quinta-feira, 15 de setembro de 2016

70. Memórias do mar 2



ILHA DO FAROL 2015


1º A ILHA
Em cima do ruído dos afazeres diários e do entulho, que nos vergam permanentemente, eis que vem a boa notícia:
- Borges, dia 19 de Setembro. Podem vir para a Ilha. Informe o Barbosa.
Deixei imediatamente de ouvir a barulheira da rotina da vida, endireitei a coluna, sacudi o lixo das coisas e telefonei. O Barbosa quis encontrar-se comigo na Estação de S. Bento, a fim de analisarmos horários e comprarmos bilhetes. Combinámos estratégias de simplicidade quanto a bagagem; falámos de pesca e de petiscos; fugiram-nos os olhos para umas jovens turistas inglesas, na lembrança da cuequinha; decidimos ir tomar uma bebida no tasco típico da esquina, logo ali e despedimo-nos bem-humorados.
Assim começou a nossa terapêutica anual. Nada se compara a uma ilha, que é um pedaço de terra rodeada de água por todos os lados (como bem sabem). As incomodações da vida, para lá chegarem, têm de ir a nado!
Para suporte desta fuga, decidi adquirir um novo TAB, aquele aparelho umbilical, sobre o qual se debruça a história recente da humanidade. É um aparelho afilhado da escova de dentes – limpa a cabeça! Também tinha um “WindowsPhone”, pois dado o isolamento haveria que contactar, quer a família (a dizer “está tudo bem”) e os poucos amigos que me restam (a perguntar “está tudo bem?”). Os amigos são como a nossa saúde – cada vez há menos!
Para empolgar, comecei a preparar a mala, na ânsia prévia do que iria acontecer …é que assim já me encontrava um bocado na Ilha e no mar, no molhe e na ria, no meio de canas e carretos, de anzóis e de peixes, de iscos, com o Adérito, o Barbosa e os nossos amigos. As sandálias, o calção de banho, a tshirt, o boné, um livro, a máquina fotográfica, o presunto – mimo fundamental – não podiam faltar!
No dia aprazado, o trem levou-nos até Olhão (sempre achei este nome curioso), numas boas seis horas. Depois, o carrego até ao barco da carreira. A travessia. O Farol. O Adérito. A casa e o desembrulhanço da carga…e logo se começou a combinar a pescaria do dia…logo…
Fiz uma promessa: nestes poucos dias teria ao máximo de viver, pensar, olhar, como recomenda a escritora norte americana SIRI HUSTVEDT – “Living, thinking, Looking”.
E será que vivi? Que pensei? Que olhei?
O prazer de esperar… De dar mais atenção aos pormenores… de observar com insistência e registar para não esquecer.
Reparei, que este ano amadureci (coisa estranha na minha idade). Aos 70 anos? Ou será comodismo? Ou será exaustão física?
Estas revelações ocorreram, quando me iniciei no molhe na pesca às douradas. Sempre abominei a pesca de espera, ou seja, lançar e esperar. Não sou um pescador paciente, mas empolgado. Chamáva-lhe a pesca do malandro. Erro meu. 

 Pica-del-rei
2º SER PADRINHO DE UM PEIXE
A Judia (Coris julis), apelidada vulgarmente de Dentilha, Júlia, Lambaz, Peixe-piça, Piça e Pica-del-rei, sempre me encantou. É um peixinho muito irreverente, escorregadio e de uma extrema beleza. Só cai na esparrela do pescador, se este utilizar material muito fino, pequenos pedaços de um qualquer isco branco e resistente e uma boia de 1 gr. Mesmo assim, com os seus dentinhos pontiagudos, consegue quase sempre retirar do pequeno anzol o pedacito de lula. Quando tal não acontece e uma vez preso, ele aí vem a lutar, a escorregar da mão do pescador e até a saltar do balde com água, regressando deste modo ao seu ambiente natural. Em pouco tempo pesquei um deles, isto logo no dia de chegada à Ilha., Limitei-me a fotografá-lo e a atirá-lo ao mar ainda com vida, a um batimento cardíaco da morte.
- Não haja dúvida: este peixe vai dominar o mundo!
Bem, perante esta tirada de gratidão e justíssima ao peixinho, acabei por cerimoniar-lhe um apadrinhamento. Sou padrinho do Pica-del-rei. O meu Blogue deve-lhe o nome. Foi assim feita justiça.
Perante os olhares trocistas do Adérito e do Barbosa, acabei por me integrar nas lides. Os peixes grandes recearam! Tínhamos connosco os anzóis da super eficácia; tínhamos os “casulos” da irresistibilidade; tínhamos ainda os fios, os carretos e as canas da infalibilidade e tínhamo-nos a nós para concretizarmos o possível, mesmo que fosse impossível.

