domingo, 12 de março de 2017

82. MEMÓRIAS DO ALTO MAR




Ó Lamas, ainda há chá? 

  
1.Céu de Primavera


Um céu de Primavera a nascer na terra de “Horizonte e Mar”.
Bandos de gaivotas a sobraçarem uma pequena ondulação azul.
Havia perfume no ar e nos rostos germinava uma Primavera em cada vida.
Trocámos uma visita a Serralves para ver as camélias em festa por flores nos anzóis.
Os peixes pescados seriam para uma oblação, ao som da “Sagração da Primavera” de Stravinsky, ou melhor ainda, ao som das “Quatro Estações” de Vivaldi.
Um pequeno vento de afago e de envolvimento a fazer dar a face e a consolar. 

2.Chá, a bebida da cordialidade

 Lamas e a cordialidade

Fomos todos surpreendidos. O Lamas tomou o seu pequeno-almoço às 07h00, rumo ao pesqueiro, enquanto se ia navegando.
- Não comi nada! Sabem!
Abriu uma caixa de pastéis e desenroscou um grande termo com chá quente. Parecia deliciado...
Durante o dia, foi bebendo…chá.
Houve quem referisse tratar-se de chá de hipericão, que serve para tratar o stress e a depressão, a bronquite e a asma, a vesícula biliar e a gastrite, a diarreia e as hemorroidas, a gota e o reumatismo. Um autêntico milagre está planta. Negou que se tratasse de terapêutica e até declamou um poema sobre o chá:
“Bebo em goles apequenados.
Na boca o calor de água perfumada.
O gole prolonga
A indefinição do instante
No perfume retirado
Do gosto amargo
Em gesto de regresso”
Pedro DuBois
Só espero, que o Lamas não tenha feito costume, criando a necessidade entre os pescadores presentes de passarem a beber chá, porque o receituário é vasto. Eu, continuarei a beber a ARGUS preta e a comer uma boa fatia de paio ou um filete de atum, não me deixando tentar por bolos. 

3.O Bardamerdas

 O sportinguista Cheta

Desculpem o termo bardamerdas.
Não gosto da sonoridade nem do significado desta palavra. Há outras expressões mais limpas e expressivas. Por exemplo: vai para o caralho, vai-te foder, etc
Pois foi este o tema da discussão logo a seguir ao chá. O nível desceu do 80 para o 8. Ora, tomar chá é requintado, discutir a bardamerda é ordinário, bronco.
Se eu fosse do PSD ou do CDS proporia a criação de uma Comissão na Assembleia da República a fim de averiguar o assunto. Teria obviamente de ser ouvido o autor da bojarda e bem assim os dois líderes da oposição. Quase todos concordaram com esta proposta, com uma abstenção: o sportinguista Cheta.
Nada mais havendo a declarar deu-se por encerrada esta sessão, porque entretanto, tínhamos chegado ao pesqueiro. 

4. Dois pesqueiros

 O Chefe Ribeiro e o Lamas

Eram 08h00 quando o Chefe ordenou que se baixassem as retenidas.
Demoraram os peixes. Era cedo. Lá apareceram uns quantos. Mas, foram rareando à medida que o sol se ia afirmando.
Perante tão insignificante produtividade, o Chefe Ribeiro propôs mudança de pesqueiro. Quinze minutos depois fundeava-se noutro poiso. E os resultados foram aparecendo. Poucos peixes, mas bons.

 O Borges não bebeu chá

E o Lamas continuava a beber chá. E o Óscar partiu mais uma ponteira. E o Cheta queixava-se da coluna. E o Borges ia tirando fotografias parando a pesca. Tudo sincronizado e a bom ritmo.

5. Ovos de codorniz

 Pão, paio, ovos de codorna

 Cerveja preta

Gosto de ovos em geral. São os ovos de galinha casada os que mais consumo e a seguir os ovinhos de codorna, como dizem os brasileiros. Foram estes últimos os preferidos. O Cheta comeu-os simples, eu e o Óscar com sal e pimenta, mais cerveja preta Argus e o Lamas bebeu chá e comeu "Éclairs". 

