segunda-feira, 10 de julho de 2017

89. MEMÓRIAS DO ALTO MAR



O grilo

 
1.Preocupações

A preocupação agarrou-me. As nossas pescarias do alto mar talvez estivessem em suspenso durante um tempo. Primeiro porque as nortadas e consequentemente a vaga em “carneirinhos” dificultava a sua prática; segundo porque o Cheta estava a chegar-lhe a data da partida para férias e ele é fundamental na navegação; terceiro porque o Forte tinha ideias de investir lá para Viana em pescarias aos bocas-negras, pelo que não o estimulava ir connosco; por último o Malheiro, sei que havia qualquer coisa com ele, mas não me lembro…

 Boca-negra

Mas, estas pesadas e incómodas preocupações volatilizaram-se quando o Óscar me telefonou a marcar saída, informando-me também que a equipa iria completa. Desta vez. 


2.Escolhas criteriosas

Fui eu que levei o “comer”. Uns camarões e uns panados.
É preciso de vez em quando variar o cardápio. A massa e o arroz dão jeito para se cozinharem no barco, mas continuam a ser uma constante.  Não é que não aprecie os excelentes arrozes e massas que o Óscar elabora com mão de mestre, nas repito, no variar é que se desenvolve o paladar do ser humano.


Só mais uma coisita, de somenos importância: depois do repasto, concluí que os molhos apropriados para o camarão, me irritaram os intestinos. Estes exigiram rapidamente um reparo e o que salvou a cueca foi sem dúvida o melhor WC de todo o Oceano Atlântico. Talvez decida explicar melhor esta forma engenhosa e peculiar de cagar em alto mar. Só preciso de umas fotos algo privadas, a fim de exemplificar.


3. Mar rapado

Havia uma ânsia e uma enorme esperança, de que os nossos queridos gorazes, se fariam aos nossos anzóis com vontade de comer. Depois da última pescaria, um êxito assinalável, pensava-se que talvez o milagre se repetisse. Era possível. E também porque eu, o Óscar e o Cheta, queríamos que o nosso comum amigo Forte, pescasse gorazes e não bocas-negras.


Felizmente, todos nós acabamos por criar o nosso próprio destino. Os nossos olhos neste dia, não ficaram maravilhados: alguns cantarilhos-legítimos de tamanho médio, mais um ou outro gorazito, uns tantos carapaus e fanecas e no final um simpático congro.. 


Em resumo, cada um meteu na arca 14 exemplares da biologia marinha Atlântica, os que se disponibilizaram a cederem-nos as suas preciosas vidas. Aceitámos com honra esta simbólica oferta da natureza. 


Nem sempre o excesso nos satisfaz, por muitas e variadas razões. Como diz o Cheta:
- Um peixe tem leme e barbatanas.

"Bobo" cavalgando um grilo
(Imagem retirada do Pinterest)
4. O grilo

Existe um grilo na Marina de Leça. Tem cantado que se farta (cri-cri-cri) e com esta arte tem surpreendido os pescadores lúdicos, que por ali se juntam. Não se discute outra coisa na Marina.
Será que incomoda? Claro que incomoda, a alguns…
Um dia destes, alguém por distração, lhe porá um pé em cima e o esmagará. Iremos todos ficar muito tristes…certamente…
  
O grilo 

“O grilo gritou no saco

Gritou no papo do sapo

Gritou no poço

Gritou na cara do moço

Gritou no mato

Gritou no sapato.

E de repente

Pra espanto da gente

Não gritou mais.”

Poesia de Almir Correia

Marina de Leça, 05 de Julho de 2017
Luís M. Borges

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