Cada dia é um bico-de-obra
1.
O disco
O disco
Pusemos os pés no chão do barco e rumámos ao alto. Sobre Matosinhos, um
disco coroava a cidade. Talvez um bom augúrio.
A conversa até ao pesqueiro foi “cambuta”. Digamos, conversa sem
interesse. Antes me interessava pensar na compensação, na imensa perda de tempo
à espera…sem poder pescar.
2.
Animal aflito
"Animal aflito"
Desde o princípio do ano que o mar me lembrava o Passos Coelho – raivoso.
Na praia de Matosinhos, o meu olhar caía sempre no meio de imensa água em turbulência.
Sentia-lhe nitidamente um respirar rouco, uma tosse convulsa. Impossível pescar
neste animal aflito.
3.
O carreirinho
Assim, este sábado 20, concentrava em si um grande saco de escolhos ou de pérolas. Uma caixinha de surpresas.
Seguir o carreirinho
Assim, este sábado 20, concentrava em si um grande saco de escolhos ou de pérolas. Uma caixinha de surpresas.
E a pesca começou. As águas estavam ainda um pouco tapadas devido às
cheias e a correnteza complicava. Porém, o ânimo vincava-se nos cinco
pescadores. Fui eu que iniciei seguir o carreirinho desta viagem à “terra” dos
peixes. Dois sargotes rabugentos. Senti-me a expurgar a vida da rotina
maliciosa. Logo me apercebi que umas fanecas, uns serranos e umas choupas,
também resolveram, através dos meus colegas, seguir o carreirinho.
Também seguiram o carreirinho
- Olha um “Slimani”, gritava o Cheta. Era um carapau.
Até que o carreirinho começou a estreitar – os peixes desistiram. O
silêncio começou a incomodar-nos. Não havendo peixes, não podem haver palavras.
Um bacalhau dourado brilhou na messe do barco, fazendo sorrir os
fregueses. O silêncio calou-se.
Depois, mais café, mais pão-de-ló, mais whisky, gastaram o tempo. Para se
reiniciar a pesca na badalada das 14h30. E foi realmente: o retorno do peixe alcandorou-se
às arcas, com aparelhos completos a fremirem de sargos.
O congro do Borges e o apoio do Óscar
O Forte atirou-se aos besugos; o Borges apostou no congro por acaso; o
Óscar era aos três em simultâneo; o caçador Malheiro fazia-se de pescador e o Cheta
brincava com as caixas vazias.
O caçador Malheiro
Por volta das 16h00 o vento lembrou-se de nós, com a ondulação a ameaçar.
Pelo sim, pelo não, a decisão foi correcta: rumar à Marina. Havia 3 caixas de
peixe, quantidade mais que suficiente para satisfazer os egos.
Ao Cheta dá-lhe para a brincadeira.
A pesca é isto…”cada dia é um bico-de-obra”, como canta Ana Moura, a
fadista.
Leça da Palmeira, 20 de Fevereiro de 2016
Luís M. Borges
Nenhum comentário:
Postar um comentário