quarta-feira, 30 de novembro de 2016

72.MEMÓRIAS DO ALTO MAR




1. Carretos e panos
Na terça, saíram pelo dinheiro 1.500 metros de fio, fichas eléctricas, panos e cerveja preta. Uma tarde andante por terras de Vila do Conde, Esposende e obviamente, Leça da Palmeira.
Na quarta, soltámos o entusiasmo na Marina, a ligar as fichas, a encher os novos carretos de fio, a testar…tudo muito pormenorizadamente discutido, agenda que durou até à hora do bacalhau assado na brasa, no restaurante BrisaMar, ali em frente…
E ainda pela noite (20h00) a voz do Forte a convocar...
- Sábado, vamos lá?
Dormi pacificamente, a sonhar com estrelas-do-mar!

2. Sem o Óscar
Pois. O nosso amigo Óscar reservou-se. Acautelou-se inteligentemente, embora o ruído ensurdecedor do desejo de ir pescar, se fizesse ouvir a milhas. Estando ainda em convalescença, após uma arriscada cirurgia à coluna, desejou-nos uma boa pescaria, com um olhar ansioso. Não ir à pesca é penoso…é uma perda irreparável...Mas ele fez bem, pois os maiores sacrifícios, dão sempre o dobro em compensação.
Eram 07h20 quando o barco ronronou. Um som líquido, abafado…prometedor…
O mar, esse, neste dia pacífico, superficializava dócil. Quando o Cheta decidiu ancorar, o barco não se dignava esticar a amarra, nem o vento soprava, nem muito menos a ondulação mexia. O barco deixou-se ir, feito parvo, ao sabor não soubemos de quê. Nunca a amenidade foi tão absoluta.
No tempo que mediou até às 08h30 capturaram-se os frenéticos do costume – serranos e fanecas.
Neste contexto, vimos o Cheta a testar o seu novíssimo carreto eléctrico, o tal da profundidade. Depois de alguma argumentação interpretativa sobre botões, “resets”, contagem de fio, paragens automáticas no fundo e a metros da superfície, deu como aprovada a funcionalidade do novo brinquedo.
- Bom carreto.
A seguir engatou na cana o seu velhinho, usado e restaurado carrinho eléctrico de pesca ligeira. O conserto valeu a espera:
- Está operacional.

3. Bogas e mascatos
A pesca entretanto, devagar, devagarinho, ia-se fazendo. Eu tive a sorte de surpreender 2 sargos e logo uma nova dinâmica se instalou na equipa, ao grito do Forte:
- Estão lá!
Estavam mesmo. A debicarem os iscos, a entocarem-se, a largarem de mal presos, o certo é que começaram a estar uns bons exemplares de sargos e de choupas no cabaz, que o confirmem o Cheta e o Malheiro. Depois, entraram os carapaus e para desespero de todos, as indesejáveis bogas-do-mar. Roliças, gordas, grandes e cagonas. Eram atiradas com força e desprezo contra o convés e lançadas já moribundas à água.
Este tipo de rejeição sempre me incomodou. O mar gera muitas criaturas, todas elas dignas de terem direito à vida, mesmo desagradando ao bicho homem.
Os mascatos é que almoçaram sem esforço. Conseguiam, para enorme admiração dos humanos, engolir com uma facilidade extraordinária, através daqueles seus grandes pescoços, uma boga de 30 cm com 300 gr de peso, como se nada fosse. E lá se iam…volteando elegantemente no ar…talvez saciados.
E com a pescaria continuada, a malta foi obrigada a mudar de caixa, para que se enchesse até à hora de almoço, o que realmente aconteceu, com a ajuda de super-carapaus. 

4. Grão-de-bico
A incumbência do almoço calhou-me a mim, ao mestre da culinária. Kkkkkkkkkkkkkk. Apliquei-lhes com grão-de-bico, tipo “Rancho à transmontana”, por causa dos componentes, bem substanciais, a fim de colmatarem o desgaste provocado pelo esforço.
- Mas qual dieta? O grão-de-bico faz bem à saúde.
E a pesca recomeçou, com os sargos e as choupas a sobressaírem. 

 Forte: Cena de ternura
5. Congros
Foi o Forte e foi o Malheiro. O Forte não viu engatado no bicheiro o dele. O Malheiro engatou bem os seus. Subiram assim 2 valentes congros ao pódio.
O congro do forte tinha-se atirado à ameijoa. Os 2 congros do Malheiro ficaram presos na congreira com sardinha. Acho, entendo, defendo, que não se devem armadilhar congreiras, em pesqueiros de sargos e choupas. Quando a cobra predadora aparece, toda a restante fauna foge espavorida, com medo da cobra. Convenhamos, deve-se evitar este inconveniente. Acho eu...

Malheiro: Tu és mau...

Passada esta euforia congral, todos se orientaram de novo para a carapauzada, o que demorou tempo demais. Mesmo assim, fechou-se a terceira caixa. Um êxito.
Pelas 16h30 o barco rumou à Marina.