 "Éclairs" e chá

6.Gosto desta nobreza
Sua majestade o Sargo
Os sargos e as choupas tinham coroas de rei. Majestáticos. Comoverem-me as vénias e os elogios mútuos.
Entretanto, também a plebe ia esgaravatando: umas fanecas (4), uns serranos (6), umas canárias (2) e sobretudo no anzol de cima umas cavalinhas de palmo, muito magrinhas. Foram-se porém encaixotando, nem que fossem para isco. Comi-as eu em casa. Um primor…

 Cavalinhas

Ainda se apresentaram em cena algumas bogas. Grandes e gordas. As indesejáveis. 

 Boga

Chegou entretanto a hora da caçoila, mas como suas altezas continuavam a insinuar-se, foi-se adiando a comedoria. Eram 13h30 quando, perante uma paragem, todos decidiram debruçar-se para os respectivos pratos. A bebida…não foi chá!

7.O Cheta e a jardineira

 Será que gostou?

Foi jardineira. O Cheta não é o mesmo homem, como quando apresenta rojões. A ingratidão alheia, transformada em esquisitices de gosto (nem todos os camaradas apreciavam esse prato típico), fizeram contudo o Cheta, a contragosto, dedicar-se à jardineira. Estava boa. 
Faltou a rolhinha (alguém se esqueceu), mas sobraram queijo e bolachas de baunilha.

 Ó Lamas, dá-me chá

Foi um almoço sem proveito, porque suas majestades, continuavam a querer ter a nossa vassalagem. Num repente, vi o Óscar pousar o prato e agarrar na cana – Tenho um “príncipe” preso. Ouvi, depois do peixe tirado, o Óscar pedir em voz alta:
- Ó Lamas, dá-me chá.

 E deu...

8. Hora de ponta

 Cheta em estilo

Foi das 16 às 17h00. O isco quase a acabar. Peixes a zunir. Mar de liquidez sossegada e muito azul. Rostos já em brasa e avermelhados. Mais uma hora de ponta. Sagrado coração que tão bem aguentas este esforço. 

 A realeza

E chegou o moleiro. E passaram os golfinhos. E concentraram-se os mascatos. Era hora de regressar.
A divisão fê-la o Óscar. Sobraram umas fanecas e uma cabra (parece que havia uma caldeirada para fazer).
E o belo horizonte foi-se aproximando, cada vez mais definido. Já se via a praia de Matosinhos.
- Ó Lamas, ainda há chá?
- Não. Acabou. Só há chá de sumiço.

 Chá de sumiço

Leça, 9 de Março de 2017.
Luís M. Borges


quarta-feira, 1 de março de 2017

80. MEMÓRIAS DO ALTO MAR


COISAS NEGRAS, GORAZES, COZIDO E CANSAÇO...
 
1.O muro negro


Afinal o mar é negro. E o céu também. Mas a terra não. É uma excepção: a fita comprida de luzes da marginal de Matosinhos.
E assim era, porque zarpámos da Marina às 05h25. Uma saída para o alto mar com risco médio. Perigoso, por causa das bóias clandestinas das redes dos pescadores artesanais de Matosinhos. Mas tinha de ser assim, porque a gorazada mora longe e haveria que aproveitar a manhã.
Duas milhas percorridas surgiu o muro. Um muro de nevoeiro baixo, também negro, a tapar completamente a fita de luzes da cidade e a perseguir-nos como uma ameaça sombria. Parecia uma cena de um filme de terror. Surpreendeu-me. Valeu o dia ter rompido em cinzento, de modo que afastei os meus demónios.
Durante duas horas e meia navegaram-se as 22 milhas náuticas até à marca dos gorazes. 

2. A minha falta de jeito

 
O carreto eléctrico é um pesadelo de peso, de muito peso. Ainda não consegui adaptar-me ao monstro. Até esqueci como se trabalhava com ele, como se o bicho se tivesse desligado de mim. Não lhe tenho amor, afeição, nem dedicação. Quando trago um peixe, penso em guindaste. Quando os peixes chegam à superfície é como se tivesse chegado uma carga. Quando preciso de meter os peixes no barco, é como se tivesse de descarregar uma geringonça qualquer. Acabo por me atrapalhar porque nunca fui estivador. Valem - nestas aflições - o Cheta e o Óscar, que logo se chegam à amurada e içam os peixes. 

