1.Tinta negra e carvão
Tempo de lulas.
Uma deriva entre
Matosinhos e a foz do Douro, no arranca e muda, muito perto da costa.
O palangrote e as
toneiras a darem o jeito à forma de pescar, de uma feição simples e prática.
Quase limpinho, com
mais ou menos esguicho de tinta negra.
Sol tapado, mar feito
lago com vento esquecido.
Foi só uma manhã de
cansar o braço, com 16 lulas estendidas na caixa, a lembrarem gelatina.
Quatro luleiros
insistentes, quatro masturbadores, mais aqueles seres extraordinários e
singulares.
Como num quadro
antigo, sem tecnologias de pesca nem roupa apropriada, foram-se revendo as
atitudes:
- O Malheiro chegou de
calções;
- O Óscar com polo
novo;
- O Borges calçando
sapatilhas e ostentando uma cana e um carreto;
- O Cheta leve, livre
de amêijoas e de engodos.
Depois…às 12h00, a
fome falsa em cadência exigente e o barco em lentidão imposta, acostaram na
Marina, em acto de encerramento, dando-se por acabada esta meia verdade de um
dia de pesca diferente, tendo nós depois ido manjericar umas costelinhas
grelhadas e derreter um verde branco.
Foi caro! Bom, em Leça
da Palmeira, as churrasqueiras grelham com carvão.
2. Mais tentáculos
Neste segundo dia,
fomos de novo à procura das tão apreciadas lulas.
O Forte chegou no seu carro,
um meio desportivo preto. Vinha todo ele armadilhado – com a cana dos gorazes
roxa e o carreto Ultrega (aquela máquina). Fransi!
- As lulas gigantes
vivem noutras funduras!
Viu-se obrigado a
pescar ao palangrote, como eu, aliás.
Pescaram-se 17 lulas,
com o Malheiro a pontuar alto, fazendo negaça ao Óscar do dia anterior. E com
toneiras de saldo, do Decathlon e gritando a desvalorização das mais caras.
O mar manteve-se; o
sol foi namorar; o vento desistiu.
Foi mais uma manhã de cefalópodes,
tendo sempre nos olhos, a identidade do nosso passatempo preferido.
Uma posta de bacalhau
assado na brasa e 4 batatas a murro selaram a jornada num restaurante local.
Gostei! Se gostei.
Gostaram todos! Se gostaram.
Num dia destes, o
Óscar irá alugar o barco, a jovens turistas inglesas. Elas apreciam a técnica
do palangrote? Também quero ir…
3. Lulas e fanecas
Neste 3º episódio de
pesca às lulecas, tivemos o prazer de não estarmos sós. Longe da exclusividade,
este mar e esta manhã suportaram uma grande quantidade de embarcações, a
praticarem o mesmo ofício. Só em frente à Casa Branca, isto no mar de V. N.
Gaia, contámos 25, todas elas dotadas de vários pescadores a animarem braços
que subiam e desciam em ritmo constante com as toneiras.
Já antes, frente à
praia da Luz. Tínhamos espetado nos bicos acerados das nossas toneiras, 4 lulas
graúdas. Porque pararam de se magoar, decidimos rumar para além da Foz do
Douro. Foram mais 3, sem grande euforia.
Por volta das 11
horas, repetimos o primeiro sítio e caíram mais duas.
Foi então, que num
assomo de diversificação, os 3 pescadores da popa pegaram nas respectivas canas
e nas “chapas” encheram uma caixita de fanecas, carapaus e cavalas.
Estávamos igualmente
acompanhados por 4 pequenos barcos, todos eles a fanecar.
O sol, o mar, a
ondulação, o vento e a nossa boa disposição estavam como os dedos de uma mão.
Foi uma manhã
agradável, uma manhã em dois momentos, pelo que acabámos por descobrir novas
potencialidades para sábados desgarrados. A minutos da Marina a pesca também
decide ser produtiva, acrescendo o efeito almoço, uma desobrigação, a qual
muitas vezes repetida como obrigação, se tona difícil de gerir, por falta de
condições. Vamos lá aceitar, que um barco não é um restaurante e muito menos
uma sala de jantar.
Ainda se pode
considerar, nesta arenga da substituição de sítio para pescar, a questão
crucial ou importante das despesas inerentes.
Quanto à qualidade e
quantidade dos exemplares capturados, com certeza será minimalista, embora esta
questão a considere eu, diria, menor. Os outros meus colegas não sei!
Nestes termos, fazer
de vez em quando uma pesquinha por estes sítios mais próximos, menos profundos
e distantes, seja a lular ou a peixar, poderá tornar-se interessante. Podem
representar interregnos físicos e mentais. Quantas vezes, por manifesta má
vontade do mar ou por ocupações pessoais inultrapassáveis, dedicar uma
manhazita a curtir, já faz a diferença para 15 dias de jejum.
Portanto, estas
pescarias à lula abriram horizontes, quebraram rotinas – “Matosinhos, terra de
horizonte e mar”!
Leça, 31 de Agosto, 2 e 5 de Setembro de 2015
Luís M. Borges