 Adérito Alves
3º PERSISTÊNCIA
Mas, aprendi ainda mais. Aprendi com o Adérito. Admirei a sua persistência.
Às 6 da manhã, partia o Adérito para o molhe, arrastando o seu carro de rodinhas carregado de canas, material e arca, tudo bem amarrado com fita adesiva. Costumava àquela hora ir spinningar, à caça das anchovas, dos robalos e das bailas. Sabia que o amanhecer é sempre propício e também sabia que a coincidência de uma boa maré com o alvorecer é a ideal. Lograva quase sempre prender vários exemplares com a sua famosa “amostra assassina”. Em meia hora era o “mata-mata”. Ele lançava, recolhia, mudava de cor de amostra, corria o molhe, sempre a persistir. Esta persistência orientava-o para estes itens, conseguindo assim ter mais êxito que a grande maioria dos seus colegas spinadores. 

 Adérito e um senhor Robalo
Depois diziam: - Não há peixe; ou rediziam: - Há pouco peixe; ou concluíam: - Vou-me embora, não vale a pena; enquanto o Adérito lá continuava a trabalhar, a insistir, a dar à manivela em cima dos pés de galinha. Era rápido a tomar decisões, não se acomodava, estava atento aos sinais e tinha muita confiança em si. O êxito batia-lhe na cana. Só havia no molhe outro pescador igual a ele: o Engº, o qual inclusive arriscava às corvinas. Para o efeito gastava horas a observar e a registar os momentos de ataque das corvinas às tainhas, acabando assim por atuar sempre em conformidade. Quando algumas destas grandonas decidia ir-lhe à amostra, a luta era extraordinária de se ver. Ganhavam quase sempre as fortalhotas corvinas. Quando, uma vez ou outra, conseguia capturar o troféu, os pescadores acomodados lançavam sempre a mesma ironia:
- Que sorte!
Pois, a sorte faz-se trabalhando muito. Já alguém referiu que o génio é o resultado de muito trabalho e persistência.

 Sargos e dobradas
4º QUASE MIGRANTES
Fiquei admirado. Como é que um romeno conseguia pescar mais peixe, que todos os outros pescadores somados. No molhe, quando pescava 10 kg de peixe, afirmava que a pesca tinha sido fraca. Ele tinha só um objectivo, que era pescar muito e fazer dinheiro. Tinha uma família para alimentar, dado que empregos nem vê-los.
E a lei? A fome não é compatível com a lei. Obviamente, na minha perspectiva.
A técnica dele baseava-se no conhecimento: sabia de cor a geografia do fundo da ria (onde se encontravam as pedras grandes, os fundões), a profundidade, as melhores horas das marés, o tipo de maré mais favorável, os hábitos alimentares dos peixes, os melhores iscos, etc. Ou seja, sabia mais que os seus colegas…e quando se sabe, aplicam-se as melhores técnicas de captura. Ele inventou, penso, uma ou duas técnicas destinadas a pescar os grandes sargos acoitados no fundo. Para além de pescar forte e grosso (bóias de correr de 40/50 gr; altura da bóia até aos 12 metros; anzóis grandes e fortes (1/0 até ao 3/0); fios nos estralhos 0,40/0,50 e no carreto 0,70; canas super resistentes e carretos fiáveis e rápidos) a novidade ou o segredo encontrava-se no isco e na forma de o iscar. Aplicava em cada anzol 30 ou 40 camarinhas vivas, amarradas com fio de silicone. Os sargos e os robalos grandes eram clientes certos, quase sempre.
Soberbo – a inovação vinda de leste. A inteligência prática de um romeno, a ensinar aos velhos pescadores do molhe, como se pesca a sério. Faço uma vénia a este pescador e deito para trás das costas a costumeira inveja portuguesa. Deixem o Jorge pescar! Podem é aprender com ele. 

