terça-feira, 6 de dezembro de 2016

75. MEMÓRIAS DO ALTO MAR




Conflitos saudáveis

1. Sargalhões

Nesta altura do ano, o mar é abundância. Os Sargalhões quileiros fazem-se aos iscos com uma sofreguidão única. Alguns deles até já vêm aleitados, o que significa, amores próximos.
Dá gosto pegar nestes gordalhuços, sentir-lhes a consistência e a força, observá-los com admiração.
A “rivalidade” entre os quatro do Fosmar concretizou-se com eles, no relato do histórico de cada um. E os seus diversos entusiasmos nunca exibiram vaidades vãs.
Sempre coube ao Borges por decisão própria, efectuar o registo mental e fotográfico da pescaria de cada um, apenas pelo defeito (se não for virtude ou utilidade comum) de escrever a crónica ilustrada. Se assim não fosse, esta vida de pescador e as respectivas peripécias  transformariam estes bons pedaços  de vida em esquecimento.
Foram 7 os maiores, 14 os médios mais, 50 os médios e 30 os mais pequenos. Com esta pazada de excelente sargos, as caixas acabaram por ficar bonitas e a refulgir.

 2. Chouponas


Na brincadeira, sempre na boa disposição, a malta costuma dizer:
- Mais uma “Chupa”.
Mas, neste dia todos mudaram o léxico, referindo “chouponas”.
Portanto, as choupas também  entraram na paródia, com exemplares de respeito, embora em muito menor número. Contiveram-se ou foram superadas em velocidade atacante por outras espécies e mal assim pelas antipáticas bogas, que mais uma vez decidiram chatear, com menos insistência, mas mesmo assim, acabando por prejudicar o enchimento das caixas.
Estas meninas consideradas indesejáveis, elegeram um novo campeão bogueiro, o Borges, que aceitou o desígnio de “alimentador-mor” de bicos esfomeados: boga pescada, boga oferecida aos Mascatos. Crime e castigo para as bogas…

3. Outras espécies 


O aforro complementar esteve mais uma vez nos carapaus, os sempre presentes. Violaram as regras das nossas preferências, mas foram perdoados, pois redimem-se sempre “à posteriore”: são excelentes em gosto quando fritos e super-excelentes na assadeira (não podia faltar o elogio do forno).
Algumas fanecas devem ter-se enganado; os belíssimos Bodiões-canário coloriram os cabazes; um polvo jeitoso foi rematado pelo Cheta; o Óscar deixou-se fotografar com o melhor besugo; o Malheiro gastou alguma energia a emergir um pargo. 

 4. O Óscar


Um homem muito polivalente. Meteu-se comigo dizendo que eu estava a perder qualidades. Criticou a forma como recolhi 2 sargos do aparelho para o barco – com razão.
Criticou a maneira lenta como iscava os anzóis de amêijoa - com razão.
Criticou-me como o principal responsável pelas repetidas enleadelas de fios – sem razão.
Mas o Borges aceitou de bom grado. Aprecia quando o corrigem. Melhora ao corrigir.
Mas, não se ficou por aqui. Criticou tudo e todos, até o Cheta por ter entornado o café e o Malheiro por estar a pescar muito calado.
5. Rojões 

Foi obra convencer o Cheta a trazer Rojões para o almoço. Queria a todo o custo cabidela.
As batatas foram também um problema. Queria cozê-las descascadas. Obrigaram-no, a consentimento dele, a fazê-las com casca.
Resultou bem esta rojoada gostosa: levou redenho, sangue, tripa enfarinhada e fígado. Uma rojoada digna dos Reis de Espanha. Hombre!
Foi pena, que o autor deste petisco admirável estivesse “mal do papo” , como ele diz muitas vezes. Umas sandes maliciosa de sardinha atomatada em conserva lixou-lhe o dito. O Óscar, gentilmente, tinha-lhe oferecido a sardinha e o Borges, simpaticamente, fez-lhe a sandes. Só que esta conserva continha duas vagens de piripiri – o Borges não sabia e o Óscar nem se lembrou – pelo que o nosso Cheta passou toda a manhã a queixar-se do frágil papo.
Ao almoço comeu um rojãozito, bebeu 2 copos, comeu queijo e uma nata, tomou café e atacou a aguardente-velha. Ficou “porreiro”.

 6. O Malheiro


Agora é o novo Campeão Regional de Pesca Desportiva do Alto Mar, pelo Campeonato Inter-Bancário.
Todo ufano, explicou em pormenor, como foi a coisa. Todos admiraram o feito desportivo do nosso colega. Até mereceu um elogio merecido, aceite pelos restantes três camaradas:
- O Malheiro tem aprendido umas coisas connosco.
Era o Óscar no remoque, a rir-se de contente.
Com este estatuto de campeão, o Malheiro irá passar a ter mais responsabilidades piscatórias no barco Fosmar. Quando se é campeão, afigura-se o mestre. As sua dicas serão para ser respeitadas…
Agora a sério: parabéns Malheiro. 

