terça-feira, 22 de dezembro de 2015

55. MEMÓRIAS DO ALTO MAR

Natal esplêndido


"Se para alguma coisa serve o Natal, que não seja só para produzir sorrisos embrulhados em papel colorido..."



Se para alguma coisa serve o Natal, que aos meus companheiros de pesca nunca lhes falte o peixe na praia...


Se para alguma coisa serve o Natal, que aos meus amigos nunca lhes falte a imaginação...


Se para alguma coisa serve o Natal, que a todos nada lhes falte...


Senhora da Hora, 23 de Dezembro de 2015
Luís M. Borges

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

54. MEMÓRIAS DO ALTO MAR



73. Memórias do alto mar

Fotogramas

Foto 1



É noite. A estranheza de um mar negro amedronta. Há um temor breve que me assalta. Acaba logo, pois o dia já clareia e o ronronar do motor, bem como as conversas cruzadas, depressa fazem desaparecer o receio.

Fotos 2 e 10








O Forte é bom pescador. Mas, como já afirmei anteriormente, priva-nos frequentemente da sua presença. Nós ouvimos as desculpas, que uns aceitam, outros não. Eu não posso aceitar…e sabem porquê? 




A foto que se segue explica. É a foto da serenidade.

 
Foto 3


O Óscar. Gosto daquele barrete. Fica-lhe bem. Protege-lhe os cabelos e realça-lhe o tom da pele bronzeada. No confronto com os chapéus e os bonés dos companheiros, este barrete ganha. O Óscar, até nos barretes que enfia, acaba por ganhar.

Fotos 4 


 O Cheta de vez em quando atira-se ao mar. Há quem diga: atira-se ao ar. Sobe–lhe  à cabeça aquela ideia de que os “escamas” o preferem. Rejubila quando traz um triplo de sargos.
- Ai meu Deus! Três escamas.
 Já a comer a sua cabidela, ostenta no rugar da testa e no rosto fechado, dúvidas. Será uma cara de enjoado? No mar costuma acontecer, mesmo aos mais isentos.
 
Foto 8



Este Malheiro passa a vida de pescador a implicar comigo. Bem, não é ele, nem é verdadeiramente comigo: são as minhas linhas e as linhas dele. Estes malvados fios é que se portam muito mal.
Só quando se senta a “muquir” é que se deixa dessas confusões. Ele pousa a cana, eu pouso a cana e acabam os embaralhamentos. La Palisse tinha razão: o óbvio é óbvio.

Foto 5


Baralho-me sempre que pesco um bom peixe e quando começo a olhar para ele, com orgulho e com ternura, vem-me a pergunta:
- Vida ou morte?
É uma questão demasiado complexa e contraditória. Poderei expressá-la do seguinte modo, simplificando:
- Eu adoro pescar, mas evito pensar na morte dos peixes.
Mereceriam viver? Certamente. E fico baralhado…

Fotos 6 e 9



Sargos, choupas e besugos. Ei-los. E onde estão os gorazes e os pargos? 
Há quem diga que faltou “a cereja em cima do bolo”. Eu corrijo: faltaram várias cerejas em cima do cabaz.
Mas a foto seguinte tem pérolas no cimo da arca. É o elogio dos serranos: esses pequenotes, esses buliçosos, esses chatos, esses espinhosos, esses vermelhuscos.
Elogio pela negativa? Não. Pela positiva. Embora pequenos, muitos destes peixes, fazem um peixe grande; embora muito buliçosos a atacar os iscos, são peixes aptos, porque agressivos; embora sejam uma maçada, pois frustram as expectativas dos pescadores, são peixes tão dignos e belos como os outros; embora espinhosos e picosos, os outros peixes também são dotados de barbatanas espinhosas e de saliências que picam; embora vermelhuscos, são garoupas (da família).
Vamos lá ver se passamos a respeitar os pequenotes! Está bem?
Antes sugiro, que desrespeitemos outros. Reparem que há muitos ditos pescadores lúdicos e desportivos, os quais enxameiam este mar e que nunca se calam na rádio (todos sabemos quem são), que me parecem muito piores que os serranos. Porque só dizem parvoíces. Porque chateiam. A cultura popular chama-lhes “cagalhões chumbados”. 

Leça, 4 de Dezembro de 2015
Luís M. Borges

Obs* “Um fotograma é uma imagem fotográfica obtida sem o uso de uma câmara” “http://alternativafotografica.wordpress.com/”

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

53. MEMÓRIAS DO ALTO MAR



2.Pescadores com boca – Milhos

 
- Hoje há MILHOS.
Vaz de Carvalho pediu-me, que convidasse os meus amigos de pesca, os mais chegados, para participarem num Jantar de Milhos, que iria realizar na Altix.
Claro, que os meus melhores amigos, também são os amigos dele.
Assim, logo se dispuseram sobre os MILHOS, pois seria ingratidão de todo o tamanho, se recusassem. O Forte chegou a afirmar: Para o Sr Vaz de Carvalho, SEMPRE.


