segunda-feira, 14 de março de 2016

59.MEMÓRIAS DO ALTO MAR



Nunca percebi porquê!

 Faneca benfiquista
 
Dos carros, caixas de amêijoa congelada, arcas de pesca, canas, mochilas, panelas com comida, sacos e saquinhos…
Do barco, caixas para o pescado, bicheiro, galripo, baldes, placas para iscos…
Tudo isto carregado pelos 5 pescadores nuns breves 15 minutos. Depois, as amarras tiradas, o ronronar do motor, o arranque e o pessoal a ajeitar-se nos lugares disponíveis. Apareceu-nos a seguir um mar bastante remexido, após a saída da barra de Leixões.
A 12 milhas, a poitada decidiu o destino da pesca. Soavam as 08h00. Na forte correnteza, começaram os problemas. Sarilhos, atrasos, muita paciência e compreensão, seguindo-se o tricot de desfazer enrolamentos incríveis. O último recurso chamava-se CORTA. Era a tesoura a facilitar e a mandar nos estralhos e nos anzóis.
- Mais duas retenidas, bradava o Cheta.

Promiscuidade
A pesca demorou a começar…no início os inevitáveis serranos, depois as insistentes fanecas e finalmente as tão desejadas choupas. Estas, a saírem em rajada e a coordenaram entusiasmos nos ocupados pescadores. Que beleza!
Os sargos, raros, iam-se misturando com as choupas, numa promiscuidade embaraçosa. Eram machos. Sabia-se, porque se deleitavam, abundantemente. Até incomodava.
Esta euforia piscatória teve um pico até à hora de almoço.
- Isto é lixado- resmungava o Malheiro- temos agora de esperar pela hora do Cheta, às 14h30.
Contudo, nem meia caixa se conseguiu pescar, até às 16h00.

O sargo/avô

Único facto relevante neste período de tempo: o Óscar pescou um enorme sargo com o peso de 1,750 kg. Lindo. O orgulho do Óscar gerou palavras, que confirmaram imagens feitas fotos. Para a posteridade, para que conste. Os bons pescadores não se fazem sem provas, porque têm a fama de mentirosos.
O Américo surpreendeu. Com desvelo e requinte apresentou-nos umas bifanas a que o Óscar juntou um esparguete.




O Américo

-Delícia, como diria a minha sobrinha brasileira.
Foi um almoço saboroso, com o sol a aquecer-nos as costas. Já a meio da manhã o Américo nos tinha fascinado ao abrir 2 caixinhas: uma com bolinhos de bacalhau e outra com azeitonas da lavra dele. Rapidamente as caixas se fizeram vazias e as  pequenas fraquezas da fome matinal se fizeram esquecidas.
Porém, eu não poderia encerrar esta crónica, sem antes relevar algumas bizarrias.
Primeiro o Borges com a sua almofadinha. Justificou com a tampa da sua arca de pesca, que era demasiado dura. Dava-lhe cabo do nadegueiro. Ficava com as nádegas doridas. Vai daí, solicitou à esposa, que lhe arranjasse uma pequena almofada, de modo a dar um certo descanso às carnes já flácidas do cu. Deu resultado. Não há como a pesca confortável, almofadinhas à parte.
O Cheta foi convidado pela filha para a sua despedida de solteira, uma vez que iria casar brevemente. A festa era em Gaia. Não falou noutra coisa todo o dia: que não iria conduzir, que o fossem buscar a casa, que o trouxessem, que tinha de chegar a horas, que iria ser um fartote, nada de arroz ou batatas, etc. Alguém perguntou:
-Oh Cheta, você é solteiro? Vai a uma despedida de solteiro?
Na Marina foi o primeiro a abalar. Bem-disposto. O Cheta até que merecia ser dispensado.
 Malheiro: Pescar a dormir

Quanto ao Malheiro, não resistiu à força de uma boa sesta, enquanto pescava -pescar a dormir. Não é nova esta bizarria, mas é rara. Conheci uma vez um pescador francês, que numa prova federativa de pesca à tintureira na Póvoa, ganhou o torneio pescando 3 tintureiras a dormir. Deitava-se nas redes do barco, com a cana presa ao cinto e lançava o isco ao mar…E dormia…Só acordava com o barulho do carreto a cantar. Quanto ao Malheiro, não reparei se foi acordado por um belo sargo a puxar-lhe a cana. Mas, que pescou bem, pescou. A dormir ou acordado não interessa.
Ciática?