 7. O Borges


Este septuagenário que vos escreve, é o mais idoso da equipa. Cabem-lhe uns bons 71 anos. Segue-se o Cheta com 67, o Forte e o Malheiro talvez tenham quase 60 e o mais novo, o Óscar, anda pelos 50. Isto, para chegar à seguinte questão, colocada em forma de pergunta:
- Como poderá este ser humano, a viver na sétima década da sua existência, competir em pé de igualdade com os seus companheiros?
Coca-Cola não bebe, recusa-se; café não há, por impraticável; estimulantes não usa, arrebentam com o coração; outras drogas, são proibidas e maléficas.
Assim, que lhe resta?
A força de vontade, a saúde, a boa forma física e mental e o facto mais importante – gostar imenso da pesca.
Este equilíbrio é difícil de conseguir e para mais o tempo não corre a favor – a ladeira é sempre a descer…
Contudo, penso que se tem aguentado satisfatoriamente, em termos de eficácia piscatória, mais ou menos em paridade com os seus colegas.
Portanto, resumindo e concluindo, vai estando em forma, embora mais lento; embora com menos força ; embora com menos resistência.
Os seus companheiros têm dele essa percepção e assumidamente libertam-no de algumas tarefas mais pesadas. Ele agradece- lhes a consideração. São seus amigos.
Mas, atenção, se vierem os peixes grandalhões (pargos, gorazes, congros, etc), irão ver como ele lhes trata da saúde. Como diz o Vaz de Carvalho em tom jocoso: “Verásse”.


8. O horizonte
O mar entretanto foi melhorando de trato com uma vaga mais conforme ao nosso desejo.
Neste dia, aos quatro pescadores, o mar deu-lhes que fazer, no bom sentido. Cumpriu com a doação de uma excelente pescaria.
Às 17h00, Matosinhos já se perfilava no horizonte. Uma rotina, esta constatação, o términus. Não seria melhor ter Matosinhos simplesmente à espera na memória do regresso?

Leça, 02 de Dezembro de 2016
Luís M. Borges

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

74. MEMÓRIAS DO ALTO MAR




Belo domingo 


1.Premissas
Primeiro, uma semana violenta em termos meteorológicos. Inverno a sério. De tudo, só o conforto da lareira, sopa de penca, mais o inefável Galo de Barcelos em cabidela. Neste ultimo caso, o Forte no seu melhor,
Segundo, o mar a ir abaixo, com o Domingo na mira. De tudo, só a vontade de pescar e o convívio, porque frio e vento não se podem mandar embora.


2. Duas horas
Apoitar? Querias…
Foi no 04 que o problema se colocou, com a âncora a recusar-se. Dizia o Cheta:
- Pronto, ela não quer prender.
E o Óscar a irritar-se!
Foram 120 minutos de uma cena bastarda, com vento e correntes fortes, em absoluta contradição. O barco guinava, o barco deixava-se ir à deriva, o barco não obedecia.
O frio agreste e a ausência de início de jogo, mais avivava o problema.
E o Óscar a irritar-se!
Até que, um paralelo retirado certa vez da calçada da Rua do Meco em Matosinhos, foi acoplado à âncora, para lhe dar reforço. E a âncora acabou por bem desempenhar o seu papel, permitindo que a actividade laboral se iniciasse. Eram 10h30.


3. Devagar…devagarinho
O Cheta tira um sargo e um besugo e pula de contente. Logo, logo, os outros companheiros o imitam com fervor, porque a meio da manhã o resultado era zero no cabaz, cousa impensável, que devia ser colmatada rapidamente. Foi dar-lhe, pausadamente, tipo velocidade de cruzeiro, até que o primeiro cabaz se foi enchendo, como um estádio de futebol.


Às 12h00 já o segundo se posicionava para a enchente e às 13h00 bateu na “mouche” o terceiro.
- Rapaziada trabalhadora, com vontade de vencerem.


O Óscar tinha arrumado a irritação e esfuziava de entusiasmo. O Lamas chamou a si duas canas: a nova e a velha (tentou casar com ambas ao mesmo tempo). Ora nós sabemos que dormir com duas mulheres, para mais uma cheia de experiência mas gasta, outra cheia de genica mas virgem, verdadeiramente não dá. O Cheta repetia: - já temos para o tacho e ria-se. Quanto a mim, como de costume, insultei muitos peixes, enganchando uns bons sargos.
Foi assim até às 13h30. A esta hora chegou a absolvição, pela mão do Óscar.


