sexta-feira, 4 de março de 2016

57. MEMÓRIAS DO ALTO MAR



Cada dia é um bico-de-obra


1.      O disco
O disco

Pusemos os pés no chão do barco e rumámos ao alto. Sobre Matosinhos, um disco coroava a cidade. Talvez um bom augúrio.
A conversa até ao pesqueiro foi “cambuta”. Digamos, conversa sem interesse. Antes me interessava pensar na compensação, na imensa perda de tempo à espera…sem poder pescar.

2.      Animal aflito
"Animal aflito"

Desde o princípio do ano que o mar me lembrava o Passos Coelho – raivoso. Na praia de Matosinhos, o meu olhar caía sempre no meio de imensa água em turbulência. Sentia-lhe nitidamente um respirar rouco, uma tosse convulsa. Impossível pescar neste animal aflito.
3.      O carreirinho

 Seguir o carreirinho

      Assim, este sábado 20, concentrava em si um grande saco de escolhos ou de pérolas. Uma caixinha de surpresas.
E a pesca começou. As águas estavam ainda um pouco tapadas devido às cheias e a correnteza complicava. Porém, o ânimo vincava-se nos cinco pescadores. Fui eu que iniciei seguir o carreirinho desta viagem à “terra” dos peixes. Dois sargotes rabugentos. Senti-me a expurgar a vida da rotina maliciosa. Logo me apercebi que umas fanecas, uns serranos e umas choupas, também resolveram, através dos meus colegas, seguir o carreirinho.

 Também seguiram o carreirinho

- Olha um “Slimani”, gritava o Cheta. Era um carapau.
Até que o carreirinho começou a estreitar – os peixes desistiram. O silêncio começou a incomodar-nos. Não havendo peixes, não podem haver palavras.
- Almoço, era o Malheiro.

 Bacalhau dourado

Um bacalhau dourado brilhou na messe do barco, fazendo sorrir os fregueses. O silêncio calou-se.
Depois, mais café, mais pão-de-ló, mais whisky, gastaram o tempo. Para se reiniciar a pesca na badalada das 14h30. E foi realmente: o retorno do peixe alcandorou-se às arcas, com aparelhos completos a fremirem de sargos.

 O congro do Borges e o apoio do Óscar

O Forte atirou-se aos besugos; o Borges apostou no congro por acaso; o Óscar era aos três em simultâneo; o caçador Malheiro fazia-se de pescador e o Cheta brincava com as caixas vazias.

O caçador Malheiro
4.      Egos


 Repouso do Forte. Bem merecido.

Por volta das 16h00 o vento lembrou-se de nós, com a ondulação a ameaçar. Pelo sim, pelo não, a decisão foi correcta: rumar à Marina. Havia 3 caixas de peixe, quantidade mais que suficiente para satisfazer os egos.

 Ao Cheta dá-lhe para a brincadeira.

A pesca é isto…”cada dia é um bico-de-obra”, como canta Ana Moura, a fadista.
Leça da Palmeira, 20 de Fevereiro de 2016
Luís M. Borges

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