1. Carretos e panos
Na terça, saíram pelo dinheiro 1.500 metros de fio, fichas eléctricas, panos
e cerveja preta. Uma tarde andante por terras de Vila do Conde, Esposende e obviamente,
Leça da Palmeira.
Na quarta, soltámos o entusiasmo na Marina, a ligar as fichas, a encher
os novos carretos de fio, a testar…tudo muito pormenorizadamente discutido,
agenda que durou até à hora do bacalhau assado na brasa, no restaurante
BrisaMar, ali em frente…
E ainda pela noite (20h00) a voz do Forte a convocar...
- Sábado, vamos lá?
2. Sem o Óscar
Pois. O nosso amigo Óscar reservou-se. Acautelou-se inteligentemente,
embora o ruído ensurdecedor do desejo de ir pescar, se fizesse ouvir a milhas. Estando
ainda em convalescença, após uma arriscada cirurgia à coluna, desejou-nos uma
boa pescaria, com um olhar ansioso. Não ir à pesca é penoso…é uma perda
irreparável...Mas ele fez bem, pois os maiores sacrifícios, dão sempre o dobro
em compensação.
Eram 07h20 quando o barco ronronou. Um som líquido, abafado…prometedor…
O mar, esse, neste dia pacífico, superficializava dócil. Quando o Cheta
decidiu ancorar, o barco não se dignava esticar a amarra, nem o vento soprava,
nem muito menos a ondulação mexia. O barco deixou-se ir, feito parvo, ao sabor
não soubemos de quê. Nunca a amenidade foi tão absoluta.
No tempo que mediou até às 08h30 capturaram-se os frenéticos do costume –
serranos e fanecas.
Neste contexto, vimos o Cheta a testar o seu novíssimo carreto eléctrico,
o tal da profundidade. Depois de alguma argumentação interpretativa sobre botões,
“resets”, contagem de fio, paragens automáticas no fundo e a metros da superfície,
deu como aprovada a funcionalidade do novo brinquedo.
- Bom carreto.
A seguir engatou na cana o seu velhinho, usado e restaurado carrinho
eléctrico de pesca ligeira. O conserto valeu a espera:
3. Bogas e mascatos
A pesca entretanto, devagar, devagarinho, ia-se fazendo. Eu tive a sorte
de surpreender 2 sargos e logo uma nova dinâmica se instalou na equipa, ao
grito do Forte:
- Estão lá!
Estavam mesmo. A debicarem os iscos, a entocarem-se, a largarem de mal
presos, o certo é que começaram a estar uns bons exemplares de sargos e de
choupas no cabaz, que o confirmem o Cheta e o Malheiro. Depois, entraram os
carapaus e para desespero de todos, as indesejáveis bogas-do-mar. Roliças, gordas,
grandes e cagonas. Eram atiradas com força e desprezo contra o convés e
lançadas já moribundas à água.
Este tipo de rejeição sempre me incomodou. O mar gera muitas criaturas,
todas elas dignas de terem direito à vida, mesmo desagradando ao bicho homem.
Os mascatos é que almoçaram sem esforço. Conseguiam, para enorme
admiração dos humanos, engolir com uma facilidade extraordinária, através
daqueles seus grandes pescoços, uma boga de 30 cm com 300 gr de peso, como se
nada fosse. E lá se iam…volteando elegantemente no ar…talvez saciados.
E com a pescaria continuada, a malta foi obrigada a mudar de caixa, para que
se enchesse até à hora de almoço, o que realmente aconteceu, com a ajuda de
super-carapaus.
4. Grão-de-bico
A incumbência do almoço calhou-me a mim, ao mestre da culinária. Kkkkkkkkkkkkkk.
Apliquei-lhes com grão-de-bico, tipo “Rancho à transmontana”, por causa dos componentes,
bem substanciais, a fim de colmatarem o desgaste provocado pelo esforço.
- Mas qual dieta? O grão-de-bico faz bem à saúde.
5. Congros
Foi o Forte e foi o Malheiro. O Forte não viu engatado no bicheiro o dele.
O Malheiro engatou bem os seus. Subiram assim 2 valentes congros ao pódio.
O congro do forte tinha-se atirado à ameijoa. Os 2 congros do Malheiro
ficaram presos na congreira com sardinha. Acho, entendo, defendo, que não se
devem armadilhar congreiras, em pesqueiros de sargos e choupas. Quando a cobra
predadora aparece, toda a restante fauna foge espavorida, com medo da cobra. Convenhamos,
deve-se evitar este inconveniente. Acho eu...
Malheiro: Tu és mau...
Passada esta euforia congral, todos se orientaram de novo para a
carapauzada, o que demorou tempo demais. Mesmo assim, fechou-se a terceira caixa.
Um êxito.
6. Mascatos
Foi um espectáculo nunca visto. Centenas de mascatos em acção de pesca,
mergulhando às dezenas em simultâneo nas águas, visando um cardume de sardinha.
- Tenho uma longa vida de mar e é a primeira vez que assisto a uma cena
destas. Fabuloso - dizia o Cheta.
Eu pensei que os mascatos eram aves raras, que apareciam ocasionalmente
entre os bandos de gaivotas, para lhes roubarem a comida. Ainda bem que esta
espécie ainda existe abundantemente. Ver estes kamikases a picarem sobre os
alvos a uma velocidade incrível e a picarem sardinha, foi um achado.
Já durante a manhã, uma dúzia de golfinhos tinham rasado o barco, naquele
seu jeito bonito de nadarem, em estilo krol pronunciado.
Os dias no mar e a vida que nos rodeia também nos apanham o coração. É
isto que me faz e desfaz!
Leça, 29 de Outubro de 2016
Luís M. Borges