segunda-feira, 1 de maio de 2017

85. MEMÓRIAS DO ALTO MAR



Foram poucos, mas lindos de morrer

 
1.O vinho do Marmelal

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No dia 22, a um sábado, o vinho foi engarrafado no Marmelal. O meu santo sábado de pesca foi substituído, embora por uma causa justa, nessa tarefa também bem desejada.
Anualmente, o Óscar propicia aos amigos a prova do seu vinho. Porém, a sua Mãe não lhe fica atrás e apresenta sempre às visitas um almoço caseiro. Desta vez, foram uns magníficos rojões. 


O Artur, irmão do Óscar, levou-nos de tarde com ele. Para onde? Ora essa, não conseguem descobrir?
Tendo levado o carro, o meu companheiro de viagem foi o Cheta, um bom amigo. O trajecto pela A4, Mesão Frio e Régua, logo nos levou ao Marmelal. Na volta, decidimos passar por Armamar e tomámos a A24, mudando para a A4 em Vila Real, até Matosinhos.
Gozámos um belo dia, sem ondulação, sem maresia, sem peixes, sem reflexos azuis nos olhos e com a arca do triunfo lavada e guardada em casa.
De vez em quando, os sábados vestem-se de outras roupagens, que não as da pesca lúdica. É preciso diversificar.

2. O 25 de Abril

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A pesca acabou compensada neste feriado nacional, o dia dos cravos vermelhos. O hastear da bandeira foi substituído pelo montar das canas e a música foi-nos dada pelos peixes e quanto a discursos nem as gaivotas piaram.
Ainda me lembrei do poema de Sophia de Mello:
“Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo”
Embora adore poesia e particularmente a desta brilhante poetisa, tive de baixar à prosa da pesca, no esforço de continuar a tentar convencer os peixes com bons argumentos.

3.Tédio e insatisfação

 Após uma hora

Mas o mar era só lassidão e os peixes tinham adormecido ou viajado. Por isso, nasceram muito tédio e insatisfação.
-Olhem só, um único cabaz. O que representa, passada uma hora de pesca, este cabaz esquecido? Insatisfação, claro.
- O que representa uma cana pousada e imóvel? Tédio, claro.
E a substância ditou-a o Cheta:
- Estamos mal habituados.

4. Poitadas inúteis

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Neste contexto o Óscar passou-se…
- Mudança, mudança…
E o Óscar ordenou que puxassem a âncora. E ligou o motor do barco. E arrancou. E escolheu um novo pesqueiro. Contudo, o barco não se posicionava à feição. Teimava em não se fixar. Deambulava.
Senti o Óscar na irritação do momento ao não conseguir poitar convenientemente na marca escolhida. A sonda dizia coisas diferentes daquelas que ele desejava. Na proa, dois dos meus colegas, com a amarra na mão e a âncora suspensa, iam ouvindo orientações dele, ansiosas, quase zangadas.
O Óscar não conseguia acertar no fundão desejado. E mais mudança. O mundo estava a violar os seus direitos de opção.
Tive de assistir ao demais da insistência: mudança de pesqueiro por 3 vezes e poitadas difíceis por 8. Que quase não iam valendo de nada, porque os peixes tinham ido à procura, sei lá, da esmeralda perdida.
Quando ele conseguiu finalmente poitar no certinho do cabeço, o mundo melhorou substancialmente. Até abriu o sol.

5. No grão está a virtude

 
Hora de almoço, prato na mão direita, copo na esquerda e olhos em frente em cima da panela. Costuma-se dizer que grão a grão enche a galinha o papo. Mas, para o almoço foi um quilo de grão, do mais bonito que existe, porque tinha bico. Mais bonito ficou com cebola e salsa, ovo cozido, bacalhau assado e um bom azeite. Lá por Lisboa, nessa aldeia grande, chamam-lhe imaginem, “meia-desfeita”. Meia? Com o tamanhão daquelas postas? Meia? 