O Óscar esteve queixoso. Dores na coluna, que lhe afectavam a perna esquerda, faziam-no lamentar-se…Num homem cheio de energia, pleno de confiança, custou-me vê-lo queixoso…Gramsci falava no optimismo da vontade e no pessimismo da razão, ou seja, temos de esperar o melhor e estar preparados para o pior.
 Com o mar que se começou a atrever a partir das 16h00, regressámos em boa velocidade, com o barco a dar uns saltos jeitosos. Como é  que a água pode ser tão dura? Sabem o que é um barco-canguru?

 Besugo

De carro, passei pela casa de Vaz de Carvalho, a doar-lhe uns peixes. Ele adorou.
Ao abrir o meu portão da garagem o meu vizinho de 85 anos, o sr Reis, passava a mancar. Fiz-lhe também uma doação.
De seguida bati à porta de uma vizinha. Ela tinha-me oferecido orégãos e limões, pelo que lhe retribuí a simpatia, com a terceira doação do dia.
No dia seguinte, domingo de manhã, fui visitar o convalescente Adérito. Tinha efectuado uma intervenção cirúrgica à próstata. Ao ver os peixes que lhe doei, lembrou-se da Ilha. Ficou feliz.

 Fanecas cheias de sede de vinho
A minha última doação foi a mim. Ao meio dia começava a grelhar uns sargos na casa da minha filha. 

O sargo/avô do Óscar

Havia Primavera na minha alma. Adoro DAR…Nunca percebi porquê! É uma sensação maravilhosa.


Sra da Hora, 12 de Março de 2016
Luís M. Borges

58. MEMÓRIAS DO ALTO MAR



4. Pescadores com boca


“Comer sem beber não é comer”, diz o povo


Pequeno-almoço
O Óscar neste dia afastou-nos da simplicidade. A pesca, mais uma vez, fê-la só o mar, deixando lá o peixe. Assim, fomos pescar vinho. À Régua. Mais concretamente ao Marmelal, onde vivem os pais do Óscar e onde a quinta é farta deste líquido. Todos os anos, por esta altura, se efectua esta peregrinação, com direito a almoço. Daqueles com sabor a antigamente e a Douro. A Mãe do Óscar não olha para os pratos vazios. Faz ao contrário, enche bem as travessas.
Saímos às 07h00 e depressa chegámos a Gondar/Amarante ao Restaurante Cavalinho, onde a dona “surda” (dispensou os sons do mundo), mais a magnífica filha (não dispensou a simpatia), nos atenderam com sandes de presunto e malgas de vinho.


Vinho


Às 10h00 já nos entretínhamos a mexer em bidões, garrafas e garrafões, no afã de os encher com vinho tinto. Num cantinho discreto da adega, uma mesa expunha bola de carne, salpicão e copos, onde todos iam remexendo. Miravam extasiados a contraluz, a cor rubi dos copos carregados, que logo descarregavam por entre a fissura dos lábios. Nenhum dos participantes apresentou alternativas ou sequer esqueceu elogios.

 Colação

 Almoço

Às 13h00, na “sala de jantar”, as feijocas rebolavam nos pratos, os rojões negros fumegavam em delícia, as batatas completavam. Fez-se uma vénia à Mãe do Óscar, numa homenagem às origens do saber, ao muito tradicional bom gosto de todos nós. Depois, no café da aldeia (Douro Jovem), não fomos considerados turistas. O bom bagaço conferiu conformidade aos costumes, a companhia do Óscar credenciou-nos (no dizer da empregada). E mais uma vez, através da enorme vidraça panorâmica, olhei o meu Douro, a majestade da paisagem duriense. Como sempre, fiquei moldado no silêncio do êxtase. O Douro é demais para mim. Ainda não cresci o suficiente para o compreender plenamente.

 Douro

Regressados à adega, acabámos o serviço de engarrafamento e atulhámos as malas dos carros. Quase prontos para o regresso, eis que o irmão do Óscar nos desencaminhou. Havia algures um porco preto caseiro de 15 quilos para assar na brasa, destinado ao jantar. Para fazermos tempo, fomos ter a casa do Artur, onde a paródia de serrar uma perna de cabra congelada, deu para enorme paródia. Ainda se provaram umas especialidades na adega do Artur, enquanto outros esperavam à chuva e ao frio ou a dormirem nos carros. 

