segunda-feira, 29 de agosto de 2016

67.Memórias do alto mar



Na senda da regularidade

 Forte

1.Ai Deus, e u é?

“Ai flores, ai flores do verde pino, se sabedes novas do meu amigo? Ai Deus, e u é?”
“Vós me preguntades polo voss’amado e eu bem vos digo que é viv’e sano. Ai Deus, e u é?”
Esta cantiga medieval, do trovador e rei D. Dinis, define bem o caso do nosso amigo, companheiro e camarada, o Forte,  que se fez ausente das lides piscatórias, quase durante um mês.
Como conclui o poema, “Sau’e vivo (…) e será vosco ant’o prazo…”, o Forte foi nosso, esteve connosco.
Neste dia, o plantel do Fosmar, esteve completo. Os cinco perfilaram canas e vontades na amurada da embarcação, assim que a hora chegou. Foi melhor, dado que as substituições, embora oportunas e bem aceites, não costumam render tanto. Que diabo, trata-se do nosso “Ronaldo”. Ele faz a diferença.

 O pargo do Borges

2.Os três mosqueteiros

Não sei que tipo de vida levam os pargos. Portam-se de uma forma estranha e imprevista. O meu, que foi o primeiro a levar a estocada, pesava um pouco mais de 2 kgs; o pargo do Malheiro andava pelo 1,5 kg e o do Óscar 1 kg. Curioso!

O pargo do Malheiro

Esta escadinha de pesos a descer deu para refletir. Será que também acontece com a escadinha a subir? E houve mais questões: os pargos nesta altura do ano migram de norte para sul ou ao contrário? Nadam a favor da corrente ou contra ela? Quais os sítios ideais para a sua pesca? Etc, etc, etc. Sabemos muito pouco sobre a vida destes bichanos.

 O pargo do Óscar

O Cheta rogou por diversas vezes acerca da necessidade de se pescarem mais dois pargos. Qual quê. Só estiveram de serviço os três mosqueteiros referidos.

3. Congro, congríssimo
O congro é um feroz predador. Os peixes abrem-lhe caminho e fogem a sete barbatanas, com medo de serem abocanhados violentamente. Quando estes meninos saem das suas tocas à procura de alimento, a pesca de sargos, choupas, fanecas e até de carapaus e cavalas, acaba de repente. 

 O congro do Malheiro

Foi numa ocasião destas, que o Malheiro pegou na sua congreira, pediu-me umas cavalitas e tentou o bicho. Não tardou. A cobra veio ao de cima e foi convidada a entrar na embarcação com o bicheiro. Bufava e rabeava com violência…para morder o que pudesse e assim tentar fugir para o seu meio. Não conseguiu. Um estilete do Óscar foi-lhe cravado no cérebro e a faca rosa do Borges degolou-o com rapidez.
Eram uns 8 kgs de carne, quantidade de proteína em abundância, face aos desejos do autor do feito.
A terminar, o Malheiro amanhou-o e mostrou o conteúdo do estômago do bichano aos colegas: 2 cavalas e uma faneca no bucho. Já tinha almoçado o infeliz, que de nada lhe serviu. 

4. Os tripeiros

O menu do Cheta estava demais: demais em dobrada, de menos em feijão. 

 A dobrada do Cheta

No prato, cheguei a procurar o feijão: só metia à boca garfadas de dobrada, de mão de vaca, de costelinha, de chouriço…e o que sobrou na panela?
A D. Maria (esposa do Cheta) merece o máximo elogio. De certeza, que o Cheta não faria nada que se parecesse (mas foi comprar as tripas e a mão de vaca à D. Lurdes – que as prepara com muito cuidado e higiene - no Mercado de Matosinhos. 

 Um almoço tripeiro

O picante brasileiro que o meu irmão de Salvador da Bahia me trouxe, o célebre “Arde no cú”, ainda mais apetitoso e laxativo tornou aquela dobrada fabulosa. O Cheta foi o único que recusou que o cu não lhe ficasse a arder. He, eh, eh, eh…

 Queima o cú

Só uma tristeza nos invadiu, neste belo dia de pesca, cujo estado do mar era irmão do anterior (o do dia 15), que foi a ausência de Mister Jameson.
Apreciei imenso as “caranguejas” que o Malheiro ofereceu à malta como sobremesa. Muito boas estas ameixas…não provei…mas gostei da ideia: frutinha em vez de doce faz bem melhor à saúde. 