 Barbosa
5º BARBOSA “KAI AKI””
No comer bem é que está o ganho. Honra seja feita ao nosso Barbosa, que aprimorou no goto as moelas com presunto e enalteceu no paladar as qualidades do vinho tinto alentejano.
O horário de trabalho do Barbosa era a dois tempos, tal como certos motores: a meio da manhã bulia-lhe o almoço no desejo e a meio da tarde descompensava o jantar a fazer saborosas sopas.
Mesa posta, atendendo ao apoio necessário à salvação litúrgica de comer e o Barbosa a abrir a panela fumegante, para que cada um pegasse na concha.
- Barbosa, que sabor é este?
- “Cai aqui” bem a hortelã…
- Barbosa, que odor é este?
- “Cai aqui” bem o pimentão
Foram 10 dias de “KaiAki”, com mestre Barbosa a editar refeições únicas, que nem o Restaurante “À do João” conseguiria. Estas refeições caíram delicadamente nos nossos estômagos e foram digeridas, mas ficarão para sempre na nossa memória.
Duas observações: Também acrescentei valor às refeições do Barbosa – saladas multicoloridas e variadas – excelentes complementos alimentares; o Adérito mexeu poucas vezes com a colher de pau. Eu e o Barbosa não o permitimos.

 Praia suja
6. PRAIA SUJA
Foi a 1ª vez em 30 anos de Ilha, que não vesti os meus calções de banho para mergulhar nas águas tépidas e cristalinas da Ilha do Farol.
Sabem o que é a merdice? Sabem o que a merdice provoca na água? Sabem a que cheira esta merdice? Pois foi. Estragaram a praia conspurcando-a com lamas tóxicas da ria, carregadas de metais pesados, componentes químicos e obviamente de dejetos humanos. Depois foram colocando por cima areia branca retirada da própria ilha, a fim de taparem os olhos às pessoas e calarem as bocas. Contudo, as espertices ditas inteligentes depressa se desmascaram através dos próprios meios. As marés vivas e a ondulação forte fizeram desaparecer a areia e a merdice, pelo que água cristalina e azul virou para uma água nojenta acastanhada e mal cheirosa.
Perguntámos: - Porque fizeram isto? Responderam: - Tínhamos de gastar a verba, dragar os canais da ria e acrescentar areia à praia do Farol. Repliquei: - Podiam ter gastado a verba, dragando os canais, mas despejando no alto mar as lamas; podiam ter reforçado o areal da praia principal, com areia da própria ilha doutro local, onde ela fosse abundante.
Assim, no primeiro caso, pouparam as viagens de alto mar, obtendo assim mais lucro. Estragaram as férias de muita gente; cagaram para os habitantes locais; não se importaram com os impactos ambientais, em suma estiveram-se a borrifar.
E ainda há gente que defende esta atrocidade. Há ânus mais limpos do que certas bocas!

 Isco: "Salsicha"
7. O CASAMENTO
Não teria imaginado um casamente, para mais de ingleses, na Ilha, no restaurante “À do João”. Aquelas loiraças, velhas, de meia idade e novas, olhavam-se apreciando. As mais velhas a recordarem; as de meia-idade a ver se ainda aproveitavam; as novas a embebedarem-se em alta voz. Os homens ingleses providenciavam mais que atenções às damas: os mais velhos exagerando nas atenções; os de meia-idade avaliando as possibilidades; os novos a embebedarem-se, falando alto e grosso.
O menu pareceu-me que foi requintado, não faltando sequer as batatas fritas à inglesa.
Está de parabéns o Rui. Iniciou-se na rota dos restaurantes portugueses com nome internacional, que fazem gala da sua excelente localização, boa mesa e organização. A bem da Ilha do Farol.

