“Quando os sinos dobram”
1. Condições
Na véspera, as perspectivas de um bom mar para a prática da pesca no sábado,
eram razoáveis:
- Velocidade do vento – grau 1 até às 13h00, depois grau 7
- Rajadas de vento – grau 2 até às 13h00, depois 8
- Direcção do vento – até às 13h00 de noroeste, depois sudoeste
- Ondulação - 1 metro até às 13h00, depois sempre a aumentar
- Período da vaga – grau 9 até às 16h00, depois a partir das 16, grau 12
- Direcção da vaga – sudoeste
- Temperatura – dos 14 aos 21 graus (das 07 às 16h0p)
- Nebulosidade – média, grau 48.
2. Relógios parados
O sítio primeiro deste dia de afazeres iguais, ocultava um leito
calcetado de pouca coisa. Esta pouca coisa eram os sempre presentes serranos.
No barco isolado escorriam os minutos, o barulho do silêncio incomodava e os
bocejos inúteis eram do comprimento do mundo, como diria F. Pessoa.
Nesta cena de filme parado, o Óscar ordenou mudança. Numa vintena de
segundos a rumar, iríamos tentar abrir novas páginas, com implicações de pesca.
Vã tentativa. Miniaturas de peixes, inclusive sem grau académico, criaram nova
cena de carência. Na cabina, o rádio berrava outras vozes, a bradarem à míngua.
Dir-se-ia, que a fraca colheita era geral, uma espécie de maldição a cobrir
toda a zona.
Sem peixe não se pode pescar. Sem peixe nasce o desânimo. Haveria de novo
que tomar decisões:
- Vai no “fica” ou vai no “ir”?
O Óscar, depois de ter saboreado uma sande de atum, à falta do salpicão
de Vinhais, deu a resposta e ditou:
- Vamos sair desta modorra. É no “ir” para o 03, que fica a uma 1,7 milha
daqui.
3. 120 badaladas
Talvez, porque mudaram as pilhas aos relógios, eis que os ponteiros
(ponteiras, claro) se começaram a mexer, ao som de um tic-tac perfeito:
- Tic: 1 sargo
- Tac: 1 besugo
- Tic: 1 carapau
- Tac: 1 choupa
Os relógios trabalharam bem, em perfeita sincronização, das 11 às 13h00.
Se 1 hora tem 60 minutos, 2 horas têm 120 minutos, então os relógios contaram
bem o tempo e nós os peixes. Até soaram badaladas como se fosse em sino de
igreja de fazerem tapar os ouvidos. Só peixe graúdo em ritmo.
O Cheta torcia-se de prazer, o Óscar gabava-se em êxtase, o Malheiro mudo
em concentração absoluta e o Luís a insultar os peixes.
Estes quatro predadores ficaram “todos
rotinhos”…o Óscar nem tanto, pois tinha um relógio eléctrico.
4. Na tasca do Inventor
1 cebola; feijão encarnado; 1 molhinho de couve galega; carnes diversas
(frango, vitelão, porco, chouriço), tomate e demais condimentos.
Foi no atacar a feijoada dita à transmontana, que óbviamente foram esquecidas,
as tão prometidas pataniscas de sargo.
Ali se viu a arte de bem cozinhar. Todos afirmaram, concordando com o
Cheta:
- O tacho está bom!
Este Malheiro é um caso sério.
5. Sapatilhas azuis
Pelas 14h30 surgiu um incentivo: dos quatro, o pescador que conseguisse
pescar o primeiro Pargo, ganharia um relógio “rolex”.
Abriram-se as bocas de espanto.
- Um “rolex”? E se fosse brincar com a sua tia?
- É verdade. Irei tentar arrematá-lo na próxima Feira da Vandoma.
Não acreditaram. Fizeram bem. Às vezes sou um lírico. Não sei o que me
passou pela cabeça – talvez o sol…
Depois desta brincadeira esperei pela chegada de um Pargo. Não veio. Penso
que estes peixes não gostam das sapatilhas azuis do Cheta.
Quanto aos escamas, nesta ponta final, apareceram os mesmos intérpretes
mínimos do costume. Deu para evitar a sornice…
6. End
Faziam-se horas de regressar. A pesca estava feita. Acabámos por manter a
nossa dignidade íntegra, pois conseguimos afastar o enguiço (não há duas sem
três) e reduzir o défice das 2 poitadas iniciais, num satisfatório resultado
final.
Depois caiu um pesar sobre o barco, por causa de uma trágica notícia, que
o Óscar recebeu. Teve de regressar rapidamente à Marina.
Caro Óscar, condolências…
Leça, 10 de Setembro de 2016
Luís M. Borges
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