Na senda da
regularidade
Forte
1.Ai Deus, e u é?
“Ai flores, ai flores do verde pino, se sabedes novas do meu amigo? Ai
Deus, e u é?”
“Vós me preguntades polo voss’amado e eu bem vos digo que é viv’e sano.
Ai Deus, e u é?”
Esta cantiga medieval, do trovador e rei D. Dinis, define bem o caso do
nosso amigo, companheiro e camarada, o Forte,
que se fez ausente das lides piscatórias, quase durante um mês.
Como conclui o poema, “Sau’e vivo (…) e será vosco ant’o prazo…”, o Forte
foi nosso, esteve connosco.
Neste dia, o plantel do Fosmar, esteve completo. Os cinco perfilaram
canas e vontades na amurada da embarcação, assim que a hora chegou. Foi melhor,
dado que as substituições, embora oportunas e bem aceites, não costumam render
tanto. Que diabo, trata-se do nosso “Ronaldo”. Ele faz a diferença.
O pargo do Borges
2.Os três mosqueteiros
Não sei que tipo de vida levam os pargos. Portam-se de uma forma estranha
e imprevista. O meu, que foi o primeiro a levar a estocada, pesava um pouco
mais de 2 kgs; o pargo do Malheiro andava pelo 1,5 kg e o do Óscar 1 kg. Curioso!
O pargo do Malheiro
Esta escadinha de pesos a descer deu para refletir. Será que também acontece
com a escadinha a subir? E houve mais questões: os pargos nesta altura do ano
migram de norte para sul ou ao contrário? Nadam a favor da corrente ou contra
ela? Quais os sítios ideais para a sua pesca? Etc, etc, etc. Sabemos muito
pouco sobre a vida destes bichanos.
O pargo do Óscar
O Cheta rogou por diversas vezes acerca da necessidade de se pescarem
mais dois pargos. Qual quê. Só estiveram de serviço os três mosqueteiros
referidos.
3. Congro, congríssimo
O congro é um feroz predador. Os peixes abrem-lhe caminho e fogem a sete
barbatanas, com medo de serem abocanhados violentamente. Quando estes meninos
saem das suas tocas à procura de alimento, a pesca de sargos, choupas, fanecas
e até de carapaus e cavalas, acaba de repente.
O congro do Malheiro
Foi numa ocasião destas, que o Malheiro pegou na sua congreira, pediu-me
umas cavalitas e tentou o bicho. Não tardou. A cobra veio ao de cima e foi
convidada a entrar na embarcação com o bicheiro. Bufava e rabeava com violência…para
morder o que pudesse e assim tentar fugir para o seu meio. Não conseguiu. Um
estilete do Óscar foi-lhe cravado no cérebro e a faca rosa do Borges degolou-o com
rapidez.
Eram uns 8 kgs de carne, quantidade de proteína em abundância, face aos desejos
do autor do feito.
A terminar, o Malheiro amanhou-o e mostrou o conteúdo do estômago do
bichano aos colegas: 2 cavalas e uma faneca no bucho. Já tinha almoçado o infeliz,
que de nada lhe serviu.
4. Os tripeiros
O menu do Cheta estava demais: demais em dobrada, de menos em feijão.
A dobrada do Cheta
No prato, cheguei a procurar o feijão: só metia à boca garfadas de
dobrada, de mão de vaca, de costelinha, de chouriço…e o que sobrou na panela?
A D. Maria (esposa do Cheta) merece o máximo elogio. De certeza, que o
Cheta não faria nada que se parecesse (mas foi comprar as tripas e a mão de
vaca à D. Lurdes – que as prepara com muito cuidado e higiene - no Mercado de
Matosinhos.
Um almoço tripeiro
O picante brasileiro que o meu irmão de Salvador da Bahia me trouxe, o
célebre “Arde no cú”, ainda mais apetitoso e laxativo tornou aquela dobrada fabulosa.
O Cheta foi o único que recusou que o cu não lhe ficasse a arder. He, eh, eh,
eh…
Queima o cú
Só uma tristeza nos invadiu, neste belo dia de pesca, cujo estado do mar
era irmão do anterior (o do dia 15), que foi a ausência de Mister Jameson.
Apreciei imenso as “caranguejas” que o Malheiro ofereceu à malta como
sobremesa. Muito boas estas ameixas…não provei…mas gostei da ideia: frutinha em
vez de doce faz bem melhor à saúde.
5. A senhora moleza
Após aquele opíparo almoço e a mando do Cheta, todos aguardaram que as
15h00 chegassem, altura em que o peixe recomeçaria a picar. Descontraíram os atletas, embora com as canas
a pescarem. Mas, as canas teimavam em ficar com as respectivas ponteiras,
quietinhas.
A moleza do Borges
A modorra foi de tal ordem, que o Borges deixou-se dominar pelas
pestanas, de pesadas que tinham ficado. Culpa da tripalhada, claro.
A moleza do Malheiro
Depois das 15h00 ainda pingaram uns peixitos, poucos para que o aumento
do espólio se tornasse significativo. Foi mesmo fraco. Os peixes do costume e a
raridade a mandarem em nós.
Boga do mar
Cavalinha
A pesca parou por completo às 16h00, momento em que saiu o congro. O
réptil passeava-se lá por baixo a fazer estragos e a possibilitar a fuga atemorizada
da peixarada ligeira. O Malheiro lixou-o.
6. A partilha
Na separação de bens, o Óscar dobra sempre com muito esforço, a espinha.
O que não devia…mas…ele insiste. Admiramo-lo por isso. Faz uma distribuição
justa do pescado.
Cabaz suficiente
Fiquei feliz com a minha dose, pois iria permitir-me ter peixe em
quantidade suficiente, para abastecer alguns amigos. Nada para as pobres
coitadas das gaivotas.
A fome das gaivotas
Para a minha família, o pargo iria chegar e bastar.
Foi um dia de pesca dourado.
Leça, 27 de Agosto de
2016.
Luís M. Borges


