terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

79. MEMÓRIAS DO ALTO MAR



CALEIDOSCÓPIO
 
1. Os três mundos
a)O mundo dos sentidos
Abrem-se os jornais, ouvem-se as rádios, vêm-se os canais televisivos…e o que é que salta de imediato e nos tenta apanhar? A patranha, a treta, a manipulação, a irrealidade. Horrível e cansativo!
b)O mundo da vidinha que temos
Abre-se à nossa atenção a vidinha que temos e o que é que nos espanta? Que passamos a vida a poupar, a resistir ao apelo dos Emails, dos SMS…que chegam dos Continentes, dos Pingo Doces, dos Lidls, etc, a tentar fugir à propaganda insidiosa, ao apelo da moda, dos carros, dos filmes, dos remédios, etec, etc
Ai aguentas, aguentas, como dizia o outro…O quê? A viagem de ida e volta para o trabalho, a intensidade do trabalho, a miséria do vencimento, o chegar a casa tarde e extenuado, o aturar a mulher, os filhos e os netos e vice-versa, as discussões, os compromissos financeiros (vulgo pagar contas), as doenças, o comer mal e à pressa, o dormir mal…etc, etc. Terrivelmente esgotante!
c.O mundo do lazer
Finalmente, por entre os pingos dos minutos, das horas e dos dias, o esquecer os dois mundos anteriores e entrar neste novo mundo, um mundo que nos liberta, um mundo que nos alivia, um mundo que nos descontrai, a catarse, a felicidade, o bem-estar, a alegria e as gargalhadas.
Agora é que entendo a teoria dos Mundos Alternativos.
Entremos então neste mundo alternativo.


2.Eles aproximaram-se devagar
Sobre a pesca, deve informar-se que o nível de capturas começou fraco. Estranhámos que os nossos costumeiros serranos não se tivessem manifestado. Foram substituídos por umas fanecas.
Depois, muito devagar, foram surgindo uns sargos pequenos, cuja intensidade foi aumentando até à hora de almoço. Umas choupas e uns sargos, destacaram-se pelo tamanho, fazendo a alegria do Cheta e do Malheiro.





3. "À Lagardère"
Foi um pargo, esse artista maior das profundezas. Dignou-se escolher-me. Lutei com ele bravamente, pensando tratar-se de 2 ou 3 sargos, pois ripostavamm com energia. Com total confiança fui dando à manivela. A cana continuava a vergar, entrando por vezes na água, pelo que solicitei ao Cheta que preparasse o galripo. Respondeu-me que estava com um problema entre mãos igual ao meu. Assim sendo, continuei a alar a força bruta, pelo que a três metros da superfície guinou a puxar para a direita, coisa que os sargos não costumam fazem. Fiquei desconfiado. Até que o Cheta grita que é um pargo. Sem ajuda, entrei na precipitação e ao ver o seu tamanho (1,5 kg) considerei que podia embarcá-lo sozinho. Entrou no barco "À Lagardère". A voar!
Ora o Óscar (sempre de olho vivo) indignou-se com a maneira como eu fiz entrar o peixe no barco. É verdade que não se deve tratar assim um pargo. Estes senhores merecem passadeira vermelha...Teve razão, obviamente.
- Tal não voltará a acontecer. Disse eu.


4. Moelas a pensar no galo de Barcelos
O dono do almoço foi o Óscar. Apresentou-nos um esparguete e a cobri-lo moelas estufadas. Dizia-se antigamente a uma mulher bonita que qualquer trapinho que vestisse lhe ficava bem. Assim é o Óscar. Com qualquer coisita faz logo lagosta.
Mas, se a boca estava nas moelas, a cabeça estava já no galo de Barcelos de sexta-feira, sob o auspício de Mister Forte.
Para desligar a cabeça, logo surgiu o queijo do Guilherme e o pão-de-ló do Malheiro. 


5. Peidaria lusitana
Se há sons que dão para rir, o peido é o rei. Nunca percebi porquê!
Decidi tratar este assunto mal cheiroso, unicamente para respeitabilizar todos aqueles que apreciam peidar-se. Têm esse direito e abaixo a tirania da etiqueta e dos "bons costumes". No alto mar os peixes, as gaivotas e os golfinhos não se importam.
Já o meu saudoso médico Dr Egídio, que dava consultas na Régua, me aconselhava sorridente:
- Foguetório, foguetório. Sem vergonha, ouviste?
Hei-de emprestar-vos um livro cujo título é o seguinte "A história do peido". Está bem?

