quinta-feira, 14 de julho de 2016

63. MEMÓRIAS DO ALTO MAR



No parque biológico 

      Cegos
O nevoeiro tolhia-nos. Tínhamos os ouvidos  a zunir com a “ronca”, como referem em Matosinhos e o cuidado ao sair da Marina, ocupou os olhos enevoados dos 5 pescadores. Os mecanismos de segurança da embarcação davam confiança, mas a cautela vê sempre mais do que os olhos.
Navegadas 3 milhas, o manto desanuviou e às 07h30 fez-se luz. O sol alumiou o mar e o céu virou azul.
Com a desconfiança derrotada, navegámos em força até ao pesqueiro, que alcançámos às 08h00.


Cheta com Besugo

Besugo
Fases
Se a carência foi longa e penosa, depois de 37 dias sem pescarmos, a fartura chegou aos limites, logo no início da pescaria. Bons sargos, besugos e choupas fizeram felizes os 5 compinchas. Foi a “fase da fartura”: coisa de uma hora. Houve outra fase, que eu apelidei de “fase dos ruivos”, que pintou literalmente de vermelho um cabaz - invasão ruiva, que substituiu os habituais serranos. De boca torcida, o Cheta resmungava, afirmando que não era benfiquista. Com ironia, o Borges admitia gostar de ruivos cozidos, um pouco maiores. Já o Américo, aceitava a tirania do anzol. Porém, o Malheiro queria cavalas e o Óscar gorazes. A cada qual o seu destino.  
Surgiu logo após, a “fase faneca”, e depois a “fase dos recordes”: um besugo de 0,5 kg; uma abrótea de 3,0 kg; uma choupa de 2,250 kg; um sargo de 1,0 kg e um peixe- canário, lindo de admirar e meio entesoado. Um autêntico parque biológico, tal a diversidade.


Óscar com Ruivo


Ruivo
 Canário-do-mar

"Entesoado?"
Borges com Choupa
Bolinhos
Bolinhos de bacalhau e presunto com cerveja Argus – o menu do pequeno almoço da malta. O Américo esqueceu os panados, mas superou com os bolinhos.
Não sei bem porquê, mas esta pequena pausa matinal para efeitos de reforço alimentar, é sempre proveitosa. É que logo a seguir, a intensidade da pesca costuma aumentar, diria que redobra. Mas, desta vez não…paciência…ao menos soube bem!

 Malheiro com Abrótea



Nortada
Era quase meio dia quando a senhora nortada nos visitou. Fria e desagradável. Arrepiou-nos. Vestimos casacos. O barco agitou-se. A vaga aumentou ameaçadora. O Óscar, sempre prudente, sugeriu:
- E se zarpássemos às 13h00? Almoçávamos na Marina. Que dizem?
Aceite a proposta, o Borges organizou um mini torneio de pesca: os cinco nautas teriam de pescar até às 13h cinco peixes cada um, a fim de se completar a 3ª caixa. Ganhou o Borges com cinco peixes; a seguir o Américo com 3 e os restantes com dois cada. Estes meus colegas odeiam concursos? Ou já estavam noutra? Ou desvalorizaram?

 Américo com Sargo


Almoçarada
O senhor Cheta apresentou uma espectacular rojoada na Marina, no Restaurante Fosmar. À moda do Minho: era redenho, era tripa enfarinhada, era fígado, era sangue, era finalmente rojão.  Pão-de-ló, queijo, café e hidromel, completaram. Nesta calmaria sem folguedos de ondulação, a mesa posta com requinte, bem acomodados e recostados nas melhores cadeiras (?!), esta rapaziada quase toda reformada, encheu a “malvada”. No passadiço, os transeuntes inalavam odores nada parecidos com maresia. E olhavam, e sorriam, e cumprimentavam…

Rojões

 "Uma rolhinha"

Avaria
Um senão manchou entretanto este glorioso momento final – o radar avariou-se. O Óscar, preocupado, tratou de ir vendo do que se tratava.. O almoço não lhe fez préstimo.
Raios e coriscos. Lamentei o facto, sobretudo pelo Óscar. Que alfinetada!
Tinha de aparecer a agulha no palheiro a picar o cu de quem nele se deita. Só assim, se consegue descobri-la…


Leça, 09 de Julho de 2016
Luís M. Borges