quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

74. MEMÓRIAS DO ALTO MAR




Belo domingo 


1.Premissas
Primeiro, uma semana violenta em termos meteorológicos. Inverno a sério. De tudo, só o conforto da lareira, sopa de penca, mais o inefável Galo de Barcelos em cabidela. Neste ultimo caso, o Forte no seu melhor,
Segundo, o mar a ir abaixo, com o Domingo na mira. De tudo, só a vontade de pescar e o convívio, porque frio e vento não se podem mandar embora.


2. Duas horas
Apoitar? Querias…
Foi no 04 que o problema se colocou, com a âncora a recusar-se. Dizia o Cheta:
- Pronto, ela não quer prender.
E o Óscar a irritar-se!
Foram 120 minutos de uma cena bastarda, com vento e correntes fortes, em absoluta contradição. O barco guinava, o barco deixava-se ir à deriva, o barco não obedecia.
O frio agreste e a ausência de início de jogo, mais avivava o problema.
E o Óscar a irritar-se!
Até que, um paralelo retirado certa vez da calçada da Rua do Meco em Matosinhos, foi acoplado à âncora, para lhe dar reforço. E a âncora acabou por bem desempenhar o seu papel, permitindo que a actividade laboral se iniciasse. Eram 10h30.


3. Devagar…devagarinho
O Cheta tira um sargo e um besugo e pula de contente. Logo, logo, os outros companheiros o imitam com fervor, porque a meio da manhã o resultado era zero no cabaz, cousa impensável, que devia ser colmatada rapidamente. Foi dar-lhe, pausadamente, tipo velocidade de cruzeiro, até que o primeiro cabaz se foi enchendo, como um estádio de futebol.


Às 12h00 já o segundo se posicionava para a enchente e às 13h00 bateu na “mouche” o terceiro.
- Rapaziada trabalhadora, com vontade de vencerem.


O Óscar tinha arrumado a irritação e esfuziava de entusiasmo. O Lamas chamou a si duas canas: a nova e a velha (tentou casar com ambas ao mesmo tempo). Ora nós sabemos que dormir com duas mulheres, para mais uma cheia de experiência mas gasta, outra cheia de genica mas virgem, verdadeiramente não dá. O Cheta repetia: - já temos para o tacho e ria-se. Quanto a mim, como de costume, insultei muitos peixes, enganchando uns bons sargos.
Foi assim até às 13h30. A esta hora chegou a absolvição, pela mão do Óscar.


4. Moelas
Se há fígados, pescoços, patas, também há moelas. O frango é um ser multivariado. O Óscar escolheu moelas e estufou-as. A massa acompanhou.
O Óscar repetiu a pratada, eu tripeti, o Cheta tetrapetiu e o Lamas não sei.
Como é que o Óscar consegue fazer uma massa com moelas, sem se irritar? E mais…com aquele sabor?
Café entornado, um pedaço de queijo, uma rolhita de whisky. A harmonia visível.
Alguém desesperado, berrava na rádio, com insistência:
- Oh IVA.
Os amigos disseram-lhe que tinha piada. Acreditou. Anormal.


5. Bogas-do-mar
Por entre sargos e carapaus, nem uma faneca.
Por entre choupas e besugos, nem um pargo.
Foi isto, embora não tenha sido só isto, pois por entre sargos, carapaus, choupas e besugos, muitas bogas-do-mar. Ora, este peixe não existe para os pescadores, pois é um rejeitado. Quando surgem em cardume, tomam conta do lugar e obviamente atacam os iscos dos anzois com energia, antecipando-se às outras espécies. Malogrados pescadores, que caiam, neste enxame de moscardos. Têm a pescaria estragada.
E o Óscar irritou-se de novo, pois calhou-lhe a ele ter sido o CAMPEÃO das bogas.
- Campeão, campeão, campeão…
Em uníssono, todos cantaram este refrão. Recusou-se a tirar uma foto com um par de bogas, para efeitos de registo. Mas, a foto conseguiu-se. Eu substitui-o. O Lamas tirou-me a foto, cuja legenda neste blogue é, como podem ler, “A boga que o Óscar não quis”.
Mas, pensando melhor, até se compreende a atitude de repúdio do Óscar. Ele, o melhor, o pescador dos grandes peixes e também o excepcional, o pescador que mais peixe captura nesta embarcação, sentiu-se traído pelas bogas, as quais lá em baixo o tinham designado para o boicote. Estas “cagonas” são incríveis, pois atacavam às duas e às três. Houve alturas, que todos nós, só trazíamos bogas e todas anafadas.


- Que fenómeno. Isto dos peixes tem que se lhe diga.
Nunca acontece uma pescaria ser igual a outra. Há sempre, para além do pescado básico, a excepção. Neste dia, as artistas foram as bogas, gordas e roliças. Gostei particularmente da língua delas (vermelha tipo braço de polvo, mesmo com pequenas ventosas). Que estranho!


6. Ao fim do dia
O sol ia baixando inexoravelmente. Os relógios faziam correr as horas para as 17. O isco estava nas últimas. Pelo que…nos ponteiros das 16h45, o árbitro deu por encerrado o jogo no belo estádio, com a equipa a ganhar 4-0. Vitória bem saborosa.
Regressámos à Marina a gaz, de modo a evitar sermos apanhados pela noite no mar.
O Óscar já está em forma.
Belo domingo. Quero mais domingos assim.


Leça, 27 de Novembro de 2016
Luís M. Borges





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