4. Moelas
Se há fígados, pescoços, patas, também há moelas. O frango é um ser multivariado. O Óscar escolheu moelas e estufou-as. A massa acompanhou.
O Óscar repetiu a pratada, eu tripeti, o Cheta tetrapetiu e o Lamas não sei.
Como é que o Óscar consegue fazer uma massa com moelas, sem se irritar? E mais…com aquele sabor?
Café entornado, um pedaço de queijo, uma rolhita de whisky. A harmonia visível.
Alguém desesperado, berrava na rádio, com insistência:
- Oh IVA.
Os amigos disseram-lhe que tinha piada. Acreditou. Anormal.


5. Bogas-do-mar
Por entre sargos e carapaus, nem uma faneca.
Por entre choupas e besugos, nem um pargo.
Foi isto, embora não tenha sido só isto, pois por entre sargos, carapaus, choupas e besugos, muitas bogas-do-mar. Ora, este peixe não existe para os pescadores, pois é um rejeitado. Quando surgem em cardume, tomam conta do lugar e obviamente atacam os iscos dos anzois com energia, antecipando-se às outras espécies. Malogrados pescadores, que caiam, neste enxame de moscardos. Têm a pescaria estragada.
E o Óscar irritou-se de novo, pois calhou-lhe a ele ter sido o CAMPEÃO das bogas.
- Campeão, campeão, campeão…
Em uníssono, todos cantaram este refrão. Recusou-se a tirar uma foto com um par de bogas, para efeitos de registo. Mas, a foto conseguiu-se. Eu substitui-o. O Lamas tirou-me a foto, cuja legenda neste blogue é, como podem ler, “A boga que o Óscar não quis”.
Mas, pensando melhor, até se compreende a atitude de repúdio do Óscar. Ele, o melhor, o pescador dos grandes peixes e também o excepcional, o pescador que mais peixe captura nesta embarcação, sentiu-se traído pelas bogas, as quais lá em baixo o tinham designado para o boicote. Estas “cagonas” são incríveis, pois atacavam às duas e às três. Houve alturas, que todos nós, só trazíamos bogas e todas anafadas.


- Que fenómeno. Isto dos peixes tem que se lhe diga.
Nunca acontece uma pescaria ser igual a outra. Há sempre, para além do pescado básico, a excepção. Neste dia, as artistas foram as bogas, gordas e roliças. Gostei particularmente da língua delas (vermelha tipo braço de polvo, mesmo com pequenas ventosas). Que estranho!


6. Ao fim do dia
O sol ia baixando inexoravelmente. Os relógios faziam correr as horas para as 17. O isco estava nas últimas. Pelo que…nos ponteiros das 16h45, o árbitro deu por encerrado o jogo no belo estádio, com a equipa a ganhar 4-0. Vitória bem saborosa.
Regressámos à Marina a gaz, de modo a evitar sermos apanhados pela noite no mar.
O Óscar já está em forma.
Belo domingo. Quero mais domingos assim.


Leça, 27 de Novembro de 2016
Luís M. Borges





73. MEMÓRIAS DO ALTO MAR




O profundo: erros e azares



1.Montagens
Penso que o diâmetro dos fios e o tamanho dos anzóis utilizados nos aparelhos, não se mostraram adequados. A regra lógica da resistência dos fios em decrescendo até à chumbada, não me pareceu ser a mais indicada:
- Fio amortecedor 0,70
- Fio base do aparelho 0,60
- Estralhos 0,50


Por sua vez, os anzóis em tamanhos 3/0, ficavam visíveis no isco, mesmo com os troços de sardinha e de cavala volumosos.
Sem querer, de modo nenhum, diminuir a experiência e o saber dos meus colegas, na próxima pescaria aos gorazes irei aplicar aparelhos com fios mais finos e anzóis de tamanho mais reduzido. Talvez respectivamente e em decrescendo, fios 0,40, 0,35, 0,28, bem como os 0/1 e 1/0.
Porquê? Porque os peixes, os tão desejados gorazes são muito pequenos (de meio a um quilo).


2.Carretos eléctricos e canas
Todos queriam descomplicar, mas eu e o Malheiro mais. A novidade de pescar com carreto elétrico pela primeira vez, criou-nos, pelo menos a mim, alguma ansiedade. Houve uns momentos que desejei estar a pescar sargos, tranquilamente, com a minha cana leve e o meu carreto manual. Não expressei o meu desejo, pois seria uma heresia e até uma contradição.
Não foi fácil adaptar-me ao carreto elétrico e até às chumbadas de meio quilo. Mas, lá me fui ajeitando.


Mas outro acidente aconteceu. A páginas tantas os carretos, feitos vedetas, recusaram-se a trabalhar. Que foi? Ora, foi a velha bateria do barco, que não aguentou a pedalada. Cinco elétricos a funcionar, geram inevitavelmente demasiado consumo.
Esta desilusão quase ia dando nota negativa ao novo material, pela dependência à bateria. 


