COISAS NEGRAS, GORAZES, COZIDO E CANSAÇO...
1.O muro negro
Afinal o mar é negro.
E o céu também. Mas a terra não. É uma excepção: a fita comprida de luzes da
marginal de Matosinhos.
E assim era, porque
zarpámos da Marina às 05h25. Uma saída para o alto mar com risco médio.
Perigoso, por causa das bóias clandestinas das redes dos pescadores artesanais
de Matosinhos. Mas tinha de ser assim, porque a gorazada mora longe e haveria
que aproveitar a manhã.
Duas milhas
percorridas surgiu o muro. Um muro de nevoeiro baixo, também negro, a tapar
completamente a fita de luzes da cidade e a perseguir-nos como uma ameaça
sombria. Parecia uma cena de um filme de terror. Surpreendeu-me. Valeu o dia
ter rompido em cinzento, de modo que afastei os meus demónios.
Durante duas horas e
meia navegaram-se as 22 milhas náuticas até à marca dos gorazes.
2. A minha falta de jeito
O carreto eléctrico é
um pesadelo de peso, de muito peso. Ainda não consegui adaptar-me ao monstro.
Até esqueci como se trabalhava com ele, como se o bicho se tivesse desligado de
mim. Não lhe tenho amor, afeição, nem dedicação. Quando trago um peixe, penso
em guindaste. Quando os peixes chegam à superfície é como se tivesse chegado
uma carga. Quando preciso de meter os peixes no barco, é como se tivesse de
descarregar uma geringonça qualquer. Acabo por me atrapalhar porque nunca fui
estivador. Valem - nestas aflições - o Cheta e o Óscar, que logo se chegam à
amurada e içam os peixes.
Já com o meu estimado
carreto manual, sinto o peixe a debater-se e trabalho em conformidade; quando
chega o peixe à superfície, tenho logo uma sensação de imenso prazer e sei como
devo orientar-me de modo a meter o peixe na embarcação com naturalidade,
eficácia e às vezes entusiasmo.
Claro que gosto de
pescar gorazes, cantarilhos, grandes carapaus e fanecas, mas o carreto
eléctrico desilustra-me. Fico sem ânimo. Que estranho! Os japoneses podiam ter
construído um carreto eléctrico com menos peso, muito mais pequeno, mais bonito
e sem ser negro. Não gosto desta cor.
3. O Óscar as canas
Estas canas. Eram boas canas.
Estou preocupado.
Deveras preocupado. As canas de pesca existentes no mercado são uma desgraça.
Não valem nada de nada. Partem todas. Marcas com publicidade de alta qualidade,
adequadas a pesca de grande performance, com índices de resistência e de
flexibilidade fabulosas, saem uma desilusão.
A prová-lo as canas
novas, bonitas, excelentes sob todos os pontos de vista e caras, que acabaram
por se partirem nas mãos do Óscar. Vi o desgosto dele, a irritação pelo
desgaste provocado pelo trabalho de mudança de cana, bem como pelo défice de
pesca provocado pela demora. É sempre desencorajador ver os colegas
entusiasmados a tirarem gorazes e ele a perder tempo com a montagem da cana.
Eu aconselharia: uma
boa cana não parte com facilidade. Verga, geme, mas não parte. Um bom carbono
com uma espessura razoável e ponteiras certas, de espessura média e de fibra de
vidro, costuma durar mais que um peixe velho qualquer de 10 anos. Esses
fabricantes e vendedores da porra que se cuidem. Vamos exigir medidas…Não
queremos ver o Óscar, nem qualquer outro elemento da equipa, com a infelicidade
estampada no rosto.
4. Malheiro – a recuperação
Também quero ir pescar
para a ré. Enfio uma chumbada de 750 grs e faço como o Malheiro: gorazes em bom
ritmo – tiro e queda – e bem jeitosos em termos de tamanho. Aquele corredor de
bombordo do barco nunca viu tantos gorazes e carapaus a esquiarem até ao Cheta.
Este, chateou-se por ter uma trabalheira danada a ter que apanhar e encabazar
todos aqueles peixes. Feliz, o Malheiro ia contando as peças e avisava:
- Cheta, mais um
goraz…Cheta, mais dois carapaus…Cheta, isto, Cheta aquilo…
Gostei sinceramente
desta recuperação malheiral, em cuja edição anterior de pesca aos gorazes, se
concretizou como um enorme fiasco.
Tão concentrado que
estava a provar a sua mais valia, que nem sede manifestou. Sobraram minis.
5. Borges, a bôla e o cozido
Quando se anuncia o
Entrudo os enchidos vendem-se bem. E são variados.
Primeiro foi a bôla de
Lamego de presunto e de salpicão, uma especialidade vendida por uma nova
empresa situada no Rotunda da Boavista. Só o Cheta desgostou. Sabedor desta
azia para com este género de comida, levei-lhe umas iscas de fígado. Depois,
mais tarde, eram praticamente 14h00, lá se empratou o cozido, não sem antes se
ter discutido o grande problema de a panela do Borges com as diversas carnes,
caber ou não na quadratura do suporte de madeira do fogão.