 
Já com o meu estimado carreto manual, sinto o peixe a debater-se e trabalho em conformidade; quando chega o peixe à superfície, tenho logo uma sensação de imenso prazer e sei como devo orientar-me de modo a meter o peixe na embarcação com naturalidade, eficácia e às vezes entusiasmo.  
Claro que gosto de pescar gorazes, cantarilhos, grandes carapaus e fanecas, mas o carreto eléctrico desilustra-me. Fico sem ânimo. Que estranho! Os japoneses podiam ter construído um carreto eléctrico com menos peso, muito mais pequeno, mais bonito e sem ser negro. Não gosto desta cor.

3. O Óscar as canas

 Estas canas. Eram boas canas.

Estou preocupado. Deveras preocupado. As canas de pesca existentes no mercado são uma desgraça. Não valem nada de nada. Partem todas. Marcas com publicidade de alta qualidade, adequadas a pesca de grande performance, com índices de resistência e de flexibilidade fabulosas, saem uma desilusão.
A prová-lo as canas novas, bonitas, excelentes sob todos os pontos de vista e caras, que acabaram por se partirem nas mãos do Óscar. Vi o desgosto dele, a irritação pelo desgaste provocado pelo trabalho de mudança de cana, bem como pelo défice de pesca provocado pela demora. É sempre desencorajador ver os colegas entusiasmados a tirarem gorazes e ele a perder tempo com a montagem da cana.
Eu aconselharia: uma boa cana não parte com facilidade. Verga, geme, mas não parte. Um bom carbono com uma espessura razoável e ponteiras certas, de espessura média e de fibra de vidro, costuma durar mais que um peixe velho qualquer de 10 anos. Esses fabricantes e vendedores da porra que se cuidem. Vamos exigir medidas…Não queremos ver o Óscar, nem qualquer outro elemento da equipa, com a infelicidade estampada no rosto.

4. Malheiro – a recuperação


Também quero ir pescar para a ré. Enfio uma chumbada de 750 grs e faço como o Malheiro: gorazes em bom ritmo – tiro e queda – e bem jeitosos em termos de tamanho. Aquele corredor de bombordo do barco nunca viu tantos gorazes e carapaus a esquiarem até ao Cheta. Este, chateou-se por ter uma trabalheira danada a ter que apanhar e encabazar todos aqueles peixes. Feliz, o Malheiro ia contando as peças e avisava:
- Cheta, mais um goraz…Cheta, mais dois carapaus…Cheta, isto, Cheta aquilo…
Gostei sinceramente desta recuperação malheiral, em cuja edição anterior de pesca aos gorazes, se concretizou como um enorme fiasco.
Tão concentrado que estava a provar a sua mais valia, que nem sede manifestou. Sobraram minis.

5. Borges, a bôla e o cozido


Quando se anuncia o Entrudo os enchidos vendem-se bem. E são variados.
Primeiro foi a bôla de Lamego de presunto e de salpicão, uma especialidade vendida por uma nova empresa situada no Rotunda da Boavista. Só o Cheta desgostou. Sabedor desta azia para com este género de comida, levei-lhe umas iscas de fígado. Depois, mais tarde, eram praticamente 14h00, lá se empratou o cozido, não sem antes se ter discutido o grande problema de a panela do Borges com as diversas carnes, caber ou não na quadratura do suporte de madeira do fogão.

-Não cabe…cabe..não cabe…cabe sim…etc
Isto de o olhómetro se armar em fita métrica, gera muitas dúvidas, a qualquer bom cristão.
- Mas cabeu! Cabeu à justa, mas cabeu. As carnes do cozido foram aquecidas.
Uma vitória do experiente Óscar, que para palpites deste teor, raramente falha. Tirar medidas a olho é com ele.


Sobre o cozido, a variedade de carnes agradou. O Cheta quis de tudo. O Forte procurou orelha fumada e morcela. O Óscar preferiu a vitela cozida e o entrecosto. O Malheiro saboreou os rabos de porco, o chouriço e o salpicão. O Borges foi para a moira e para a farinheira. As gaivotas não comeram!