5. A senhora moleza

Após aquele opíparo almoço e a mando do Cheta, todos aguardaram que as 15h00 chegassem, altura em que o peixe recomeçaria a picar.  Descontraíram os atletas, embora com as canas a pescarem. Mas, as canas teimavam em ficar com as respectivas ponteiras, quietinhas. 

 A moleza do Borges

A modorra foi de tal ordem, que o Borges deixou-se dominar pelas pestanas, de pesadas que tinham ficado. Culpa da tripalhada, claro.
A moleza do Malheiro

Depois das 15h00 ainda pingaram uns peixitos, poucos para que o aumento do espólio se tornasse significativo. Foi mesmo fraco. Os peixes do costume e a raridade a mandarem em nós. 

 Boga do mar

 Cavalinha

A pesca parou por completo às 16h00, momento em que saiu o congro. O réptil passeava-se lá por baixo a fazer estragos e a possibilitar a fuga atemorizada da peixarada ligeira. O Malheiro lixou-o.

6. A partilha

Na separação de bens, o Óscar dobra sempre com muito esforço, a espinha. O que não devia…mas…ele insiste. Admiramo-lo por isso. Faz uma distribuição justa do pescado.

Cabaz suficiente

Fiquei feliz com a minha dose, pois iria permitir-me ter peixe em quantidade suficiente, para abastecer alguns amigos. Nada para as pobres coitadas das gaivotas.


 A fome das gaivotas

Para a minha família, o pargo iria chegar e bastar.
Foi um dia de pesca dourado.

Leça, 27 de Agosto de 2016.
Luís M. Borges




quinta-feira, 25 de agosto de 2016

66. MEMÓRIAS DO ALTO MAR



Espírito olímpico 

 Mar de barragem
 
1.O mar foi a banhos
O mar tinha alisado as suas águas, mais parecendo uma barragem do Douro, de tão suaves como elas se apresentavam…de brisa, só de memória se lhe sentiu a existência…e quanto ao calor, nem por isso, porque um nevoeiro irrequieto, que se movia, aparecia e desaparecia, impossibilitou-o. Dir-se-ia que o mar estava de férias. Portanto, resumindo e concluindo,  um mar de sonho, daqueles que a gente apelida, de mar ideal para a prática da pesca.


Dois tristes serranos

2.Espírito olímpico
Na primeira poitada 2 serranos.
Na segunda poitada e durante uma hora e meia, uns poucos de serranos, dois ou três sargos e umas fanecas de infantário.
Por causa desta pobreza franciscana, dei comigo a matutar no seguinte: lei da descompensação? O mar deu-nos uma calmaria fabulosa, mas tirou-nos o peixe? Não…estava a matutar mal…isto não é assim! Antes deste modo: os peixes são como as mulheres, ninguém manda nelas.

 Os sargos do Borges

Vai daí: fizemos a terceira poitada. Neste pouso, o barco recusava-se a esticar a corda e rodava ao acaso, por inexistência de corrente. Mas, ainda assim, acabaram por pingar uns peixitos. Quando a pesca esmorecia, o Cheta largava cabo, puxava cabo e tornava a largar. As ensarilhadelas multiplicaram-se: Cheta com Malheiro, Borges com Lamas, Óscar com todos…kķkkkkkk (um elogio: o Óscar é o melhor tecelão do barco – desfaz qualquer nó que lhe apareça. E ostenta uma paciência, que nem monge tibetano).
E estávamos nisto…com persistência olímpica encheu-se um cabaz. Eram 10 horas e quarta mudança. Até  as 13h00 a equipa olímpica das quinas marcou uns penaltis: encheu uma segunda caixa com exemplares maduros.

 Os carapaus do Borges

3.O inconformismo do Borges
Se os meus amigos bem se lembram, aquele jovem de 71 anos, na sessão de pesca anterior (dia 13 de Agosto), pescou uma merda. Não pegou, nem que tivesse sido, um miserável sargo. Foi uma daquelas amarguras bem sentida. Cá o meu, não gostou mesmo nada dessa má, dessa péssima prestação. 