-Não cabe…cabe..não
cabe…cabe sim…etc
Isto de o olhómetro se
armar em fita métrica, gera muitas dúvidas, a qualquer bom cristão.
- Mas cabeu! Cabeu à
justa, mas cabeu. As carnes do cozido foram aquecidas.
Uma vitória do
experiente Óscar, que para palpites deste teor, raramente falha. Tirar medidas
a olho é com ele.
Sobre o cozido, a
variedade de carnes agradou. O Cheta quis de tudo. O Forte procurou orelha
fumada e morcela. O Óscar preferiu a vitela cozida e o entrecosto. O Malheiro
saboreou os rabos de porco, o chouriço e o salpicão. O Borges foi para a moira
e para a farinheira. As gaivotas não comeram!
Satisfeitos, todos
beberam café e tomaram bagaço. Este último para desfazer…
6. Forte: bateu o seu próprio recorde.
Forte
Entre nós tornou-se
moda falar de recordes. Ele foi o recorde do Cheta com o ruivo; ele foi o
recorde do Óscar com canas partidas; ele foi o recorde do Malheiro com congros;
ele foi o recorde do Borges com a aselhice a tirar gorazes e pargos; ele foi
finalmente o recorde do Forte com gorazes.
Neste dia de pesca aos
gorazes o Forte foi vincando:
- Já faltam poucos
para bater o meu recorde pessoal de pesca aos gorazes;
Mais tarde realçou:
- Já só me falta
pescar um goraz para igualar o meu recorde;
Muito mais tarde
gritou:
- Já igualei o meu
próprio recorde;
E no fim da pesca
exultou:
- Já ultrapassei o meu
próprio recorde. Sou o maior! Viva eu!
Radiante, foi-lhe logo
ali atribuído o respectivo diploma virtual. Para que conste! O fio foi
confirmado como sendo de 100 £.
Mas mereceu. Também
com mais uma cana nova, daquelas que garantem ao comprador que com ela, os
gorazes são certinhos. Um bónus real, não publicitário. É como ir para um jogo
de futebol e ter a garantia absoluta do árbitro, que irá ganhar o jogo. E assim
se batem recordes…e esta, hem!?
Contudo há um item a
favor do Forte: o Forte só vem metade das vezes à pesca, mas quando vem,
compensa com o dobro das capturas. Grande Forte. Que intensidade piscatória.
7. Cheta e os polvos do amor
O menino e a menina
O polvo é uma
especialidade gastronómica de Portugal. Malandrinho com arroz, assado no forno
à lagareiro, frito com ovo em filetes, ou mesmo simplesmente cozido em molho
verde, etc, +e uma gostosura.
Pois o nosso Cheta não
é que pesca dois polvos abraçados? Sim, isso mesmo. O menino e a menina vinham
abraçados. Acreditem. E que abraço, cheio de pernas entrelaçadas. Quem me dera
chegar ao supremo gosto de me enlear com alguma, deste modo tão intenso e ainda
por cima com estes braços dotados de ventosas. Deve ser um gozo dos máximos.
Dizia o Cheta:
- Filhos da
mãe…estavam a fodilhar…não consigo separá-los.
Conseguiu a custo
separar os dois amantes. Esta história dava um romance, superior ao célebre
“Romeu e Julieta” de Shakespeare.
Ainda critiquei
veladamente o Cheta pela crueldade manifestada com os polvos do amor. Só por
causa de um arroz. Não entendi este gosto sofisticado do Cheta.
8. Descargas emotivos
Ao sairmos da zona
negra, entrámos como já disse, na zona primeiro cinzenta e depois branca, a
vermos tudo rodeado de azul. Neste contexto, abriu o célebre programa
televisivo “OS DONOS DA BOLA”.
Refilava o Malheiro:
- O Benfica só ganha
ao colinho dos árbitros.
Refilava o Óscar:
- Está calado. Só vês
azul.
Contra-refilava o
Malheiro:
- O Benfica ganhou
ontem com um “chega para lá”, uma falta evidente, que deu em golo. O árbitro
cegou naquele momento…
E de novo o Óscar a
refilar:
- És um portista de
claque. Só vês azul. Também és cego. Não viste aquele penalti a favor do FCP?
E por aí fora,
enquanto as milhas se iam fazendo.
Foi uma discussão tão
enérgica e interessante que eu portista nada disse, que o Forte benfiquista só
ouviu, que o Cheta sportinguista se manteve indiferente. Este programa é bom.
Ajuda a destressar. A pesca quer-se calma e concentrada. Ainda bem que no
Fosmar não existe a pesca “cada um para si” e no final não se contam os peixes
que cada um pesca. Senão…teríamos um campeonato não de golos mas de peixes.
Futebolizar a pesca, é para Federações e Associações desportivas.
