sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

99. MEMÓRIAS DO ALTO MAR


     A pesca – Como me faltas

 Óscar

    Passaram quase dois meses (com um Natal pelo meio cheio de embrulhos coloridos e com uma Passagem de Ano convencional) e os meus olhos, de tanto esperarem, quase viraram dois peixes. Esquisito!
Nesta grande distância de dois meses, até deu para ler e escolher uma poesia, a modos que relacionada. Posso ler?

“Para afirmar como me faltas
Diria que me faltas como o sol
Ou como o oceano
Quando os não vejo

Mas é incompleta a imagem
Omite o que é crucial
Quando me faltas e como me faltas
Não sou apenas eu que não sou eu
Sou eu que não existo como eu

E isso, sabem
É a distância entre o oceano
E o sol”

Obs: Adaptação “xilre.bloguespot.pt”
Dia Peixe

Depois, o Óscar mudou tudo, ao falar-me assim:
- Na segunda-feira será um Dia Peixe.
Convenhamos, que ao menos durante estes dois meses, nenhum peixe foi ferido. Iriam ser na segunda…
Cheta
 

    1. O lado sombrio…
O lado sombrio

Mas, foram dois meses realmente bastante sombrios:
- Primeiro o mar em constante desalinho e a chuva a castigar e o frio a humilhar e eu a não fazer absolutamente nada, basicamente zangado com tudo o tempo todo.
- Vezes sem conta, colei-me à televisão até que o meu balde de lixo me chamasse e nem fugi de casa. O excesso de comida e bebida não me facilitaram a vida e em vão tentei provar, que as criaturas marinhas são seres melhores que as terrestres.
- Também nada doei, porque andei alheio e assim não tive oportunidade de mostrar o coração.
- Mais, comecei a duvidar do aspecto do meu rosto, assim triste, de olhos vazios e lábios fechados e das mãos tão paradas.
Sombriamente calculei-me. Sem pesca, sombriamente vivi mal, quase dois meses.

    2. Neste dia de pesca, toparam peixe?
Uma mão de peixes

Não e Sim.
NÃO, durante praticamente toda a manhã (uma mão de peixes) e parte da tarde (outra mão).

 Até deu para dormir
 O Óscar no gozo

SIM, das 15 às 17h00, perto do Majó, que nos sugeriu que mudássemos de pesqueiro. Foi o maná e foi o entusiasmo. Foi como abraçar peixes.
No final, acertou-se a distribuição, calhando um cabaz a cada um, contendo fanecas de bom tamanho, choupas bem maiores que as fanecas, sargos de respeito (o meu maior pesava 1, 05 kg), meia dúzia de carapaus de forno e mais alguns adornos (serranos, 1 polvo, picas-del-rei).
Um final feliz

     3. Outros registos, mas sem importância

O céu começou escuro de temer ao sairmos da Marina, trocou este tom por chuva durante a manhã e resplandeceu um pouco de tarde, com ambiente vazio de vento e frio e no conforto de uma ondulação larga e lenta.
Quanto aos 4 humanos, refira -se a ocorrência de dois doentes a bordo (Cheta/estômago e Borges/intestinos), a presença do regressado Óscar (já bem disposto, finalmente) e do ex-bancário Malheiro (o insaciável).

 Malheiro

Com sabor a Tripas à Moda do Porto, estes dois últimos companheiros, substituíram-se à trovoada e ao cheiro a maresia. E riram-se muito…muito mesmo, porque rir faz bem!

 A tormentosa dobrada

    4. Como falais pescadores?

Fomos literalmente martelados pela rádio por dois mestres de traineira durante uma hora. Alcoviteiras do mar, malcriados de classe, a enobrecerem com palavras tintas os pescadores profissionais, que nos deixaram com os ouvidos a zunir. O Óscar teve de mudar de canal.
E para terminar, quando e como irás também falar caro Óscar? Talvez nos convenças a ir à pesca, já na próxima segunda-feira?  Bastará o mar autorizar, não é assim? Se não for possível, tomaremos na certa o rumo do Marmelal, uma vez que o Douro também tem água. E bom vinho…
Por hoje é tudo. Ando destreinado da pesca e da escrita.
Borges, finalmente feliz

Leça, 22 de Janeiro de 2018
Luís M. Borges


sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

98. MEMÓRIAS DO ALTO MAR




“O mar estava tão revolto, tão revolto! Que eu decidi acalmá-lo.” 
Os peixes estavam tão chateados, tão chateados! Que decidiram dar-nos música!

 

1.Crónica da ondulação

Pois foi. Foi duro. Foi perigoso.
Quando se acredita na certeza das previsões, que nos oferece o Windguru, pode sair decisão errada. O previsto seria uma ondulação larga com 1 metro de altura e um vento fraco e frio. Foi tudo ao contrário: a ondulação atingiu os 2 metros, encarneirou perigosamente e o vento ficou forte e agreste.
Através do canal de comunicação os mestres de outras demarcações queixavam-se amargamente:
- Está fresco.