Satisfeitos, todos beberam café e tomaram bagaço. Este último para desfazer…

6. Forte: bateu o seu próprio recorde.

 Forte
Entre nós tornou-se moda falar de recordes. Ele foi o recorde do Cheta com o ruivo; ele foi o recorde do Óscar com canas partidas; ele foi o recorde do Malheiro com congros; ele foi o recorde do Borges com a aselhice a tirar gorazes e pargos; ele foi finalmente o recorde do Forte com gorazes.
Neste dia de pesca aos gorazes o Forte foi vincando:
- Já faltam poucos para bater o meu recorde pessoal de pesca aos gorazes;
Mais tarde realçou:
- Já só me falta pescar um goraz para igualar o meu recorde;
Muito mais tarde gritou:
- Já igualei o meu próprio recorde;
E no fim da pesca exultou:
- Já ultrapassei o meu próprio recorde. Sou o maior! Viva eu!
Radiante, foi-lhe logo ali atribuído o respectivo diploma virtual. Para que conste! O fio foi confirmado como sendo de 100 £.
Mas mereceu. Também com mais uma cana nova, daquelas que garantem ao comprador que com ela, os gorazes são certinhos. Um bónus real, não publicitário. É como ir para um jogo de futebol e ter a garantia absoluta do árbitro, que irá ganhar o jogo. E assim se batem recordes…e esta, hem!?
Contudo há um item a favor do Forte: o Forte só vem metade das vezes à pesca, mas quando vem, compensa com o dobro das capturas. Grande Forte. Que intensidade piscatória.

7. Cheta e os polvos do amor

O menino e a menina

O polvo é uma especialidade gastronómica de Portugal. Malandrinho com arroz, assado no forno à lagareiro, frito com ovo em filetes, ou mesmo simplesmente cozido em molho verde, etc, +e uma gostosura.
Pois o nosso Cheta não é que pesca dois polvos abraçados? Sim, isso mesmo. O menino e a menina vinham abraçados. Acreditem. E que abraço, cheio de pernas entrelaçadas. Quem me dera chegar ao supremo gosto de me enlear com alguma, deste modo tão intenso e ainda por cima com estes braços dotados de ventosas. Deve ser um gozo dos máximos.
Dizia o Cheta:
- Filhos da mãe…estavam a fodilhar…não consigo separá-los.
Conseguiu a custo separar os dois amantes. Esta história dava um romance, superior ao célebre “Romeu e Julieta” de Shakespeare.
Ainda critiquei veladamente o Cheta pela crueldade manifestada com os polvos do amor. Só por causa de um arroz. Não entendi este gosto sofisticado do Cheta.

8. Descargas emotivos


Ao sairmos da zona negra, entrámos como já disse, na zona primeiro cinzenta e depois branca, a vermos tudo rodeado de azul. Neste contexto, abriu o célebre programa televisivo “OS DONOS DA BOLA”.
Refilava o Malheiro:
- O Benfica só ganha ao colinho dos árbitros.
Refilava o Óscar:
- Está calado. Só vês azul.
Contra-refilava o Malheiro:
- O Benfica ganhou ontem com um “chega para lá”, uma falta evidente, que deu em golo. O árbitro cegou naquele momento…
E de novo o Óscar a refilar:
- És um portista de claque. Só vês azul. Também és cego. Não viste aquele penalti a favor do FCP?
E por aí fora, enquanto as milhas se iam fazendo.
Foi uma discussão tão enérgica e interessante que eu portista nada disse, que o Forte benfiquista só ouviu, que o Cheta sportinguista se manteve indiferente. Este programa é bom. Ajuda a destressar. A pesca quer-se calma e concentrada. Ainda bem que no Fosmar não existe a pesca “cada um para si” e no final não se contam os peixes que cada um pesca. Senão…teríamos um campeonato não de golos mas de peixes. Futebolizar a pesca, é para Federações e Associações desportivas.
O estádio (o barco) onde os jogadores jogam com a cana e o anzol, não tem relva, nem balizas, nem árbitros e as televisões não transmitem em directo.

9. Gorazitos, carapauzões e outros


A miudagem invadiu o mar. Em África, os seus habitantes preferiam o peixe miúdo ao graúdo. Porquê? Respondiam-me que era mais prático para fritar, mais gostoso para comer e acompanhava melhor a fuba.
Pois a miudagem fez-se canalha miúda neste dia. Quase todos os gorazes se mediam entre os 25 e os 30 cm. Qual paizinho desempregado, ia aparecendo de vez em quando, um goraz mais avantajado.
Até ouvi protestos: - São pequenos. Paciência.


