CODORNIZES
1.Quatro + um
Estas “galinhas
pequeninas”, como lhes chamava a minha filha Sónia quando era pequena,
apareceram maravilhosamente apresentadas no barco neste dia de pesca, a partir
de uma proposta surpreendente…por parte do Forte. Mas, a odisseia que se seguiu
para a concretizar merece ser apresentada, pois teve organização aprimorada e
rigorosa…a quatro. Vou contar:
- Eu, Borges,
encomendei-as na quinta-feira no Talho do Londres da Senhora da Hora, tendo-as
ido levantar na sexta feira às 09h00. Comprei 16 codornizes.
- O Cheta
prontificou-se a ir comigo a Ermesinde entregar as codornas em casa do Óscar, à
sua simpática sogra. Eram 10h00.
- Neste mesmo dia, após
chegar do emprego, o Óscar temperou-as e cozinhou-as com aquele seu esmero
habitual.
- No barco o Forte
pagou-as, pois era a vez dele de apresentar o almoço.
Quanto ao 5º elemento
da equipa, o Malheiro, deve ter pensado:
- Codornizes? Mas isso
tem alguma coisa de comer?
Disse que queria
incorporar a equipa realizadora, pois ficar de fora nem pensar, afirmando de
seguida no gozo, que as iria comer e apreciar.
2. Os maestros
Sair para o alto mar
em dia em dia de dádiva da natureza, não se iguala a nada. Naquela meia luz
antes do alvorecer, voavam as gaivotas em silêncio, ainda no sonho do dia; o
horizonte ainda se ocultava em indefinição, mas a terra onde vivia a
humanidade, brilhava escura ponteada de luzes estalejantes; o mar, esse
portento do planeta, distendia-se indolente e acolhedor à nossa volta; o aroma
da maresia, entrava-nos pelas narinas, fresco como um desejo sôfrego; a
temperatura oferecia-se a todos os seres que fossem delicados, como um
beija-flor; os sons, esses maestros que dão timbre ao silencio, viram parar o
vento, o marulhar das ondas, os gritos dos pássaros, o trabalhar do motores dos
navios e até as vozes dos pescadores. Nada de sons. Neste dia o maestro não
regia concerto algum.
3. A desdita com remédio
Mais adiante, quando o
sol já se tinha imposto, cinco seres humanos continuavam a fazer-se à pesca. Malogrados
nessa intensão, disfarçavam como podiam a desdita, em conversas de galhofa.
Estavam bem-dispostos, apesar de não haver “caça”, talvez influenciados pelos
tesouros de harmonia natural que os rodeava. Esta capa influenciadora, dizem
que limpa a cabeça, desanuvia tristezas, faz esquecer problemas e até ajuda a curar
maleitas.
4. O mar só dá o que tem
De quando em vez
(desculpem esta expressão) alguém proclamava peixe. O Cheta fez três sargos em
simultâneo; o Borges trouxe uma pata-roxa; o Óscar a maior choupa; o Forte um
grande sargo e o Malheiro 3 cavalas.
Em discórdia moderada,
com a confusão de estralhos enrodilhados às vezes a três, gerava-se basta
opinião. O Cheta lamentava as retenidas perdidas, o Borges insistia no corte de
tesoura, o Óscar só queria ajudar a desmalhar (ou não tivesse trabalhado na
confeção), o Forte pegou num fio e o Malheiro (o
prevaricador) acusava-me a mim e ao Cheta como culpados da crise. Com mais ou
menos bulício e falatório, lá se iam resolvendo as contendas.
Mas peixe é que não aparecia.
Havia pouco. De quatro poitadas encheram-se duas caixitas.
Refira-se como opinião
pessoal, que estes 5 pescadores elitistas, se abdicassem deste estatuto, talvez
tivessem tido a oportunidade de também poderem gabar-se na Marina (como ouvi
outros a gabarem-se) de terem enchido caixas de fanecas, carapaus e fanecas.
Os ditos elitistas, ou
seja, NÓS os 5, queremos só escamas. Mais nada. Ora, têm de se convencer do
seguinte:
- O mar só dá o que
tem.
5. Escutamos os peixes. Falta falar com eles.
Era uma vez um
pescador, que se gabava de perceber a linguagem dos peixes. Por conseguinte,
quando ia pescar no seu barquito para o alto mar, passava horas a ouvi-los
falar, esquecendo-se até de pescar, tal o seu vício em escutar os seres
marinhos.
Convidei-o a embarcar
connosco no Fosmar. Ele aceitou com entusiasmo.
Apoitados numa das
marcas, pedi ao Óscar:
- Vou pedir ao António
que nos diga que peixes estão no fundo. Desligue a sonda. O Óscar assim fez.
O António, abriu a
porta traseira do barco, deitou-se com a cabeça junto à água e pediu silêncio.
Passados 5 minutos começou a rir-se e eu perguntei-lhe porque se ria. Ele
respondeu se queríamos que ele retransmitisse as conversas dos peixes. Todos
anuíram.
Daí a instantes, começou
a narrar a conversa, que estava a ouvir entre os peixes.
- És tão lento – dizia
o carapau ao sargo.
- És demasiado pequeno
e insignificante – afirmava a choupa ao serrano.
- Tens de fugir de mim
– alertava o congro à faneca.
- Não me roubes a
minha comida – ameaçava o pargo à boga.
- És tão estúpida –
insultava o goraz a pequena sardinha.
- Por que és tão
lindo? – murmurava o besugo ao “peixe-piça”.
- Amo-te – desabafava
o polvo para o caranguejo.
- Olá, posso também
conversar convosco? Era o tubarão.
O António gritou: - Não
é que fugiram todos.
Esta conversa foi uma
revelação. Fragmentou-me. A partir deste dia irei tentarei perceber esta nova dimensão, com a ajuda do Santo António. Talvez esta intenção esteja para lá dos meus limites.
Sra da Hora, 01 de
Setembro de 2018
Luís M. Borges