 Sargo-veado
8. ACIDENTES INTERESSANTES
Há horas nos dias que revelam crispações. São desconsolos, que passam depressa.
O primeiro acidente interessante passou-se com o Barbosa. Perdeu os “ralos” comprados na casa de pesca de Olhão, que o Adérito nos tinha encomendado. Estes ralos, são os melhores iscos que existem, pois são chamas que atraem os peixes ao anzol. Na pressa de apanharmos o barco da carreira para a Ilha que partia às 15h00, o saco abriu-se e lá se foram os ralos. Foram passear 50 ralos, salvaram-se 50 sargos. Eu ri-me, o Barbosa não gostou.
O segundo acidente foi protagonizado pelo Adérito. As boas vindas que ele nos deu ao desembarcarmos na doca da Ilha foi: - Fugiu-me um sargo-veado de mais de 2kg. Exaltado, só lhe faltou contar a história do gato perfeito.
No dia seguinte já se tinha acomodado e considerou que não há gatos perfeitos.
O terceiro acidente foi protagonizado por mim. Dois peixes-aranhas. Aqueles peixes que domesticaram as enzimas. Não me piquei na célebre barbatana preta e pontiaguda dorsal. Não. Foi na espinha da coluna vertebral. Menorizei por duas vezes a capacidade do peixe, pois a sua espinha, acabei de sabê-lo por experiência própria, também contem o veneno. Incharam-me as mãos, doeram-me a bom doer durante umas horas. O pior foi o meu desprendimento. Dois dias depois, repeti, incauto, a limpeza do peixe, ferindo-me na referida espinha mais uma vez. Não deu para morrer, apenas para sofrer. Considero, que este acidente não foi interessante, embora o Barbosa e Adérito tivessem injuriado o peixe, em jeito de consideração.
O quarto acidente foi efetivado na grelha. Estava o Barbosa já com o carvão no ponto, quando pediu os sargos. Eu não os tinha arranjado, por manifesta falta de tempo, pelo que sugeri que fossem grelhados tal e qual (com tripas e escamas). Reforcei com a informação que já tinha comido o sargo assim assado e que muitos dos locais o faziam sempre, tal como se faz com a sardinha. O Adérito concordou. O Barbosa nem por isso…
Resultado: os peixes chegaram à mesa quase crus, com a desculpa de que “sushi” é bom. As escamas teriam de queimar, para que a carne interior podesse ficar bem assada. Eu não me lembrei deste facto, pelo que não avisei. O Barbosa ficou escamado…
Foi este o último acidente interessante. Houve mais, mas tão insignificantes, que não mereceram a reverência deste escriba. 

 Bonitos e judeus
9. SARRAJÕES, BONITOS E JUDEUS
Nós fatigámos o mar com o olhar e as amostras. Cansámos o barco às voltas e contra-voltas. Desprezámos as canas e as amostras, as primeiras por não terem cantado e as segundas pela incúria. Nós, enrolámos e desenrolámos vezes sem conta os fios dos carretos.
Isto aconteceu no Concurso de Pesca aos Tunídeos, organizado pelo GNO no dia 27 de Setembro.
No barco concorria uma equipa de amigos: o Amadeu, o Bomba e eu. Regressámos ao Clube com zero atuns. 

 Amadeu, Borges, Bomba
No acto de entrega do pescado e pesagem do mesmo, sobre nós recaíram olhares admirados, pela ineficácia. As restantes equipas todas pontuaram, algumas com excelentes pescarias.
Contudo, independentemente deste facto negativo, o positivo foi registar que onde está a vida, renova-se a vida pelo encontro. Justamente com o Bomba e o Amadeu. Velhos amigos e sinceros. Alegrias conjugadas. Tantas histórias comuns.
Enquanto escrevo estas linhas, o mar já está distante, mas eu ainda estou no momento. Os reencontros são como contar estrelas. Gostamos sempre.

