domingo, 15 de novembro de 2015

52. MEMÓRIAS DO ALTO MAR



Paradoxos e sargos

 
1.É domingo. Estou em casa na rotina do chamado “bem-estar”, mas que eu apelido de “comodismo”. Pois, um domingo cómodo!
Só que não aprecio muito este “estar comodamente” em contexto total. Faz-me lembrar inactividade, desleixo, preguiça…embora não o seja…
Aprecio o comodismo, com certeza, só que em contexto parcial.


Com o mar de ontem, a pescaria de ontem e os peixes de ontem, a situação foi outra. Deixem-me explicar:
A pesca de alto mar para mim é quase sempre incómoda, mas, e aqui é que está a diferença, é muito excitante, muito esforçada, muito gratificante e muito vivificante.
- Excitante, por causa daquela concorrência animada e leal entre nós; daqueles peixes grandes no fio do anzol, quase a irem-se embora; daquelas nevoeiradas com o ronco dos grandes navios a passarem-nos perto, perigosamente perto; daqueles mares revoltosos, quando subitamente eles acontecem, com o medo de poder acontecer uma eventual tragédia…
- Esforçada, por causa daquele dispêndio de energia física permanente, com o barco sempre a baloiçar; daquela falta de espaço, que obriga a que nos agarremos e apoiemos a tudo, mantendo a atenção em alta; daquela luta contra o enjoo e o cansaço; daquele insistente trabalho à volta da manivela do carreto, a puxar pelos músculos…
- Gratificante, por causa do aumento da nossa auto-estima, quando conseguimos pescar; daqueles momentos de beleza ímpar, que o mar nos proporciona; do aumento da nossa experiência e dos nossos conhecimentos; por nos sentirmos bem, porque gostamos de pescar…
- Vivificante, por causa daquela amizade existente entre nós; das gargalhadas sem pressa, motivadas pelas ocorrências invulgares e pelas anedotas e dizeres picantes; daqueles almoços improvisados, a que chamo “os piqueniques do mar”; daquela vida mesmo vivida…
Portanto, não gosto do comodismo, antes gosto do incómodo de ir à pesca, porque no final este incómodo acaba por ser vestido com roupagens coloridas, como acabei de referir.
2. Esta longa introdução, foi motivada pela pesca, obviamente.


Começo por referir a boa rotina do relógio, que praticamos, em termos de princípio e fim da pesca (para não me alongar): - Saída de casa às 06h00 e chegada às 18h00, ou seja, 12 horas de ocupação lúdica. Tempo de pesca pura: 7 horas.
Neste entretanto, dentro deste caixilho temporal e programático, só aconteceu a festa, onde tocaram os peixes e dançaram os pescadores. A festa dos sargos e mais sargos…com variantes musicais para todos os gostos e passos de dança diversos. Vamos a referir:
- Quando eles vinham e chegavam ao barco, o Cheta louvava o “Senhor de Matosinhos”; O Malheiro gabava-se da sua excelente feijoada “À transmontana”; o Óscar falava em “piercings” nas barbatanas dos sargos e o Borges fartou-se de tocar “gaita-de-foles”, a dar música. Sim, senhor, foi uma grande festa, digna de nela participar. Foram sempre os sargos e de bom tamanho, a picarem o anzol, calhando uma dúzia deles a cada um de nós. 

 Sargo vaidoso

Termino como comecei. Hoje é domingo e lembrei-me que vem aí o Inverno. E que o Inverno no mar é bom e mau. Teremos de, com certeza, de despertar às 05h00, trocando o comodismo pelo incomodismo, para estarmos no mar à hora errada, mas no pesqueiro certo, com absolutamente tudo e nada por decidir e absolutamente tudo e nada por pescar, para no final, trocarmos o incomodismo pelo comodismo.


Vale a pena a gente amar a pesca. Até dá para escrever paradoxos.

Leça, 14 de Novembro de 2015
Luís M. Borges


51. MEMÓRIAS DO ALTO MAR



1.Pescadores com boca
 
Introdução


É notório, os galos de Barcelos têm gosto e quando são bonecos são cativantes.
No que me diz respeito, tenho tido o enorme prazer de beber o conhaque no barco e de comer o galo no “Leme”. Diria com mais precisão:
“Eu bebo a verdade no conhaque do Óscar e como a verdade no galo do Forte”.
Ora bem, assim sendo, faço crença de que ambos os aspectos estejam ligados (o que se bebe e come e pesca no barco, em acção de pesca e o que se come e bebe e se fala no restaurante de Barcelos, em acção de confraternização) como se de um arco se tratasse.

