O silêncio do mar/A agonia dos peixes…
1.Crime e castigo
1. O naufrágio
Hoje irei escrever
sobre peixes, esses nossos protagonistas sempre presentes, que acabam também
por serem nossos companheiros.
Tenho pensado imenso
sobre a situação actual, no contexto da vida do ser humano, dos organismos
aquáticos. Analisei a relação “medidas mínimas legais de captura” e “fase
adulta das espécies piscícolas”.
Tenho como adquirido,
que qualquer ser vivo, desde que esteja apto a procriar, atingiu o estatuto de
adulto. Com os seres humanos não é assim, pois diversos ditames civilizacionais,
assim o impedem. Para o ser humano é aos 18 anos. Ora, para as espécies
marinhas deveria seguir a mesma orientação, ou seja, maioridade para além da
maturidade sexual. Os pescadores quando capturam um peixe dizem:
- Tem medida.
Mas nunca dizem:
- É adulto.
Comparemos através do
seguinte quadro, a “medida mínima legal de captura” com a definição científica
da “1ª maturidade de algumas espécies”, as que mais capturamos:
Espécies
|
Tamanho legal
|
1ª maturidade
|
Besugo
|
18 cm
|
16 cm
|
Carapau-negrão
|
15 cm
|
24,7 cm
|
Choupa
|
23 cm
|
19,7 cm
|
Congro
|
58 cm
|
200 cm
|
Faneca
|
17 cm
|
21,6 cm
|
Goraz
|
25 cm
|
25 cm
|
Pargo-legítimo
|
20 cm
|
26,6 cm
|
Sarda/cavala
|
20 cm
|
21,5/26,1 cm
|
Sargo-safia
|
15 cm
|
17 cm
|
Obs: Dados biológicos provenientes do WebSite: FischBase
Conclusão: Somente o besugo,
a choupa
e o goraz estão definidos correctamente, na relação “tamanho
legal de captura / 1ª maturidade”.
Crime legal? Concerteza.
Castigo? Certamente, a curto e a médio prazo.
2. Nas margens da confusão
Os pescadores adoram
ver os golfinhos a ondularem à superfície do mar. Os golfinhos são a poesia do
mar. Embelezam as águas azuis com uma elegância única. Fascinam os seres
humanos que se abandonam a contemplá-los. Sem estes seres admiráveis onde
viveriam os deuses?
2. Golfinhos
Já quanto às
tintureiras, elas surgem quando menos se espera. Dotadas de uma sensibilidade
olfactiva incrível, “farejam” a milhas…Atacam de surpresa e roubam os peixes
dos anzóis com eficácia. Os pescadores receiam-nas por serem predadores
temíveis, ou não fossem tubarões.
Apesar de tudo, eu
adoro a tintureira, no que à beleza majestática diz respeito. O poder assume-se
nela.
3. Tintureira
Vou fazer uma proposta
indecente: e se fosse possível cruzar estas duas espécies? Não iríamos ter
dificuldade em distinguir golfinhos de tintureiras? Seria uma confusão… Será
melhor retirar esta minha proposta…
4. Cruzamento
3. Bodião-canário
Esta interessante e
colorida espécie merece um elogio. Tem nome de pássaro! Ficar-lhe-ia melhor um
nome por exemplo: Bodião-papagaio…O Óscar ficaria aborrecido…
Ora, este peixe
apresenta estas cores porque se considera ter preferência por fundos marinhos
revestidos de corais. Uma camuflagem necessária e perfeitamente adequada.
Bodão-canário
A maturidade sexual
deste bodião acontece quando mede 16 cm. O macho guarda ciosamente o ninho
escavado na gravilha existente entre os corais, atacando qualquer tipo de peixe
e até pescadores submarinos, que se acerquem demasiado. Portanto, um peixe
corajoso e exemplar na defesa da sua prole.
Bodião-canário
Nunca percebi porque
os meus colegas o depreciam. Chamam-lhe erradamente “peixe-piça”. Nesta sessão
de pesca o pescador que mais pescou canários foi o Forte (talvez uma boa meia dúzia
deles). Na distribuição final do pescado vim com a gaiola cheia de canários. Na
caldeirada, a sua excelente carne faz a diferença, sobretudo quando eles
tenham, como foi o caso, 30 cm de comprimento.
Por último uma
curiosidade: o bodião-canário atinge o comprimento máximo de 35 cm e a bonita
idade de 17 anos. O Forte gosta de pescar peixes “velhotes”.
4. Ai verdinho meu verdinho
Foi uma das novidades.
O Malheiro pescou dois verdinhos, uma espécie que nunca tínhamos tido o prazer
de capturar com anzol.
Verdinho
Bonitinho o bicho.
Azulinho e prateado, delgadinho e com uma boca grandota.
Não sei porque lhe
chamam verdinho, pois de verde não tem nada. Mistério, que nem o Malheiro,
soube explicar. Foi pena, que o tamanho destes dois exemplares, tivesse sido
diminuto. Com 50 cm até se confundiriam com uma pescada.
5. Badejo, o Cadillac dos bacalhaus
Se o Óscar tivesse
pescado uma “Juliana”, com para aí 1,80 m, ter-lhe-ia chamado de certeza
“Badejo”. Mas pescou mesmo um badejo e não uma juliana. É que esta última
espécie mora habitualmente no declive continental, enquanto que o senhor badejo
traquina pela plataforma.
Óscar e o badejo
O Cadillac que o Óscar
pescou tinha quase 50 cm (o comprimento máximo que o badejo alcança é 70 cm).
E como iria o Óscar
preparar na cozinha este magnífico e saboroso peixe? Imaginem:
- Badejo com crosta de
limão siciliano.
5. Badejo com crosta de limão siciliano
É preciso mesmo ser-se
CHEF para cozinhar deste modo. Parabéns Óscar.
6. Os ratos do mar
A boga-do-mar é dos
poucos peixes, que se pesca em qualquer tipo de fundo, formando grandes
cardumes entre águas. É o rato do mar, desprezado por todos os pescadores.
Boga
Não atingindo um
comprimento superior a 30 cm, contudo é um peixe troncudo e um lutador
entusiasta, quando preso no anzol.
Calhou-me a mim neste
glorioso dia de pesca ser o recordista de bogas-do-mar. Chateado, repelia as
bogas para o mar, enquanto os meus distintos colegas de pesca iam gozando.
Dizia o Forte:
- O Borges está muito
calado!
A que o Óscar
retrucava:
- Especializou-se em
bogas!
Tive de assumir:
- Abaixo as cagonas…
6. O Borges só pesca cagonas
7. Onde para o Cheta?
7. O "Cheta" no Algarve
Não foi má a pescaria.
Houve sim uma série de
contratempos: O nevoeiro assistiu-nos até às 14h00; verificou-se uma avaria na
electrónica; almoçámos mais uma vez massa; faltou-nos o Cheta (a férias no
Algarve), o que nunca falta, o que está sempre, o que ensina, o que faz. Ele é
connosco como quer.
Até que foi um dia feliz.
8. Um dia feliz
Leça, 15 de Julho de 2017
Luís M. Borges
Obs: As fotos numeradas foram retiradas do PINTEREST