O Óscar assou o bacalhau, eu limitei-me a apresentar os complementos.
O Cheta não apreciou, pela cara dele. 

 O Cheta não apreciou.

O brinde foi efectuado a propósito única e simplesmente da nossa boa disposição, apesar do fracasso da pesca, com aguardente velha. 

 Aliança Velha

Já que a pesca se ia esfumando ao menos que a arca estomacal ficasse bem guarnecida.

6. Peixes lindos de morrer

 Sargo lindo

Mas, eis que todos esquecemos de repetir o shot de aguardente velha. Soltaram-se vivas, pois os nossos velhos amigos sargos finalmente deram sinais.
Muitas sombras de peixes se movimentaram no barco! Brilharam escamas a brotarem do mar, durante cerca de uma hora.
Poucos peixes se viraram durante a manhã, mas eis que na tarde do dia do atraso, se virarem muitos mais. Peixes lindos de morrer.
- Não existe anzol que consiga despedaçar a alma de um peixe.

 Faneca

Um aparte: Mas não foram só sargos que nos entregaram a alma. Também as fanecas tiveram esse privilégio. Nas pedras baixas elas escolheram materializar-se no nosso balde, que acabou por ficar meio. 
As fanecas são altruístas: dão-se a quem não merece. Há pescadores, que defendem a tese que as fanecas só existem para colmatar a falta de outros peixes ou as fracas prestações deles, como maus pescadores. A faneca é uma espécie de seguro contra acidentes de dias fracos no que à pesca diz respeito. Gosto deste tipo de seguro. 

7. Faltou o Forte

Encheram-se 2 cabazes sem o Forte.
Há um colega nosso, que aprecia marcar bem a sua participação na pesca, embora de auto-elogios todos estejamos fartos. Eu gosto do empenhamento dele; da sua cana a pescar; da confiança que dá à equipa; também gosto das malvadas palavras que nos dirige, quando não vai:
- Não pescais nada; míseros pescadores; sem mim não valeis um caracol, etc, etc.
Vou fazer um pedido: estamos todos a precisar de comprar um polo com uma imagem do rei-pescador. Tenho a certeza, que se todos usarmos esse polo, iremos pescar basto. Acredito em talismãs!
Agora, interroguemo-nos: se o Forte tivesse estado connosco, 2 caixas de peixe teriam sido 4? Acredito que sim: é que os peixes além de terem alma, têm também preferências.

8. Contagem e inteligência dos peixes

 Serrano 

 Carapau

Calharam a cada um 8 sarguitos, mais uma choupa, 9 serranos, 4 carapaus e umas 10 fanecas.
Confesso: os sargos fizeram-se assados na brasa e os restantes peixes cozidos na caldeirada. Quanto às fanecas dispensei-as.
Refeições saudáveis, hem? A cumprirem os ditames da moda dietista mediterrânica, da ciência alimentar e da gastronomia regional portuguesa.
No final da pescaria…durante a viagem de regresso…discutiram-se muitos assuntos: Benfica, Sporting, Porto; Trump, Coreia do Norte, eleições francesa; a vinda da Papa a Fátima, o terrorismo…e pasmem…a inteligência dos animais. Eu, até referi, que os animais são mais inteligentes do que o homem!?  
Se é assim, que perguntaria aos peixes?
- Meus adorados peixes, na próxima poitada ver-nos-emos de novo?
Responderiam os peixes:
- Somente e apenas nos vossos sonhos, por enquanto. Lá para Novembro ou Dezembro, ver-se-á.
Por enquanto, pois. Bem respondido. Resposta inteligente:
- Os peixes sabem, que sempre que o mar deixar, voltarão 5 homens e 1 destino à procura deles. Os peixes têm memórias que não guardam e têm desejos que vêm à memória. São inteligentes, obviamente.


Leça, 25 de Abril de 2017
Luís M. Borges

Obs: Imagens 1 e 2 do Pinterest