Os jantares em Barcelos


Promovidos e organizados pelo Forte, os jantares de Barcelos efectuados no restaurante “O LEME”, cujo prato forte (não podia deixar de ser) tem sido o “arroz de cabidela”, são de alto gabarito. Já realizou 3 e este do dia 12 de Novembro, quase que teve um carácter natalício, uma espécie de antecipação, embora eu tenha fé, imensa fé, que o jantar verdadeiramente natalício vá acontecer, talvez com outro tipo de ser morto.


Chegámos os 3 com o Óscar, o qual sempre muito atencioso, não prescindiu de ir acompanhado. Afinal, todos ficavam em caminho: o Cheta em Matosinhos, o Borges na Senhora da Hora e o Malheiro em Leça. Depois era só seguir a A23. E lá estava o Restaurante “O Leme” e lá entrámos e subimos.
Todos se sentaram, cada qual com o seu leme (o prato) à frente, a conduzirem as suas escolhas, através de uma mesa carregada de apetitosas petingas fritas, pataniscas crocantes, azeitonas pretas, broa de milho e vinhos branco (Alvarinho) e tinto (Rioga). Depressa foi chegando a enorme travessa carregadinha de pedaços de frango fumegantes, com aquela cor avinhada, pela influência do sangue no arroz.  
Notou-se sofreguidão, pelas patas, pelas moelas, pelos fígados e pelas coxas. Só que eram 2 galos e os bichos são limitados nessas coisas, que seriam para dividir por cinco!
Resolvida a contenda, os pratos foram-se transmudando, de cheios a vazios, de vazios a cheios, bem como as taças de vidro, a que chamam de copos. Curioso…penso que foi a magia dos galos…os rostos dos convivas começaram a ficar mais coradinhos, a conversa alteou e manifestou-se em vivacidade, as gargalhadas fizeram-se ouvir…



É esta felicidade que faz viver. Ser-se feliz, eis a questão…
Um gelado (vianeta) com uma pinga de whisky e o café encerraram o evento, com uma homenagem à cozinheira.
Diga-se e termine-se: o Forte é nas horas das pescarias e dos jantares que se renova. 

Barcelos, 12 de Novembro de 2015
Luís M. Borges

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

50. MEMÓRIAS DO ALTO MAR



O Ti Zé, o Galo de Barcelos, o Cantador da Régua, O Banqueiro de Ermesinde e o Anda cá ao Pai.
 Forte
Não. Isto não é um “Memorial do Convento”. É sim, uma “Paródia daquelas”. E acontece no barco, quase todos os sábados, excepto quando o Deus Neptuno embirra.
Imaginem o Cheta (o Ti Zé), na viagem até ao pesqueiro, estar a azucrinar o Forte, porque ele não tinha as contas em dia. De dedo apontado, agenda aberta e ar sério, foi indicando rigorosamente os débitos. O Forte agradeceu, mas ripostou com veemência, informando que só pescava de interregno, logo, só teria de pagar “metade”. Tudo acabou serenamente, como aliás não deveria ser de outra forma, entre grandes amigos, e lá anuiu a pagar. Os espectadores riram tanto, que assustaram as gaivotas.


Imaginem agora o Óscar (o Cantador da Régua) a ostentar uma preciosa garrafa de Cognac, após um apaladado almoço (massa de vitela arouquesa) e a tentar evitar repticiamente, que a dita cuja garrafa fosse rapidamente bebida em doses pequenas pelos sequiosos e esmerados colegas.
- Vai mais uma rolhinha? E o Óscar olhava para a garrafa de lado, impotente, a vê-la descer rapidamente de nível. Por decência e respeito permitiram, os abusadores, que ficasse ainda um restinho. Não haja dúvidas: só o whisky americano é que dura imenso tempo no barco!
 O Cheta e o Forte
Imaginem agora o Malheiro (o Banqueiro de Ermezinde) a continuar a dizer sistematicamente que o maior sargo, a maior choupa, o maior carapau, a maior faneca, o maior serrano, foi ele que os pescou. Pescava um sarguito – é o maior do barco; pescava uma choupita – é a maior do barco; pescava um serranito – é o maior do barco…etc. É sempre o rei dos maiores. Bolas! E eu, que não tenho sorte nenhuma. Só me saem badamecos!