O dia nasceu cinzento, húmido e frio. Um dia ideal para se comerem milhos. Na origem dos milhos, que é Ribeira de Pena, os dias assim só sabem a milhos. As casas e as ruas cheiram a milhos. As pessoas só falam em milhos.
O cozinheiro (Mestre Vaz), por incumbência própria, tendência pelo “métier” e sobretudo pelo prazer de bem receber e tratar os amigos, esmerou-se. Aliás, todos se esmeraram.
Eu também:
“Longe das ruas tortas de Matosinhos
Onde vem acabar a pesca
Aqui estamos todos nós
Unidos, admirados.
Não há barcos no mar
Nem outros saem para o mar.”

Dizia o Marques: Óh Cheta, anda ver este "milho"


Aqui estamos todos nós, os autênticos amigos, os que se entendem, os companheiros de sempre, porque sobre os outros, há que dizer:
“Às vezes, perdemos os amigos
Entre as curvas de um enredo,
Só porque deixámos de acreditar.”
Mas todos nós, os que aqui estamos, continuamos a creditar.
-Vamos aos MILHOS.
Resplandecente de satisfação, VC pousou um grande tacho na mesa, depois outro e ainda outro: milhos, carnes, grelos, por esta ordem.


Afanaram-se os amigos. Todos de pé, 12 com pratos na mão, iam-se chegando ao Mestre, que sobretudo, distribuiu os milhos. A seguir foram vasculhando as carnes diversas das suas preferências e por fim engrelaram o conjunto. Um prato assim até que é bonito. A seguir sentaram-se a munquirem e a pedirem vinho tinto. E começaram a louvar Vaz de Carvalho.
Durou esta azáfama de deleite, meio tempo de um jogo de futebol…


Seguiram-se as provas com cálices diversos…brindes…risadas e tiradas.
Sobre um político denominado o “fantasma da ópera” alguém gritou:
- Corrrrrrrrrrrr…no.
O café, a resumir. Longo foi o jantar, porque começou às 20h00 e acabou às 23h00.

- Assim se vê, a força do porquê!

Apêndices úteis:
A receita dos Milhos
Lavam-se os milhos em várias águas. Cozem-se na água das carnes, mexendo sempre, para não agarrarem ao fundo do tacho, atem ficarem papas consistentes. E pronto. As papas acompanham as carnes e os grelos. Bom apetite!



Tipos de milhos:
Passo explicar o que são milhos.
É um prato tradicional de Ribeira de Pena. Os milhos são uma espécie de farelo grosso obtido por moagem do milho na mó, mas sem chegar a ser farinha.
Há vários tipos de milhos:
- Escornados (feitos com carne de vaca)
- Esgravatados (feitos com carne de galinha)
- Esfuçados (feitos com carne de porco)
- Ricos (feitos com todo o tipo de carnes)
O que Vaz de Carvalho fez foram os Milhos Ricos, uma espécie de Cozido à Portuguesa. 



Bibliografia:
Adaptação de um poema de Rui Pires Cabral; Website de Ribeira de Pena.



Matosinhos, 25 de Novembro de 2015
Luís M. Borges



REACÇÕES
Muitos dos amigos, que refiro no Blogue, comentam amiúdes vezes. Passarei a incluir na respectiva postagem, estes comentários. Acho bem…

Email que enviei a informar sobre a publicação da nova postagem:
Caros Amigos
Estes pescadores com boca são terríveis. Como lobos esfaimados atacaram os milhos do Vaz de Carvalho e não deixaram nem um chispinho. Doze vorazes glutões. Porquê? Não interessa. A força está no porquê...
Ora cliquem lá: http://picadelrei.blogspot.pt/
Até à próxima. Onde será?
Luís M. Borges

Comentário 1:
Caro Amigo Luís Borges:
Bons momentos!
E particularmente aqueles momentos, são porções do  tempo que passa, limitados, mas que deixam a "impressão digital" da satisfação vivida por tempo ilimitado.
Viveram-se os amigos, os milhos, o autor dos milhos e os comilões dos mesmos. Simplicidade mundana.
Ficarão as recordações, assim como as de outros momentos já experienciados.
Os esfaimados, vorazes glutões ,atacantes plurais de simples milhos ,com chispe, salpicão ou chouriço, a guarnecer, não justificam o porquê de tal voragem.
Nada há para justificar. Come-se, é mesmo assim!
É a existência, na sua plenitude, exprimindo-se à tona dos instintos individuais mais primários, no  nosso dia a dia, ou noite! Não interessa!
Não, não interessa! É assim e pronto! Não interessa mesmo!
O que interessa é aquela sensação de plenitude , entre amigos, que nos faz sentir que a vida vale a pena, à parte as noticiosas fanfarronadas  das "Coelhadas" políticas, ou outras, que azedam qualquer ementa.
Mas o "tinto" tudo lava e purifica!...Tal qual bodas de Canaã...Judaísmo à parte!
Sim, de acordo, amigo, a força está no porquê...mas no porquê da indiferença da justificação. É assim, porque não poderia ser de outra forma! Ou poderia? Não interessa. O rio passa e não volta.
O importante é saber...quando é a próxima?
Onde será?  O  mistério faz parte da atracção.
Aguardemos.
Gostamos, gostei.
Até à próxima.
Abraço e Amizade
Nelson Mota