terça-feira, 10 de abril de 2018

101. MEMÓRIAS DO ALTO MAR



Primeira metáfora


1.Leça da Palmeira, 06h30…
Fazia frio. Não, não chovia. A Marina de Leça é que parecia mergulhada em ondas de mastros de veleiros agitados, que me arrefeceram e me preocuparam.
No passadiço não se viam pescadores/turistas para saírem noutros barcos. Só nós, a fingirmos de enérgicos, a fingirmos de corajosos, a fingirmos de pescadores aptos com rostos indecifráveis.
Uma hora depois da partida, já todos sentiam o desconforto duro das tampas das arcas nos cus moles, as alterosas vagas de 3 metros a baterem no barco e a desequilibrarem e aquele vento agreste, gélido, desagradável e amigo das constipações. 



2.A história de “Fernão Capelo Gaivota”
Era uma vez um pescador que queria ser uma gaivota. Dizia ele, que quanto mais alto voava, mais panorama abarcava, portanto mais observava e por seguinte mais aprendia.
Ele vivia lá para o norte, onde o vinho se apelidava de verde e os galos de Barcelos. 



Todas as vezes que deixava de voar, ele dizia que pescava e fazia-o num barco entre reformados. Contaram-me que se gabava sempre:
- Eu sou o melhor. Pesco mais que vocês todos. Já pesquei hoje 1 caixa e meia dessas duas.



Certo dia, pescou um enorme ruivo e garboso, fez-se à fotografia, dizendo:
- Estão a ver estas enormes e bonitas barbatanas azuladas? É gaivota pela certa!

3. Relatório mais pormenorizado desta sessão de pesca. Pois, falar sobre o trivial...


3.1. O excepcional
Aquele mar obstinado, atirou-se a mim, a nós, sofregamente. Senti-me enjoado. Há imenso tempo que não tinha este desprazer. Mas, fui-me aguentando, não querendo dar sinais de fraqueza. A náusea da vida, a náusea de quem arrisca ir para o mar em jeito de delícia, colocou-me em desconforto. 



3.2. A trivialidade
- O entretenimento na viagem até ao pesqueiro – foi discussão sobre futebol
- O Óscar a criticar os “cabides” do Malheiro – a causa de todos os males



- O mistério do arranque piscatório do Forte e o seu – esmorecimento na parte final 
- O Cheta, as suas dores e lamentos - por causa de ter celebrado aniversários a mais


- Aquela desculpa do Borges com o conceito - regularidade 

3.3. Mais trivialidades


- Tomar o café da Brasileira



- Comer uma jardineira que não o foi
- Molhar o peixe de vez em quando
- Descomplicar a incomodidade das “perrucas”
- Descascar a amêijoa sobrante
- Aguentar ouvir constantemente, diria até permanentemente, o grande desígnio - quem pescou o peixe maior e mais peixe?
Etc,  etc, etc, ou seja, como refere o escritor Gonçalo Tavares: “…treinar os músculos da paciência “ para aguentar serenamente.
Mas convenhamos, sem trivialidades, até que o mundo não teria piada alguma.

4. Nos dias seguintes
No dia seguinte, tentei normalizar. O corpo doía-me, não tinha posição na cama, andar nem um passo, fazer coisas impossível, dormir escassamente. Além disto, a coluna tinha uma negra das largas, resultado do embate contra a esquina da amurada do barco, após 90 kg me terem abalroado. O Cheta aterrou em cima de mim…como de um acidente se tratasse. Sem culpa.


Mas, dias depois, ao voltar com optimismo às páginas destas recordações, apreciei e sinceramente, foi como passear ao luar numa noite de Verão.

Sra da Hora, 21 de Fevereiro de 2018
Luís M. Borges

 


quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

100. MEMÓRIAS DO ALTO MAR



Je suis, COZIDO
 
1. Jantar mascarado


 Cozido á Portuguesa: foi este

Cozido Gourmet: não foi este *

Há quem afirme que a vida é um Carnaval. Não, não é bem assim. As nossas vidas são normais. Entendo, é que de vez em quando, devemos “carnavalar”, ou seja, divertir-nos. 


Foi o que decidimos ao convocar os Amigos para um Jantar de Carnaval, com um valente COZIDO À PORTUGUESA, a efectuar no Restaurante Floresta.


A comermos, naquela mesa enorme em U, fizemos um “corso” lindo de sambar. No final, simbolicamente, não só nos mascarámos para a foto, aproveitando para dar a público os constituintes do mesmo (do cozido, pois )…bem como as senhoras exigiram e muito bem brindarem com espumante.

Que foto maravilhosa

Ora alinhem a música alegre comigo (ao ritmo não do samba mas do fado) e cantem a uma só voz: je suis, COZIDO.


E depois, apreciem as fotos dos mascarados a “agarfarem” os diversos ingredientes (do cozido, claro) e divirtam-se.

 Je suis FORTE - presunto


Je suis ÓSCAR - entremeada


Je suis MALHEIRO - morcela

Je suis CHETA - chouriço

Je suis MARQUES - frango
Je suis PAIVA - chispe
Je suis ORLANDO - batata
Je suis ROLDÃO - couve
Je suis ADÃO - cenoura
Je suis BORGES - orelha fumada
Je suis Monsieur MIGUEL - cozido


2. Argumentos

Mas, já agora, permitam -me, que vos apresente o seguinte argumento. É que eu tenho tido imenso tempo livre, por falta de pesca (dadas as vagas alterosas deste nosso mar), para pensar. Apresento-vos o ARGUMENTO DO REFORMADO FELIZ, também apelidado de ARGUMENTO DO TÉCNICO SUPERIOR DE LAZER.
Começa assim, em jeito de um silogismo, com duas premissas e uma conclusão: 

1.Comer sem culpa é um enorme prazer.
2.Pescar sem culpa é outro enorme prazer.
3.Logo, Comer e Pescar são enormes prazeres.

Concordam?

 O prazer da comida *


Requinte *

3. Naufrágio

O segundo argumento intitula-se: A VELHICE NÃO É UM NAUFRÁGIO e começa assim:

1.Na velhice, um prato vazio é um naufrágio.
2.Na velhice, um cabaz vazio é, para um pescador, também um naufrágio.
3.Mas, um prato cheio de comida e um cabaz cheio de peixe nunca são naufrágios, logo A VELHICE NÃO É UM NAUFRÁGIO.  

Concordam? 


Prato cheio de comida *


 Cabaz cheio de peixe

O prato e o cabaz são para os pescadores como duas bóias que dificilmente se afundam. 

Os peixes: a nossa Salvação *

Querem melhores coletes de salvação?

Estes dois maravilhosos coletes evitam que NAUFRAGUEM.

Sra da Hora, 13 de Fevereiro de 2018
Luís M. Borges

Obs: As fotos com * foram retiradas da NET