quinta-feira, 8 de setembro de 2016

68. Memórias do alto mar



Ai, Julieta…
 
1.Ponto da situação 

 Restaurante "O Leme"

Fizemos uma espécie de reunião prévia, a meio desta semana, em Barcelos, no Restaurante “O Leme”. Só perdeu quem se fez ausente, neste caso o Malheiro, e só ganhou o Lamas, que ocupou a vaga. Não se tira o prazer em vão.
Pois…a D. Rosa admirou-nos novamente, nos pormenores: com a qualidade e o requinte dos aperitivos; com o tamanhão dos dois bichos; com a feição e o sabor do arroz de cabidela. Só que não nos despedimos dela…não foi intencional…a boa disposição dos pescadores com boca, quando se levantaram da mesa, fez esquecer a etiqueta.

 O famoso galo de Barcelos

Voltando atrás, reparei numa cena: o Cheta e o Óscar, quando a travessa com os capões chegou à mesa, excitaram-se – as moelas, as coxas e as patas - foram imediatamente surripiadas. Preferências!
Caramba, destas reuniões precisamos todos de muitas, pois sempre permitem debater cousas, div ersas cousas sérias, está bem? Faço o resumo, tendo-se debatido:
- A fraquíssima prestação do Forte na última saída;
- A corrente violenta que se fez sentir mais os complicadíssimos engatanços de linhas;
- A irónica acusação do Forte, ao considerar que o Cheta, quando vai pôr o ferro, o coloca à feição dele, prejudicando o resto do pessoal;
- A improvável pesca no profundo aos gorazes e aos chernes, um tema recorrente e dispendioso;
- Por último, um item fora do contexto – recordações da tropa – via Lamas e Forte. 

 Forte

Mas, não cansou, antes encheu. “O prazer da comida é o único que, desfrutado com moderação, não acaba por cansar.” Brillat-Savarin.
Bela reunião. Muito surpreendente, dada a gentileza do Forte, que fez questão...aqui se agradece…
2. Divagações sobre canas
Que me lembre, ter o Forte connosco duas vezes seguidas, foi uma agradável novidade. Trouxe- nos mais uma cana nova, com um estojo bonito azul cativante. Mostrou-a à malta, como se fosse um fetiche.

 Forte: a descontrair

Na verdade, a prestação da cana em acção de pesca entusiasmou-o, pelo que começou a sacar, e todas as vezes que tirava um bom peixe, perguntava ao Cheta:
- Cheta, é para cortar o rabo a este sargo?

 Foi assim...

Ao que o Cheta respondia, lamentando-se:
- Só tiro “serrões”…só “serrões”…

 Faneca

Mas, a cana do Óscar, ciumenta, também “botou basta peixarada”. De cor dourada, mais comprida, de um equilíbrio perfeito, habituada às mãos do dono, puxou consecutivamente belos peixes.
Já o Malheiro continuava a utilizar, com bastante proveito, uma cana Super-Hulk. Foi uma excelente cana – agora está velha. As canas são como as mulheres – já foram boas. Mas, o Malheiro faz bem em pescar com relíquias, pois de museus está o mundo cheio!

 Sargo

Quanto ao Cheta, triste e desiludido, por causa da falta do seu preciosíssimo carreto, dava à manivela com raiva e ia partindo ponteira atrás de ponteira. Eu nunca vi alguém partir tanta ponteira. E quanto a peixe…”serrões”…kkkkkkk. Daqui faço um apelo ao Forte: que ofereça ao Cheta uma das suas dezenas de canas, que costuma espetar na terra da horta, para que os feijões trepem. E quando chegar o carreto eléctrico, teremos de novo o nosso Cheta, pleno de contentamento, feliz.

 Canário do mar

Por último, o Borges. Todos sabem que ele é um cliente dedicado da Decathlon, pelo que a sua cana de 2,70 m, rija, versátil, de cores discretas e barata, faz o pleno. O Borges, não alinha na ilusão das boas novidades, nem na treta dos saltos tecnológicos  (maravilha das maravilhas) e muito menos na vaidade saloia de que com canas caras, é que se tira peixe. “Na senhor...”.
Em resumo, 5 pescadores, 5 mentalidades, 5 canas distintas...cada qual com a sua camisola.

3. Bocas de peixe
Os serranos são os peões da brega. São a primeira linha do exército. Morrem sempre em primeiro lugar. Agressividade alimentar? Claro. Há quem diga:
- Temos primeiro que limpar o pesqueiro.

 Faneca

As fanecas são “o gado do Senhor”. Era assim, era…no antes de algum tempo atrás, todos os pescadores consideravam a faneca a salvação da pescaria, pois a sua abundância, permitia compor cabazes. Agora, está quieto...
Os pargos, os reis da conquista, os troféus excelentíssimos de todo e qualquer pescador feliz ou infeliz, deixaram os fundos e parece que agora nadam à superfície, de tão raros.
E de sargos, choupas, besugos, onde param estas bocas famintas?
Desertos estão os fundos do mar… solitários, choram os peixes errantes… às voltas no ar, gemem as gaivotas por comida… no barco, sentam-se os pescadores, à espera…

 Carapau

- Falai comigo peixes. Dizei-me o que se passa. Dêem à língua. Abram a boca. Mostrem os dentes. Arregalem os olhos.
Não fossem os vigorosos carapaus, que por enquanto ainda nos ajudam, este dia de pesca só contaria com uma caixita de peixe.

4. Ai, Julieta
- Ai, Julieta…que boas lulas me vendeste.
E saiu caldeirada, com o aconchego do Óscar em panela grande, mas pequena para os três quilos de lulas e para o apetite, pois a compensação da exiguidade da pescaria e de alimento, fazia-se – comendo. 

 Caldeirada de lulas

Nada restou. Foi comer à “tripa forra”, para uma digestão difícil e demorada. A mistura de batata com massa, mais o tomate, o pimento e a cebola, geraram uma bomba intestinal, que começou a provocar turbulências, dando origem a manifestações sonoras de certa envergadura. E os gajos riam-se. Alguém pediu:
- Mais contenção por favor. Peidem-se mas com naturalidade. Não é necessário fazer uma festa, só por causa de uns sons esquisitos, vindos de baixo.

5. A deusa Tétis

 "A Deusa Tétis"

Eram 17h00 quando se zarpou daquele sítio rumo à Marina de Leça, já com um manto cinzento no mar, a encobrir também céu e terra. Com olhos do Cheta e mãos do Óscar, o barco deslizou sobre as águas serenas do mar, afundando-se no cinzento. O pior foi mesmo a entrada na Marina, com mil cuidados à procura de sinais, de contornos e de cores. Estas surgiram ténues: os mastros de um grande veleiro, o amarelo dos rebocadores e o maciço dos molhes.

 Cheta: desanimado

A deusa de Tróia, Tétis, de vez em quando desce até Matosinhos, fazendo-nos sentir a sua presença. É a deusa do mar e como tal, caprichosa.
E atracou-se, com a ajuda do Lamas, o “Mestre” dos cursos de navegadores de recreio.

Leça, 03 de Setembro de 2016
Luís M. Borges
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