terça-feira, 15 de janeiro de 2019

118. MEMÓRIAS DO ALTO MAR

FISH

1.Era uma vez…


Era uma vez uma equipa de 5 pescadores, que costumava ir à pesca do alto mar aos sábados, excepto quando as condições marítimas não o permitiam. Contudo, por vicissitudes diversas, alguns deles faltavam à chamada, mesmo quando o mar se apresentava favorável ao exercício da pesca. Aconteceu até terem de ir pescar só 3 dos 5.
Uma das vezes foi numa pescaria aos gorazes, em que o Borges, o Cheta e o Óscar, se fizeram a eles denodadamente. Um êxito. Mão cheia de gorazes, como nunca lhes tinha acontecido. Os faltosos amuados, nunca lhes apeteceu aceitar a evidência e até mofaram com o assunto. O trio da superioridade ignorava tais acintes e não raras vezes os entendia como desgosto.
Ora, neste exemplar dia de Inverno, repetiu-se o êxito, não aos gorazes mas aos peixes diversos (sargos, choupas, carapaus, cavalas, serranos, fanecas, ruivos, pargos, besugos, etc). Os três ficaram embriagados, foram literalmente assaltados pelos peixes das 08h00 às 16h00, ou seja, durante seis horas de pesca, excepto a do almoço (aquela pausa necessária).

2. Uma taça de peixes


Foi assim. O dia começou com um vento da Meseta Ibérica gelado, que mais parecia do pólo Norte. Em conformidade, a vaga reagia com aspereza, mostrando-se agitada. Umas nuvens apareceram pintadas de sol.
Quando chegámos à marca, sentimo-nos desconfortáveis, com dedos tolhidos pelo frio e cabeças enfiadas em gorros de lã . Mesmo assim, encolhidinhos, lançámos os iscos, a ver no que daria. Como éramos três, logo à primeira aconteceu a soma ser – três vezes três igual a nove – mas com peixes dos grandes (sargos e choupas).
Foi tal o ritmo, quase alucinante, que ao pequeno almoço (às 09h30) já tínhamos 3 taças. E ao almoço (às 13h30) cinco taças. Às 16h00 encerrámos os trabalhos com sete taças.

3. Quem foi que chorou?


Agora adivinhem a questão que se nos colocava: como iríamos celebrar este feito excepcional?
Telefonaríamos ao Tio Celinho, ao Goucha ou à Cristina?
Chamávamos o Presidente da Câmara Municipal de Matosinhos ou o CM TV? Convocaríamos uma reunião de pescadores das embarcações marítimo-turísticas na Marina de Leça ou todos os pescadores lúdicos conhecidos para um Jantar de amizade com leitão no Restaurante Flor do Ave?
E os nossos dois colegas, o Forte e o Malheiro? Que processo teríamos de utilizar, para que eles acreditassem no nosso feito histórico? Fotografias, tirar fotografias inquestionáveis? Foi o que fizémos.
Contudo, sinceramente, não acredito que nos dêem os parabéns. Estão a chorar…por não terem ido pescar.

4. Gastei o escamador!


Quando cheguei a casa, dei quase o meu peixe todo. Tirei alguns peixes e escamei-os. Acabei por inutilizar o escamador. As escamas eram grandes e duras. Bolas! Sem escamador, decidi esfolar os peixes maiores, guardando as respectivas peles. Queria fazer dois brindes para oferecer. Eh, eh, eh, eh…

5. Até o gato comeu


Bichano adora peixe. O Borges, o Cheta e o Óscar também adoram comer peixe. Então um pargo no forno ou uns carapaus grelhados ou uns sargos fritos, são petiscos de se lhes tirar o gorro. Até cozido o carapau é delicioso, embora os acompanhamentos sejam imprescindíveis e o vinho verde tinto não acompanha só a dobrada.
Mas, na minha casa existe outro ser vivo, que se delicia com o peixe que eu levo para casa. Chama-se Oshi. Massa de peixe é a sua especialidade.

Óscar com o seu pargo

O pargo do Borges, um pouco mais pequeno


As belas choupas e o rei pargo

Além de tudo que foi dito, o peixe que mais me fez brilhar os galões, foi sem dúvida o Pargo Assado no Forno. O Óscar será meu irmão neste gosto, pois também pescou um pargo, bastante maior que o meu. A sua travessa, repleta de batatas novas, irá certamente ser o show, segundo ele disse, de uma excelente refeição.

