos onde se descobriu aves marinhas no estômago de tamboris. A camuflagem eficiente
do tamboril contra o fundo do mar é essencial para o sucesso deste tipo de
caça.
A maturação sexual ocorre relativamente tarde. Após a fecundação, a fêmea
liberta cerca de 5 milhões de ovos, agregados em fitas gelatinosas flutuantes.
As larvas eclodem após cerca de 20 dias e passam a fazer parte do zooplâncton. Cerca
de quatro meses depois assentam no fundo e desenvolvem os juvenis.
O tamboril, em particular as espécies Lophius piscatorius e Lophius
budegassa, é um dos peixes tradicionais da Gastronomia Portuguesa.
Outras informações provenientes do FishBase:
Designação científica: Lophius piscatorius
Designação: Tamboril
Comprimentos: Comprimento máximo 2 m; Comprimento médio: 1 m
Peso máximo: 57,7 kg
Idade máxima: 24 anos.
Apresentados estes dados sobre o tamboril e a respectiva foto, devo
explicar o motivo que me obrigou a encarar este ser feioso - foi o Óscar.
Estava o Óscar sossegadamente a pescar gorazes quando sente um violento
puxão na cana. Pela intensidade e tipo de puxão não poderia ser nem congro e
muito menos goraz. Começa a içar e sente uma força descomunal. Lentamente vai
conseguindo trazê-lo quase até a superfície, com muito esforço físico, do
carreto e da cana. Esta vergava e rangia e o carreto parava. Pede com urgência
o bicheiro pois era peixe de respeito. O Malheiro procura vislumbrar a “coisa” e
brada.
- É uma pedra…larga, castanha…
O Óscar, desesperado, vai afirmando e repetindo que é um peixe, pois
debatia-se.
- É um peixe, mas esquisito – já dizia o Malheiro que não parava de olhar
e de tentar perceber o que ali vinha.
Mais um esforço em força do Óscar e a cana parte e o fio também. É lá se
foi o peixe, que era nada mais nada menos que um enorme tamboril, com um metro
de comprimento e por relação, com provavelmente 30 quilos de peso.
Pena nossa, lamentos repetidos do Óscar, felicidade para o peixe. Era
feioso, mas tem fama de gostoso. A sua carne é divinal. Não há quem não aprecie
arroz de tamboril.
5. De dieta em dieta
Segundo tinha dito o Cheta, neste dia o tacho seria carne assada, comprada num restaurante (na modalidade Wok). Preferia gastar um pouco mais de dinheiro e não ter de se aborrecer com alguém, que não apreciasse a comida elaborada pela sua esposa, às vezes com autênticas ofensas.
Vitela assada
Eu, porém estava de dieta, cada vez mais frequentes, infelizmente. Disse portanto ao Cheta que não iria comer da comida dele. Ora, o Cheta quase se zangou comigo. Entendeu, que era uma rejeição e sentiu -se ultrajado. Tive de lhe explicar que não se tratava de tal atitude da minha parte. Impensável. O médico é que foi peremptório. Assim, eu comi uma sandes de pão de centeio com uma fatia seca de peito de frango, mais uma alface sem molho. A acompanhar um sumo natural e nada de vinho, café e whisky. Vida dura a de um setentista. Os meus colegas regalaram-se com a vitela assada. Ainda bem.
6. Dia longo
Cheguei a casa às 20h30.
Ainda me esperava a tarefa de congelar o peixe, amanhar um goraz para
segunda-feira, tomar banho, comer uma sopa de legumes e maçã cozida, programar
as tarefas do dia seguinte…e só então…uma caminha onde fiquei como um urso. Foram
só 19 horas de actividade (das 04h00 da manhã até às 23h00).
Sra da Hora, 26 de Maio de 2018
Luís M. Borges




