Dá-me fanecas
1.Pêlo de gato
Era uma vez um gato vadio, que vivia para aqueles lados da Lota de
Matosinhos e se alimentava essencialmente de restos de peixe. As peixeiras davam-lhe
sardinha, cavala, carapau, sobretudo as peças “moídas”, impróprias para venda.
Este gato adorava comer peixe, afrontando vezes sem conta as terríveis
gaivotas esfaimadas, a fim de garantir que o peixe não lhe faltaria.
Enfim, era um gato cujo estilo de vida livre lhe garantia a felicidade,
sem estar sujeito a vontades caprichosas de donos e muito menos a regras de
convivência inaceitáveis (urinar e defecar no caixote de areia, dormir no
cestinho, passar as tardes fechado dentro de casa à janela a olhar para a rua,
etc).
Certa vez, numa daquelas tardes de sornice em grupo, próprias da sua
espécie, os amigos convenceram-no de que certas comidas feitas pelos humanos
eram muito mais saborosas, que peixe cru.
Ficou a matutar naquilo, até que decidiu experimentar. Mas…como teria de
actuar para conseguir alimento cozinhado pelos seres humanos? Matutou, matutou,
até que descobriu como fazer.Assim, ficou à cuca frente a um talho no Mercado, assistindo ao seguinte pedido:
- Quero 1 kg de carne, 1 metro de tripa enfarinhada e 2 kg de dobrada.
Depois, seguiu sorrateiramente o homem aviado, que por sinal também vivia perto da Lota e esgueirou-se para a cozinha. Escondeu-se.
Entretanto chegou a patroa, que começou imediatamente a fazer o almoço: fanecas fritas com arroz de tomate.
O gato vadio tremia, excitado com aqueles novos odores maravilhosos e até se ia lambendo, cheio de desejo.
Esperou, esperou, até que viu a patroa a desligar o fogão e a colocar o tacho com o arroz e uma enorme travessa cheia de fanecas na mesa.
A patroa tirou o avental e saiu da cozinha.
Disse ao marido, que o almoço estava pronto só faltando o vinho, que o ia buscar à arrecadação.
Foi a oportunidade do gato vadio: saltou para cima da mesa e roubou uma
faneca, que devorou em três tempos.
Ainda teve tempo para roubar mais três fanecas, deixando apenas duas na
travessa e pisgou-se de seguida, rapidamente.
A patroa chegou à cozinha de garrafa na mão e tendo olhado para a mesa
posta viu a travessa das fanecas quase vazia e ficou estarrecida. Tensa, o seu
rosto crispou-se. Colocou as mãos nas
ancas e dirigiu-se furiosa à sala onde o marido, sentado no sofá, via as
notícias na TV.
- Olha lá. Já almoçaste?- Ó mulher, claro que não. Estou à tua espera.
- Engraçadinho. A partir de hoje os teus jantares serão só de sopa e de fruta.
Quanto ao gato vadio, gabou-se aos seus amigos. Mas, estava magro e abatido, pois andava agora sempre de diarreia. Doía-lhe o papo…
Sobre o marido, todas as vezes que comia sopa, dizia:
- Esta sopa tem pêlo de gato.
2. Fanecões no feminino
Vi todos a encherem-se de amarelinhas, ao som de verdadeiros lamentos de outros barcos, cujos skipers pronunciavam só renúncias da fauna marinha. As choupas ficaram em segundo lugar, os sargos em terceiro e uns carapaus e umas cavalas iam dando música ao grupo, a preencherem o silêncio das caixas. Às 16h00 acabou a festa das fanecas.
3. Pouco casqueiro
Por só desta vez, o casqueiro foi pouco, embora tivesse sobrado. O arroz
intrometeu-se no planeamento, por falta de sintonizaçāo informativa. O almoço, que
tinha ficado combinado, seria prego no pão.
Só eu assumi comer o preguinho, pelo que não me sentei na mesa do Hotel a
encher o prato com arroz, por solidariedade para com o vitelão.
Na minha próxima vez, irei continuar a insistir no casqueiro, levando uma
das especialidades portuguesas: bifanas à Moda do Porto. Aquele molhinho no pão
faz um conjunto delicioso com a carne. Sempre quero ver quem terá a coragem de
substituir o casqueiro por arroz!
4. Carreto eléctrico, mas pouco…
Pois foi. O gajo deu o berro, como se diz em gíria. Deve ter sido por
causa das fanecas, as quais eletrecotaram o dispositivo, pois estava a alar na
máxima velocidade.
Dada esta avaria técnica, passei a trazer as fanecas, à velocidade
mínima.
Já sei que na próxima pescaria o carreto manual verá de novo o mar. Os
meus músculos agradecerão.
5. Sobre o tempo
Agradecido. Muito agradecido. O mar parecia seda, o vento mudou-se para a
terra do nunca e o calor esteve controlado por nuvens brancas. A chuva prometida
pelo Forte, ficou por terras de Viana, a alegrar os restos do S. Pedro.
Pesquei quase sempre de pé. Deu para isso.
Leça, 30 de Junho de 2019
Luís M. Borges