 Apanhar...
6. Visitas
6.1. O moleiro
Pela segunda vez apareceu-nos um moleiro. Calmo e sem receio, poderoso em termos físicos, anafado como uma galinha poedeira. Castanho, bico de gaivota. Todas as vezes que rejeitávamos as importunas bogas elas iam parar no bico do moleiro. Ele dirigia-se ao barco. a nadar calmamente e sem receio, em direcção ao peixe. Com uma mestria fabulosa (as bogas são roliças e medem em média 20 cm) apanhava-as pela cauda e de seguida ia-lhes dando a volta, até as enfiar pela goela abaixo. Inteirinhas e sem esforço. Sacudia-se logo a seguir. Que beleza!

6.2. Os golfinhos
Os senhores do mar. A inteligência que os humanos rejeitam nem compreendem, pois decidiram olhar somente para o próprio umbigo. Vá lá, pelo menos já os protegem...
Assistimos mais uma vez a um espectáculo único. O mar a toda a volta do barco a fervilhar de golfinhos. Manadas atrás de manadas a ondularem nas águas, naquele seu jeito único. Milhares deles a passarem-nos ao lado até os perdermos de vista. Mar vivo...


7. "Vient au papá (père)"
Esta frase tem uma história. Os meus colegas de pesca sorriem quando a aplico no acto de alar um bom peixe.
Foi na Guiné, no Arquipélago dos Bijagós, onde cheguei a ir pescar meia dúzia de vezes no célebre barco "África Queen", propriedade de um francês. Um belo dia, calhou-me numa das pequenas barcaças de pesca um timoneiro natural do Senegal. Negro que nem Tinta-da-China. Nunca tinha visto um negro tão negro, pelo que lhe passei a chamar "Branca de Neve". Os meus companheiros de pesca desatavam sempre às gargalhadas todas as vezes que eu lhe chamava Branca de Neve. Ele também gargalhava ruidosamente por solidariedade, embora não percebesse patavina do que se estava a passar, pois o seu português era zero. Ora, quando eu fisgava uma bela corvina (a média era de 10 kgs) tinha de a trabalhar. A minha frase de entusiamo e confiança na captura era sempre:
- Vient au papá
Esta frase ficou como um tributo ao negro mais negro e ao seu francês, bem como às corvinas.
Hoje em dia, aplico o português "Vem ao papá" ou por causa da idade "Vem ao Vovô", acrescentando quase sempre uns ditirambos malcriados, só para apimentar!

 Vient au "Papá"


8. O suor do cansaço
O Cheta anda cansado. A falta do carreto eléctrico é notória. Habituado a que a electricidade trabalhe por ele, substituindo-lhe os músculos, não pensou que a atrofia muscular fosse tão evidente. Talvez por isso e sobretudo durante a manhã de pesca, o Cheta manifestasse um rendimento menor. Claro, tal não se revela importante, pois a santa divisão final do pescado acaba por colmatar falhas, que nos cabem a todos. Ainda na pescaria anterior o Cheta foi um dos que mais pescou e com qualidade.
Se há uma coisa, entre muitas, que eu aprecio no Cheta é o suor. O suor do trabalho, entenda-se...


9. O Malheiro e os congros
Há quem goste de fanecas, que o diga o Cheta, embora ele nem as prove! Há quem venere o pargo e o goraz; há quem faça trocas por besugos; há quem se esforce por levar para casa todos os bodiões-canário, etc. Mas há também quem tenha uma obsessão por congros. É o Malheiro.
Atenção: nada a objectar contra estas tendências, pois gostos são gostos e quando se manifestam em demasia é que são obsessões.
Contudo, convém analisar este assunto da pesca ao congro.
O congro mete medo aos peixes, como as cobras em terra metem medo aos seres humanos. Todos tremem e fogem quando lhes surge uma cobra. Com os peixes acontece exactamente o mesmo. Ao pressentirem a presença de um congro, essa fera predadora dos fundos marinhos, os peixes apressam-se a mudar de sítio. Não querem ser atacados e comidos. Temem pela sua existência. É um instinto vital de todo e qualquer ser vivo.
Porque já tem acontecido amiudadas vezes, quando a pesca está a dar, ela para de repente. Porquê? Chegou o vilão negro... assim, quando em acção contínua e positiva de pesca aos sargos, choupas e fanecas, baixar uma congreira é um erro grave. Ao atrair-se o congro com uma sardinha ou um filete de cavala, espantam-se os escamas, de que tanto todos gostamos de pescar.
Daí o facto de o Óscar ter proibido o Malheiro de baixar a congreira. É normal ele não ter gostado do reparo. Mas nós, os restantes membros da equipa, também certamente não gostaríamos de ver interrompido o nosso tipo de pesca.
Convenhamos: quem manda na embarcação é o Óscar. Numa equipa há sempre um Capitão e num barco há sempre um Comandante. Ele tem ambas as capacidades para decidir o que é melhor para o interesse do grupo, quando a unanimidade não se verifica. Por mim, darei ao Malheiro todos os congros que pescar, com todo o gosto.
Concluindo: fica decretado que qualquer tipo de obsessão piscatória, seja de quem for, vai a escrutínio. Não havendo unanimidade o Capitão é que decide. Está certo?


