quarta-feira, 4 de julho de 2018

107. MEMÓRIAS DO ALTO MAR



Dá-me fanecas


1.Pêlo de gato

Era uma vez um gato vadio, que vivia para aqueles lados da Lota de Matosinhos e se alimentava essencialmente de restos de peixe. As peixeiras davam-lhe sardinha, cavala, carapau, sobretudo as peças “moídas”, impróprias para venda.


Este gato adorava comer peixe, afrontando vezes sem conta as terríveis gaivotas esfaimadas, a fim de garantir que o peixe não lhe faltaria. 
Enfim, era um gato cujo estilo de vida livre lhe garantia a felicidade, sem estar sujeito a vontades caprichosas de donos e muito menos a regras de convivência inaceitáveis (urinar e defecar no caixote de areia, dormir no cestinho, passar as tardes fechado dentro de casa à janela a olhar para a rua, etc).



Certa vez, numa daquelas tardes de sornice em grupo, próprias da sua espécie, os amigos convenceram-no de que certas comidas feitas pelos humanos eram muito mais saborosas, que peixe cru.
Ficou a matutar naquilo, até que decidiu experimentar. Mas…como teria de actuar para conseguir alimento cozinhado pelos seres humanos? Matutou, matutou, até que descobriu como fazer.
Assim, ficou à cuca frente a um talho no Mercado, assistindo ao seguinte pedido:
- Quero 1 kg de carne, 1 metro de tripa enfarinhada e 2 kg de dobrada.
Depois, seguiu sorrateiramente o homem aviado, que por sinal também vivia perto da Lota e esgueirou-se para a cozinha. Escondeu-se.
Entretanto chegou a patroa, que começou imediatamente a fazer o almoço: fanecas fritas com arroz de tomate.
O gato vadio tremia, excitado com aqueles novos odores maravilhosos e até se ia lambendo, cheio de desejo.
Esperou, esperou, até que viu a patroa a desligar o fogão e a colocar o tacho com o arroz e uma enorme travessa cheia de fanecas na mesa.
A patroa tirou o avental e saiu da cozinha.
Disse ao marido, que o almoço estava pronto só faltando o vinho, que o ia buscar à arrecadação.
Foi a oportunidade do gato vadio: saltou para cima da mesa e roubou uma faneca, que devorou em três tempos.  Ainda teve tempo para roubar mais três fanecas, deixando apenas duas na travessa e pisgou-se de seguida, rapidamente. 



A patroa chegou à cozinha de garrafa na mão e tendo olhado para a mesa posta viu a travessa das fanecas quase vazia e ficou estarrecida. Tensa, o seu rosto crispou-se.  Colocou as mãos nas ancas e dirigiu-se furiosa à sala onde o marido, sentado no sofá, via as notícias na TV.
- Olha lá. Já almoçaste?
- Ó mulher, claro que não. Estou à tua espera.
- Engraçadinho. A partir de hoje os teus jantares serão só de sopa e de fruta.
Quanto ao gato vadio, gabou-se aos seus amigos. Mas, estava magro e abatido, pois andava agora sempre de diarreia. Doía-lhe o papo…
Sobre o marido, todas as vezes que comia sopa, dizia:
- Esta sopa tem pêlo de gato.

2. Fanecões no feminino


A pesca resumiu-se no amarelo e em grande. Que cor estranha a das fanecas, tal como o nome Fanecões a rimarem com fêmeas…
Vi todos a encherem-se de amarelinhas, ao som de verdadeiros lamentos de outros barcos, cujos skipers pronunciavam só renúncias da fauna marinha. As choupas ficaram em segundo lugar, os sargos em terceiro e uns carapaus e umas cavalas iam dando música ao grupo, a preencherem o silêncio das caixas. Às 16h00 acabou a festa das fanecas.

3. Pouco casqueiro


Por só desta vez, o casqueiro foi pouco, embora tivesse sobrado. O arroz intrometeu-se no planeamento, por falta de sintonizaçāo informativa. O almoço, que tinha ficado combinado, seria prego no pão. 
Só eu assumi comer o preguinho, pelo que não me sentei na mesa do Hotel a encher o prato com arroz, por solidariedade para com o vitelão. 


Na minha próxima vez, irei continuar a insistir no casqueiro, levando uma das especialidades portuguesas: bifanas à Moda do Porto. Aquele molhinho no pão faz um conjunto delicioso com a carne. Sempre quero ver quem terá a coragem de substituir o casqueiro por arroz!


4. Carreto eléctrico, mas pouco…

Pois foi. O gajo deu o berro, como se diz em gíria. Deve ter sido por causa das fanecas, as quais eletrecotaram o dispositivo, pois estava a alar na máxima velocidade. 


Dada esta avaria técnica, passei a trazer as fanecas, à velocidade mínima.
Já sei que na próxima pescaria o carreto manual verá de novo o mar. Os meus músculos agradecerão. 

5. Sobre o tempo


Agradecido. Muito agradecido. O mar parecia seda, o vento mudou-se para a terra do nunca e o calor esteve controlado por nuvens brancas. A chuva prometida pelo Forte, ficou por terras de Viana, a alegrar os restos do S. Pedro.

Pesquei quase sempre de pé. Deu para isso.



Leça, 30 de Junho de 2019

Luís M. Borges