A turma do pagode
1.Só Lamas
O dia de pesca começou
auspicioso. Ainda a turma preparava as suas “armas”, quando o Lamas bradou:
- Trago peixe na minha
caninha dourada.
Para espanto da turma,
o Lamas recolheu eufórico, 2 valentes peixes: um sargo e um besugo.
- É assim Lamas? Eh
pessoal, toca a despachar. Pelos vistos o sítio tem peixe. Vamos a eles…
Foram frases de
entusiasmo, para se afanarem na busca dos tão almejados sargos e besugos.
Contudo, para
desilusão geral, saíram sim, mas foram serranos, e mais serranos e só serranos.
Dezenas deles, durante uma desencantada hora! Tínhamos poitado na nação dos
serranos…
Dadas as
circunstâncias, o tribunal decisório reuniu e sentenciou a saída urgente
daquele local, para outro mais produtivo. Navegou-se 1 milha. A turma insistiu.
Deu resultado: o Cheta sacou 1 pargo, o Óscar outro, o Malheiro uma choupa…o
Borges serranos, obviamente.
Até que o Lamas traz
um fóssil vivo do fundo do mar – uma abrótea com 2,850 kg...e todos cantaram “É
o bicho. É o bicho”.
Chegou entretanto a
vaga dos carapaus, mais umas fanecas.
2.Carapaus de rabo na boca
Pois foi. Por três
vezes, cá o inovador decidiu dar um ar da sua graça, pescando carapaus de rabo
na boca (tentou destronar a pescadinha). Posso entender como e porquê acontece
esta situação, mas para além das risadas, foram-se 3 retenidas à vida. Não me
caíram bem estas palhaçadas destes ilustres carapaus. Pesca é pesca e o anzol
deve sempre vir espetado na boca…ora essa!
No imediato, esta
situação caricata foi abafada pelo Cheta – mais um pargo. Os outros, deram com
alguns sargos e mais fanecas, algumas bem pequenas, atiradas à água, para
sobreviverem (a lei obriga e os nossos legisladores sabem muito bem o que fazem
lá nas Lisboas). As gaivotas agradeceram, embora se guerreassem, mas enchendo
os papos. E soou o apito.
3.Malheiro, o cozinheiro improvável
Tínhamos perguntado ao
Malheiro por 3 vezes, qual seria o prato do dia:
Respondeu-nos
primeiro: - Arroz de marisco
Respondeu-nos a
seguir: - Leitão
Respondeu-nos ainda: -
Bacalhau
Esta tanga durou até
ao momento em que a panela foi ao lume – a aroma não decepcionou nem enganou ninguém:
o cardápio era “Arroz de Cabidela”.
Foi uma satisfação
vê-los a pegarem nas coxas, nas asas e nas patas do frango, à unha. Ao Vinhão
de Felgueiras bateram palmas. Ao queijo francês fizeram vénias. Ao café
brasileiro pediram mais. Ao whisky ergueram os copinhos a brindar.
Arrotei…sim, arrotei
de bem abastecido.
4.Cheta, o maior
Por unanimidade, o
Cheta foi declarado o pescador do dia, porque quase todos os sargos foram
pescados por ele. Neste dia, estava no rumo dos escamas, as espécies de que ele
mais gosta, embora rejubile com os vermelhos (mas estes são ocasionais,
enquanto os sargos saem por sistema). E assim se foram acamando os peixes nos
cabazes. Também se acantonam bem nos frigoríficos lá de casa e melhor se
arrumam nas arcas frigoríficas.
Neste dia o Cheta foi
o meu herói. O Cheta faz-me lembrar, quando olho para ele com curiosidade e
atenção, o pescador do conto “O velho e o mar” de Hernest Hemingway. A
doar-se…a aconselhar prudência no mar…a pescar em grande…
5.Óscar, na pele da cobra
As cobras mudam de
pele, como que se descascam. Lembrei-me das cobras ao ver o Óscar a vestir um
“kispo” desfeito literalmente, de pedinte, ou de alguém que tivesse levado uma
valente coça. E ele, impassível e sereno, com um sorriso de gozo, face às
nossas críticas e gargalhadas. Tenho a certeza que irá dar moda, atendendo a
que as raparigas já utilizam o roto, a mostrarem as coxas, na vaidade das
calças. Fica-lhes bem, não a todas, claro…
Ora o Óscar levantou a
moral dos seus colegas com este casaco. A vida da pesca em alto mar, sobretudo
quando está previsto um dia abrasador e sai um ferrete de vento norte gelado,
nevoeiro e vaga, a baterem no barco e nos homens, só existe uma solução –
vestir o que está disponível nos armários da embarcação, de modo a evitar-se o
frio e consequentemente uma eventual constipação.
Mas, diga-se, mesmo
com este aspecto andrajoso, de pobre de pedir, pescou muito bem. É um excelente
pescador e leva tudo para a brincadeira. É o nosso pescador dos recordes.
6.Estes carapaus são loucos
Já referi os carapaus
de rabo na boca. Mas, com carapaus em estado de normalidade, o Borges também se
dá bem. Pescou praticamente só carapaus, na última etapa da pesca: grandes,
médios e pequenos. Aos 3 e aos 2 em simultâneo.
De salientar, que pela
primeira vez desde que venho à pesca nesta embarcação – e já lá vão 46 vezes –
não consegui pescar um único sargo, nem qualquer choupa ou besugo. Só carapaus,
carapaus, carapaus.
Pela positiva, diga-se
que os carapaus adoram a minha forma de iscar, os meus anzóis brancos, a minha
técnica de os seduzir. Acabei por os agraciar com uma foto de “olheiro”. Como
tenho olhos de deficiente (cataratas, glaucoma, pressão alta, etc), quis ver o
mundo com olhos de carapau. Contarei um dia o que vi!
7.Hollywood
Às 17h00 o ferro foi
içado e o Óscar afrontou aquele mar, que se tinha posto medonho, com um esgar à
Hollywood. Uns saltos, a água a rasar o barco, a incomodidade da viagem - todo
mundo fez esgares - a imitaram o Óscar. Que artistas!
Leça, 13 de Agosto de 2016
Luís M. Borges
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