6. Olha…uns chinelos!

Chinelos para...irá à sorte.

Para ilustrar, apresento a imagem de uns chinelos de peixe. Certamente, pensaram, que estaria a inventar. Não!
Adivinharão a quem os irei oferecer…eh,eh,eh…
Termino, dizendo que não há duas sem três, pelo que irá certamente acontecer a terceira avalanche piscícola, a três. Sómente a três. Topam? Adoro ouvir Chopin!

Leça, 12 de Janeiro de 2019
Luís M Borges

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

117. MEMÓRIAS DO ALTO MAR

OS MAGOS DO ALTO

Lindo péscador *

1.Sob o signo Cenoura 19

Concentração máxima

Uma vez passada a passagem e sob o signo “Cenoura 19”, eis os magos do alto a meterem-se ao mar num sábado de Reis. A concentração iria ser máxima, tendo em atenção que os “perseguidos” não dariam descanso aos “perseguidores”, surripiando-lhes com muita habilidade os seus engodos, deixando os anzóis limpinhos. Mas, como todos adoptaram o signo “Cenoura 19”, os guerreiros tinham consciência de que dependeria essencialmente dos seus desempenhos, o êxito das capturas. Sabiam, que não há momentos bons ou maus, há momentos. Teriam que ser ambiciosos, grandes como a cenoura, mas teriam de ser eles a fazerem-na crescer. Até diria, a construírem-na.

2. A idade e a pesca lúdica

Idade e desempenho

Estou à frente na idade e atrás no desempenho Suponho que a cada dia que passa será maior a distância entre a minha idade e o meu desempenho. Resta-me acreditar, que no meio estarão a inteligência e a experiência, a equilibrarem. Veio-me esta ideia por causa da actividade lúdica que pratico habitualmente: a pesca. E comecei a interrogar-me, género:
- O que é a pesca lúdica? Eu a perseguir os peixes oferecendo-lhes comida, mas traiçoeira?
E desculpando-me, dizendo que os perseguidos só se atiram aos iscos, se quiserem! E aquela outra desculpa: antes ludibriar mortalmente peixes, que seres humanos! Ou ainda, a desculpa mais bizarra que existe, a de que gosto de pescar pronto (mas gosto porquê? Nunca descobri…).

Angústia.1 *

O reverso *

Com estas congeminações surgiram novas possibilidades, o receio de me ver a ser mais dia menos dia um vegetariano ou um contemplativo, ou outra coisa qualquer parecida. Não, por enquanto tenho de continuar…vivo, atento, rápido a reagir, embora já seja um pardal velho e sem asas…

Eu com uma boa dezena de sargos

Angústia. 2

3. O caracoleta

Os meus companheiros...

Quando saímos da Marina, a manhã ainda dormia e o mar, ressonava baixinho. À medida que navegávamos, a aurora ia-se espreguiçando para os lados da terra de horizonte e mar, devagar devagarinho, como quem não tem pressa. Não tardou que nos desse os bons dias iluminando-nos a manhã. A nossa estrada azulada balançava docemente. Iríamos ter certamente um mar calmo, que nos proporcionaria uma cómoda e aprazível, sessão de pesca. A malta estava bem disposta. O “Caracoleta”, designação de um barco que se chegou a nós depois de apoitarmos e que rumou para outras paragens logo a seguir, confirmou o bom momento. Depois gastou o rádio não se calando o raio do homem, com perguntas desnecessárias:
- Estás aí ó Fosmar? Essa é a proa? Ó Majó está a dar peixe? Ó Zé, Ó Manel, estais onde? Estais a carregar? Não dizeis nada? Etc, etc, etc
O que nos valeu, dado que a paciência tem limites, foi os sargos terem dado uma ajuda. Ininterruptamente, eu bati ali na arca amarela com uma boa dezena de sargalhões, para admiração minha e dos meus colegas. Os meninos desta vez escolheram-me a mim. Não fui eu que os escolhi a eles (mais uma desculpa). Fiquei feliz. Os meus camaradas entretanto também não se fizeram rogados ao convite daqueles bonitos seres marinhos. Foi um dia de pesca intermitente: ora caíam em catadupa de vez em quando, ora paravam, para nossa tristeza. A pesca é assim e enquanto for assim, há que agradecer... a quem, també

