Foram poucos, mas lindos de morrer
1.O vinho do Marmelal
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No dia 22, a um
sábado, o vinho foi engarrafado no Marmelal. O meu santo sábado de pesca foi
substituído, embora por uma causa justa, nessa tarefa também bem desejada.
Anualmente, o Óscar
propicia aos amigos a prova do seu vinho. Porém, a sua Mãe não lhe fica atrás e
apresenta sempre às visitas um almoço caseiro. Desta vez, foram uns magníficos rojões.
O Artur, irmão do
Óscar, levou-nos de tarde com ele. Para onde? Ora essa, não conseguem descobrir?
Tendo levado o carro, o meu companheiro de viagem foi o Cheta, um bom amigo. O trajecto pela
A4, Mesão Frio e Régua, logo nos levou ao Marmelal. Na volta, decidimos passar
por Armamar e tomámos a A24, mudando para a A4 em Vila Real, até Matosinhos.
Gozámos um belo dia,
sem ondulação, sem maresia, sem peixes, sem reflexos azuis nos olhos e com a
arca do triunfo lavada e guardada em casa.
De vez em quando, os
sábados vestem-se de outras roupagens, que não as da pesca lúdica. É preciso
diversificar.
2. O 25 de Abril
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A pesca acabou
compensada neste feriado nacional, o dia dos cravos vermelhos. O hastear da
bandeira foi substituído pelo montar das canas e a música foi-nos dada pelos
peixes e quanto a discursos nem as gaivotas piaram.
Ainda me lembrei do
poema de Sophia de Mello:
“Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo”
Embora adore poesia e
particularmente a desta brilhante poetisa, tive de baixar à prosa da pesca, no
esforço de continuar a tentar convencer os peixes com bons argumentos.
3.Tédio e insatisfação
Após uma hora
Mas o mar era só
lassidão e os peixes tinham adormecido ou viajado. Por isso, nasceram muito
tédio e insatisfação.
-Olhem só, um único
cabaz. O que representa, passada uma hora de pesca, este cabaz esquecido?
Insatisfação, claro.
- O que representa uma
cana pousada e imóvel? Tédio, claro.
E a substância ditou-a
o Cheta:
- Estamos mal
habituados.
4. Poitadas inúteis
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Neste contexto o Óscar
passou-se…
- Mudança, mudança…
E o Óscar ordenou que
puxassem a âncora. E ligou o motor do barco. E arrancou. E escolheu um novo pesqueiro.
Contudo, o barco não se posicionava à feição. Teimava em não se fixar. Deambulava.
Senti o Óscar na
irritação do momento ao não conseguir poitar convenientemente na marca
escolhida. A sonda dizia coisas diferentes daquelas que ele desejava. Na proa,
dois dos meus colegas, com a amarra na mão e a âncora suspensa, iam ouvindo
orientações dele, ansiosas, quase zangadas.
O Óscar não conseguia acertar
no fundão desejado. E mais mudança. O mundo estava a violar os seus direitos de
opção.
Tive de assistir ao demais
da insistência: mudança de pesqueiro por 3 vezes e poitadas difíceis por 8. Que
quase não iam valendo de nada, porque os peixes tinham ido à procura, sei lá,
da esmeralda perdida.
Quando ele conseguiu finalmente
poitar no certinho do cabeço, o mundo melhorou substancialmente. Até abriu o
sol.
5. No grão está a virtude
Hora de almoço, prato
na mão direita, copo na esquerda e olhos em frente em cima da panela. Costuma-se
dizer que grão a grão enche a galinha o papo. Mas, para o almoço foi um quilo
de grão, do mais bonito que existe, porque tinha bico. Mais bonito ficou com
cebola e salsa, ovo cozido, bacalhau assado e um bom azeite. Lá por Lisboa,
nessa aldeia grande, chamam-lhe imaginem, “meia-desfeita”. Meia? Com o tamanhão daquelas postas? Meia?
O Óscar assou o
bacalhau, eu limitei-me a apresentar os complementos.
