segunda-feira, 14 de março de 2016

58. MEMÓRIAS DO ALTO MAR



4. Pescadores com boca


“Comer sem beber não é comer”, diz o povo


Pequeno-almoço
O Óscar neste dia afastou-nos da simplicidade. A pesca, mais uma vez, fê-la só o mar, deixando lá o peixe. Assim, fomos pescar vinho. À Régua. Mais concretamente ao Marmelal, onde vivem os pais do Óscar e onde a quinta é farta deste líquido. Todos os anos, por esta altura, se efectua esta peregrinação, com direito a almoço. Daqueles com sabor a antigamente e a Douro. A Mãe do Óscar não olha para os pratos vazios. Faz ao contrário, enche bem as travessas.
Saímos às 07h00 e depressa chegámos a Gondar/Amarante ao Restaurante Cavalinho, onde a dona “surda” (dispensou os sons do mundo), mais a magnífica filha (não dispensou a simpatia), nos atenderam com sandes de presunto e malgas de vinho.


Vinho


Às 10h00 já nos entretínhamos a mexer em bidões, garrafas e garrafões, no afã de os encher com vinho tinto. Num cantinho discreto da adega, uma mesa expunha bola de carne, salpicão e copos, onde todos iam remexendo. Miravam extasiados a contraluz, a cor rubi dos copos carregados, que logo descarregavam por entre a fissura dos lábios. Nenhum dos participantes apresentou alternativas ou sequer esqueceu elogios.

 Colação

 Almoço

Às 13h00, na “sala de jantar”, as feijocas rebolavam nos pratos, os rojões negros fumegavam em delícia, as batatas completavam. Fez-se uma vénia à Mãe do Óscar, numa homenagem às origens do saber, ao muito tradicional bom gosto de todos nós. Depois, no café da aldeia (Douro Jovem), não fomos considerados turistas. O bom bagaço conferiu conformidade aos costumes, a companhia do Óscar credenciou-nos (no dizer da empregada). E mais uma vez, através da enorme vidraça panorâmica, olhei o meu Douro, a majestade da paisagem duriense. Como sempre, fiquei moldado no silêncio do êxtase. O Douro é demais para mim. Ainda não cresci o suficiente para o compreender plenamente.

 Douro

Regressados à adega, acabámos o serviço de engarrafamento e atulhámos as malas dos carros. Quase prontos para o regresso, eis que o irmão do Óscar nos desencaminhou. Havia algures um porco preto caseiro de 15 quilos para assar na brasa, destinado ao jantar. Para fazermos tempo, fomos ter a casa do Artur, onde a paródia de serrar uma perna de cabra congelada, deu para enorme paródia. Ainda se provaram umas especialidades na adega do Artur, enquanto outros esperavam à chuva e ao frio ou a dormirem nos carros. 

 Mau tempo

Contudo, às 19h00 já rezávamos sentados à mesa, frente ao santo porco grelhado, com uns grelos a acompanharem. Vinho de um lavrador local, desafiou os bebentes. Mais umas galhofas, mais umas anedotas, o grito dos benfiquistas (jogava contra o Sporting),mais uns brindes e finalmente a promessa da repetição nas despedidas e nos agradecimentos e elogios.

 Porco preto

O regresso fez-se a descer até ao rio, a atravessar a ponte da Régua, a subir para Mesão Frio até à A4. Durante o percurso o Tita afirmou 10 vezes que ao vinho do Óscar não se podia juntar água e muito menos deixar de o beber.
- Pecados!

 Régua

Eu, também quis entrar e perguntei:
- Por que carga de água o rei de Portugal D. Sancho I deu foral à aldeia de Marmelal (situada nos recônditos) e a rainha sua esposa mandou construir lá  uma bela capela? Eu tenho uma teoria…a qualidade do vinho? Uma cara bonita? Isto por parte do rei. Por parte da rainha, a desculpa da capela (estar por perto) para acautelar eventuais infidelidades? Deixo a questão para a investigação….


D.Sancho I; o Foral; a Capela
Quase à meia noite o Óscar largou-nos. Se tivesse sido um dia de pesca a descarga ter-se-ia efectuado na Marina com peixe. Assim a descarga foi de vinho.

 Referências

Quem acha que o vinho perturba a existência?

Marmelal, 05 de Março de 2016
Luís M. Borges

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