6. Mascatos
Foi um espectáculo nunca visto. Centenas de mascatos em acção de pesca, mergulhando às dezenas em simultâneo nas águas, visando um cardume de sardinha.
- Tenho uma longa vida de mar e é a primeira vez que assisto a uma cena destas. Fabuloso - dizia o Cheta.
Eu pensei que os mascatos eram aves raras, que apareciam ocasionalmente entre os bandos de gaivotas, para lhes roubarem a comida. Ainda bem que esta espécie ainda existe abundantemente. Ver estes kamikases a picarem sobre os alvos a uma velocidade incrível e a picarem sardinha, foi um achado.
Já durante a manhã, uma dúzia de golfinhos tinham rasado o barco, naquele seu jeito bonito de nadarem, em estilo krol pronunciado.

Os dias no mar e a vida que nos rodeia também nos apanham o coração. É isto que me faz e desfaz!
Leça, 29 de Outubro de 2016
Luís M. Borges



71. MEMÓRIAS DO MAR 3



ILHA 2016
1. Prelúdio
Quinze dias antes da partida comecei a fazer a mala. A preparação minuciosa das necessidades básicas relativas à pesca obrigou-me a tomar algumas diligências: comprei 2 bobinas de um fio especial para o Adérito; pedi ao Cheta que me fizesse umas montagens para a pesca ao sargo; decidi inovar, adquirindo uns iscos artificiais, a ver no que dariam e embalei o essencial. O melhor do futuro deve preparar-se sempre no presente.
Troquei impressões com o Adérito no dia 8 de Setembro, a saber da saúde e da pesca dele. Boa saúde e belos robalos. Fiquei entusiasmado. A expectativa da partida para a Ilha cresceu - o dia 18 demorava a chegar!
1. Dia 18 Setembro
Viagem: Alfa pendular (Campanhã 5,47; Oriente 8,25; Faro 11,23; Olhão 12,00;
Preço: 23,50).
Este ano viajei sozinho. O Barbosa encolheu-se e fechou-se em casa. Motivo? Parece-me que se sente velho e a esposa necessita do seu apoio. Desilusão e tristeza. O Barbosa sempre animou a estadia na Ilha de uma forma encantadora. As flores murcham…
Despejado do Alfa em Faro, apanhei a correr o regional e chegado a Olhão, petisquei à sombra do calor, fui ás compras com lista e arrastei-me carregado para o barco (este partia às 15h00 para a Ilha). A pequena viagem de barco matou a lesma e ainda pequenino o Farol ergueu-se. No cais,
lá estava o Adérito à minha espera com o carrinho do super mercado. Que jeito dá.
Em casa, foi o espalhar do material e prioritáriamente a montagem das canas.
Após o jantar de sopa de beldroega e peixe grelhado com salada de tomate e brócolos, encerrámos o dia com um passeio nocturno no molhe.
Botei sono às 23h00.
2.      Dia 19
Sonhei molhe com excitações diversas. Às 04h00 afaguei o TAB com o escrevinhanço primordial. Às 07h00 misturei os bons dias ao Adérito com uns mirtilos pintados de yogurte. Às 08h00 abalámos aos peixes, com uma enorme expectativa na pressa dos pés.
No 71. Primeiro lançamento; senti o rosto na aragem, os olhos na água e a espera do toque. Três tempos...
Com uma chumbeira de 30 grs e camarão no anzol, pesquei únicamente ineficácia, ou seja, os pequenos peixes deram-me deferência como limpa-anzóis. As pedras quiseram com insistência roubar-me os aparelhos. Enfim, mau começo.
Quanto ao Adérito repetiu-se a corricar. Só incomodou a água da ria.
Assim sendo, decidimos voltar à base e mudar de estratégia
Com a maré a descer, que só viraria às 10h47, eu postei-me no cais da Somec. Só pesquei estralhos sem anzóis. Iniciei à bóia, tendo então começado a labutar: pequenas choupas, picas, picas-del-rei, dobradas (viúvas), sarguetes. Fiz o bastante para o almoço.
Entretanto o Adérito, com a sua bóia de 35 grs, fixou-se no 64. Com a baixa-mar às 10h47, com uma altura de 0,28, deu início à pesca às 10h30 até as 13h00, a 10 metros e a uma profundidade de 11 metros, iscando com camarão e ralo. Pescou 15 douradas (300 grs cada), mais 2 sargos, 1 viúva e 1 choupa = 19 peixes, isto é, quase quase 5 kgs no total. Puxa, que beleza! Que paixão…
De tarde, calhou-me a mim. Virando a preia-mar às 17h19, aproveitei as águas com 3,64 metros e paradas, para dar nas viúvas grandonas, forte e feio, repetindo-me na Somec. Estas meninas são danadas para a brincadeira…dão luta… enchi o cesto delas (foto do cesto). Pesquei o que quis. De novo disse – que beleza!
O Adérito foi para o molhe, na mira das anchovas e à mistura com mais de 20 curricadores, fustigou os ares e as águas com varadas intensas. Com ele, as anchovas disseram nada…chegou a casa com um polvo de 1 kg, uma oferta do Piscas, que desceu às pedras para o caçar, debaixo de uma pedra. Na parte mais alta da pedra amontoavam-se uma dúzia de caranguejos, muito juntos, cheios de medo do polvo que rondava, pronto a caçá-los. Fantástico!
Sopa de baldroega, salada alentejana, queijo de cabra curado, fruta – foi este o jantar. Frugal!
Obs: a minha garganta deu sinais de um princípio de constipação. Fiquei apavorado.
3.      Dia 20, terça 

OBS: A completar