segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

56. MEMÓRIAS DO ALTO MAR





Agitação e ansiedade

MarCavalo
Tanto tempo, tanto mar, tanta carência, afora a saudade. Foi a 4 de Dezembro de 2015, que fomos a última vez ao mar. Desde aí, as enormes vagas e o forte vento tudo dominaram; a falta de peixe fresco até alterou a minha a sensibilidade gustativa; a cana de pesca esqueceu-se de mim e os anzóis tinham começado a enferrujar.
Meteu-se entretanto o Natal e depois o Ano Novo e ainda os Reis. De calma derretida só o Cheta é que falou; o Forte contou anedotas de papagaios; o Óscar passou o seu tempo a namorar o barco na Marina; do Malheiro nada se soube, pois fez voto de silêncio e o Américo até prometeu fazer o tacho para a próxima.

 ForteMelhor

O barco, adormecido no seu poiso na Marina de Leça, ganhou cracas no casco, bolor nas amarras e deixou de conhecer os donos. Triste e amargurado, defendeu-se do vento e da chuva com resignação, à espera de melhores dias.
As gaivotas, essas grandes andorinhas gritantes, pairaram nos ares durante todo o tempo e encolheram-se nos resguardos das embarcações.
Sentia-se assim na Marina um ambiente de solidão, húmido, ventoso, frio e triste. Sinal dos tempos, de Invernos rigorosos.

 ÓscarCoça

Quando chegaria a boa nova? Quando aconteceria a convocatória? Quando com entusiasmo se voltaria a falar de iscos, de almoço, de bebidas, de peixes, de material?
Por favor, quando chegaria a hora de colorir de novo os rostos com o moreno do sol, de causticar as mãos com o salgado do mar, dos risos brejeiros e do falatório fácil e porque não do arroto buçal com a rolhinha de whisky à volta dos gabanços?
E a hora chegou. Finalmente. O Óscar deu as ordens de pesca para o dia 16. Tinha que sair peixe nem que fosse a pontapé…e tinha de se comer leitão…e de festejar o regresso ao mar com espumante.
Comecei imediatamente a desenferrujar os anzóis, dei uma beijoca à minha cana e afaguei o carreto. Que gaijo piegas (como disse o outro).
E no dia aprazado, lá saíram da Marina os 5 maduros do costume, com um vento feroz de cortar. Estava um frio de tal ordem, que as mãos só pediam umas coxas quentes de mulher, mas unicamente para se aquecerem, entenda-se.

 ChetaEscama

Mareando no rumo do pesqueiro, a coisa piorava. O mar tornou-nos a vida difícil. Cavalos de espuma corriam no mar, à solta. Com redobrada atenção o Óscar, coadjuvado pelo Cheta, fugia à manada, que arremetia com violência contra o casco. Eu temi, confesso. A explicação é simples: com vaga de noroeste de 1 metro e vento leste a soprar a 20 km/hora, o mar apresentava-se “taralhoco” ou, como referem os pescadores de Matosinhos, “estrapalhado”.  
Contudo, lentamente chegámos ao pesqueiro, após poitada do Cheta. Eram 09h00 num lugar de fundo “ratuado”, de coral, macio.

 MalheiroMaior

E logo começaram a entreter-se os camaradas, comandados pelo Forte. Satisfeitos, premiavam-se com belos sargos e buliçosas choupas, matando assim divertidamente as saudades, que habitavam nos seus corações.
- Eu pesco para todos…descansem! Era o Forte.
- Cheguem para lá, são três escamas! Era o Cheta.
- Este sargo é o maior do barco! Era o Malheiro.
- Ó Cheta. Estás a levar uma coça. Olha para isto! Era o Óscar.
- Vem ao papá. Só quero um de cada vez! Era o Borges.

 BorgesMínimo

Pelas 12h00 já se contemplavam três caixas. E às 13h00, quatro.
Necessariamente, chegou a hora do almoço: leitão da Bairrada, batata frita, espumante, queijo da serra, pão-de-ló, café e whisky. 

 MarLago

Refira-se, que tinha sido por volta das 11h00, que a feição do mar se alterou e às 15h00, já estava que nem um lago. A cavalgada tinha desaparecido, o frio encolheu-se e o vento submeteu-se à vontade do equilíbrio. Que maravilha! Se houvesse tempo para agradecer, teríamos que o fazer ajoelhados. A pesca foram seis horas de entrega e devoção. Começou mal, mas acabou bem. Carago…viva o mar de Matosinhos.

 CabazOrgulho

Tão bem que nós vivemos, quando o nosso mar nos recebe, mesmo que de início com raiva, mas que depois se conforma a um jeito manso e compensatório. 

 BarretesCaprichosos

Ah, mais um sábado encantado, vivido com euforia na nossa jangada de peixe. Gostei especialmente dos barretes. Um até tinha “pompom”. Pormenores caprichosos…

Senhora da Hora, 16 de Janeiro de 2016
Luís M. Borges