A troca
Cantarilho-legítimo
Somente o dia esplendoroso e o mar carregado de gaivotas nos afagavam.
Alguém praguejava de vez em quando.
O VHF irritava-me. Eram parvoíces sem fim e dicas enganosas, ditas por
vozes roufenhas.
Em contrapartida, a malta cultivava o silêncio, aquele silêncio que
não sendo “O silêncio dos Inocentes”, mais parecia um silêncio de vitimização.
O sol atiçava o ar, pelo que aligeirámos de roupa, eu e o Cheta.
Pus-me a admirar a minha cana azul. Era bonita!
- Interessa lá a cana ser bonita. Não pesca gorazes.
Américo
Perto de nós, outra embarcação mourejava. Pouca fauna piscícola vi a brilhar,
na recolha dos fios de mão. Até que se enfiaram os cinco na cabina,
desaparecendo do convés.
- Foram dormir? Foram almoçar às 11h00? É orgia?
A resposta veio rápida:
- Uma já foi…
Um deles, atirou uma garrafa vazia ao mar e outras se lhe seguiram,
num entusiasmo crescente.
Óscar
O Óscar, entretanto, fez a proposta de mudança, pois gorazes no 0.15,
népia. Tinham saído até ao momento meia dúzia de cantarilhos-legítimos, de
fanecas e um congro, este pescado pelo Forte.
O 014 acolheu-nos às 11h30, local onde a esperança não residia, isto
na opinião de alguns, excepto na do Américo. Afirmava ele, absolutamente
peremptório e convicto:
- Eu quero e tenho a certeza, de que vou pescar uns gorazes aqui.
Ouçam o que vos digo. Eu tenho muita experiência de pesca aos gorazes.
Entretanto, o Cheta ligava o fogão, para fazer a massa.
- Massa, outra vez? Puxa vida, é sempre massa!
LBorges
Acabava eu de fazer este registo crítico, quando rebentou o entusiasmo
e se avivaram as almas dos cinco mosqueteiros, com o Américo a gritar, que
tinha um goraz.
Lindo, com a pinta a sobressair sobre a cor acobreada do lombo. Era
mesmo aquele bichinho que nos faltava. Perto de 1,5 kg de pura adrenalina…
Logo a seguir o Óscar imitou o Américo. Mais uns minutos e soaram as
trombetas castelhanas para os meus lados e por último o Cheta tocou a 5ª
sinfonia de Beethoven, com o maior de todos. Faltava o Forte cantar “A
Laurindinha”. Não cantou!
Cheta
Metemos mais umas fanecas, outros tantos cantarilhos e uns carapaus.
No canto, encolhido e triste, alguém se lamentava. Lamúrias e mais lamúrias. Só
faltou, à boa maneira judaica, arranjar o “Muro das Lamentações”. Havia uma
tristeza profunda naquele olhar!
Contudo, logo se alegrou o ambiente com o brinde efectuado a favor do
Óscar, que na véspera tinha subido mais um degrau na escala da idade. Depois,
bem, todos comeram massa com carne! Olarilólé…Neste capítulo, a falta de
imaginação é enorme!
Batendo na barriga ao de leve e chupando o derradeiro gole de whisky,
o Cheta foi sacudir o engodo na proa. Não resultou. Os gorazes tinham abalado.
Só adveio com o congro, guindado com esforço e cuidado pelo Luisinho. Tinha 6,5
kg. O Cheta sacou uma enguia, que devolveu ao oceano.
Passámos até às 17h00 no remanso, valendo ocupação apenas os
ensarilhamentos e o arranjo dos congros. Igualmente nos ocupou um quarto de
hora, um aleijão do Cheta, com sangue e tudo, quando trabalhava no guincho.
No final, após a divisão do pouco peixe existente, veio a consolação
do amigo Óscar para com o amigo Forte. A troca: o goraz para o Forte, o congro
para o Óscar. Afinal, o muro sempre esteve lá. Eu é que não o vi. Gostei. Foi
bonito.
Na Marina, os comentários convergiam todos no mesmo sentido, por parte
dos pescadores de outras embarcações. Ninguém se lembrava de o mar estar a dar
tão pouco.
Continuo a perguntar: que conjugação de factores poderá explicar esta
manifesta ausência de peixe?
Marina de Leça, 07 de Março de
2015
Luís M. Borges