segunda-feira, 11 de setembro de 2017

91. MEMÓRIAS DO ALTO MAR



91. Memórias do alto mar


A última de sábado

1.Mata-cavalos


 Borges: A idade não perdoa

Estive doente praticamente a semana toda. Um folhado de carne estragou-me a máquina. Felizmente, dieta rigorosa e descanso fizeram milagres e na quinta-feira um jantar de rodízio em Barcelos, no Restaurante Toural, protagonizado pelo Forte, acabou por cicatrizar a ferida. Com muita moderação e critério de escolha das carnes, consegui normalizar o meu bem-estar.


Na sexta-feira já funcionava normalmente, pelo que pude preparar o material para a pesca de sábado. Havia um extra de espectativa: a estreia de um novo carreto eléctrico, de tipo ligeiro, comprado na Silstar a um bom preço, o qual me iria propiciar um menor esforço físico, no que à acção de pesca diz respeito. A idade não perdoa! A minha debilidade é notória, evidente no cansaço que se lhe segue em dias seguintes: corpo dorido, vontade de dormir, desmotivação face a tarefas rotineiras. Até que recupere, vai um tempo!


É evidente, que a pesca de alto mar é muito dura, pelo que faço notar só o horário de execução contínuo, salientando somente dois índices: o levantar da cama às 04h00 e o deitar na mesma cama por volta das 23h00. São 19 horas de esforço e de concentração, sem pausas, a começar na viagem de carro até à Marina, embarque, viagem rumo ao pesqueiro (com mar às vezes nada meigo), início da pesca, preparação do almoço, reinício da pesca, levantar ferro, divisão do pescado, viagem de regresso para a Marina, lavagem do barco, viagem de carro para casa, preparação e conservação dos peixes, banho, jantar e finalmente…a tão ansiada caminha.


Vejam bem que eu, um lingrinhas, na casa dos 72 anos, bem merecia ser compreendido. Obviamente, adoro pescar. Nunca desisto. Esforço-me ao máximo por não ficar atrás dos meus colegas de pesca. Contudo, é muito difícil. Tenho uma imensa esperança, que este novo carreto eléctrico, possa adiar a minha reforma da pesca.

2. Maminha

Às vezes a meio da manhã meto o “reforço”, outras vezes ceio, todas as vezes almoço e janto, uma ou outra vez lancho. Mas, ando a tentar descobrir como posso comer pouca comida, aplicar o enigma francês com os queijos e os vinhos, insistir na massa italiana e na pizza, evitar não esquecer os iogurtes gregos nem os cogumelos japoneses e muito menos os legumes e a fruta. Tarefa difícil a de ter escolhido a Smart Food… 

 Cheta: outro momento sagrado

Para o nosso amigo Cheta as refeições são momentos sagrados. Com uma intensidade invulgar, ele faz da comida o açambarcamento do mundo e consequentemente da vida. Para ele, comer, significa apropriar-se da energia vital, que o mundo lhe fornece através da comida e da bebida. Mas não come demasiado. Apenas sente necessidade de se atulhar de comida no início das refeições. É uma espécie de pleno de arranque, à “ferrari”…

 Malheiro: nada o satizfaz

Já o nosso amigo Malheiro, não há quantidade de comida, que o satisfaça. Viu-se no Restaurante Toural. Para ele um empregado é um serviçal, um criado, seguramente um lacaio. Se o dito funcionário não o servir 10 vezes e com deferência e ainda estando permanentemente disponível, zanga-se…

 Óscar: são para a caldeirada

O nosso amigo Óscar, aprecia conservas de sardinha com tomate, sabe como despertar paladares e adora maminha bem passada. Agora com um restaurante é que vão ser elas…

  Forte: sulfatar é bom

O nosso amigo Forte repugna-lhe comer coelho, bebe muita coca-cola e é um afeiçoado de frango de cabidela. De vez em quando (mais vezes do que quandos) tem de faltar ao convívio da pesca e vai sulfatar. Que mania!
Depois deste introito, refira-se que o Cheta apanhou com o “tacho” mais uma vez, no meio de tantos azares. Foi uma espécie de favor ao Óscar (a iniciar trabalho de restauração ali para os lados da Maia) e a mim, que tinha afazeres urgentes. Assim, o Cheta apresentou frango do campo estufado, a fim de se lhe acrescentar a inevitável massa no barco. 


Este prato estava mesmo a meu gosto, pois como me encontrava de “dieta”, convinha-me uma comidinha assim levezinha. Com este cozinhado fiz uma espécie de LAVAGEM ao estômago. Caiu-me bem. A outros nem por isso. Paciência. Quem se queixou que da próxima vez traga faisão, lagosta ou até uma “maminha” de picanha. Quero ver! Prometo avaliar com rigor.

3. Barcos à vista

O “sítio” para onde fomos pescar tinha mel. Rodeavam-nos 3 embarcações de amigos nossos, que quiseram ter para connosco a amabilidade das suas simpáticas presenças. Aprecio imenso estas manifestações de afecto, pois é por demais aborrecido pescarmos sozinhos, só tendo o mar e as gaivotas por companhia.  Houve até oferta de bebidas e de comida, pois a camaradagem é mesmo assim.


Entretanto e à sombra (estava encoberto) destas companhias, íamos entretendo o vício. A pesca tornou-se concretizadora, não em excesso, mas em moderação. Claro, que pescador que se preze, é um ser permanentemente insatisfeito, ou não pertencesse à espécie “Hominidium” (mais…sempre mais e maior…). 


Foi um dia tranquilo: pescar e viver (nós) e não pescar para viver (os necessitados) ou viver para pescar (os alienados).
Encontrei no passadiço da Marina o meu amigo Nestor, que me disse:
- Ficámos a pescar aqui perto. Deu umas fanecas. Descontrair é o que importa.

4. Nós de pesca

Saber fazer nós é essencial. Quantas vezes um nó mal elaborado ou desajustado do fim a que se destina, dá como consequência a perda de um grande peixe.
O Óscar opinou que o nó de ligação entre um fio multifilamento e um fio de nylon deveria ser efectuado como ele descrevia. Agradeci…
Contudo devo salientar que me parece não ser bem assim como ele referiu, tudo dependendo de vários factores a considerar, como sejam os diâmetros dos dois tipos de fio serem iguais ou diferentes, as diferenças de resistência, as respectivas marcas e características, o fim a que se destinam os nós…etc.
Ora vejamos o que rezam os livros e as revistas da especialidade sobre o assunto:

Borges: Este é o meu nó

Resumindo: não existem nós infalíveis. O peixe, o pescador, o material, as condições é que ditam o tipo de nó a efectuar.

5. De sábado para segunda

Aviso: informam-se os 5 utentes da embarcação formar e respectivos amigos, que a partir do mês de Agosto, a habitual saída de pesca semanal que sempre foi ao sábado, passará a efectuar-se às segundas-feiras.

 Óscar: à mesa

Vantagens e inconvenientes: eu deixarei de comer aos domingos peixe; o Forte não terá a desculpa da sulfatagem, mas arranjará outra, de certeza; o Cheta terá dificuldades com o isco; o Malheiro virá ainda com mais apetite e o Óscar descansará, pois será o seu dia de folga. Quem se der ao trabalho que aponte mais vantagens e inconvenientes.
Bem, sem ironia, o que verdadeiramente interessa é que continuemos a ir pescar. Não é assim?

Leça, 29 de Julho de 2017
Luís M. Borges