quinta-feira, 25 de agosto de 2016

65. MEMÓRIAS DO ALTO MAR



A turma do pagode

 
1.Só Lamas
O dia de pesca começou auspicioso. Ainda a turma preparava as suas “armas”, quando o Lamas bradou:
- Trago peixe na minha caninha dourada.
Para espanto da turma, o Lamas recolheu eufórico, 2 valentes peixes: um sargo e um besugo.
- É assim Lamas? Eh pessoal, toca a despachar. Pelos vistos o sítio tem peixe. Vamos a eles…


Foram frases de entusiasmo, para se afanarem na busca dos tão almejados sargos e besugos.
Contudo, para desilusão geral, saíram sim, mas foram serranos, e mais serranos e só serranos. Dezenas deles, durante uma desencantada hora! Tínhamos poitado na nação dos serranos…


Dadas as circunstâncias, o tribunal decisório reuniu e sentenciou a saída urgente daquele local, para outro mais produtivo. Navegou-se 1 milha. A turma insistiu. Deu resultado: o Cheta sacou 1 pargo, o Óscar outro, o Malheiro uma choupa…o Borges serranos, obviamente.


Até que o Lamas traz um fóssil vivo do fundo do mar – uma abrótea com 2,850 kg...e todos cantaram “É o bicho. É o bicho”.
Chegou entretanto a vaga dos carapaus, mais umas fanecas.

2.Carapaus de rabo na boca
Pois foi. Por três vezes, cá o inovador decidiu dar um ar da sua graça, pescando carapaus de rabo na boca (tentou destronar a pescadinha). Posso entender como e porquê acontece esta situação, mas para além das risadas, foram-se 3 retenidas à vida. Não me caíram bem estas palhaçadas destes ilustres carapaus. Pesca é pesca e o anzol deve sempre vir espetado na boca…ora essa!


No imediato, esta situação caricata foi abafada pelo Cheta – mais um pargo. Os outros, deram com alguns sargos e mais fanecas, algumas bem pequenas, atiradas à água, para sobreviverem (a lei obriga e os nossos legisladores sabem muito bem o que fazem lá nas Lisboas). As gaivotas agradeceram, embora se guerreassem, mas enchendo os papos. E soou o apito.

3.Malheiro, o cozinheiro improvável


Tínhamos perguntado ao Malheiro por 3 vezes, qual seria o prato do dia:
Respondeu-nos primeiro: - Arroz de marisco
Respondeu-nos a seguir: - Leitão
Respondeu-nos ainda: - Bacalhau
Esta tanga durou até ao momento em que a panela foi ao lume – a aroma não decepcionou nem enganou ninguém: o cardápio era “Arroz de Cabidela”.


Foi uma satisfação vê-los a pegarem nas coxas, nas asas e nas patas do frango, à unha. Ao Vinhão de Felgueiras bateram palmas. Ao queijo francês fizeram vénias. Ao café brasileiro pediram mais. Ao whisky ergueram os copinhos a brindar.
Arrotei…sim, arrotei de bem abastecido.

4.Cheta, o maior
Por unanimidade, o Cheta foi declarado o pescador do dia, porque quase todos os sargos foram pescados por ele. Neste dia, estava no rumo dos escamas, as espécies de que ele mais gosta, embora rejubile com os vermelhos (mas estes são ocasionais, enquanto os sargos saem por sistema). E assim se foram acamando os peixes nos cabazes. Também se acantonam bem nos frigoríficos lá de casa e melhor se arrumam nas arcas frigoríficas.
Neste dia o Cheta foi o meu herói. O Cheta faz-me lembrar, quando olho para ele com curiosidade e atenção, o pescador do conto “O velho e o mar” de Hernest Hemingway. A doar-se…a aconselhar prudência no mar…a pescar em grande…


5.Óscar, na pele da cobra
As cobras mudam de pele, como que se descascam. Lembrei-me das cobras ao ver o Óscar a vestir um “kispo” desfeito literalmente, de pedinte, ou de alguém que tivesse levado uma valente coça. E ele, impassível e sereno, com um sorriso de gozo, face às nossas críticas e gargalhadas. Tenho a certeza que irá dar moda, atendendo a que as raparigas já utilizam o roto, a mostrarem as coxas, na vaidade das calças. Fica-lhes bem, não a todas, claro…

Ora o Óscar levantou a moral dos seus colegas com este casaco. A vida da pesca em alto mar, sobretudo quando está previsto um dia abrasador e sai um ferrete de vento norte gelado, nevoeiro e vaga, a baterem no barco e nos homens, só existe uma solução – vestir o que está disponível nos armários da embarcação, de modo a evitar-se o frio e consequentemente uma eventual constipação.
Mas, diga-se, mesmo com este aspecto andrajoso, de pobre de pedir, pescou muito bem. É um excelente pescador e leva tudo para a brincadeira. É o nosso pescador dos recordes.

6.Estes carapaus são loucos
Já referi os carapaus de rabo na boca. Mas, com carapaus em estado de normalidade, o Borges também se dá bem. Pescou praticamente só carapaus, na última etapa da pesca: grandes, médios e pequenos. Aos 3 e aos 2 em simultâneo.
De salientar, que pela primeira vez desde que venho à pesca nesta embarcação – e já lá vão 46 vezes – não consegui pescar um único sargo, nem qualquer choupa ou besugo. Só carapaus, carapaus, carapaus.


Pela positiva, diga-se que os carapaus adoram a minha forma de iscar, os meus anzóis brancos, a minha técnica de os seduzir. Acabei por os agraciar com uma foto de “olheiro”. Como tenho olhos de deficiente (cataratas, glaucoma, pressão alta, etc), quis ver o mundo com olhos de carapau. Contarei um dia o que vi!

7.Hollywood
Às 17h00 o ferro foi içado e o Óscar afrontou aquele mar, que se tinha posto medonho, com um esgar à Hollywood. Uns saltos, a água a rasar o barco, a incomodidade da viagem - todo mundo fez esgares - a imitaram o Óscar. Que artistas!


Leça, 13 de Agosto de 2016
Luís M. Borges





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