3.Pequenos e poucos
As duas razões apresentadas anteriormente não desculpam a má pescaria. Saíram 7 gorazes, 12 cantarilhos, 2 carapaus e 5 fanecas, embora menores.
Esta pequena dose de pescado, até serve de exemplo ao tema seguinte, este sim, uma das causas mais plausível do fracasso.


4.Cinco a pescar não dá
Tudo enredado. Todos com todos, às vezes aos três. Perdi 70 metros de multifilamento, transformado em novelo indestrinçável, que só uma tesourada resolveu.
O falatório de acusações sempre foi muito utilizado no Fosmar. Quase se zangam às vezes estas comadres. Mas a verdade, se a quisermos descobrir, encontramo-la facilmente: 5 pescadores a pescarem no profundo não resulta. É evidente que o facto de se estar a pescar a uma profundidade de 200 metros, com chumbeiras de meio quilo e mais, dá origem: 1º a enormes “seios”; 2º lá no fundo um simples carapau ferrado no anzol, enreda facilmente os diversos fios, porque a área de natação é pequena.
Que fazer? Tenho algumas sugestões. Pode ser?
- Dos 5 pescadores, só devem estar em acção de pesca 2 ou 3. Os restantes apoiam e revezam-se;
- Pescar com chumbadas mais pesadas;
- Manter a linha esticada com a chumbada a uns centímetros do fundo, sem ficar pousada;
- Aplicar a velocidade máxima na subida dos peixes, dentro da relatividade do tamanho do peixe;
- Utilizar canas mais compridas, de modo a alargar a área de circulação do peixe, evitando-se assim que alcance as outras linhas.


É evidente que tudo que referi pertence ao reino das ideias. Teremos que nos adaptar a esta nova vertente da pesca de alto mar, a bem do nosso prazer pessoal. Há muito para discutir e há igualmente muito a decidir por unanimidade.


5.Bacalhau molhado ou dourado?
A hora do tacho, como diz o Cheta, contava com o Malheiro para se concretizar. Vai daí, saca o fogão, enfia-o no suporte de madeira, deita azeite no tacho, acrescenta-lhe cebola e depois o bacalhau desfiado. Com a colher de pau começa a mexer constantemente o conjunto. Contudo, este chefe da culinária, precisou de se deslocar à proa, a uma urgência…E quem substituiu o Malheiro no tacho, na mexedela do bacalhau? Ora, o septuagenário.
Mexeu, mexeu, mexeu e tanto mexeu, que se esqueceu de acrescentar a batata frita palha. O Malheiro aflito, em defesa da sua reputação, veio tentar completar o cozinhado: acrescentou ovos, salsa, azeitonas, fiambre e disse:
- Está pronto o bacalhau dourado!
Todos estranharam aquele dourado, que era mais amarelo pálido. Mas, perante a necessidade de glutir, a malta lá se ajeitou por entre os pingos da chuva, que caía a bom caír. Da cobertura da cabina vazava a água em catarata a cair nos pratos e na panela. Se calhar foi esta água em demasia, que deu aquela cor ao bacalhau. Tinha água a mais e cor dourada a menos…Kkkkkkkkkkkkk
Mas, ainda aconteceram mais peripécias:
- Não havia saca-rolhas…o sagrado “sacra-rolhas”
- O café empenou na velha cafeteira, que nem tampa tinha
- O açúcar, as colheres e o bagaço demoraram imenso, para além da paciência
- A sobremesa do Malheiro, comprada no LIDL, soube a industrial. Mas era gostosa…
- O meu habitual queijo só foi aceite pelo Óscar e fiquei triste.


6. A chuva
É raro a chuva molhar a água do mar. Em 50 saídas no Fosmar, foi a segunda vez, que tal se verificou. Incomodativa, esta chuva ensopou o Malheiro e molhou a vaidade no cu das calças do Forte. Aos outros três desiludidos pescadores, valeu-lhes a estratégia de terem conseguido fintar os pingos da chuva, utilizando o “zag-zig”. Não conhecem? Um dia destes eu explicarei…


7.Na Marina
Entrámos com chuva, mas felizmente a dita parou, o que permitiu a lavagem criteriosa da embarcação, pois de tanto peixe, havia escamas por todo o lado!
Fizemos juras de amor à pesca no profundo, com a garantia de que para a próxima, seria muito melhor.
Em casa, a minha esposa, estupefacta, perguntou:
- Só isto?
Bendita Lua Cheia, a maior do quarto de século, que nos irá passar a alumiar. Certamente, irá fazer com que possamos ver melhor no escuro do profundo, as verdades deste tipo de pesca.
Até à próxima.

Ah…uma coizita:
- Não seria um gaijo?

Leça, 12 de Novembro de 2016
Luís M. Borges