 Mau tempo

Contudo, às 19h00 já rezávamos sentados à mesa, frente ao santo porco grelhado, com uns grelos a acompanharem. Vinho de um lavrador local, desafiou os bebentes. Mais umas galhofas, mais umas anedotas, o grito dos benfiquistas (jogava contra o Sporting),mais uns brindes e finalmente a promessa da repetição nas despedidas e nos agradecimentos e elogios.

 Porco preto

O regresso fez-se a descer até ao rio, a atravessar a ponte da Régua, a subir para Mesão Frio até à A4. Durante o percurso o Tita afirmou 10 vezes que ao vinho do Óscar não se podia juntar água e muito menos deixar de o beber.
- Pecados!

 Régua

Eu, também quis entrar e perguntei:
- Por que carga de água o rei de Portugal D. Sancho I deu foral à aldeia de Marmelal (situada nos recônditos) e a rainha sua esposa mandou construir lá  uma bela capela? Eu tenho uma teoria…a qualidade do vinho? Uma cara bonita? Isto por parte do rei. Por parte da rainha, a desculpa da capela (estar por perto) para acautelar eventuais infidelidades? Deixo a questão para a investigação….


D.Sancho I; o Foral; a Capela
Quase à meia noite o Óscar largou-nos. Se tivesse sido um dia de pesca a descarga ter-se-ia efectuado na Marina com peixe. Assim a descarga foi de vinho.

 Referências

Quem acha que o vinho perturba a existência?

Marmelal, 05 de Março de 2016
Luís M. Borges

sexta-feira, 4 de março de 2016

57. MEMÓRIAS DO ALTO MAR



Cada dia é um bico-de-obra


1.      O disco
O disco

Pusemos os pés no chão do barco e rumámos ao alto. Sobre Matosinhos, um disco coroava a cidade. Talvez um bom augúrio.
A conversa até ao pesqueiro foi “cambuta”. Digamos, conversa sem interesse. Antes me interessava pensar na compensação, na imensa perda de tempo à espera…sem poder pescar.

2.      Animal aflito
"Animal aflito"

Desde o princípio do ano que o mar me lembrava o Passos Coelho – raivoso. Na praia de Matosinhos, o meu olhar caía sempre no meio de imensa água em turbulência. Sentia-lhe nitidamente um respirar rouco, uma tosse convulsa. Impossível pescar neste animal aflito.
3.      O carreirinho

 Seguir o carreirinho

      Assim, este sábado 20, concentrava em si um grande saco de escolhos ou de pérolas. Uma caixinha de surpresas.
E a pesca começou. As águas estavam ainda um pouco tapadas devido às cheias e a correnteza complicava. Porém, o ânimo vincava-se nos cinco pescadores. Fui eu que iniciei seguir o carreirinho desta viagem à “terra” dos peixes. Dois sargotes rabugentos. Senti-me a expurgar a vida da rotina maliciosa. Logo me apercebi que umas fanecas, uns serranos e umas choupas, também resolveram, através dos meus colegas, seguir o carreirinho.

 Também seguiram o carreirinho

- Olha um “Slimani”, gritava o Cheta. Era um carapau.
Até que o carreirinho começou a estreitar – os peixes desistiram. O silêncio começou a incomodar-nos. Não havendo peixes, não podem haver palavras.
- Almoço, era o Malheiro.

 Bacalhau dourado

Um bacalhau dourado brilhou na messe do barco, fazendo sorrir os fregueses. O silêncio calou-se.
Depois, mais café, mais pão-de-ló, mais whisky, gastaram o tempo. Para se reiniciar a pesca na badalada das 14h30. E foi realmente: o retorno do peixe alcandorou-se às arcas, com aparelhos completos a fremirem de sargos.

 O congro do Borges e o apoio do Óscar

O Forte atirou-se aos besugos; o Borges apostou no congro por acaso; o Óscar era aos três em simultâneo; o caçador Malheiro fazia-se de pescador e o Cheta brincava com as caixas vazias.

O caçador Malheiro
4.      Egos


 Repouso do Forte. Bem merecido.

Por volta das 16h00 o vento lembrou-se de nós, com a ondulação a ameaçar. Pelo sim, pelo não, a decisão foi correcta: rumar à Marina. Havia 3 caixas de peixe, quantidade mais que suficiente para satisfazer os egos.

 Ao Cheta dá-lhe para a brincadeira.

A pesca é isto…”cada dia é um bico-de-obra”, como canta Ana Moura, a fadista.
Leça da Palmeira, 20 de Fevereiro de 2016
Luís M. Borges