No baloiço do barco todos nós parecíamos marionetes descontroladas. As caixas e as arcas do convés acompanhavam a cena, basando-se dos seus lugares.
Os 4 olhavam-se. Os 4 temiam. Os 4 protegiam-se. Começavam a duvidar da oportunidade desta saída de pesca. O Forte falou:
- Vamos aguentar até às 13h00, se for possível.

2. Recusa

E os peixes? Estes, decidiram em assembleias gerais próprias, fazer greve aos anzóis. Eles estavam lá, mas a decisão tinha de ser cumprida, neste mar áspero.
Peixe capturado? Nada, mas nada mesmo. Nem um mísero peixe-pepino...
Começaram então os procedimentos habituais: larga cabo, puxa cabo; muda isco, não muda de isco; ruma para novo sítio, ruma para outro sítio. Nada.
Até que surgiu uma vózinha amiga que aconselhou timidamente:
- Estão a sair uns peixinhos por aqui.
E toca a ir para esse oásis e apoiar e recomeçar a pesca com expectativas renovadas.
Foi a salvação. Uns sargos fizeram o dia destes pescadores em pouco tempo.
E a ordem veio então, depois de acontecer, uma onda ter varrido o barco:
- Chega e sobra o que já pescámos. Vamos embora para a Marina.

3. Na Marina serve-se rancho

Dadas as condições, tivemos de marcar a feitura do almoço para a Marina. A nossa Caixa/Fogão não se conseguiria segurar em balanços de tal monta na embarcação. Seria despejar a comida pelo convés, além de que comermos sentados em situação de terramoto, até certamente nem conseguiríamos meter a comida à boca. Imaginem comer rancho com estilo…Claro,  só na Marina.

 Conservas, pois claro...

Chegados, o Malheiro executou um belo rancho. A nossa fome era igual à força do vento. Violenta.


Repetimos e até elogiámos o Chefe Gourmet. Só o Cheta considerou que almoçar tão tarde (foi às 15h00) representava para ele um défice alimentar: não  teria apetite para o Jantar, pelo que a sua Maria iria ficar sentada à mesa sozinha.A D. Maria do Cheta iria comer as fanecas todas. Só sobrariam espinhas...



4. Derreados

Corpos doridos e ais sem fim. Referências à idade. Afirmações de desânimo.
Comigo aconteceu doerem-me os rins. Foram guinadas a mais naquele barco demasiado irrequieto.
Com o Malheiro, a coluna desencaixou um bocadinho mais.
Com o Cheta a desilusão: cansado, repetiu que já não tinha estofo para esta vida de pescador, com tamanho mar.
O Forte foi o único que não se queixou. Pudera, não pescou nada...kkkkkkkkk...nem para o gato pescou!

5. Uma coisa é certa

“Que pescas, ó pescador,
No nosso Rio da vida?
Pescaria sem pudor,
P’ra “tainada” bem servida.

O assédio à pescaria
Não é criminalizado,
Porque o peixe bem sabia
Que era p'ra ser “cozinhado”!” (*)

- Quando será a próxima saída à pesca? Sei lá…o cherne saberá!


Leça, 2 de Dezembro de 2017
Luís M. Borges

(*) Obs: Poema de José Gonçalinho


97. MEMÓRIAS DO ALTO MAR



Jantar PARTILHA DA AMIZADE 
 
1.Há bacalhau no Rio do Amial
Reuniram os chefes da tribo

Na zona do Amial corre um Rio, e por estranho que pareça, pesca-se por lá bacalhau. Este fenómeno, abriu bocas de espanto nos arrabaldes, onde o Mar do Leixāo bate sempre certinho. Os seus habitantes, sobretudo os pescadores, incrédulos pois nem sabiam o que era o referido peixe, discutiam amiúde sobre a própria designação (baccalauren ou kabeljauw?) e perguntavam:
- Que barco pesca esse dito bacalau por ali? Quem é o Mestre?
Respondiam-lhe na dúvida:
- Parece que a embarcação se apelida de “OGRELHAS” e o pescador, dizem, OSGAR, um normando.
- Temos de ir verificar. Reúne a tribo, fala aos amigos e caminharemos para lá, num destes dias.
E assim foi.

2. O mistério atrai
As damas rebeldes

Com seus trajes tradicionais, os aventureiros prepararam as cavalgaduras num fim de tarde, à procura da verdade. Eram uns 12. Porém, suas companheiras aventureiras, por uma questão de solidariedade e sabendo que ali andava mistério, fizeram questão de os acompanhar, por entre algazarra. Os homens acabaram por atrelar os seus burros e cavalos e arrancaram em carroças, a trotar pelo caminho, ainda amuados com as suas consortes.