O Cheta não apreciou,
pela cara dele.
O Cheta não apreciou.
O brinde foi efectuado
a propósito única e simplesmente da nossa boa disposição, apesar do fracasso da
pesca, com aguardente velha.
Aliança Velha
Já que a pesca se ia
esfumando ao menos que a arca estomacal ficasse bem guarnecida.
6. Peixes lindos de morrer
Sargo lindo
Mas, eis que todos
esquecemos de repetir o shot de aguardente velha. Soltaram-se vivas, pois os
nossos velhos amigos sargos finalmente deram sinais.
Muitas sombras de peixes
se movimentaram no barco! Brilharam escamas a brotarem do mar, durante cerca de
uma hora.
Poucos peixes se
viraram durante a manhã, mas eis que na tarde do dia do atraso, se virarem
muitos mais. Peixes lindos de morrer.
- Não existe anzol que
consiga despedaçar a alma de um peixe.
Faneca
Um aparte: Mas não
foram só sargos que nos entregaram a alma. Também as fanecas tiveram esse
privilégio. Nas pedras baixas elas escolheram materializar-se no nosso balde,
que acabou por ficar meio.
As fanecas são
altruístas: dão-se a quem não merece. Há pescadores, que defendem a tese que as
fanecas só existem para colmatar a falta de outros peixes ou as fracas
prestações deles, como maus pescadores. A faneca é uma espécie de seguro contra
acidentes de dias fracos no que à pesca diz respeito. Gosto deste tipo de
seguro.
7. Faltou o Forte
Encheram-se 2 cabazes
sem o Forte.
Há um colega nosso,
que aprecia marcar bem a sua participação na pesca, embora de auto-elogios
todos estejamos fartos. Eu gosto do empenhamento dele; da sua cana a pescar; da
confiança que dá à equipa; também gosto das malvadas palavras que nos dirige,
quando não vai:
- Não pescais nada;
míseros pescadores; sem mim não valeis um caracol, etc, etc.
Vou fazer um pedido:
estamos todos a precisar de comprar um polo com uma imagem do rei-pescador. Tenho
a certeza, que se todos usarmos esse polo, iremos pescar basto. Acredito em
talismãs!
Agora, interroguemo-nos: se o Forte tivesse estado connosco, 2 caixas de peixe teriam
sido 4? Acredito que sim: é que os peixes além de terem alma, têm também
preferências.
8. Contagem e inteligência dos peixes
Serrano
Carapau
Calharam a cada um 8
sarguitos, mais uma choupa, 9 serranos, 4 carapaus e umas 10 fanecas.
Confesso: os sargos
fizeram-se assados na brasa e os restantes peixes cozidos na caldeirada. Quanto
às fanecas dispensei-as.
Refeições saudáveis, hem?
A cumprirem os ditames da moda dietista mediterrânica, da ciência alimentar e
da gastronomia regional portuguesa.
No final da
pescaria…durante a viagem de regresso…discutiram-se muitos assuntos: Benfica,
Sporting, Porto; Trump, Coreia do Norte, eleições francesa; a vinda da Papa a
Fátima, o terrorismo…e pasmem…a inteligência dos animais. Eu, até referi, que
os animais são mais inteligentes do que o homem!?
Se é assim, que
perguntaria aos peixes?
- Meus adorados
peixes, na próxima poitada ver-nos-emos de novo?
Responderiam os peixes:
- Somente e apenas nos
vossos sonhos, por enquanto. Lá para Novembro ou Dezembro, ver-se-á.
Por enquanto, pois.
Bem respondido. Resposta inteligente:
- Os peixes sabem, que
sempre que o mar deixar, voltarão 5 homens e 1 destino à procura deles. Os
peixes têm memórias que não guardam e têm desejos que vêm à memória. São
inteligentes, obviamente.
Leça, 25 de Abril de 2017
Luís M. Borges
Obs: Imagens 1 e 2 do Pinterest