4. Dobrada com grelos

É comer... *

Mestre Óscar

Os grêlos

Calhou-me a mim desta vez ser o protagonista de “Os Simpsons”. Tive uns dias a decidir o tema e qual o melhor desenho da série, que se lhe adaptasse. Decidi-me só na véspera. Fui ao Miguel e comprei 3 doses de Dobrada, mais um molho de grelos. - -- Um molho de grelos? Sim…para acrescentar à dobrada.
- Mas porquê? Descobri que acrescentando grelos, à conjugação do feijão, das carnes e do arroz, a digestão se torna mais fácil e o gosto dos grelos dá- lhe um toque primoroso. Anotem, que esta combinação, não gera a habitual peidaria lusitana.
- Não acreditam? Experimentem. De referir que tive o apoio de Mestre Óscar para o acrescento. Quase todos gostaram. Conseguem certamente adivinhar quem rejeitou a ideia…? O nome termina em “ta”.

Ele queria voar...

Anzóis mortais *

Foi um belo dia de pesca, como encerramento do período de festas, a que temos de nos sujeitar todos os anos. Mas, não me importo de estar sujeito a mais dias de pesca, como o deste dia. Haja muitos!

Leça, 05 de Janeiro de 2019
Luís M Borges

* fotos retiradas da internet

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

116. MEMÓRIAS DO ALTO MAR

TRANQUILO



Dá-me lume...Dá-me lume...


Primeiro, acalma-te.
Depois, fica assim
para o resto da vida.
Ron Padgett, Poemas Escolhidos



Pose de Campeão

1.Eu queria que este dia de pesca fosse marcante, "tranquilinho" (como diria uma pessoa minha amiga dada a floreados linguísticos). Desejava, que assim fosse!



Peixes a bulirem


Acrescento, que me considero uma pessoa bastante auto-controlada, do género "emotiva, activa, secundária", ou seja emociono-me facilmente, entrego-me a tarefas executivas organizadamente e penso antes de agir. Estas características tornam-me um ser humano tranquilo, mas não parado, não expressivo, não insensível, não irreflectido, não do género do macaquinho que não quer ver, ouvir e falar.



Febras a mais


2.Assim aconteceu, mas lá está, foi um dia de pesca muito emotivo, bastante activo e sobretudo consciente. Um dia iniciado a frio (vento forte e gelado de leste) e a violência ( mar com ondulação alta e descontrolada). 


O nervosismo da cana


Com o dia andando a coisa melhorou, desaparecendo o vento e normalizando-se o estado do mar, com os peixes a bulirem (bons exemplares), as febras a sobrarem, as zaragatas de fios (foste tu, não fui eu, corta, não corta...eu assumi culpas e desculpas), o vinho a entornar-se, o queijo a cair à água, ninguém a querer fazer café mas a desejarem tomá-lo sob uma pergunta repetida: o bagaço?



Inauguração da arca nova


3.Salientando, sublinho alguns pormenores observados, com aquela bonomia irónica:
A minha ponteira esteve muito nervosa neste dia 
Uma das tesoura (a amarela) foi lançada aos peixes



Um "colete" amarelo. Foi ao fundo!


A tábua dos iscos partiu-se
O tapete rotinho, envergonhado, quis suicidar-se. Foi salvo...
A minha nova arca deixou-se estrear
O Forte a queixar-se (hoje eu faço tudo),



O senhor dos anéis, desculpem, das caixas


O Cheta a lamentar-se (vou apanhar uma gripe),
O Malheiro a gabar-se (chegou o campeão),
O Óscar a procurar besugos (com uma choupa de 2 kg),



Que chatice. Não é um besugo


O Luís a reclamar o maior sargo (coisa rara), 
O Cheta a exultar com o pargo (pequeno…),
O Forte a dizer "duas das 3 caixas são minhas",
Enfim, todos felizes.



Parece-me um besugo gordo

4.Termino com um poema de ALERTA escrito por Fernando Pessoa. Tomem atenção, ok?

Ano Novo

De tudo, ficaram três coisas:
A certeza de que estamos sempre começando...
A certeza de que precisamos continuar...
A certeza de que seremos interrompidos


5.Antes de terminar... UM DESEJO MEU:

Que às 24 horas do dia 31 de Dezembro todos os meus amigos tenham assumido o Ano Novo com uma CENOURA deste tamanho.



Cenoura 19

Leça, 22 de Dezembro de 2018
Luís M Borges