O Óscar e o Malheiro


Imaginem entretanto, que o Borges (o Anda Cá ao Pai), debaixo daquela tristeza de só pescar pequenitos, de vez em quando, em momentos de capturar uns peixes de tamanho, apresentava o seu refrão: - Anda cá ao Pai – não fosse ficar esquecido ou, mais grave, ignorado. É que o Borges também vai pescando de vez em quando algumas das espécies maiores do barco. Factos são factos…
Cognac
Imaginem por último, o Forte (o Galo de Barcelos), através do comentário do Óscar: “O Galo de Barcelos já canta de contente. Apanha um peixe de hora em hora e julga-se o melhor…E venham todos para cima de mim”. Ah, Ah, Ah, Ah…
Esta é a resposta do Óscar à máxima do Forte: “sou o melhor pescador do barco – em 4 caixas de peixe, 3 são minhas”.
Já repararam? O Forte é o que pesca mais peixe; o Óscar é o que pesca os peixes recordes; o Malheiro é o que pesca sempre os maiores exemplares: que sobra para o Cheta e o Borges? Eu respondo: para o Cheta o maior trabalho no barco e para o Borges a maior idade. Excelente lógica, hem, a chamada lógica da batata. 

Bem, caracterizados os jogadores da equipa, nas suas bizarrias, vamos falar de pesca.
O 1º sítio onde fundeámos revelou-se pouco peixoso. Saíam exemplares pequenos e ocasionalmente. Depressa a impaciência tomou conta do grupo, agravada pelo facto de ter havido quase dois meses de carência. Então o Forte sugeriu:
- E se mudássemos de sítio?
Embora tivesse sido o único a pescar 2 ou 3 peixes com tamanho normalizado e os restantes umas insignificâncias. Quantas vezes, se torna necessário esperar, até que o pesqueiro se faça. É sempre um risco mudar, mas todos anuíram, alguns com reserva, eu por exemplo.

Navegada que foi uma milha, o Óscar conseguiu fixar o barco em cima de uma depressão, ou seja, num grande buraco. A sonda indicava forte concentração de peixe. E foi o milagre dos peixes! Em catadupa, surgiram bons sargos, besugos de posta, choupas de primeira, parguetes, carapaus medrados e até fanecas jeitosas. Bastava chegar ao fundo. Puxões fortes e seguidos. O Forte lá insistia, quando tirava dois de cada vez: - Sou o melhor pescador do barco; o Malheiro lá exigia: - Este sargo é o maior do barco; o Cheta lá se entusiasmava: - Mais dois escamas, ai meu Deus; o Borges lá voltava ao paternalismo: - Vem cá ao papá; o Óscar lá ia salientando as suas preferências: - Grande faneca, que “fanecona”!?
Num instante se fez a cacifrada (no alto mar diz-se cabaz, logo cabazada).
 Luís Borges
Nesta azáfama entusiasmante, eis que o Borges, cá o velhote, começa a vergar-se todo, face à violência com que a cana puxava. Borrado de ansiedade, aparentando uma calma olímpica, trabalhando a arremetida do peixe com mestria, conseguiu trazer uma bela peça até à segurança do galripo. Foi abençoado com um enorme pargo de 3,5 kg. Festa rija na eira; parabéns curriculares; felicidade de todos; orgulho da equipa.
Que 70 anos! Conseguiu fazer ver aos colegas que a idade não desmerece o pescador – ainda lá vai indo o homem…é uma verdade verdadeira, eh, eh, eh, eh… 

Eram para aí quatro e meia, coisa e tal, quando o Óscar timonou o Fosmar para a Marina de Leça.
O ocaso vermelho acompanhou-nos, em jeito de pintura de fundo. Um grupo de golfinhos fez-se ver, seguindo em fila ondulada. Por cima das águas muito azuis seguiam dois mascatos.
Leça, 07 de Novembro de 2015
Luís M. Borges