3. Uma luz
A taberna do Osgar

Procuraram e não procuraram, perguntaram e não perguntaram, até que decidiram largar as carroças  perto de um lugar de culto. Chegaram-se ao Rio pela margem certa e viram uma fogueira que iluminava a frente de uma taberna, para onde se dirigiram. Recebeu-os um homem muito bronzeado, já velho, dos seus 45 ano, que lhes falou assim:
- Disseram -me que vinham aí. Que pretendeis nobres visitantes? E vós senhoras, que tão bem trajais, porque arrostaram com este frio na noite e por estes caminhos, cheios de perigos?
Responderam-lhe:
- Tendes Bacalau meu senhor? Ouvimos que o pescais. Donde sois e como vos chamais?
- Sou normando e a minha graça é OSGAR, um humilde servo ao vosso dispôr. 
- Entrai e sentai-vos, comeinde e bebeinde e não vos preocupeindes.

 Recepção na Taberna do Osgar

4. Pescadores com boca
O servo Rui-m

Assim fazendo, logo surgiu um rapaz estranho, pintado de preto, a que chamavam RUI-M. Serviu vinho em canecos, azeitonas e pão. Seguiram -se umas falachas cobertas com garum, chamadas “pizaras”, que as mulheres adoraram.
- Mas, conte-nos Mestre OSGAR, sobre o baccalau. 

A gaivota e o Javali capturados no mar
- Ó RUI-M, traz o javali, a cabra e a gaivota da brasa. Anda lá servo… vai à cozinha de fora...os nossos estimados amigos estão com apetite.

 A cozinha tradicional, dita de fora

5. O bendito baccalau
Um baccalau de 120 kg

- Ó RUI-M, traz agora o baccalau.
Fumegavam nas caçambas de madeira umas postas do peixe desejado, que depressa, começou a ser saboreado pela turba.

 Baccalau com cebola
Perguntou-lhe o grego ADERITTUS:
- Ó Mestre, isto é o tal Baccalau?


Perguntou -lhe o latino FOREL:
- Ó Mestre, que peso atinge este peixe?


Perguntou -lhe o castelhano ROLDAN:
- Ó Mestre, o baccalau é um peixe muito grande?


Perguntou -lhe o hebraico ADAMAH:
- Ó Mestre,  como se pesca o baccalau?


Perguntou -lhe o fenício XETTA?
- Ó Mestre, pesca-se à rede ou ao palangrote?

Perguntou -lhe o hebraico BOAZ:
- Ó Mestre,  onde o pesca? 


Perguntou-lhe o inglês PAUIM:
- Ó Mestre, é muito abundante?


Perguntou-lhe o romano PAVIA:
- Ó Mestre, que barco utiliza?


Perguntou-lhe o macedónio NESTTOR:
- Ó Mestre, que isco usa?


Perguntou-lhe o lusitano MARCUS:
- Ó Mestre, como conserva o baccalau?


Perguntou-lhe o de Saragoça BORJA:
- Ó Mestre, diga-nos tudo, se não se importar.


E as perguntas continuaram noite dentro, com o RUI-M a acender mais velas e a avivar o fogo da lareira. Trouxe umas novidades:
- Comeinde agora este bolo belga e este pudim de mel.
- Diz-me lá ó RUI-M este bolo preto é  da tua terra?

Bolo belga
Ria-se o jeitoso.
Terminou esta intrigante noitada, com uma bebida quente servida em taças, também  de cor preta. A dama do Borga pediu cachaça para aclarar aquela bebida amarga e a dama do Xetta cantou uma ária - um Fadado.
Por último, o Osgar agradeceu a visita e o Borja a receptividade e as informações sobre o baccalau.
O fogoso Marcus falou sobre Água e sobre Merda (esta a mais) nas águas do Mar do Porto. Entregou um pergaminho de papiro a cada companheiro.

6. As alcoviteiras 
Viriato

Este jantar chegou aos ouvidos de Viriato, um chefe lusitano do interior montanhoso. As alcoviteiras (As jornalistas da época) tinham-se encarregado de transmitir o evento. Falaram-lhe de AMIZADE e de PARTILHA.
- Como? Que é isso?
Logo Viriato reuniu as tropas e procurou o atuneiro Marcus, a querer saber, pois poderiam ser romanos a engendrarem astúcia.
Ficou esclarecido:
- Pesca-se bom baccalau no mar ao largo do Amial.
- Nasceu uma palavra nova – AMIZADE.
- Acrescentou-se, por imposição do filósofo Aristóbulo, a palavra PARTILHA. 
O certo, é que este conjunto de pescadores e respectivas damas, acabaram por criar o melhor presente que existe: partilhar amizade.
Ainda hoje não se sabe se esta invenção fez caminho. O baccalau fez.

Taberna do ÓSGAR, aos 25 dias do sagrado mês de Novembro, do ano 147 AC (actualmente 25 de Novembro de 2017).
O escriba, Borja de Saragoça (actualmente Luís M. Borges).