quarta-feira, 26 de julho de 2017

90. MEMÓRIAS DO ALTO MAR



O silêncio do mar/A agonia dos peixes…
 
1.Crime e castigo

1. O naufrágio

Hoje irei escrever sobre peixes, esses nossos protagonistas sempre presentes, que acabam também por serem nossos companheiros.
Tenho pensado imenso sobre a situação actual, no contexto da vida do ser humano, dos organismos aquáticos. Analisei a relação “medidas mínimas legais de captura” e “fase adulta das espécies piscícolas”.
Tenho como adquirido, que qualquer ser vivo, desde que esteja apto a procriar, atingiu o estatuto de adulto. Com os seres humanos não é assim, pois diversos ditames civilizacionais, assim o impedem. Para o ser humano é aos 18 anos. Ora, para as espécies marinhas deveria seguir a mesma orientação, ou seja, maioridade para além da maturidade sexual. Os pescadores quando capturam um peixe dizem:
- Tem medida.
Mas nunca dizem:
- É adulto.
Comparemos através do seguinte quadro, a “medida mínima legal de captura” com a definição científica da “1ª maturidade de algumas espécies”, as que mais capturamos:

Espécies
Tamanho legal
1ª maturidade
Besugo
18 cm
16 cm
Carapau-negrão
15 cm
24,7 cm
Choupa
23 cm
19,7 cm
Congro
58 cm
200 cm
Faneca
17 cm
21,6 cm
Goraz
25 cm
25 cm
Pargo-legítimo
20 cm
26,6 cm
Sarda/cavala
20 cm
21,5/26,1 cm
Sargo-safia
15 cm
17 cm

Obs: Dados biológicos provenientes do WebSite: FischBase
Conclusão: Somente o besugo, a choupa e o goraz estão definidos correctamente, na relação “tamanho legal de captura / 1ª maturidade”.
Crime legal? Concerteza. Castigo? Certamente, a curto e a médio prazo.
  
2. Nas margens da confusão

Os pescadores adoram ver os golfinhos a ondularem à superfície do mar. Os golfinhos são a poesia do mar. Embelezam as águas azuis com uma elegância única. Fascinam os seres humanos que se abandonam a contemplá-los. Sem estes seres admiráveis onde viveriam os deuses?

 2. Golfinhos

Já quanto às tintureiras, elas surgem quando menos se espera. Dotadas de uma sensibilidade olfactiva incrível, “farejam” a milhas…Atacam de surpresa e roubam os peixes dos anzóis com eficácia. Os pescadores receiam-nas por serem predadores temíveis, ou não fossem tubarões.
Apesar de tudo, eu adoro a tintureira, no que à beleza majestática diz respeito. O poder assume-se nela.

 3. Tintureira
Vou fazer uma proposta indecente: e se fosse possível cruzar estas duas espécies? Não iríamos ter dificuldade em distinguir golfinhos de tintureiras? Seria uma confusão… Será melhor retirar esta minha proposta…

 4. Cruzamento

3. Bodião-canário

Esta interessante e colorida espécie merece um elogio. Tem nome de pássaro! Ficar-lhe-ia melhor um nome por exemplo: Bodião-papagaio…O Óscar ficaria aborrecido…
Ora, este peixe apresenta estas cores porque se considera ter preferência por fundos marinhos revestidos de corais. Uma camuflagem necessária e perfeitamente adequada. 


 Bodão-canário

A maturidade sexual deste bodião acontece quando mede 16 cm. O macho guarda ciosamente o ninho escavado na gravilha existente entre os corais, atacando qualquer tipo de peixe e até pescadores submarinos, que se acerquem demasiado. Portanto, um peixe corajoso e exemplar na defesa da sua prole.

 Bodião-canário

Nunca percebi porque os meus colegas o depreciam. Chamam-lhe erradamente “peixe-piça”. Nesta sessão de pesca o pescador que mais pescou canários foi o Forte (talvez uma boa meia dúzia deles). Na distribuição final do pescado vim com a gaiola cheia de canários. Na caldeirada, a sua excelente carne faz a diferença, sobretudo quando eles tenham, como foi o caso, 30 cm de comprimento.
Por último uma curiosidade: o bodião-canário atinge o comprimento máximo de 35 cm e a bonita idade de 17 anos. O Forte gosta de pescar peixes “velhotes”.

4. Ai verdinho meu verdinho

Foi uma das novidades. O Malheiro pescou dois verdinhos, uma espécie que nunca tínhamos tido o prazer de capturar com anzol. 

 Verdinho

Bonitinho o bicho. Azulinho e prateado, delgadinho e com uma boca grandota.
Não sei porque lhe chamam verdinho, pois de verde não tem nada. Mistério, que nem o Malheiro, soube explicar. Foi pena, que o tamanho destes dois exemplares, tivesse sido diminuto. Com 50 cm até se confundiriam com uma pescada. 

5. Badejo, o Cadillac dos bacalhaus
Se o Óscar tivesse pescado uma “Juliana”, com para aí 1,80 m, ter-lhe-ia chamado de certeza “Badejo”. Mas pescou mesmo um badejo e não uma juliana. É que esta última espécie mora habitualmente no declive continental, enquanto que o senhor badejo traquina pela plataforma.

