ANZÓIS PROFISSIONAIS
1.O silêncio da madrugada
Quando saí de casa (às
05h30) o silêncio da madrugada fez-se notar. Só o ladrar de um cão vigilante
atravessou o silêncio.
A nascente e a poente
ainda lutavam a claridade e a escuridão.
Devagar, o meu Smart
depressa chegou à marina, através de um deserto de carros nas vias. Rodou e
rodou à vontade.
2.As sentinelas
Ao estacionar,
baloiçavam suavemente os mastros-sentinelas dos veleiros, a gradearem a visão
do nascer do dia. Os barcos gemiam pela irrequietude do mar e pelo vento fresco
que passava.
Já navegando, aquele
guindaste tornou-se nítido. Uma estátua. O nosso olhar deteve-se e agradeceu a
visão.
Não tardou que o sol
rompesse e a magia da manhã tomasse conta de nós.
3. Repetir convicções
Dadas as excelentes
prestações piscatórias das vezes anteriores, apoitou-se no primeiro pesqueiro,
na convicção de que “eles estivessem lá”. Tal não aconteceu: canas imóveis,
carretos mudos, rostos incrédulos, caixas quase virgens. Estava feita uma hora
fracassada de pesca, das 07h30 às 08h30.
Logo o Fosmar se
movimentou, fazendo-se ao 2º pesqueiro, na rota de nova convicção. E mais outra
hora gasta à sujeição do fracasso: eles continuavam a “ não estarem lá”. Um
peixe agora, outro depois, nada que fizesse entusiasmar os 4 pescadores.
Nova arrancada em
força e terceira convicção presente nos espíritos. Dizia o Cheta:
- Estamos mal
habituados.
4. Calmantes
O estado do mar também
não ajudava. Com uma vaga de 1,7 m, cuja direcção de sul era contrariada por um
vento leste e uma corrente bem pronunciada no sentido contrário, a água
apresentava-se crispada, fazendo balançar o barco desordenadamente. Era
arriscado os pescadores distraírem-se com o equilíbrio. Ou sentados ou
agarrados a qualquer parte do barco, tal permitia um mínimo de segurança,
evitando quedas perigosas dentro da embarcação, ou pior, cair ao mar.
Cansava este
permanente agarranço e chateava a dificuldade de executar qualquer acto banal.
- Aguenta-te ó Aida.
Agarra-te a mim.
5. Pataniscas de sargo
Finalmente. A hora do
reforço alimentar tirou o stress aos quatro baloiçantes pescadores.
- Tenho aqui uma
surpresa para si – segregava-me o Malheiro.
- O que é?
- Duas pataniscas de
sargo.
Bem, depois de provar admiti
que gostava, embora a dúvida me tivesse surgido. As pataniscas de sargo, uma
invenção do Malheiro, eram excelentes: originais no gosto e com um leve sabor a
limão.
- Parabéns Malheiro.
O Cheta e o Óscar ignoraram.
Preferiram atirar-se aos ovos cozidos, ao salame e ao presunto.
6. Era meio-dia…
Os sargos acordaram à
11h30. Debateram-se mais com o Óscar e o Malheiro.
A verdadeira
competição, se assim lhe pudermos chamar, estabeleceu-se entre essa dupla de
estibordo. O Óscar saltava quando arrecadava um par de sargos e o Campeão
Regional lembrava, sempre que trazia um graúdo:
- Este é o maior do
barco – (não altera o slogan…).
Foi pena este nosso
estimado amigo ter de pousar a cana. Dada a hora e as rotinas, a tarefa
autenticamente maior, era a feitura do almoço.
7. Meia-desfeita e nabos
E começou a descascar
batatas, que logo seguiram para a grande panela, bem como o bacalhau desfiado
(esta foi mais uma boa ideia do Malheiro) e o grão.
Quando todos cobiçavam
uma verdadeira meia-desfeita tradicional, eis que o Malheiro pergunta:
- Quem gosta de nabos?
- Nabos?...Nabos?...
Estragou tudo.
Que remédio, tiveram
os esfomeados pescadores, senão “manjarem” aquela “inteira desfeita” do
Malheiro. Para piorar, a salsa e a cebola picadas, que dão aquele sabor especial
típico do prato, não faziam parte dos componentes. Este Malheiro inventa p’ra
carago!
Mas estava bom: um
azeite de alta qualidade compôs o sabor da desditosa “desfeita”.
8. A história do burro
Era uma vez um cigano
que propôs aos amigos:
-
Aposto 500 euros em como não fazem rir o meu burro.
Os
amigos ficaram mudos, até que um jovem aceitou a aposta, pelo que chegou ao pé
do burro e segredou-lhe ao ouvido. Imediatamente o burro se começou a rir.
O
cigano ficou lixado e teve de pagar a aposta ao jovem.
(1)
Passados
15 dias o cigano repetiu a proposta:
-Quem
fizer chorar o meu burro ganha 1.000 euros.
De
novo o silêncio se impôs, até que o mesmo jovem levanta o braço e diz aceitar o
repto.
