quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

73. MEMÓRIAS DO ALTO MAR




O profundo: erros e azares



1.Montagens
Penso que o diâmetro dos fios e o tamanho dos anzóis utilizados nos aparelhos, não se mostraram adequados. A regra lógica da resistência dos fios em decrescendo até à chumbada, não me pareceu ser a mais indicada:
- Fio amortecedor 0,70
- Fio base do aparelho 0,60
- Estralhos 0,50


Por sua vez, os anzóis em tamanhos 3/0, ficavam visíveis no isco, mesmo com os troços de sardinha e de cavala volumosos.
Sem querer, de modo nenhum, diminuir a experiência e o saber dos meus colegas, na próxima pescaria aos gorazes irei aplicar aparelhos com fios mais finos e anzóis de tamanho mais reduzido. Talvez respectivamente e em decrescendo, fios 0,40, 0,35, 0,28, bem como os 0/1 e 1/0.
Porquê? Porque os peixes, os tão desejados gorazes são muito pequenos (de meio a um quilo).


2.Carretos eléctricos e canas
Todos queriam descomplicar, mas eu e o Malheiro mais. A novidade de pescar com carreto elétrico pela primeira vez, criou-nos, pelo menos a mim, alguma ansiedade. Houve uns momentos que desejei estar a pescar sargos, tranquilamente, com a minha cana leve e o meu carreto manual. Não expressei o meu desejo, pois seria uma heresia e até uma contradição.
Não foi fácil adaptar-me ao carreto elétrico e até às chumbadas de meio quilo. Mas, lá me fui ajeitando.


Mas outro acidente aconteceu. A páginas tantas os carretos, feitos vedetas, recusaram-se a trabalhar. Que foi? Ora, foi a velha bateria do barco, que não aguentou a pedalada. Cinco elétricos a funcionar, geram inevitavelmente demasiado consumo.
Esta desilusão quase ia dando nota negativa ao novo material, pela dependência à bateria. 


3.Pequenos e poucos
As duas razões apresentadas anteriormente não desculpam a má pescaria. Saíram 7 gorazes, 12 cantarilhos, 2 carapaus e 5 fanecas, embora menores.
Esta pequena dose de pescado, até serve de exemplo ao tema seguinte, este sim, uma das causas mais plausível do fracasso.


4.Cinco a pescar não dá
Tudo enredado. Todos com todos, às vezes aos três. Perdi 70 metros de multifilamento, transformado em novelo indestrinçável, que só uma tesourada resolveu.
O falatório de acusações sempre foi muito utilizado no Fosmar. Quase se zangam às vezes estas comadres. Mas a verdade, se a quisermos descobrir, encontramo-la facilmente: 5 pescadores a pescarem no profundo não resulta. É evidente que o facto de se estar a pescar a uma profundidade de 200 metros, com chumbeiras de meio quilo e mais, dá origem: 1º a enormes “seios”; 2º lá no fundo um simples carapau ferrado no anzol, enreda facilmente os diversos fios, porque a área de natação é pequena.
Que fazer? Tenho algumas sugestões. Pode ser?
- Dos 5 pescadores, só devem estar em acção de pesca 2 ou 3. Os restantes apoiam e revezam-se;
- Pescar com chumbadas mais pesadas;
- Manter a linha esticada com a chumbada a uns centímetros do fundo, sem ficar pousada;
- Aplicar a velocidade máxima na subida dos peixes, dentro da relatividade do tamanho do peixe;
- Utilizar canas mais compridas, de modo a alargar a área de circulação do peixe, evitando-se assim que alcance as outras linhas.


É evidente que tudo que referi pertence ao reino das ideias. Teremos que nos adaptar a esta nova vertente da pesca de alto mar, a bem do nosso prazer pessoal. Há muito para discutir e há igualmente muito a decidir por unanimidade.


5.Bacalhau molhado ou dourado?
A hora do tacho, como diz o Cheta, contava com o Malheiro para se concretizar. Vai daí, saca o fogão, enfia-o no suporte de madeira, deita azeite no tacho, acrescenta-lhe cebola e depois o bacalhau desfiado. Com a colher de pau começa a mexer constantemente o conjunto. Contudo, este chefe da culinária, precisou de se deslocar à proa, a uma urgência…E quem substituiu o Malheiro no tacho, na mexedela do bacalhau? Ora, o septuagenário.
Mexeu, mexeu, mexeu e tanto mexeu, que se esqueceu de acrescentar a batata frita palha. O Malheiro aflito, em defesa da sua reputação, veio tentar completar o cozinhado: acrescentou ovos, salsa, azeitonas, fiambre e disse:
- Está pronto o bacalhau dourado!
Todos estranharam aquele dourado, que era mais amarelo pálido. Mas, perante a necessidade de glutir, a malta lá se ajeitou por entre os pingos da chuva, que caía a bom caír. Da cobertura da cabina vazava a água em catarata a cair nos pratos e na panela. Se calhar foi esta água em demasia, que deu aquela cor ao bacalhau. Tinha água a mais e cor dourada a menos…Kkkkkkkkkkkkk
Mas, ainda aconteceram mais peripécias:
- Não havia saca-rolhas…o sagrado “sacra-rolhas”
- O café empenou na velha cafeteira, que nem tampa tinha
- O açúcar, as colheres e o bagaço demoraram imenso, para além da paciência
- A sobremesa do Malheiro, comprada no LIDL, soube a industrial. Mas era gostosa…
- O meu habitual queijo só foi aceite pelo Óscar e fiquei triste.


6. A chuva
É raro a chuva molhar a água do mar. Em 50 saídas no Fosmar, foi a segunda vez, que tal se verificou. Incomodativa, esta chuva ensopou o Malheiro e molhou a vaidade no cu das calças do Forte. Aos outros três desiludidos pescadores, valeu-lhes a estratégia de terem conseguido fintar os pingos da chuva, utilizando o “zag-zig”. Não conhecem? Um dia destes eu explicarei…


7.Na Marina
Entrámos com chuva, mas felizmente a dita parou, o que permitiu a lavagem criteriosa da embarcação, pois de tanto peixe, havia escamas por todo o lado!
Fizemos juras de amor à pesca no profundo, com a garantia de que para a próxima, seria muito melhor.
Em casa, a minha esposa, estupefacta, perguntou:
- Só isto?
Bendita Lua Cheia, a maior do quarto de século, que nos irá passar a alumiar. Certamente, irá fazer com que possamos ver melhor no escuro do profundo, as verdades deste tipo de pesca.
Até à próxima.

Ah…uma coizita:
- Não seria um gaijo?

Leça, 12 de Novembro de 2016
Luís M. Borges





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