O estádio (o barco)
onde os jogadores jogam com a cana e o anzol, não tem relva, nem balizas, nem
árbitros e as televisões não transmitem em directo.
9. Gorazitos, carapauzões e outros
A miudagem invadiu o
mar. Em África, os seus habitantes preferiam o peixe miúdo ao graúdo. Porquê?
Respondiam-me que era mais prático para fritar, mais gostoso para comer e
acompanhava melhor a fuba.
Pois a miudagem fez-se
canalha miúda neste dia. Quase todos os gorazes se mediam entre os 25 e os 30
cm. Qual paizinho desempregado, ia aparecendo de vez em quando, um goraz mais
avantajado.
Até ouvi protestos: -
São pequenos. Paciência.
Já os carapaus eram
enormes. Compridos e espessos. Graúdos e fortes. Matulões. Autênticos
carapauzões. Um dos maiores, que me coube, medi-o e pesei-o. Admirei-me:
- Comprimento: 51 cm
- Peso: 854 gr
Fui logo aos livros e
à internet, procurar certezas sobre esta espécie, pelo que tomei as seguintes notas:
1.No mundo, estão
referidas 10 espécies de carapaus;
2.Nos nossos mares
locais e próximos, pescam-se 3 espécies:
a.Carapau-branco (Trachurus trachurus). Apresenta uma
pinta larga e redonda nas partes superiores dos opérculos).
b. Carapau-negrão (Trachurus picturatus). Apresenta as
barbatanas avermelhadas.
c.
Carapau-do-Mediterrãneo (Trachurus
mediterraneus). Apresenta as barbatanas amareladas.
O carapau-branco é o
mais comum neste nosso mar. Falemos um pouco sobre ele:
- Designação:
Carapau-branco (Trachurus trachurus)
- Repartição
geográfica: da Noruega até à África do Sul, Mediterrâneo e Mar Negro
- Repartição
batimétrica: até aos 1050 metros de profundidade
- Tamanho máximo: 70
cm
- Peso máximo: 2,0 kg
- Biologia: migram
para a costa no Verão e retornam para o largo no Outono
- Crescimento: Até ao
final do 1º ano de vida 11 cm; no 2º ano + 8 cm = 19 cm; no 3º ano + 4cm = 23
cm
- Reprodução:
Março/Abril. 1ª maturidade (20-23 cm macho) e (26/30 cm fêmea com 5 anos de
idade); A fêmea põe de 3.000 a 14.000 óvulos.
- Tamanho mínimo legal
de captura em Portugal: 15 cm
Bibliografia:
- “Les poissons de mer des pêches françaises”,
Jean-Claude Quéro / Jean-Jacques Vayue, Editora: Delachaux et Niestlé, Ano
1997.
O carapau afinal não é
um peixe de segunda, mas de respeito. E pergunta-se: afinal porque continuam a
adorar “jaquinzinhos”? São bons pelo que gostamos muito? Assunto para pensar…
Por último, os Outros
peixes capturados foram: alguns Cantarilhos, boas fanecas, uns safios e dois
polvos. Nada de especial. Nem para uma caldeirada davam.
10. Ai, se tivéssemos podido pescar até ao anoitecer!
Demorou-se a tarde…na
conjugação do verbo PESCAR. O nosso barco nunca esteve tão no presente do
indicativo como desta vez. A cor dos gorazes esgotou no sujeito: parou no Eu,
no Tu, no Ele, no Nós, no Vós e no Eles. Pegando num destes seres tão
desejados, destituí a conjugação e disse:
- Um goraz, 100 mares,
1000 alegrias. Era bom, não era?
Que realidade tão
aumentada. Não dava tréguas. O mais curioso embora eu estivesse esgotado
fisicamente, é que me apetecia continuar a pescar nesta realidade. É que os
gorazes continuavam activos, como nunca tinha visto. Mas, infelizmente a
partida estava a chamar, em direcção à Marina, porque estávamos no meio de um
Oceano e não de um charco de água.
- Ah, quem me dera ter
pescado até ao anoitecer. Teríamos duplicado o verbo pescar e o substantivo
goraz.
11. À noite, o cansaço é limpeza
O filme do dia
projectou a palavra FIM. Com a amarração efectuada iniciou-se o desembarque de
humanos e tralha. Foram chegando entretanto outras embarcações e novos
desembarques.
- O que ouvi? Ouvi os
snobs do silêncio! Não estranhei!
E começámos a limpar o
barco, cada um na sua missão. O cansaço arruína sempre a rapidez e às vezes a
eficácia. Mas o barco, tinha de ficar bem limpo (Óscar dixit), pelo que adiámos
o nosso merecido descanso. Às 19h30 subia as escadas da minha casa regressando
às outras duas primeiras realidades alternativas.
A felicidade é ser
pescador. Olhem-me só aquele goraz assado no forno!
Marina de Leça, 25 de Fevereiro de 2017
Luís M. Borges