O
cigano estava confiante, pois queria repor os 500 euros perdidos. Quem iria
fazer chorar o seu burro?
Então
o jovem dirige-se de novo ao burro e fala-lhe ao ouvido, ao mesmo tempo que
baixa as calças. Ora, para espanto geral, o burro desata a chorar.
No
acto de entrega dos 1000 euros ao jovem, o cigano exigiu-lhe:
- Tem
de me dizer o que disse ao burro das duas vezes.
O
jovem anuiu e explicou-lhe:
- Da
primeira vez disse ao seu burro, que a minha picha era maior do que a dele, ao
que ele desatou a rir. Da segunda vez, disse-lhe que olhasse e mostrei-lhe a
minha picha, ao que ele desatou a chorar. Percebeu?
(3)
Isto
é só para ilustrar, que o Óscar sofre de miopia – os outros só pescam peixes
pequenos.
9. Anzol profissional
Tanto
rimos, que o ambiente social se tornou fascinante. E para animar ainda mais, os
sargos, as choupas e os carapaus, assaltaram literalmente a embarcação. Sabem o
que é pescar a 10 mãos?
O
Malheiro rejubilava e repetiu vezes sem conta a frase, só para afrontar o Óscar:
- É o
maior. Vejam este lindinho e pescado com anzol profissional.
Fiquei
curioso. Anzol profissional? Que raio de anzol seria aquele? Parecia a história
do burro.
E
continuou a repetir a mesma frase, o que me levou a pedir-lhe que me mostrasse
o extraordinário anzol, tão pesqueiro que ele era. Era um anzol grande,
daqueles antigos, de alumínio. Peguei nele e mirei-o. Visto e revisto, ao
entregar-lho, por causa do baloiçar do barco e do peso da chumbeira, o anzol
espetou-se e bem no meu dedo. Todos acorreram.
(2)
-
Arranjem um alicate para cortar o anzol.
Utilizei
a técnica recomendável: não puxei o anzol, empurrei-o espetando-o mais, fazendo
sair deste modo a ponta e a farpela. O sangue jorrava. O Óscar então cortou a
ponta do anzol e eu puxei a haste restante, ficando o dedo livre do piercing.
-
Tragam o álcool e 2 pensos.
Desinfectou-se
e apensou-se o dedo.
Conclusão:
eu, só tive de imitar um faquir indiano, que dorme em cima de uma cama de
pregos, sem se queixar. A dor pode ser perfeitamente controlada pela mente.
Pergunto:
pescar demais poderá causar danos cerebrais?
10.Fanecas para o Vaz
A
faneca é um peixe amoroso. Primeiro pela cor, de um âmbar matizado. Segundo,
pela configuração física, do frágil ao elegante. Terceiro, pela textura e sabor
da sua carne, branca e delicada.
Ora,
eu tinha uma encomenda, ansiosamente formulada repetidas vezes em conversa
corrida, do Vaz de Carvalho:
- Arranja-me
umas fanecas?
Assim,
movi a minha influência e negociei fanecas junto dos meus simpáticos colegas de
pesca. Fui atendido: fiz trocas e recebi ofertas (- Leve-as todas menos a
grande – disse o Cheta – é para a Maria).
No dia
seguinte, O VC emitia considerações valorativas sobre a real fama da faneca
nacional:
-Ah,
faneca.
11.A Páscoa em Marmelal
Se
por milagre D. Sancho I ressuscitasse, a primeira atitude dele seria cavalgar
até ao Marmelal, a aldeia que foralizou, a matar saudades. Dizia o Borges, que
o vinho por lá já era excelente nessa altura e o porco assado na brasa (diga-se
o javali) um petisco.
Refira-se
o convite do Óscar:
-
Rojões ao almoço e febras ao jantar. A uma matança ninguém deve faltar.
A
Páscoa aproximava-se.
12. Manutenção ou 15 dias em pousio
No
final de cada pescaria o barco fica sempre um nojo: borra-se o chão com café,
azeite, vinho tinto, barbatanas de peixe, escamas, restos de isco, vomitado de
peixe…; ainda por cima o barco sai riscado por causa das pancadas das
chumbeiras no casco do barco…; sujam-se os estofos com as calças imundas…
É
sabido, que feita a acostagem na Marina, o barco leva um banho de shampoo, é
esfregado, é mangueirado, é seco e fica a brilhar. Óscar, o zelador, não
facilita.
Depois
há a parte técnica e estrutural: motor, electrónica, sistemas de segurança e
salvação, casco, hélice, etc. É preciso, que tudo funcione na perfeição, pois
no alto mar o risco é sempre muito grande. Qualquer tipo de avaria é sempre um
problema.
Assim,
o barco tinha de efectuar uma revisão. Foi para o estaleiro - férias de pesca à
vista. São as únicas férias de que não gosto!
Fotos: 1, 2 e 3 - Pinterest
Sra da Hora, 17 de Março de 2017
Luís M. Borges