 Óscar e o badejo

O Cadillac que o Óscar pescou tinha quase 50 cm (o comprimento máximo que o badejo alcança é 70 cm).
E como iria o Óscar preparar na cozinha este magnífico e saboroso peixe? Imaginem:
- Badejo com crosta de limão siciliano.

5. Badejo com crosta de limão siciliano
É preciso mesmo ser-se CHEF para cozinhar deste modo. Parabéns Óscar.

6. Os ratos do mar

A boga-do-mar é dos poucos peixes, que se pesca em qualquer tipo de fundo, formando grandes cardumes entre águas. É o rato do mar, desprezado por todos os pescadores. 

 Boga
Não atingindo um comprimento superior a 30 cm, contudo é um peixe troncudo e um lutador entusiasta, quando preso no anzol.
Calhou-me a mim neste glorioso dia de pesca ser o recordista de bogas-do-mar. Chateado, repelia as bogas para o mar, enquanto os meus distintos colegas de pesca iam gozando. Dizia o Forte:
- O Borges está muito calado!
A que o Óscar retrucava:
- Especializou-se em bogas!
Tive de assumir:
- Abaixo as cagonas…

 6. O Borges só pesca cagonas

7. Onde para o Cheta?

 7. O "Cheta" no Algarve

Não foi má a pescaria.
Houve sim uma série de contratempos: O nevoeiro assistiu-nos até às 14h00; verificou-se uma avaria na electrónica; almoçámos mais uma vez massa; faltou-nos o Cheta (a férias no Algarve), o que nunca falta, o que está sempre, o que ensina, o que faz. Ele é connosco como quer.
Até que foi um dia feliz.

8. Um dia feliz
Leça, 15 de Julho de 2017
Luís M. Borges 

Obs: As fotos numeradas foram retiradas do PINTEREST


segunda-feira, 10 de julho de 2017

89. MEMÓRIAS DO ALTO MAR



O grilo

 
1.Preocupações

A preocupação agarrou-me. As nossas pescarias do alto mar talvez estivessem em suspenso durante um tempo. Primeiro porque as nortadas e consequentemente a vaga em “carneirinhos” dificultava a sua prática; segundo porque o Cheta estava a chegar-lhe a data da partida para férias e ele é fundamental na navegação; terceiro porque o Forte tinha ideias de investir lá para Viana em pescarias aos bocas-negras, pelo que não o estimulava ir connosco; por último o Malheiro, sei que havia qualquer coisa com ele, mas não me lembro…

 Boca-negra

Mas, estas pesadas e incómodas preocupações volatilizaram-se quando o Óscar me telefonou a marcar saída, informando-me também que a equipa iria completa. Desta vez. 


2.Escolhas criteriosas

Fui eu que levei o “comer”. Uns camarões e uns panados.
É preciso de vez em quando variar o cardápio. A massa e o arroz dão jeito para se cozinharem no barco, mas continuam a ser uma constante.  Não é que não aprecie os excelentes arrozes e massas que o Óscar elabora com mão de mestre, nas repito, no variar é que se desenvolve o paladar do ser humano.


Só mais uma coisita, de somenos importância: depois do repasto, concluí que os molhos apropriados para o camarão, me irritaram os intestinos. Estes exigiram rapidamente um reparo e o que salvou a cueca foi sem dúvida o melhor WC de todo o Oceano Atlântico. Talvez decida explicar melhor esta forma engenhosa e peculiar de cagar em alto mar. Só preciso de umas fotos algo privadas, a fim de exemplificar.


3. Mar rapado

Havia uma ânsia e uma enorme esperança, de que os nossos queridos gorazes, se fariam aos nossos anzóis com vontade de comer. Depois da última pescaria, um êxito assinalável, pensava-se que talvez o milagre se repetisse. Era possível. E também porque eu, o Óscar e o Cheta, queríamos que o nosso comum amigo Forte, pescasse gorazes e não bocas-negras.


Felizmente, todos nós acabamos por criar o nosso próprio destino. Os nossos olhos neste dia, não ficaram maravilhados: alguns cantarilhos-legítimos de tamanho médio, mais um ou outro gorazito, uns tantos carapaus e fanecas e no final um simpático congro.. 


Em resumo, cada um meteu na arca 14 exemplares da biologia marinha Atlântica, os que se disponibilizaram a cederem-nos as suas preciosas vidas. Aceitámos com honra esta simbólica oferta da natureza. 


Nem sempre o excesso nos satisfaz, por muitas e variadas razões. Como diz o Cheta:
- Um peixe tem leme e barbatanas.

"Bobo" cavalgando um grilo
(Imagem retirada do Pinterest)
4. O grilo

Existe um grilo na Marina de Leça. Tem cantado que se farta (cri-cri-cri) e com esta arte tem surpreendido os pescadores lúdicos, que por ali se juntam. Não se discute outra coisa na Marina.
Será que incomoda? Claro que incomoda, a alguns…
Um dia destes, alguém por distração, lhe porá um pé em cima e o esmagará. Iremos todos ficar muito tristes…certamente…
  
O grilo 

“O grilo gritou no saco

Gritou no papo do sapo

Gritou no poço

Gritou na cara do moço

Gritou no mato

Gritou no sapato.

E de repente

Pra espanto da gente

Não gritou mais.”

Poesia de Almir Correia

Marina de Leça, 05 de Julho de 2017
Luís M. Borges