domingo, 19 de julho de 2015

43. MEMÓRIAS DO ALTO MAR



Salvar os meus dias

 
1.Neste dia dócil e prateado, de equilíbrios fáceis na embarcação e sob um sol coado pelo nevoeiro alto, foi-me fácil fotografar os meus quatro colegas de pesca, apanhá-los distraídos em atitudes próprias.
É pois com imenso prazer, que passo a interpretar as fotos, em jeito de ironia e de boa disposição. Aí vai, com toda a amizade e consideração:


- Vi o Óscar, na cadência da ondulação fraca, face ao rectilíneo do horizonte, a pintar-se de "índio chupista";











- Vi o Cheta, o fito intensivo na ponteira da cana à espera dos "toques de muleta", como ele diz, mas sem resultados: só serranos e comida;















- Vi o Malheiro a pescar alguns peixes jeitosos e a repetir sempre "este é o maior do barco". Refira-se que no caso do pargo até foi mesmo;










- Vi o Américo a mostrar uma caixa com cebolas e tomates pequenos, informando que daqueles aperitivos naturais e saudáveis, poucos existem;













- Disseram-me, que o Borges só pensa em comida no pão, em sumo de Alvarinho e no tipo de queijo a trazer na próxima pescaria. Claro, neste caso pedi uma foto minha e aproveitei o sargo quileiro que tinha tirado há instantes.












Também fiz outras cenas: o feijão-frade com bacalhau frito; o moleiro a fazer pela vida, recolhendo com rapidez e eficácia os bocadinhos de cavala, que o Óscar lhe atirava; os iscos de amêijoa branca. E muitas mais.








2. Porém, os apontamentos são também deixas importantes, pelo que importa serem referidos:
- A pesca foi regular (de sargos, choupas e carapaus), mas infelizmente com intervalos demasiado grandes;
- Registe-se o aparecimento de besugos e de pargos, promissor;







- As fanecas continuaram a rarear, facto estranho e incompreensível, pois esta espécie é "o gado do Senhor", representando tantas vezes a salvação de uma pescaria;
- Vi facas novas, não as modernas facas de cerâmica, mas as tradicionais. Explicaram-me que houve um acidente?
- Por último, cá o próprio, levou azeite e queijo gregos. Sinal dos tempos!






3. Foi mais um excelente sábado, uma espécie de fuga à rotina, às chatices caseiras e profissionais, às mulheres, aos filhos e aos netos (cada vez mais absorventes e dependentes), à ida ao café para passar o tempo, ao computador e ao telemóvel (os vícios modernos da informação e da comunicação excessivos), à televisão impositiva e manipuladora, ao jornal da treta, às compras nos supermercados como necessidade mas igualmente como consumismo desnecessário, às exigências do nosso amigo cão, à compra de remédios com mais contra-indicações que indicações,  ao multibanco para levantar mais 20,00 €, ao automóvel dos mil cuidados e despesas, à zaragata dos vizinhos, à antipatia e à inveja dos conhecidos, etc, etc, etc

  



Bendita pesca! Porque não vou pescar todos os dias? Para salvar os meus dias?
Ah...tantos barcos abandonados e a envelhecerem, até nas matas!
 
Leça, 18 de Julho de 2015
Luís M. Borges


domingo, 12 de julho de 2015

42. MEMÓRIAS DO ALTO MAR



Liberdade, igualdade e peixes


1. O Malheiro vendeu o mar numa panela, sem mesa, com os carapaus, os sargos e os serranos. Foi peixe cozinhado com desvelo, pimentos e muita cebola, numa caldeirada com ele a fazer de cozinheiro e nós, os restantes, a pensarmos em meninas de calções curtíssimos, uma forma de praticar o espanto.



2. Os sábados no mar são dias diferentes. Sonhamos a semana inteira, como o pó que paira eternamente no ar e só quando ele pousa no mar indiferente, é que nos realizamos em jeito de pescadores. Tantas vezes só poeira, mas outras tantas, mesmo sem sol, milhares de escamas acabam por brilhar a contorcerem-se. Quando assim acontece, abrem-se os impossíveis e muitos olhares ficam fascinados. Somos nós a bendizer a dádiva. 
 
3. A faina começou com anedotas, continuou com enjoo, prosseguiu em "fashion in the boat", intervalou com cidra e salame, insistiu em carapaus, sargos e um congro, terminou em distribuição equitativa.

Na Marina, a pressa foi o resto, mangueirando com esmero e esfregando a sujidade do barco até sair, mesmo recordando aquele meu peixe-lua, cuja singularidade devolvi ao mar...


Dias assim, entusiasmantes, descompressivos, nem os gregos, ao votarem na sua condição e destino com "nei", se sentiriam tão bem. Liberdade, igualdade e peixes. Eis a nossa revolução. Nada de euros nos olhos e na cabeça, "Merda iminentíssima", como desabafava HH (já o citei uma vez).


