O Ti Zé, o Galo de Barcelos, o Cantador da Régua, O Banqueiro
de Ermesinde e o Anda cá ao Pai.
Forte
Não. Isto não é um “Memorial
do Convento”. É sim, uma “Paródia daquelas”. E acontece no barco, quase todos
os sábados, excepto quando o Deus Neptuno embirra.
Imaginem o Cheta (o Ti Zé), na viagem até ao
pesqueiro, estar a azucrinar o Forte, porque ele não tinha as contas em dia. De
dedo apontado, agenda aberta e ar sério, foi indicando rigorosamente os débitos.
O Forte agradeceu, mas ripostou com veemência, informando que só pescava de interregno,
logo, só teria de pagar “metade”. Tudo acabou serenamente, como aliás não deveria
ser de outra forma, entre grandes amigos, e lá anuiu a pagar. Os espectadores
riram tanto, que assustaram as gaivotas.
Imaginem agora o Óscar (o Cantador da Régua) a ostentar
uma preciosa garrafa de Cognac, após um apaladado almoço (massa de vitela arouquesa)
e a tentar evitar repticiamente, que a dita cuja garrafa fosse rapidamente bebida
em doses pequenas pelos sequiosos e esmerados colegas.
- Vai mais uma
rolhinha? E o Óscar olhava para a garrafa de lado, impotente, a vê-la descer rapidamente
de nível. Por decência e respeito permitiram, os abusadores, que ficasse ainda um
restinho. Não haja dúvidas: só o whisky americano é que dura imenso tempo no
barco!
O Cheta e o Forte
Imaginem agora o Malheiro (o Banqueiro de Ermezinde) a
continuar a dizer sistematicamente que o maior sargo, a maior choupa, o maior
carapau, a maior faneca, o maior serrano, foi ele que os pescou. Pescava um
sarguito – é o maior do barco; pescava uma choupita – é a maior do barco;
pescava um serranito – é o maior do barco…etc. É sempre o rei dos maiores.
Bolas! E eu, que não tenho sorte nenhuma. Só me saem badamecos!
O Óscar e o Malheiro
Imaginem entretanto, que
o Borges (o Anda Cá ao Pai), debaixo
daquela tristeza de só pescar pequenitos, de vez em quando, em momentos de capturar
uns peixes de tamanho, apresentava o seu refrão: - Anda cá ao Pai – não fosse
ficar esquecido ou, mais grave, ignorado. É que o Borges também vai pescando de
vez em quando algumas das espécies maiores do barco. Factos são factos…
Cognac
Imaginem por último, o
Forte (o Galo de Barcelos), através
do comentário do Óscar: “O Galo de Barcelos já canta de contente. Apanha um
peixe de hora em hora e julga-se o melhor…E venham todos para cima de mim”. Ah,
Ah, Ah, Ah…
Esta é a resposta do
Óscar à máxima do Forte: “sou o melhor pescador do barco – em 4 caixas de peixe,
3 são minhas”.
Já repararam? O Forte
é o que pesca mais peixe; o Óscar é o que pesca os peixes recordes; o Malheiro
é o que pesca sempre os maiores exemplares: que sobra para o Cheta e o Borges?
Eu respondo: para o Cheta o maior trabalho no barco e para o Borges a maior
idade. Excelente lógica, hem, a chamada lógica da batata.
Bem, caracterizados os
jogadores da equipa, nas suas bizarrias, vamos falar de pesca.
O 1º sítio onde
fundeámos revelou-se pouco peixoso. Saíam exemplares pequenos e ocasionalmente.
Depressa a impaciência tomou conta do grupo, agravada pelo facto de ter havido
quase dois meses de carência. Então o Forte sugeriu:
- E se mudássemos de
sítio?
Embora tivesse sido o
único a pescar 2 ou 3 peixes com tamanho normalizado e os restantes umas
insignificâncias. Quantas vezes, se torna necessário esperar, até que o
pesqueiro se faça. É sempre um risco mudar, mas todos anuíram, alguns com
reserva, eu por exemplo.
Navegada que foi uma
milha, o Óscar conseguiu fixar o barco em cima de uma depressão, ou seja, num
grande buraco. A sonda indicava forte concentração de peixe. E foi o milagre
dos peixes! Em catadupa, surgiram bons sargos, besugos de posta, choupas de
primeira, parguetes, carapaus medrados e até fanecas jeitosas. Bastava chegar
ao fundo. Puxões fortes e seguidos. O Forte lá insistia, quando tirava dois de
cada vez: - Sou o melhor pescador do barco; o Malheiro lá exigia: - Este sargo
é o maior do barco; o Cheta lá se entusiasmava: - Mais dois escamas, ai meu
Deus; o Borges lá voltava ao paternalismo: - Vem cá ao papá; o Óscar lá ia salientando
as suas preferências: - Grande faneca, que “fanecona”!?
Num instante se fez a
cacifrada (no alto mar diz-se cabaz, logo cabazada).
Luís Borges
Nesta azáfama
entusiasmante, eis que o Borges, cá o velhote, começa a vergar-se todo, face à violência
com que a cana puxava. Borrado de ansiedade, aparentando uma calma olímpica,
trabalhando a arremetida do peixe com mestria, conseguiu trazer uma bela peça
até à segurança do galripo. Foi abençoado com um enorme pargo de 3,5 kg. Festa
rija na eira; parabéns curriculares; felicidade de todos; orgulho da equipa.
Que 70 anos! Conseguiu
fazer ver aos colegas que a idade não desmerece o pescador – ainda lá vai indo
o homem…é uma verdade verdadeira, eh, eh, eh, eh…
Eram para aí quatro e
meia, coisa e tal, quando o Óscar timonou o Fosmar para a Marina de Leça.
O ocaso vermelho
acompanhou-nos, em jeito de pintura de fundo. Um grupo de golfinhos fez-se ver,
seguindo em fila ondulada. Por cima das águas muito azuis seguiam dois mascatos.
Leça, 07 de Novembro de 2015
Luís M. Borges
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