Nunca percebi porquê!
Faneca benfiquista
Dos carros, caixas de amêijoa congelada, arcas de pesca, canas, mochilas,
panelas com comida, sacos e saquinhos…
Do barco, caixas para o pescado, bicheiro, galripo, baldes, placas para
iscos…
Tudo isto carregado pelos 5 pescadores nuns breves 15 minutos. Depois, as
amarras tiradas, o ronronar do motor, o arranque e o pessoal a ajeitar-se nos lugares
disponíveis. Apareceu-nos a seguir um mar bastante remexido, após a saída da
barra de Leixões.
A 12 milhas, a poitada decidiu o destino da pesca. Soavam as 08h00. Na
forte correnteza, começaram os problemas. Sarilhos, atrasos, muita paciência e compreensão,
seguindo-se o tricot de desfazer enrolamentos incríveis. O último recurso
chamava-se CORTA. Era a tesoura a facilitar e a mandar nos estralhos e nos
anzóis.
- Mais duas retenidas, bradava o Cheta.
Promiscuidade
A pesca demorou a começar…no início os inevitáveis serranos, depois as
insistentes fanecas e finalmente as tão desejadas choupas. Estas, a saírem em rajada
e a coordenaram entusiasmos nos ocupados pescadores. Que beleza!
Os sargos, raros, iam-se misturando com as choupas, numa promiscuidade
embaraçosa. Eram machos. Sabia-se, porque se deleitavam, abundantemente. Até
incomodava.
Esta euforia piscatória teve um pico até à hora de almoço.
- Isto é lixado- resmungava o Malheiro- temos agora de esperar pela hora
do Cheta, às 14h30.
Contudo, nem meia caixa se conseguiu pescar, até às 16h00.
O sargo/avô
Único facto relevante neste período de tempo: o Óscar pescou um enorme
sargo com o peso de 1,750 kg. Lindo. O orgulho do Óscar gerou palavras, que
confirmaram imagens feitas fotos. Para a posteridade, para que conste. Os bons
pescadores não se fazem sem provas, porque têm a fama de mentirosos.
O Américo surpreendeu. Com desvelo e requinte apresentou-nos umas bifanas
a que o Óscar juntou um esparguete.
-Delícia, como diria a minha sobrinha brasileira.
Foi um almoço saboroso, com o sol a aquecer-nos as costas. Já a meio da
manhã o Américo nos tinha fascinado ao abrir 2 caixinhas: uma com bolinhos de
bacalhau e outra com azeitonas da lavra dele. Rapidamente as caixas se fizeram
vazias e as pequenas fraquezas da fome matinal
se fizeram esquecidas.
Porém, eu não poderia encerrar esta crónica, sem antes relevar algumas
bizarrias.
Primeiro o Borges com a sua almofadinha. Justificou com a tampa da sua
arca de pesca, que era demasiado dura. Dava-lhe cabo do nadegueiro. Ficava com as
nádegas doridas. Vai daí, solicitou à esposa, que lhe arranjasse uma pequena almofada,
de modo a dar um certo descanso às carnes já flácidas do cu. Deu resultado. Não
há como a pesca confortável, almofadinhas à parte.
O Cheta foi convidado pela filha para a sua despedida de solteira, uma
vez que iria casar brevemente. A festa era em Gaia. Não falou noutra coisa todo
o dia: que não iria conduzir, que o fossem buscar a casa, que o trouxessem, que
tinha de chegar a horas, que iria ser um fartote, nada de arroz ou batatas, etc.
Alguém perguntou:
-Oh Cheta, você é solteiro? Vai a uma despedida de solteiro?
Na Marina foi o primeiro a abalar. Bem-disposto. O Cheta até que merecia
ser dispensado.
Malheiro: Pescar a dormir
Quanto ao Malheiro, não resistiu à força de uma boa sesta, enquanto
pescava -pescar a dormir. Não é nova esta bizarria, mas é rara. Conheci uma vez
um pescador francês, que numa prova federativa de pesca à tintureira na Póvoa,
ganhou o torneio pescando 3 tintureiras a dormir. Deitava-se nas redes do
barco, com a cana presa ao cinto e lançava o isco ao mar…E dormia…Só acordava
com o barulho do carreto a cantar. Quanto ao Malheiro, não reparei se foi
acordado por um belo sargo a puxar-lhe a cana. Mas, que pescou bem, pescou. A
dormir ou acordado não interessa.
Ciática?
O Óscar esteve queixoso. Dores na coluna, que lhe afectavam a perna
esquerda, faziam-no lamentar-se…Num homem cheio de energia, pleno de confiança,
custou-me vê-lo queixoso…Gramsci falava no optimismo da vontade e no pessimismo
da razão, ou seja, temos de esperar o melhor e estar preparados para o pior.
Com o mar que se começou a atrever
a partir das 16h00, regressámos em boa velocidade, com o barco a dar uns saltos
jeitosos. Como é que a água pode ser tão
dura? Sabem o que é um barco-canguru?
Besugo
De carro, passei pela casa de Vaz de Carvalho, a doar-lhe uns peixes. Ele
adorou.
Ao abrir o meu portão da garagem o meu vizinho de 85 anos, o sr Reis,
passava a mancar. Fiz-lhe também uma doação.
De seguida bati à porta de uma vizinha. Ela tinha-me oferecido orégãos e limões,
pelo que lhe retribuí a simpatia, com a terceira doação do dia.
No dia seguinte, domingo de manhã, fui visitar o convalescente Adérito. Tinha
efectuado uma intervenção cirúrgica à próstata. Ao ver os peixes que lhe doei,
lembrou-se da Ilha. Ficou feliz.
Fanecas cheias de sede de vinho
A minha última doação foi a mim. Ao meio dia começava a grelhar uns
sargos na casa da minha filha.
O sargo/avô do Óscar
Havia Primavera na minha alma. Adoro DAR…Nunca percebi porquê! É uma
sensação maravilhosa.
Sra da Hora, 12 de Março de 2016
Luís M. Borges