 O Malheiro também pontuou

Deste modo, ele entendeu que desta vez o prejuízo teria de ser reparado e eriçou-se de pergaminhos, postando-se em jeito de vingança. Havia ali uma vontade enorme de pescar muitos sargos. Assim, acomodou-se ao volante e arrancou tipo Fângio, mergulhando nas profundezas. Deu certo, porque nas curvas, nas retas e nas subidas e descidas do fundo do mar, iniciou-se como taxista ocupado, fartando-se de transportar passageiros: o menino Borges trouxe ao destino final, às caixas, 15 sargos e mais 2 choupas. Foi assim reposta a sua competência. Os meus colegas tentaram sabotar a contagem, referindo contagens pessoais impossíveis. Mas, qual quê…o meu transporte era mais bonito e trazia mais passageiros. Ganhei neste dia o prémio “volante de ouro”.
Será, que conseguem admitir como verdadeiro, que nem me apetecia almoçar, tal a excitação? E já eram 13h00…

 Chama-se a isto apetite

4.Moelas e Vinhão
Pelas 13h30 o “empregado” chegou-se à nossa mesa com duas panelas a fumegarem odores apetecíveis: uma com massa e outra com moelas estufadas à Óscar. Foi mesa pequena, apetite grande. Até os mascatos rasavam o barco…não sei se têm um olfacto apurado, mas que têm bicos eficazes, lá isso têm. Tiveram azar pois não sobrou nada…


Este Óscar, por mais que puxe pela memória do paladar, não me lembro de ter comido alguma vez, moelas tão gostosas. Também ajudou o Vinhão – negro, espumoso, fresquinho, bem bebido a tragos lentos…das 3 garrafas cheias daquele verde de Felgueiras, só ficaram os vidros. Disseram-me:
- Traga mais.
Os cinco amantes da vida, sentiram-se vivos, mais vivos.

 A mortalha da choupa

Carapaus gay em cama vegetal
 Euforia

5. A pausa
O peixe costuma dar-nos pausa habitualmente entre as 12h00 e as 14h30. Dizem os mais velhos e experimentados pescadores, que eles param a sua actividade alimentar, por causa do sol, que se posiciona na vertical. Não sei…Neste dia, como a pausa se verificou a partir das 13h00, lógicamente que só a partir das 15h30 acordariam da sesta e se fariam à vida. Foi “certinho, certinho” (o outro diria “limpinho, limpinho”, pelo que limpámos o cebo a mais uma série de espécies. Até pargos. E muitas cavalas, esses peixes indesejados por quase todos os meus compatriotas,  exceptuando o Malheiro e Moi, que apreciam peixes sem escama e sem bexiga natatória – manias.

 Este Cheta quando quer...

E assim se encheram no total 3 caixas e meia, o que considerando a técnica utilizada – mudanças constantes de pesqueiro e mais ou menos cabo – se classificou a pescaria com um razoável mais.
A terminar, mister Jameson apareceu e fez questão de proceder ao encerramento deste dia de pesca, com um brinde, à boa maneira irlandesa.

 A visita de Mr Jameson

Durante o naveganço até à Marina cantou-se a canção do brasileiro Eduardo Costa “A Sapequinha”. Meus irmãos brazucas, a pesca dos tugas é assim. Kkkkkkkkkk

 Okey

Leça, 15 de Agosto de 2016
Luís M. Borges




65. MEMÓRIAS DO ALTO MAR



A turma do pagode

 
1.Só Lamas
O dia de pesca começou auspicioso. Ainda a turma preparava as suas “armas”, quando o Lamas bradou:
- Trago peixe na minha caninha dourada.
Para espanto da turma, o Lamas recolheu eufórico, 2 valentes peixes: um sargo e um besugo.
- É assim Lamas? Eh pessoal, toca a despachar. Pelos vistos o sítio tem peixe. Vamos a eles…


Foram frases de entusiasmo, para se afanarem na busca dos tão almejados sargos e besugos.
Contudo, para desilusão geral, saíram sim, mas foram serranos, e mais serranos e só serranos. Dezenas deles, durante uma desencantada hora! Tínhamos poitado na nação dos serranos…


Dadas as circunstâncias, o tribunal decisório reuniu e sentenciou a saída urgente daquele local, para outro mais produtivo. Navegou-se 1 milha. A turma insistiu. Deu resultado: o Cheta sacou 1 pargo, o Óscar outro, o Malheiro uma choupa…o Borges serranos, obviamente.


Até que o Lamas traz um fóssil vivo do fundo do mar – uma abrótea com 2,850 kg...e todos cantaram “É o bicho. É o bicho”.
Chegou entretanto a vaga dos carapaus, mais umas fanecas.

2.Carapaus de rabo na boca
Pois foi. Por três vezes, cá o inovador decidiu dar um ar da sua graça, pescando carapaus de rabo na boca (tentou destronar a pescadinha). Posso entender como e porquê acontece esta situação, mas para além das risadas, foram-se 3 retenidas à vida. Não me caíram bem estas palhaçadas destes ilustres carapaus. Pesca é pesca e o anzol deve sempre vir espetado na boca…ora essa!


