Salvar os meus dias
1.Neste dia dócil e
prateado, de equilíbrios fáceis na embarcação e sob um sol coado pelo nevoeiro
alto, foi-me fácil fotografar os meus quatro colegas de pesca, apanhá-los
distraídos em atitudes próprias.
É pois com imenso prazer, que
passo a interpretar as fotos, em jeito de ironia e de boa disposição. Aí vai,
com toda a amizade e consideração:
- Vi o Óscar, na cadência da
ondulação fraca, face ao rectilíneo do horizonte, a pintar-se de "índio
chupista";
- Vi o Cheta, o fito intensivo
na ponteira da cana à espera dos "toques de muleta", como ele diz,
mas sem resultados: só serranos e comida;
- Vi o Malheiro a pescar
alguns peixes jeitosos e a repetir sempre "este é o maior do barco".
Refira-se que no caso do pargo até foi mesmo;
- Vi o Américo a mostrar uma
caixa com cebolas e tomates pequenos, informando que daqueles aperitivos
naturais e saudáveis, poucos existem;
- Disseram-me, que o Borges só
pensa em comida no pão, em sumo de Alvarinho e no tipo de queijo a trazer na
próxima pescaria. Claro, neste caso pedi uma foto minha e aproveitei o sargo
quileiro que tinha tirado há instantes.
Também fiz outras cenas: o
feijão-frade com bacalhau frito; o moleiro a fazer pela vida, recolhendo com
rapidez e eficácia os bocadinhos de cavala, que o Óscar lhe atirava; os iscos
de amêijoa branca. E muitas mais.
2. Porém, os apontamentos
são também deixas importantes, pelo que importa serem referidos:
- A pesca foi regular (de
sargos, choupas e carapaus), mas infelizmente com intervalos demasiado grandes;
- Registe-se o aparecimento de
besugos e de pargos, promissor;
- As fanecas continuaram a
rarear, facto estranho e incompreensível, pois esta espécie é "o gado do
Senhor", representando tantas vezes a salvação de uma pescaria;
- Vi facas novas, não as
modernas facas de cerâmica, mas as tradicionais. Explicaram-me que houve um acidente?
- Por último, cá o próprio, levou
azeite e queijo gregos. Sinal dos tempos!
Bendita pesca! Porque não vou
pescar todos os dias? Para salvar os meus dias?
Leça, 18 de Julho de 2015
Luís M. Borges
