quarta-feira, 22 de agosto de 2018

109. MEMÓRIAS DO ALTO MAR


Fandango


Foi em Viana...
1.Aljezur


Fui pescar com praias nos olhos. Com as praias de Aljezur. Naquelas areias beijes, naquelas arribas negras, naquelas rochas ficcionistas, naquele ar puro, naquelas águas refrescantes. Dez dias de pura delícia.
Neste dia, o alto mar nada tinha de especial a não ser bandos de mascatos e de paínhos. O calor também era o de Agosto. Portanto, só  me restava acomodar-me à rotina.

2.Gorazes


Sim. Fomos aos divinos, a ver se davam. Só apareceram os cretinos dos carapaus em fúria desmedida. Porque eram mais rápidos, não deixavam que os gorazes chegassem aos iscos, atacando num frenesim inabitual os anzóis bem dotados com nacos de sardinha.


Contudo, quando se distraíam, la vinham uns gorazes. O Malheiro foi exemplar. Enquanto nós os quatro, a pescarmos na ré, concentrávamos os iscos e por consequência a carapauzada, o Malheiro na proa, livre da peste grisalha ia atraindo a elite…Foi ele que possibilitou levarmos para casa 3 gorazes cada um.

3. O guincho 


Avariou. Içar 200 metros de âncora, pedra e cabo, acabou por queimar o aparelho. Valeu a bóia. Não foi um acidente, foi uma ocorrência, pois o Óscar nem se incomodou.
Isto da pesca no profundo traz problemas novos.

4. Dia de bife grelhado 



O Cheta decidiu e bem comprar uns bifes da cernelha. Só disse ao talhante que queria bifes tenros, mais nada, pelo que se comeram bifes à maneira e gostosos. A massa consolidou e o verde branco fresquinho foi quebrando o calor.
Da próxima,  sairão umas codornizes. Palavra do Forte. Assim será.  Há umas nuances, nesta importante e agradável promessa, que serão na altura própria registadas. Gostei sinceramente da atitude: ou comem todos ou não come alguém um dia destes, ou então cada um trará a sua própria marmita. Claro que tal nunca irá acontecer, a da marmita e a da não come alguém um dia destes.

5. O calor cansa 


Refrescar

Sinceramente. Cansaram-me os carapaus com a insistência. Mas mais me cansou o calor duro. Nem uma brisa a suavizar. Todos nós nos protegemos com untadelas e chapéus de abas largas anti UV. Contudo, mesmo assim, tais defesas não evitaram a tostadela, de vermelhos que ficámos e com receio das consequências. Ainda bem que neste mar alto nada arde, caso contrário, teríamos 5 tochas a brasear, tipo Monchique.

6. No chão 


Lindas...

Sapatilhas e alcatifa não rimavam. Umas cor de laranja, outra negra. Umas novas, outra a desfazer-se. Umas objecto de atenções e de críticas venenosas,  outra perante a necessidade urgente de substituição, objecto de indiferença. 

Rotinhas...rotinhas…

Perguntei ao Malheiro, se não leiloavam alcatifas. Respondeu que não, só sapatilhas, roupa e relógios.  Este leilão da Polícia é demasiado restritivo.
E assim foi “No chão” o titular de extremos.

Marina de Leça, 15 de Agosto de 2018
Luís M. Borges




terça-feira, 21 de agosto de 2018

108. MEMÓRIAS DO ALTO MAR

Pesca científica

1.Serenidade


Sentei-me no sofá da minha sala. Distraí-me com uma série de pequenos afazeres, ouvi música clássica, admirei o meu cão enrolado…mas, sobre a pescaria marcada para o dia seguinte nem lembrei. Uma estranha e invulgar tranquilidade, que até condicionou, presumo, o meu suave e antecipativo acordar (acordei exactamente às 04h18, ou seja, 2 minutos antes de o despertador digital se ter pronunciado).

- Que extraordinária sincronização vivencial – pensei eu – Estará tudo bem comigo?

2. Mulheres gordas e louras


Ao chegar às 05hh0 à Marina de Leça, verifiquei que havia por ali, um trânsito inusitado de turistas. A malta dos veleiros ou não lhes apeteceu dormir ou tinham ido para os copos. Mulheres gordas e loiras, homens altos e magros a linguajarem em alemão, inglês e francês, circulavam afoitos pelos passadiços e em frente à Recepção da Marina.

Desinteressei-me imediatamente pelas mulheres gordas e louras, quando o Óscar, o Cheta e o Malheiro, estacionaram os seus carros à entrada do portão de acesso ao nosso cais.

3. Uma pesca…nhã, nhã, nhã


Navegámos e pescámos em cinzento. Sabem, aquela cor que indefine tudo, mesmo a pesca. Durante a primeira hora, apanharam-se uns peixitos, em quantidade inadequada às pretensões dos quatro exigentes pescadores: uns carapaus cinzentos, umas choupas cinzentas e os habituais serranos e algumas fanecas (estes espécies a pintarem a tela verde em fundo cinzento). 


Zarpámos dali.

4. Queijo fatiado


Ovos cozidos, bolinhos de bacalhau, fiambre e queijo fatiado. Portanto, margem para se tentar estabelecer o equilíbrio entre vários produtos de origem animal diferentes: galinha, bacalhau, porco e vaca. Eu ataquei literalmente os bolinhos do Óscar e os meus ovos. Sobrou muito queijo fatiado. Fartura a mais na dispensa, carência nas caixas de peixe.


Foi isto que se levou desta poitada – um pequeno almoço pleno de calorias e muito queijo fatiado – pois de pesca, como perguntaria o curioso: - “viste-la?”


Zarpámos de novo, embora regressando ao local da primeira poitada, que ao menos deu, quando lá estivemos, qualquer coisita.

Valeu. Primeiro, começaram as fanecas gordas, na sequência umas choupas e até dois ou três sargos. Não se fizeram rogadas as sardas, daquelas valentes pelo tamanho, para contentamento meu e do Malheiro e arrelia do Óscar.


O tempo ia-se mantendo igual a si próprio, naquela indefinição descolorida.

5. A luz brilhou na escuridão



Era meio dia quando o Óscar começou a descascar batatas. Às 13h00 saiu um coelho estufado, logo empratado, com aquele aroma tão tradicional e com um aspecto apetitoso. Quase a chegarem as 14h00 fumegou um café, que por eventual distração estava a passar despercebido. Estranhei…parece-me que acabar uma boa refeição sem o confortante cafezinho é injusto. Talvez que não havendo café, se torne inviável e desajustado estar a comer queijo e doces como sobremesa, para além, diria, de se profanar um cálice de whisky. As coisas não funcionam quando falta a magia da luz. Atitudes cinzentas a condizerem com o estado do tempo e talvez até a influenciarem-nas.

6. O máximo divisor comum


A maior faneca

O Óscar lá teve de fazer mais uma vez o sacrifício de dividir a peixarada capturada, em quatro doses.

- Duas para aqui; mais uma para ali; levas uma mais pequena desta vez; levas agora um peixe maior…

No final da operação “Divisão” estava como sempre tudo certo e de acordo. O Óscar é o “Máximo” a dividir comumente o pescado. Assim, quando chego a casa, conto o número de espécies que me couberam e multiplico por quatro, sabendo o número total de peixes capturados. Também fico a saber quantas peças por espécie se pescaram. Os diversos tipos de  peso também ficam registados.


A verdadeira matemática nunca se afasta da realidade e da verdade. Digam lá, se a pesca científica, não é um facto.

Leça, 13 de Julho de 2018

Luís M. Borges