Leça, 04 de Julho de 2015
Luís M. Borges

quinta-feira, 2 de julho de 2015

41. MEMÓRIAS DO ALTO MAR



O Deus Neptuno

 
Foi-se longe, longo amarar, à procura do imprevisível goraz, num mar de arestas duras e ravinas ondulantes. As andorinhas-do-mar seguiam a rota da embarcação numa ânsia curiosa, talvez com alguma incredulidade. É que estes 5 aventureiros desafiavam com naturalidade a ameaça insistente de um mar solto e violento. Perante a força e a grandeza daquele mar azul-escuro, aquela ínfima e frágil embarcação seguia para o ponto escolhido, afrontando a má disposição do Deus Neptuno.


Apoitou-se com alguma dificuldade, pois os pescadores pareciam bêbados no convés do barco, quase a caírem em desequilíbrios seguidos. Agarravam-se bem, não fôra o medo de caírem ao mar.
Já em acção de pesca, 4 deles iniciaram o jogo. Uma caixa de esferovite carregada de sardinha com sal grosso, mais me parecia estar a pedir grelha, de tão bonita que estava, mas o seu destino era outro – isco. Aos bocados, filetes desta sardinha eram amarrados, de modo a esconderem bem os anzóis letais. É que o goraz, a mais de 100 metros de profundidade, portanto na escuridão quase absoluta, vê tão bem como um humano num dia claro. Assim, este bocado de sardinha tinha de se apresentar no fundo ao goraz, como que caindo naturalmente lá do alto, meio estraçalhado pelo ataque de predadores ao cardume. Seriam restos da comezaina de algumas tintureiras…

Esta será eventualmente a perspectiva do goraz. Ele recolhe o que vai descendo, inspecciona, cheira e se estes factores o convencerem em termos de realismo, primeiro prova e se lhe agradar acaba por abocanhar. Penso que será assim qua a história acontece lá por baixo…
É evidente que o nosso goraz não se limita a recolher pedaços mortos de peixes, pois é uma espécie omnívora carnívora, alimentando-se de todo o tipo de invertebrados pelágicos, crustáceos, moluscos, ovas, larvas e juvenis de outros peixes.

Enfim, será esta diversidade alimentar, que lhe confere aquele sabor único, quando assado no forno.
Regressemos à “jangada” e aos 5 intrépidos e ousados pescadores lúdicos. Um deles, apresentou baixa devidamente comprovada por atestado visual e empenho da palavra: cor amarela esverdeada, má disposição, desatino olfactivo com manifesta falta de apetite e uma irresistível vontade de dormir. A cana dele foi montada, lá isso foi, mas sem préstimo! Limitou-se a ver pescar, a comentar de vez em quando qualquer cena e a esperar sentado. No final, ainda lhe calhou uma marmita de peixe, uma doação com que se premeia qualquer doentinho. A moralidade desta companha é exemplar. Mas, quem foi este inútil? O Luís Borges, eu aqui presente, o que escreve. Desculpou-se com as comezainas da véspera, poucas horas de sono, quase uma indigestão e arranjando um ar de desgraçadinho, lá convenceu os amigos maduros, mas muito sensíveis a fraquezas alheias, a dispensarem-no.

Quanto aos 4 resistentes, diga-se arrojados pescadores, o Forte estava em convalescença; o Malheiro aterrou literalmente de borco na cama no final da pescaria; o Óscar acabou por ser gabado pela boa forma como enfrentou toda a confusão reinante, tendo efectuado uma viagem de regresso notável em termos de navegação (nem um solavanco) e o Cheta lixou a coluna.
Mas a piorar, o almoço apresentou-se “ligeiro”, muito “adequado” ao estado do mar: nada mais, nada menos, que grão-de-bico com mão de vaca! Ah, persistentes duma figa…
Sobre a pesca, saíram 1 congro, 1 polvo, 4 gorazes, 30 carapaus, 10 cantarilhos, 15 fanecas e 2 ruivos. Não haja dúvida: uma pescaria a condizer com os tempos de crise eterna em que vivemos neste País. Gostei particularmente da expectativa que se viveu, quando o Óscar começou a içar um peso pesado – o tal congro. Todos torciam por um peixe-galo, mas acabou abençoado com 8 quilos de mais violência e a morte imediata da fera, que rosnava e queria morder.




Para encerrar esta crónica, acho que devo expressar um agradecimento: dispensaram-me do serviço de limpeza do barco. Fico a dever aos meus colegas, mais esta atitude cristã de compaixão pelo próximo. Estou convertido!

Leça, 27 de Junho de 2015
Luís M. Borges