No imediato, esta situação caricata foi abafada pelo Cheta – mais um pargo. Os outros, deram com alguns sargos e mais fanecas, algumas bem pequenas, atiradas à água, para sobreviverem (a lei obriga e os nossos legisladores sabem muito bem o que fazem lá nas Lisboas). As gaivotas agradeceram, embora se guerreassem, mas enchendo os papos. E soou o apito.

3.Malheiro, o cozinheiro improvável


Tínhamos perguntado ao Malheiro por 3 vezes, qual seria o prato do dia:
Respondeu-nos primeiro: - Arroz de marisco
Respondeu-nos a seguir: - Leitão
Respondeu-nos ainda: - Bacalhau
Esta tanga durou até ao momento em que a panela foi ao lume – a aroma não decepcionou nem enganou ninguém: o cardápio era “Arroz de Cabidela”.


Foi uma satisfação vê-los a pegarem nas coxas, nas asas e nas patas do frango, à unha. Ao Vinhão de Felgueiras bateram palmas. Ao queijo francês fizeram vénias. Ao café brasileiro pediram mais. Ao whisky ergueram os copinhos a brindar.
Arrotei…sim, arrotei de bem abastecido.

4.Cheta, o maior
Por unanimidade, o Cheta foi declarado o pescador do dia, porque quase todos os sargos foram pescados por ele. Neste dia, estava no rumo dos escamas, as espécies de que ele mais gosta, embora rejubile com os vermelhos (mas estes são ocasionais, enquanto os sargos saem por sistema). E assim se foram acamando os peixes nos cabazes. Também se acantonam bem nos frigoríficos lá de casa e melhor se arrumam nas arcas frigoríficas.
Neste dia o Cheta foi o meu herói. O Cheta faz-me lembrar, quando olho para ele com curiosidade e atenção, o pescador do conto “O velho e o mar” de Hernest Hemingway. A doar-se…a aconselhar prudência no mar…a pescar em grande…


5.Óscar, na pele da cobra
As cobras mudam de pele, como que se descascam. Lembrei-me das cobras ao ver o Óscar a vestir um “kispo” desfeito literalmente, de pedinte, ou de alguém que tivesse levado uma valente coça. E ele, impassível e sereno, com um sorriso de gozo, face às nossas críticas e gargalhadas. Tenho a certeza que irá dar moda, atendendo a que as raparigas já utilizam o roto, a mostrarem as coxas, na vaidade das calças. Fica-lhes bem, não a todas, claro…

Ora o Óscar levantou a moral dos seus colegas com este casaco. A vida da pesca em alto mar, sobretudo quando está previsto um dia abrasador e sai um ferrete de vento norte gelado, nevoeiro e vaga, a baterem no barco e nos homens, só existe uma solução – vestir o que está disponível nos armários da embarcação, de modo a evitar-se o frio e consequentemente uma eventual constipação.
Mas, diga-se, mesmo com este aspecto andrajoso, de pobre de pedir, pescou muito bem. É um excelente pescador e leva tudo para a brincadeira. É o nosso pescador dos recordes.

6.Estes carapaus são loucos
Já referi os carapaus de rabo na boca. Mas, com carapaus em estado de normalidade, o Borges também se dá bem. Pescou praticamente só carapaus, na última etapa da pesca: grandes, médios e pequenos. Aos 3 e aos 2 em simultâneo.
De salientar, que pela primeira vez desde que venho à pesca nesta embarcação – e já lá vão 46 vezes – não consegui pescar um único sargo, nem qualquer choupa ou besugo. Só carapaus, carapaus, carapaus.


Pela positiva, diga-se que os carapaus adoram a minha forma de iscar, os meus anzóis brancos, a minha técnica de os seduzir. Acabei por os agraciar com uma foto de “olheiro”. Como tenho olhos de deficiente (cataratas, glaucoma, pressão alta, etc), quis ver o mundo com olhos de carapau. Contarei um dia o que vi!

7.Hollywood
Às 17h00 o ferro foi içado e o Óscar afrontou aquele mar, que se tinha posto medonho, com um esgar à Hollywood. Uns saltos, a água a rasar o barco, a incomodidade da viagem - todo mundo fez esgares - a imitaram o Óscar. Que artistas!


Leça, 13 de Agosto de 2016
Luís M. Borges