 O molhe
10. PROTAGONISTAS: PEIXES E PESCADORES
No molhe da Ilha do Farol caminhamos cedo, eu e o Adérito. Estes dias de Outono estão mais frescos, bons para passear com as canas na mão. Vestimos de verde, temos bonés na cabeça e olhamos languidamente para o mar. E pensamos, pensamos sempre nos peixes.
Este molhe é uma grande e comprida avenida, ladeada de água e de peixes, de “pés-de-galinha” e de pescadores. Esta avenida tem um trânsito incrível, mais nas horas de ponta de chegada e partida dos barcos da carreira e menos nos melhores momentos de pesca. Passam carrinhos de mão em fila, apressados. Querem ocupar os melhores pesqueiros.
A comunidade escamosa colabora quase sempre, premiando estes esforçados pescadores. Saem robalos, bailas e sargos (a elite); saem fugazes anchovas e enérgicas corvinas (os pesos pesados); saem pachorrentas tainhas e manhosas dobradas (a plebe); saem cavalas, que vêm no veludo do mar (as ignoradas); saem uma grande diversidade de pequenos mas interessantes peixes (a arraia miúda).

 Na grelha
Para se pescarem estas criaturas, a imaginação não tem limites, exige-se experiência e torna-se fundamental o conhecimento. A tecnologia finge que ajuda a disfarçar estas carências, quando elas existem. Mas, o mais importante índice de validade da pesca é a chamada realidade virtual, ou seja, o desejo de pescar muito, o qual descasa com a insatisfação, logo seguido pela frustração ou pela exaltação. O pescador nunca se contenta – é um contente descontente. Sempre a acusar de falta de peixe, sempre a acusar os “filhos da Culatra” por excesso de zelo; sempre a acusar as marés, o tempo, as leis da pesca, os locais, a pouca sorte…nunca se acusa a ele próprio pelo fracasso. Mas, quando consegue boas pescarias, abre muito a boca, gaba-se sem parar, auto-elogia-se, ostenta, regista, divulga…Depois, lixam-se. Poucos são os que se contêm, os que se vedam…
Mas o ser humano é mesmo assim e a pesca, essa actividade de lazer, que remonta aos primórdios da humanidade, acaba por conciliar a programação genética com a evolução. Daí o frenesim, a ânsia, o desejo, o gozo, o prazer, a vaidade…
Este molhe retrata-nos tão bem! É mais que um retrato, é uma radiografia.


11. O CICLO
A natureza tem uma regra estrutural – repete-se, mas sempre de forma diferente. O Verão deste ano não foi igual a nenhum outro dos anos anteriores. O ser humano encaixa neste esquema.
Já vai para 30 anos que descobri a Ilha do Farol. Todos os anos sou visto no molhe a pescar, na longa praia branca a banhar-me, no barco da carreira carregado de tralha, na Associação às compras, na conversa com velhos amigos. Estes, anualmente, fixam-nos atentamente, perguntam-nos pela vida, oferecem-nos iscos…o Nascimento, o Vicente e tantos outros. São considerados por mim e consideram-me igualmente.

 O Vicente
Anualmente, ciclicamente, na Ilha do Farol, vai-se repetindo o essencial.
12. Será que vivi? Que pensei? Que olhei?
Verdadeiramente, acreditem que sim.
Vivi novas sensações: o prazer de esperar na pesca às douradas… Dei comigo a prestar mais atenção aos pormenores dos iscos, das montagens, dos melhores sítios… A observar com insistência e a registar mentalmente para não esquecer os rostos e o frasear dos Amigos… Constatei que amadureci…Aos 70 anos…Só mesmo na Ilha do Farol. Tem magia esta Ilha!

 Douradas

Borges. O vento...
 
Ilha do Farol, 30 de Setembro de 2015
Luís M. Borges

terça-feira, 13 de setembro de 2016

69. Memórias do alto mar



“Quando os sinos dobram”

 
1. Condições
Na véspera, as perspectivas de um bom mar para a prática da pesca no sábado, eram razoáveis:
- Velocidade do vento – grau 1 até às 13h00, depois grau 7
- Rajadas de vento – grau 2 até às 13h00, depois 8
- Direcção do vento – até às 13h00 de noroeste, depois sudoeste
- Ondulação - 1 metro até às 13h00, depois sempre a aumentar
- Período da vaga – grau 9 até às 16h00, depois a partir das 16, grau 12
- Direcção da vaga – sudoeste
- Temperatura – dos 14 aos 21 graus (das 07 às 16h0p)
- Nebulosidade – média, grau 48.