10. Lamas e o desejo
O Lamas é uma pessoa agradável. Sempre bem disposta, serena, prestável. Está a aprender a pescar e regista um notável nível de adaptação às exigências da pesca lúdica. Pescou bastante bem.
Dizia ele:
- Tenho de apanhar um peixe grande. Hoje.
Cheio de esperança, queria mesmo sentir o cheiro da sua adrenalina, a lutar com um peixe grande. Para o efeito, pediu-me um dos meus tensos (daqueles que o Cheta amavelmente me faz), pois considerou que a qualidade e a forma são para respeitar e se possível para aplicar. Iscou bem, olhou para mim ansioso e fez descer a montagem até ao reino dos peixes. Passados que foram aí uns quinze minutos, eis que o Lamas entra em ebulição, pois começou energicamente a "pedalar" (seria mais adequado dizer mãodalar), a fim de trazer uma força bruta vinda de baixo.
- Trago aqui um dos grandes. O camaroeiro?
Todos o entusiasmaram:
- Força Lamas.
Contudo, embora o Lamas trabalhasse com afinco, o peixe não despegava do fundo.
Dizia-lhe o Óscar:
- Lamas, trave o carreto.
Mas, qual quê? O Lamas puxava e puxava; o carreto chiava e chiava a largar fio; o peixe não saía do fundo. Grande expectativa no barco. Todos supuseram um enorme peixe e o Cheta afirmou várias vezes que seria um congro de 10 quilos. Até que o Óscar (mais uma vez olho vivo) lhe pede:
- Dê cá a cana.
O Óscar fechou o carreto, começou a içar e neste entretanto descobre que a montagem estava presa no fundo.
- Não é peixe. É fundo. Vou ter de arrebentar a montagem.
Assim foi. Verificou-se depois que tinha sido o anzol inferior que prendeu nalguma coisa no fundo.
O que enganou o Lamas, foi a ondulação: quando a onda descia ele dava uma maniveladas, quando a onda subia, parecia-lhe ser um peixe a puxar.
Enganos de pescador. Já aconteceu certamente a todos. E esta narrativa não é um gozo, é pura e simplesmente um relato natural de um erro de percepção (como se diz agora).


11. Uma hora espectáculo
A hora de descanso dos peixes costuma acontecer entre as 12 e as 15h00. Só ocasionalmente os peixes se chegam aos anzóis durante este período temporal. Neste dia, a hora deles de interregno acabou às 15h30. Mas, digo-vos - foi uma hora de luxo. Pescámos tanto durante uma hora (até às 16h30), como quase durante toda a manhã (das 08 às 13h00). Não sei o que se passou lá por baixo, no escondido das profundezas. Sei, isso sim, é que a malta trabalhou euforicamente, na vaidade dos muitos peixes que ia pescando.
Apeteceu-me declamar:
-Há tantas nuvens cinzentas no céu, mas também há um mar azul nas nossas almas.


12. A corda
No regresso, aconteceu o pior. Uma corda à deriva, proveniente de uma pesca profissional, enrolou-se na hélice da embarcação. Valeu o extraordinário e rápido reflexo do Cheta, que ia a conduzir, pois desligou imediatamente o motor. Com muito cuidado e preocupação o Óscar e o Lamas conseguiram safar a hélice da corda. Retomado o andamento, todos fomos auscultando o trabalhar do motor e o comportamento da hélice. A velocidade reduzida, chegámos à Marina sem problemas.
Este acidente, segundo me disseram na Marina, é frequente. Não deveria, porque coloca em risco a segurança dos navegantes de pequenas embarcações. As cordas também servem para enforcar, não é senhores pescadores artesanais?
Ficou agendada para sábado uma vistoria à hélice e ao veio. Uma decisão de grande responsabilidade. Já sabem quem a tomou.


Leça, 16 de Fevereiro de 2017
Luís M. Borges