Ai, Julieta…
1.Ponto da situação
Restaurante "O Leme"
Fizemos uma espécie de reunião prévia,
a meio desta semana, em Barcelos, no Restaurante “O Leme”. Só perdeu quem se
fez ausente, neste caso o Malheiro, e só ganhou o Lamas, que ocupou a vaga. Não
se tira o prazer em vão.
Pois…a D. Rosa admirou-nos novamente,
nos pormenores: com a qualidade e o requinte dos aperitivos; com o tamanhão dos
dois bichos; com a feição e o sabor do arroz de cabidela. Só que não nos
despedimos dela…não foi intencional…a boa disposição dos pescadores com boca,
quando se levantaram da mesa, fez esquecer a etiqueta.
O famoso galo de Barcelos
Voltando atrás, reparei numa cena: o
Cheta e o Óscar, quando a travessa com os capões chegou à mesa, excitaram-se –
as moelas, as coxas e as patas - foram imediatamente surripiadas. Preferências!
Caramba, destas reuniões precisamos
todos de muitas, pois sempre permitem debater cousas, div ersas cousas sérias,
está bem? Faço o resumo, tendo-se debatido:
- A fraquíssima prestação do Forte na
última saída;
- A corrente violenta que se fez
sentir mais os complicadíssimos engatanços de linhas;
- A irónica acusação do Forte, ao
considerar que o Cheta, quando vai pôr o ferro, o coloca à feição dele,
prejudicando o resto do pessoal;
- A improvável pesca no profundo aos
gorazes e aos chernes, um tema recorrente e dispendioso;
- Por último, um item fora do
contexto – recordações da tropa – via Lamas e Forte.
Forte
Mas, não cansou, antes encheu. “O
prazer da comida é o único que, desfrutado com moderação, não acaba por
cansar.” Brillat-Savarin.
Bela reunião. Muito surpreendente,
dada a gentileza do Forte, que fez questão...aqui se agradece…
2. Divagações sobre canas
Que me lembre, ter o Forte connosco duas
vezes seguidas, foi uma agradável novidade. Trouxe- nos mais uma cana nova, com
um estojo bonito azul cativante. Mostrou-a à malta, como se fosse um fetiche.
Forte: a descontrair
Na verdade, a prestação da cana em
acção de pesca entusiasmou-o, pelo que começou a sacar, e todas as vezes que
tirava um bom peixe, perguntava ao Cheta:
- Cheta, é para cortar o rabo a este sargo?
Foi assim...
Ao que o Cheta respondia,
lamentando-se:
- Só tiro “serrões”…só “serrões”…
Faneca
Mas, a cana do Óscar, ciumenta, também
“botou basta peixarada”. De cor dourada, mais comprida, de um equilíbrio
perfeito, habituada às mãos do dono, puxou consecutivamente belos peixes.
Já o Malheiro continuava a utilizar,
com bastante proveito, uma cana Super-Hulk. Foi uma excelente cana – agora está
velha. As canas são como as mulheres – já foram boas. Mas, o Malheiro faz bem
em pescar com relíquias, pois de museus está o mundo cheio!
Sargo
Quanto ao Cheta, triste e desiludido,
por causa da falta do seu preciosíssimo carreto, dava à manivela com raiva e ia
partindo ponteira atrás de ponteira. Eu nunca vi alguém partir tanta ponteira. E
quanto a peixe…”serrões”…kkkkkkk. Daqui faço um apelo ao Forte: que ofereça ao
Cheta uma das suas dezenas de canas, que costuma espetar na terra da horta,
para que os feijões trepem. E quando chegar o carreto eléctrico, teremos de
novo o nosso Cheta, pleno de contentamento, feliz.
Canário do mar
Por último, o Borges. Todos sabem que
ele é um cliente dedicado da Decathlon, pelo que a sua cana de 2,70 m, rija,
versátil, de cores discretas e barata, faz o pleno. O Borges, não alinha na
ilusão das boas novidades, nem na treta dos saltos tecnológicos (maravilha das maravilhas) e muito menos na
vaidade saloia de que com canas caras, é que se tira peixe. “Na senhor...”.
Em resumo, 5 pescadores, 5 mentalidades,
5 canas distintas...cada qual com a sua camisola.
3. Bocas de peixe
Os serranos são os peões da brega.
São a primeira linha do exército. Morrem sempre em primeiro lugar. Agressividade
alimentar? Claro. Há quem diga:
- Temos primeiro que limpar o
pesqueiro.
Faneca
As fanecas são “o gado do Senhor”.
Era assim, era…no antes de algum tempo atrás, todos os pescadores consideravam
a faneca a salvação da pescaria, pois a sua abundância, permitia compor
cabazes. Agora, está quieto...
Os pargos, os reis da conquista, os
troféus excelentíssimos de todo e qualquer pescador feliz ou infeliz, deixaram
os fundos e parece que agora nadam à superfície, de tão raros.
E de sargos, choupas, besugos, onde
param estas bocas famintas?
Desertos estão os fundos do mar… solitários,
choram os peixes errantes… às voltas no ar, gemem as gaivotas por comida… no barco,
sentam-se os pescadores, à espera…
Carapau
- Falai comigo peixes. Dizei-me o que
se passa. Dêem à língua. Abram a boca. Mostrem os dentes. Arregalem os olhos.
Não fossem os vigorosos carapaus, que
por enquanto ainda nos ajudam, este dia de pesca só contaria com uma caixita de
peixe.
4. Ai, Julieta
- Ai, Julieta…que boas lulas me
vendeste.
E saiu caldeirada, com o aconchego do
Óscar em panela grande, mas pequena para os três quilos de lulas e para o apetite,
pois a compensação da exiguidade da pescaria e de alimento, fazia-se – comendo.
Caldeirada de lulas
Nada restou. Foi comer à “tripa
forra”, para uma digestão difícil e demorada. A mistura de batata com massa,
mais o tomate, o pimento e a cebola, geraram uma bomba intestinal, que começou
a provocar turbulências, dando origem a manifestações sonoras de certa
envergadura. E os gajos riam-se. Alguém pediu:
- Mais contenção por favor. Peidem-se
mas com naturalidade. Não é necessário fazer uma festa, só por causa de uns
sons esquisitos, vindos de baixo.
5. A deusa Tétis
"A Deusa Tétis"
Eram 17h00 quando se zarpou daquele sítio
rumo à Marina de Leça, já com um manto cinzento no mar, a encobrir também céu e
terra. Com olhos do Cheta e mãos do Óscar, o barco deslizou sobre as águas
serenas do mar, afundando-se no cinzento. O pior foi mesmo a entrada na Marina,
com mil cuidados à procura de sinais, de contornos e de cores. Estas surgiram
ténues: os mastros de um grande veleiro, o amarelo dos rebocadores e o maciço
dos molhes.
Cheta: desanimado
A deusa de Tróia, Tétis, de vez em
quando desce até Matosinhos, fazendo-nos sentir a sua presença. É a deusa do
mar e como tal, caprichosa.
E atracou-se, com a ajuda do Lamas, o
“Mestre” dos cursos de navegadores de recreio.
Leça, 03 de Setembro de 2016
Luís M. Borges
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