Conflitos saudáveis
1. Sargalhões
Nesta altura do ano, o mar é abundância. Os Sargalhões quileiros fazem-se
aos iscos com uma sofreguidão única. Alguns deles até já vêm aleitados, o que
significa, amores próximos.
Dá gosto pegar nestes gordalhuços, sentir-lhes a consistência e a força, observá-los
com admiração.
A “rivalidade” entre os quatro do Fosmar concretizou-se com eles, no relato
do histórico de cada um. E os seus diversos entusiasmos nunca exibiram vaidades
vãs.
Sempre coube ao Borges por decisão própria, efectuar o registo mental e
fotográfico da pescaria de cada um, apenas pelo defeito (se não for virtude ou
utilidade comum) de escrever a crónica ilustrada. Se assim não fosse, esta vida
de pescador e as respectivas peripécias
transformariam estes bons pedaços
de vida em esquecimento.
Foram 7 os maiores, 14 os médios mais, 50 os médios e 30 os mais pequenos.
Com esta pazada de excelente sargos, as caixas acabaram por ficar bonitas e a
refulgir.
2. Chouponas
2. Chouponas
Na brincadeira, sempre na boa disposição, a malta costuma dizer:
- Mais uma “Chupa”.
Mas, neste dia todos mudaram o léxico, referindo “chouponas”.
Portanto, as choupas também
entraram na paródia, com exemplares de respeito, embora em muito menor
número. Contiveram-se ou foram superadas em velocidade atacante por outras
espécies e mal assim pelas antipáticas bogas, que mais uma vez decidiram chatear,
com menos insistência, mas mesmo assim, acabando por prejudicar o enchimento das
caixas.
Estas meninas consideradas indesejáveis, elegeram um novo campeão bogueiro,
o Borges, que aceitou o desígnio de “alimentador-mor” de bicos esfomeados: boga
pescada, boga oferecida aos Mascatos. Crime e castigo para as bogas…
3. Outras espécies
O aforro complementar esteve mais uma vez nos carapaus, os sempre
presentes. Violaram as regras das nossas preferências, mas foram perdoados,
pois redimem-se sempre “à posteriore”: são excelentes em gosto quando fritos e super-excelentes
na assadeira (não podia faltar o elogio do forno).
Algumas fanecas devem ter-se enganado; os belíssimos Bodiões-canário
coloriram os cabazes; um polvo jeitoso foi rematado pelo Cheta; o Óscar
deixou-se fotografar com o melhor besugo; o Malheiro gastou alguma energia a
emergir um pargo.
4. O Óscar
4. O Óscar
Um homem muito polivalente. Meteu-se comigo dizendo que eu estava a
perder qualidades. Criticou a forma como recolhi 2 sargos do aparelho para o
barco – com razão.
Criticou a maneira lenta como iscava os anzóis de amêijoa - com razão.
Criticou-me como o principal responsável pelas repetidas enleadelas de
fios – sem razão.
Mas o Borges aceitou de bom grado. Aprecia quando o corrigem. Melhora ao
corrigir.
Mas, não se ficou por aqui. Criticou tudo e todos, até o Cheta por ter
entornado o café e o Malheiro por estar a pescar muito calado.
5. Rojões
Foi obra convencer o Cheta a trazer Rojões para o almoço. Queria a todo o
custo cabidela.
As batatas foram também um problema. Queria cozê-las descascadas.
Obrigaram-no, a consentimento dele, a fazê-las com casca.
Resultou bem esta rojoada gostosa: levou redenho, sangue, tripa
enfarinhada e fígado. Uma rojoada digna dos Reis de Espanha. Hombre!
Foi pena, que o autor deste petisco admirável estivesse “mal do papo” ,
como ele diz muitas vezes. Umas sandes maliciosa de sardinha atomatada em
conserva lixou-lhe o dito. O Óscar, gentilmente, tinha-lhe oferecido a sardinha
e o Borges, simpaticamente, fez-lhe a sandes. Só que esta conserva continha
duas vagens de piripiri – o Borges não sabia e o Óscar nem se lembrou – pelo que
o nosso Cheta passou toda a manhã a queixar-se do frágil papo.
Ao almoço comeu um rojãozito, bebeu 2 copos, comeu queijo e uma nata, tomou
café e atacou a aguardente-velha. Ficou “porreiro”.
6. O Malheiro
6. O Malheiro
Agora é o novo Campeão Regional de Pesca Desportiva do Alto Mar, pelo
Campeonato Inter-Bancário.
Todo ufano, explicou em pormenor, como foi a coisa. Todos admiraram o
feito desportivo do nosso colega. Até mereceu um elogio merecido, aceite pelos
restantes três camaradas:
- O Malheiro tem aprendido umas coisas connosco.
Era o Óscar no remoque, a rir-se de contente.
Com este estatuto de campeão, o Malheiro irá passar a ter mais
responsabilidades piscatórias no barco Fosmar. Quando se é campeão, afigura-se
o mestre. As sua dicas serão para ser respeitadas…
Agora a sério: parabéns Malheiro.
7. O Borges
7. O Borges
Este septuagenário que vos escreve, é o mais idoso da equipa. Cabem-lhe
uns bons 71 anos. Segue-se o Cheta com 67, o Forte e o Malheiro talvez tenham
quase 60 e o mais novo, o Óscar, anda pelos 50. Isto, para chegar à seguinte
questão, colocada em forma de pergunta:
- Como poderá este ser humano, a viver na sétima década da sua
existência, competir em pé de igualdade com os seus companheiros?
Coca-Cola não bebe, recusa-se; café não há, por impraticável; estimulantes
não usa, arrebentam com o coração; outras drogas, são proibidas e maléficas.
Assim, que lhe resta?
A força de vontade, a saúde, a boa forma física e mental e o facto mais
importante – gostar imenso da pesca.
Este equilíbrio é difícil de conseguir e para mais o tempo não corre a
favor – a ladeira é sempre a descer…
Contudo, penso que se tem aguentado satisfatoriamente, em termos de
eficácia piscatória, mais ou menos em paridade com os seus colegas.
Portanto, resumindo e concluindo, vai estando em forma, embora mais
lento; embora com menos força ; embora com menos resistência.
Os seus companheiros têm dele essa percepção e assumidamente libertam-no
de algumas tarefas mais pesadas. Ele agradece- lhes a consideração. São seus
amigos.
Mas, atenção, se vierem os peixes grandalhões (pargos, gorazes, congros, etc),
irão ver como ele lhes trata da saúde. Como diz o Vaz de Carvalho em tom
jocoso: “Verásse”.
8. O horizonte
O mar entretanto foi melhorando de trato com uma vaga mais conforme ao nosso
desejo.
Neste dia, aos quatro pescadores, o mar deu-lhes que fazer, no bom
sentido. Cumpriu com a doação de uma excelente pescaria.
Às 17h00, Matosinhos já se perfilava no horizonte. Uma rotina, esta constatação,
o términus. Não seria melhor ter Matosinhos simplesmente à espera na memória do
regresso?
Leça, 02 de Dezembro de 2016
Luís M. Borges