O grilo
1.Preocupações
A preocupação agarrou-me.
As nossas pescarias do alto mar talvez estivessem em suspenso durante um tempo.
Primeiro porque as nortadas e consequentemente a vaga em “carneirinhos”
dificultava a sua prática; segundo porque o Cheta estava a chegar-lhe a data da
partida para férias e ele é fundamental na navegação; terceiro porque o Forte
tinha ideias de investir lá para Viana em pescarias aos bocas-negras, pelo que
não o estimulava ir connosco; por último o Malheiro, sei que havia qualquer
coisa com ele, mas não me lembro…
Boca-negra
Mas, estas pesadas e
incómodas preocupações volatilizaram-se quando o Óscar me telefonou a marcar
saída, informando-me também que a equipa iria completa. Desta vez.
2.Escolhas criteriosas
Fui eu que levei o
“comer”. Uns camarões e uns panados.
É preciso de vez em
quando variar o cardápio. A massa e o arroz dão jeito para se cozinharem no
barco, mas continuam a ser uma constante.
Não é que não aprecie os excelentes arrozes e massas que o Óscar elabora
com mão de mestre, nas repito, no variar é que se desenvolve o paladar do ser
humano.
Só mais uma coisita,
de somenos importância: depois do repasto, concluí que os molhos apropriados
para o camarão, me irritaram os intestinos. Estes exigiram rapidamente um
reparo e o que salvou a cueca foi sem dúvida o melhor WC de todo o Oceano
Atlântico. Talvez decida explicar melhor esta forma engenhosa e peculiar de
cagar em alto mar. Só preciso de umas fotos algo privadas, a fim de
exemplificar.
3. Mar rapado
Havia uma ânsia e uma
enorme esperança, de que os nossos queridos gorazes, se fariam aos nossos
anzóis com vontade de comer. Depois da última pescaria, um êxito assinalável,
pensava-se que talvez o milagre se repetisse. Era possível. E também porque eu,
o Óscar e o Cheta, queríamos que o nosso comum amigo Forte, pescasse gorazes e
não bocas-negras.
Felizmente, todos nós acabamos
por criar o nosso próprio destino. Os nossos olhos neste dia, não ficaram
maravilhados: alguns cantarilhos-legítimos de tamanho médio, mais um ou outro
gorazito, uns tantos carapaus e fanecas e no final um simpático congro..
Em
resumo, cada um meteu na arca 14 exemplares da biologia marinha Atlântica, os
que se disponibilizaram a cederem-nos as suas preciosas vidas. Aceitámos com honra
esta simbólica oferta da natureza.
Nem sempre o excesso
nos satisfaz, por muitas e variadas razões. Como diz o Cheta:
- Um peixe tem leme e
barbatanas.
"Bobo" cavalgando um grilo
(Imagem retirada do Pinterest)
(Imagem retirada do Pinterest)
4. O grilo
Existe um grilo na
Marina de Leça. Tem cantado que se farta (cri-cri-cri) e com esta arte tem
surpreendido os pescadores lúdicos, que por ali se juntam. Não se discute outra
coisa na Marina.
Será que incomoda?
Claro que incomoda, a alguns…
Um dia destes, alguém
por distração, lhe porá um pé em cima e o esmagará. Iremos todos ficar muito tristes…certamente…
O grilo
“O grilo gritou no saco
Gritou no papo do sapo
Gritou no poço
Gritou na cara do moço
Gritou no mato
Gritou no sapato.
E de repente
Pra espanto da gente
Não gritou mais.”
Poesia de Almir Correia
Marina de Leça, 05 de Julho de 2017
Luís M. Borges

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