O profundo: erros e azares
1.Montagens
Penso que o diâmetro dos fios e o tamanho dos anzóis utilizados nos
aparelhos, não se mostraram adequados. A regra lógica da resistência dos fios em
decrescendo até à chumbada, não me pareceu ser a mais indicada:
- Fio amortecedor 0,70
- Fio base do aparelho 0,60
- Estralhos 0,50
Por sua vez, os anzóis em tamanhos 3/0, ficavam visíveis no isco, mesmo
com os troços de sardinha e de cavala volumosos.
Sem querer, de modo nenhum, diminuir a experiência e o saber dos meus
colegas, na próxima pescaria aos gorazes irei aplicar aparelhos com fios mais
finos e anzóis de tamanho mais reduzido. Talvez respectivamente e em
decrescendo, fios 0,40, 0,35, 0,28, bem como os 0/1 e 1/0.
Porquê? Porque os peixes, os tão desejados gorazes são muito pequenos (de
meio a um quilo).
2.Carretos eléctricos e canas
Todos queriam descomplicar, mas eu e o Malheiro mais. A novidade de
pescar com carreto elétrico pela primeira vez, criou-nos, pelo menos a mim,
alguma ansiedade. Houve uns momentos que desejei estar a pescar sargos,
tranquilamente, com a minha cana leve e o meu carreto manual. Não expressei o
meu desejo, pois seria uma heresia e até uma contradição.
Não foi fácil adaptar-me ao carreto elétrico e até às chumbadas de meio
quilo. Mas, lá me fui ajeitando.
Mas outro acidente aconteceu. A páginas tantas os carretos, feitos
vedetas, recusaram-se a trabalhar. Que foi? Ora, foi a velha bateria do barco,
que não aguentou a pedalada. Cinco elétricos a funcionar, geram inevitavelmente
demasiado consumo.
Esta desilusão quase ia dando nota negativa ao novo material, pela
dependência à bateria.
3.Pequenos e poucos
As duas razões apresentadas anteriormente não desculpam a má pescaria. Saíram
7 gorazes, 12 cantarilhos, 2 carapaus e 5 fanecas, embora menores.
Esta pequena dose de pescado, até serve de exemplo ao tema seguinte, este
sim, uma das causas mais plausível do fracasso.
4.Cinco a pescar não dá
Tudo enredado. Todos com todos, às vezes aos três. Perdi 70 metros de
multifilamento, transformado em novelo indestrinçável, que só uma tesourada
resolveu.
O falatório de acusações sempre foi muito utilizado no Fosmar. Quase se
zangam às vezes estas comadres. Mas a verdade, se a quisermos descobrir,
encontramo-la facilmente: 5 pescadores a pescarem no profundo não resulta. É
evidente que o facto de se estar a pescar a uma profundidade de 200 metros, com
chumbeiras de meio quilo e mais, dá origem: 1º a enormes “seios”; 2º lá no
fundo um simples carapau ferrado no anzol, enreda facilmente os diversos fios,
porque a área de natação é pequena.
Que fazer? Tenho algumas sugestões. Pode ser?
- Dos 5 pescadores, só devem estar em acção de pesca 2 ou 3. Os restantes
apoiam e revezam-se;
- Pescar com chumbadas mais pesadas;
- Manter a linha esticada com a chumbada a uns centímetros do fundo, sem
ficar pousada;
- Aplicar a velocidade máxima na subida dos peixes, dentro da relatividade
do tamanho do peixe;
- Utilizar canas mais compridas, de modo a alargar a área de circulação
do peixe, evitando-se assim que alcance as outras linhas.
É evidente que tudo que referi pertence ao reino das ideias. Teremos que
nos adaptar a esta nova vertente da pesca de alto mar, a bem do nosso prazer
pessoal. Há muito para discutir e há igualmente muito a decidir por
unanimidade.
5.Bacalhau molhado ou dourado?
A hora do tacho, como diz o Cheta, contava com o Malheiro para se
concretizar. Vai daí, saca o fogão, enfia-o no suporte de madeira, deita azeite
no tacho, acrescenta-lhe cebola e depois o bacalhau desfiado. Com a colher de
pau começa a mexer constantemente o conjunto. Contudo, este chefe da culinária,
precisou de se deslocar à proa, a uma urgência…E quem substituiu o Malheiro no
tacho, na mexedela do bacalhau? Ora, o septuagenário.
Mexeu, mexeu, mexeu e tanto mexeu, que se esqueceu de acrescentar a
batata frita palha. O Malheiro aflito, em defesa da sua reputação, veio tentar completar
o cozinhado: acrescentou ovos, salsa, azeitonas, fiambre e disse:
- Está pronto o bacalhau dourado!
Todos estranharam aquele dourado, que era mais amarelo pálido. Mas,
perante a necessidade de glutir, a malta lá se ajeitou por entre os pingos da
chuva, que caía a bom caír. Da cobertura da cabina vazava a água em catarata a
cair nos pratos e na panela. Se calhar foi esta água em demasia, que deu aquela
cor ao bacalhau. Tinha água a mais e cor dourada a menos…Kkkkkkkkkkkkk
Mas, ainda aconteceram mais peripécias:
- Não havia saca-rolhas…o sagrado “sacra-rolhas”
- O café empenou na velha cafeteira, que nem tampa tinha
- O açúcar, as colheres e o bagaço demoraram imenso, para além da paciência
- A sobremesa do Malheiro, comprada no LIDL, soube a industrial. Mas era
gostosa…
- O meu habitual queijo só foi aceite pelo Óscar e fiquei triste.
6. A chuva
É raro a chuva molhar a água do mar. Em 50 saídas no Fosmar, foi a
segunda vez, que tal se verificou. Incomodativa, esta chuva ensopou o Malheiro
e molhou a vaidade no cu das calças do Forte. Aos outros três desiludidos
pescadores, valeu-lhes a estratégia de terem conseguido fintar os pingos da chuva,
utilizando o “zag-zig”. Não conhecem? Um dia destes eu explicarei…
7.Na Marina
Entrámos com chuva, mas felizmente a dita parou, o que permitiu a lavagem
criteriosa da embarcação, pois de tanto peixe, havia escamas por todo o lado!
Fizemos juras de amor à pesca no profundo, com a garantia de que para a
próxima, seria muito melhor.
Em casa, a minha esposa, estupefacta, perguntou:
- Só isto?
Bendita Lua Cheia, a maior do quarto de século, que nos irá passar a
alumiar. Certamente, irá fazer com que possamos ver melhor no escuro do
profundo, as verdades deste tipo de pesca.
Até à próxima.
Ah…uma coizita:
- Não seria um gaijo?
Leça, 12 de Novembro de 2016
Luís M. Borges
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