Paradoxos e sargos
1.É domingo. Estou em
casa na rotina do chamado “bem-estar”, mas que eu apelido de “comodismo”. Pois,
um domingo cómodo!
Só que não aprecio
muito este “estar comodamente” em contexto total. Faz-me lembrar inactividade,
desleixo, preguiça…embora não o seja…
Aprecio o comodismo, com
certeza, só que em contexto parcial.
Com o mar de ontem, a
pescaria de ontem e os peixes de ontem, a situação foi outra. Deixem-me
explicar:
A pesca de alto mar
para mim é quase sempre incómoda, mas, e aqui é que está a diferença, é muito
excitante, muito esforçada, muito gratificante e muito vivificante.
- Excitante, por causa daquela concorrência animada e leal entre nós;
daqueles peixes grandes no fio do anzol, quase a irem-se embora; daquelas
nevoeiradas com o ronco dos grandes navios a passarem-nos perto, perigosamente
perto; daqueles mares revoltosos, quando subitamente eles acontecem, com o medo
de poder acontecer uma eventual tragédia…
- Esforçada, por causa daquele dispêndio de energia física
permanente, com o barco sempre a baloiçar; daquela falta de espaço, que obriga
a que nos agarremos e apoiemos a tudo, mantendo a atenção em alta; daquela luta
contra o enjoo e o cansaço; daquele insistente trabalho à volta da manivela do
carreto, a puxar pelos músculos…
- Gratificante, por causa do aumento da nossa auto-estima, quando
conseguimos pescar; daqueles momentos de beleza ímpar, que o mar nos
proporciona; do aumento da nossa experiência e dos nossos conhecimentos; por
nos sentirmos bem, porque gostamos de pescar…
- Vivificante, por causa daquela amizade existente entre nós; das
gargalhadas sem pressa, motivadas pelas ocorrências invulgares e pelas anedotas
e dizeres picantes; daqueles almoços improvisados, a que chamo “os piqueniques
do mar”; daquela vida mesmo vivida…
Portanto, não gosto do
comodismo, antes gosto do incómodo de ir à pesca, porque no final este incómodo
acaba por ser vestido com roupagens coloridas, como acabei de referir.
2. Esta longa
introdução, foi motivada pela pesca, obviamente.
Começo por referir a
boa rotina do relógio, que praticamos, em termos de princípio e fim da pesca
(para não me alongar): - Saída de casa às 06h00 e chegada às 18h00, ou seja, 12
horas de ocupação lúdica. Tempo de pesca pura: 7 horas.
Neste entretanto, dentro
deste caixilho temporal e programático, só aconteceu a festa, onde tocaram os peixes
e dançaram os pescadores. A festa dos sargos e mais sargos…com variantes
musicais para todos os gostos e passos de dança diversos. Vamos a referir:
- Quando eles vinham e
chegavam ao barco, o Cheta louvava o “Senhor de Matosinhos”; O Malheiro
gabava-se da sua excelente feijoada “À transmontana”; o Óscar falava em “piercings”
nas barbatanas dos sargos e o Borges fartou-se de tocar “gaita-de-foles”, a dar
música. Sim, senhor, foi uma grande festa, digna de nela participar. Foram
sempre os sargos e de bom tamanho, a picarem o anzol, calhando uma dúzia deles
a cada um de nós.
Sargo vaidoso
Termino como comecei.
Hoje é domingo e lembrei-me que vem aí o Inverno. E que o Inverno no mar é bom
e mau. Teremos de, com certeza, de despertar às 05h00, trocando o comodismo
pelo incomodismo, para estarmos no mar à hora errada, mas no pesqueiro certo,
com absolutamente tudo e nada por decidir e absolutamente tudo e nada por
pescar, para no final, trocarmos o incomodismo pelo comodismo.
Vale a pena a gente
amar a pesca. Até dá para escrever paradoxos.
Leça, 14 de Novembro de 2015
Luís M. Borges