Já os carapaus eram enormes. Compridos e espessos. Graúdos e fortes. Matulões. Autênticos carapauzões. Um dos maiores, que me coube, medi-o e pesei-o. Admirei-me:
- Comprimento: 51 cm
- Peso: 854 gr
Fui logo aos livros e à internet, procurar certezas sobre esta espécie, pelo que tomei as seguintes notas:
1.No mundo, estão referidas 10 espécies de carapaus;
2.Nos nossos mares locais e próximos, pescam-se 3 espécies: 


a.Carapau-branco (Trachurus trachurus). Apresenta uma pinta larga e redonda nas partes superiores dos opérculos).
b. Carapau-negrão (Trachurus picturatus). Apresenta as barbatanas avermelhadas.
c. Carapau-do-Mediterrãneo (Trachurus mediterraneus). Apresenta as barbatanas amareladas.
O carapau-branco é o mais comum neste nosso mar. Falemos um pouco sobre ele:
- Designação: Carapau-branco (Trachurus trachurus)
- Repartição geográfica: da Noruega até à África do Sul, Mediterrâneo e Mar Negro
- Repartição batimétrica: até aos 1050 metros de profundidade
- Tamanho máximo: 70 cm
- Peso máximo: 2,0 kg
- Biologia: migram para a costa no Verão e retornam para o largo no Outono


- Crescimento: Até ao final do 1º ano de vida 11 cm; no 2º ano + 8 cm = 19 cm; no 3º ano + 4cm = 23 cm
- Reprodução: Março/Abril. 1ª maturidade (20-23 cm macho) e (26/30 cm fêmea com 5 anos de idade); A fêmea põe de 3.000 a 14.000 óvulos.
- Tamanho mínimo legal de captura em Portugal: 15 cm
Bibliografia:
- “Les poissons de mer des pêches françaises”, Jean-Claude Quéro / Jean-Jacques Vayue, Editora: Delachaux et Niestlé, Ano 1997.
O carapau afinal não é um peixe de segunda, mas de respeito. E pergunta-se: afinal porque continuam a adorar “jaquinzinhos”? São bons pelo que gostamos muito? Assunto para pensar…



Por último, os Outros peixes capturados foram: alguns Cantarilhos, boas fanecas, uns safios e dois polvos. Nada de especial. Nem para uma caldeirada davam.

10. Ai, se tivéssemos podido pescar até ao anoitecer!


Demorou-se a tarde…na conjugação do verbo PESCAR. O nosso barco nunca esteve tão no presente do indicativo como desta vez. A cor dos gorazes esgotou no sujeito: parou no Eu, no Tu, no Ele, no Nós, no Vós e no Eles. Pegando num destes seres tão desejados, destituí a conjugação e disse:
- Um goraz, 100 mares, 1000 alegrias. Era bom, não era? 


Que realidade tão aumentada. Não dava tréguas. O mais curioso embora eu estivesse esgotado fisicamente, é que me apetecia continuar a pescar nesta realidade. É que os gorazes continuavam activos, como nunca tinha visto. Mas, infelizmente a partida estava a chamar, em direcção à Marina, porque estávamos no meio de um Oceano e não de um charco de água.
- Ah, quem me dera ter pescado até ao anoitecer. Teríamos duplicado o verbo pescar e o substantivo goraz.

11. À noite, o cansaço é limpeza


O filme do dia projectou a palavra FIM. Com a amarração efectuada iniciou-se o desembarque de humanos e tralha. Foram chegando entretanto outras embarcações e novos desembarques.
- O que ouvi? Ouvi os snobs do silêncio! Não estranhei!
E começámos a limpar o barco, cada um na sua missão. O cansaço arruína sempre a rapidez e às vezes a eficácia. Mas o barco, tinha de ficar bem limpo (Óscar dixit), pelo que adiámos o nosso merecido descanso. Às 19h30 subia as escadas da minha casa regressando às outras duas primeiras realidades alternativas.
A felicidade é ser pescador. Olhem-me só aquele goraz assado no forno!

Marina de Leça, 25 de Fevereiro de 2017
Luís M. Borges