quarta-feira, 11 de novembro de 2015

50. MEMÓRIAS DO ALTO MAR



O Ti Zé, o Galo de Barcelos, o Cantador da Régua, O Banqueiro de Ermesinde e o Anda cá ao Pai.
 Forte
Não. Isto não é um “Memorial do Convento”. É sim, uma “Paródia daquelas”. E acontece no barco, quase todos os sábados, excepto quando o Deus Neptuno embirra.
Imaginem o Cheta (o Ti Zé), na viagem até ao pesqueiro, estar a azucrinar o Forte, porque ele não tinha as contas em dia. De dedo apontado, agenda aberta e ar sério, foi indicando rigorosamente os débitos. O Forte agradeceu, mas ripostou com veemência, informando que só pescava de interregno, logo, só teria de pagar “metade”. Tudo acabou serenamente, como aliás não deveria ser de outra forma, entre grandes amigos, e lá anuiu a pagar. Os espectadores riram tanto, que assustaram as gaivotas.


Imaginem agora o Óscar (o Cantador da Régua) a ostentar uma preciosa garrafa de Cognac, após um apaladado almoço (massa de vitela arouquesa) e a tentar evitar repticiamente, que a dita cuja garrafa fosse rapidamente bebida em doses pequenas pelos sequiosos e esmerados colegas.
- Vai mais uma rolhinha? E o Óscar olhava para a garrafa de lado, impotente, a vê-la descer rapidamente de nível. Por decência e respeito permitiram, os abusadores, que ficasse ainda um restinho. Não haja dúvidas: só o whisky americano é que dura imenso tempo no barco!
 O Cheta e o Forte
Imaginem agora o Malheiro (o Banqueiro de Ermezinde) a continuar a dizer sistematicamente que o maior sargo, a maior choupa, o maior carapau, a maior faneca, o maior serrano, foi ele que os pescou. Pescava um sarguito – é o maior do barco; pescava uma choupita – é a maior do barco; pescava um serranito – é o maior do barco…etc. É sempre o rei dos maiores. Bolas! E eu, que não tenho sorte nenhuma. Só me saem badamecos!

O Óscar e o Malheiro


Imaginem entretanto, que o Borges (o Anda Cá ao Pai), debaixo daquela tristeza de só pescar pequenitos, de vez em quando, em momentos de capturar uns peixes de tamanho, apresentava o seu refrão: - Anda cá ao Pai – não fosse ficar esquecido ou, mais grave, ignorado. É que o Borges também vai pescando de vez em quando algumas das espécies maiores do barco. Factos são factos…
Cognac
Imaginem por último, o Forte (o Galo de Barcelos), através do comentário do Óscar: “O Galo de Barcelos já canta de contente. Apanha um peixe de hora em hora e julga-se o melhor…E venham todos para cima de mim”. Ah, Ah, Ah, Ah…
Esta é a resposta do Óscar à máxima do Forte: “sou o melhor pescador do barco – em 4 caixas de peixe, 3 são minhas”.
Já repararam? O Forte é o que pesca mais peixe; o Óscar é o que pesca os peixes recordes; o Malheiro é o que pesca sempre os maiores exemplares: que sobra para o Cheta e o Borges? Eu respondo: para o Cheta o maior trabalho no barco e para o Borges a maior idade. Excelente lógica, hem, a chamada lógica da batata. 

Bem, caracterizados os jogadores da equipa, nas suas bizarrias, vamos falar de pesca.
O 1º sítio onde fundeámos revelou-se pouco peixoso. Saíam exemplares pequenos e ocasionalmente. Depressa a impaciência tomou conta do grupo, agravada pelo facto de ter havido quase dois meses de carência. Então o Forte sugeriu:
- E se mudássemos de sítio?
Embora tivesse sido o único a pescar 2 ou 3 peixes com tamanho normalizado e os restantes umas insignificâncias. Quantas vezes, se torna necessário esperar, até que o pesqueiro se faça. É sempre um risco mudar, mas todos anuíram, alguns com reserva, eu por exemplo.

Navegada que foi uma milha, o Óscar conseguiu fixar o barco em cima de uma depressão, ou seja, num grande buraco. A sonda indicava forte concentração de peixe. E foi o milagre dos peixes! Em catadupa, surgiram bons sargos, besugos de posta, choupas de primeira, parguetes, carapaus medrados e até fanecas jeitosas. Bastava chegar ao fundo. Puxões fortes e seguidos. O Forte lá insistia, quando tirava dois de cada vez: - Sou o melhor pescador do barco; o Malheiro lá exigia: - Este sargo é o maior do barco; o Cheta lá se entusiasmava: - Mais dois escamas, ai meu Deus; o Borges lá voltava ao paternalismo: - Vem cá ao papá; o Óscar lá ia salientando as suas preferências: - Grande faneca, que “fanecona”!?
Num instante se fez a cacifrada (no alto mar diz-se cabaz, logo cabazada).
 Luís Borges
Nesta azáfama entusiasmante, eis que o Borges, cá o velhote, começa a vergar-se todo, face à violência com que a cana puxava. Borrado de ansiedade, aparentando uma calma olímpica, trabalhando a arremetida do peixe com mestria, conseguiu trazer uma bela peça até à segurança do galripo. Foi abençoado com um enorme pargo de 3,5 kg. Festa rija na eira; parabéns curriculares; felicidade de todos; orgulho da equipa.
Que 70 anos! Conseguiu fazer ver aos colegas que a idade não desmerece o pescador – ainda lá vai indo o homem…é uma verdade verdadeira, eh, eh, eh, eh… 

Eram para aí quatro e meia, coisa e tal, quando o Óscar timonou o Fosmar para a Marina de Leça.
O ocaso vermelho acompanhou-nos, em jeito de pintura de fundo. Um grupo de golfinhos fez-se ver, seguindo em fila ondulada. Por cima das águas muito azuis seguiam dois mascatos.
Leça, 07 de Novembro de 2015
Luís M. Borges

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