73. Memórias do alto mar
Fotogramas
Foto 1
É noite. A estranheza de um mar negro amedronta. Há um temor breve que me
assalta. Acaba logo, pois o dia já clareia e o ronronar do motor, bem como as
conversas cruzadas, depressa fazem desaparecer o receio.
Fotos 2 e 10
O Forte é bom pescador. Mas, como já afirmei anteriormente, priva-nos
frequentemente da sua presença. Nós ouvimos as desculpas, que uns aceitam, outros
não. Eu não posso aceitar…e sabem porquê?
A foto que se segue explica. É a foto
da serenidade.
Foto 3
O Óscar. Gosto daquele barrete. Fica-lhe bem. Protege-lhe os cabelos e
realça-lhe o tom da pele bronzeada. No confronto com os chapéus e os bonés dos
companheiros, este barrete ganha. O Óscar, até nos barretes que enfia, acaba
por ganhar.
Fotos 4
O Cheta de vez em quando atira-se ao mar. Há quem diga: atira-se ao ar.
Sobe–lhe à cabeça aquela ideia de que os
“escamas” o preferem. Rejubila quando traz um triplo de sargos.
- Ai meu Deus! Três escamas.
Já a comer a sua cabidela, ostenta no rugar da testa e no rosto fechado, dúvidas.
Será uma cara de enjoado? No mar costuma acontecer, mesmo aos mais isentos.
Foto 8
Este Malheiro passa a vida de pescador a implicar comigo. Bem, não é ele,
nem é verdadeiramente comigo: são as minhas linhas e as linhas dele. Estes malvados
fios é que se portam muito mal.
Só quando se senta a “muquir” é que se deixa dessas confusões. Ele pousa
a cana, eu pouso a cana e acabam os embaralhamentos. La Palisse tinha razão: o
óbvio é óbvio.
Foto 5
Baralho-me sempre que pesco um bom peixe e quando começo a olhar para ele, com orgulho e com ternura, vem-me a pergunta:
- Vida ou morte?
É uma questão demasiado complexa e contraditória. Poderei expressá-la do
seguinte modo, simplificando:
- Eu adoro pescar, mas evito pensar na morte dos peixes.
Mereceriam viver? Certamente. E fico baralhado…
Fotos 6 e 9
Sargos, choupas e besugos. Ei-los. E onde estão os gorazes e os
pargos?
Há quem diga que faltou “a cereja em cima do bolo”. Eu corrijo: faltaram
várias cerejas em cima do cabaz.
Mas a foto seguinte tem pérolas no cimo da arca. É o elogio dos serranos:
esses pequenotes, esses buliçosos, esses chatos, esses espinhosos, esses
vermelhuscos.
Elogio pela negativa? Não. Pela positiva. Embora pequenos, muitos destes
peixes, fazem um peixe grande; embora muito buliçosos a atacar os iscos, são
peixes aptos, porque agressivos; embora sejam uma maçada, pois frustram as
expectativas dos pescadores, são peixes tão dignos e belos como os outros;
embora espinhosos e picosos, os outros peixes também são dotados de barbatanas
espinhosas e de saliências que picam; embora vermelhuscos, são garoupas (da
família).
Vamos lá ver se passamos a respeitar os pequenotes! Está bem?
Antes sugiro, que desrespeitemos outros. Reparem que há muitos ditos
pescadores lúdicos e desportivos, os quais enxameiam este mar e que nunca se
calam na rádio (todos sabemos quem são), que me parecem muito piores que os
serranos. Porque só dizem parvoíces. Porque chateiam. A cultura popular chama-lhes
“cagalhões chumbados”.
Leça, 4 de Dezembro de 2015
Luís M. Borges
Obs* “Um fotograma é uma imagem fotográfica obtida sem o uso de uma câmara”
“http://alternativafotografica.wordpress.com/”
Puro deleite. Felicidade em estado puro. Sorte a nossa, os que estão do outro lado da linha.
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