2. Relógios parados
O sítio primeiro deste dia de afazeres iguais, ocultava um leito calcetado de pouca coisa. Esta pouca coisa eram os sempre presentes serranos. No barco isolado escorriam os minutos, o barulho do silêncio incomodava e os bocejos inúteis eram do comprimento do mundo, como diria F. Pessoa.
Nesta cena de filme parado, o Óscar ordenou mudança. Numa vintena de segundos a rumar, iríamos tentar abrir novas páginas, com implicações de pesca. Vã tentativa. Miniaturas de peixes, inclusive sem grau académico, criaram nova cena de carência. Na cabina, o rádio berrava outras vozes, a bradarem à míngua. Dir-se-ia, que a fraca colheita era geral, uma espécie de maldição a cobrir toda a zona. 


Sem peixe não se pode pescar. Sem peixe nasce o desânimo. Haveria de novo que tomar decisões:
- Vai no “fica” ou vai no “ir”?
O Óscar, depois de ter saboreado uma sande de atum, à falta do salpicão de Vinhais, deu a resposta e ditou:
- Vamos sair desta modorra. É no “ir” para o 03, que fica a uma 1,7 milha daqui.


3. 120 badaladas
Talvez, porque mudaram as pilhas aos relógios, eis que os ponteiros (ponteiras, claro) se começaram a mexer, ao som de um tic-tac perfeito:
- Tic: 1 sargo
- Tac: 1 besugo
- Tic: 1 carapau
- Tac: 1 choupa
Os relógios trabalharam bem, em perfeita sincronização, das 11 às 13h00.
Se 1 hora tem 60 minutos, 2 horas têm 120 minutos, então os relógios contaram bem o tempo e nós os peixes. Até soaram badaladas como se fosse em sino de igreja de fazerem tapar os ouvidos. Só peixe graúdo em ritmo.




O Cheta torcia-se de prazer, o Óscar gabava-se em êxtase, o Malheiro mudo em concentração absoluta e o Luís a insultar os peixes.
Estes quatro predadores ficaram “todos  rotinhos”…o Óscar nem tanto, pois tinha um relógio eléctrico.

4. Na tasca do Inventor
1 cebola; feijão encarnado; 1 molhinho de couve galega; carnes diversas (frango, vitelão, porco, chouriço), tomate e demais condimentos.
Foi no atacar a feijoada dita à transmontana, que óbviamente foram esquecidas, as tão prometidas pataniscas de sargo.


Ali se viu a arte de bem cozinhar. Todos afirmaram, concordando com o Cheta:
- O tacho está bom!
Este Malheiro é um caso sério.

5. Sapatilhas azuis
Pelas 14h30 surgiu um incentivo: dos quatro, o pescador que conseguisse pescar o primeiro Pargo, ganharia um relógio “rolex”.
Abriram-se as bocas de espanto.
- Um “rolex”? E se fosse brincar com a sua tia?
- É verdade. Irei tentar arrematá-lo na próxima Feira da Vandoma.
Não acreditaram. Fizeram bem. Às vezes sou um lírico. Não sei o que me passou pela cabeça – talvez o sol…


Depois desta brincadeira esperei pela chegada de um Pargo. Não veio. Penso que estes peixes não gostam das sapatilhas azuis do Cheta.
Quanto aos escamas, nesta ponta final, apareceram os mesmos intérpretes mínimos do costume. Deu para evitar a sornice…


6. End
Faziam-se horas de regressar. A pesca estava feita. Acabámos por manter a nossa dignidade íntegra, pois conseguimos afastar o enguiço (não há duas sem três) e reduzir o défice das 2 poitadas iniciais, num satisfatório resultado final.


Depois caiu um pesar sobre o barco, por causa de uma trágica notícia, que o Óscar recebeu. Teve de regressar rapidamente à Marina.
Caro Óscar, condolências…

Leça, 10 de Setembro de 2016
Luís M. Borges