A raia cagou nos panados
Depois da Ilha, que vos
contarei mais tarde, regressado aliás há três dias, eis-me embarcado com os
companheiros do costume (menos o Forte),a actuar como se fosse um
"robot": com a rotina da partida, com o rumo a tomar, com o mapa do
fundo do mar, com o material, com os iscos e com o começo da pescaria.
O mar era uma planura sem fim.
Fazia um Outono macio, onde nem o sol crestava.
As lides trouxeram primeiro as
fanecas, muitas, todas grandes e gordas. Depois saíram algumas espécies
inabituais (uma raia, dois ruivos soberbos e uma pica enorme). Numa terceira
fase, dominaram os carapaus e por último (já da parte de tarde) pontuaram os
sargos e as choupas.
Pelo meio destas quatro cenas,
como vem sendo um bom costume, surgiram o segundo pequeno almoço (presunto,
carne assada, panados, pão fresco, azeitonas e minis). Cena curiosa: a raia
cagou nos panados do Américo. E mais tarde também surgiu o almoço: papas de
sarrabulho, um prémio oscariano, a contrariar o Cheta, em teoria. Quem lhe deu
mais na malga foi o Malheiro: quatro doses bem aviadas. É assim mesmo!
Mas, saliente-se, que durante
a viagem decorrida desde a Marina ao pesqueiro (das 07 às 08h00), a discussão
foi sobre política. Uns a disfarçarem a má consciência com escolhas femininas;
outros a argumentarem com lógica útil, uma boa maneira de castigarem a
insolência e o logro; um calado, com Deus a seu lado. Uma conclusão: a carcaça
de um pão, às vezes, tem mais miolo, que a cabeça da maioria dos portugueses.
Infelizmente!
À mistura, um Américo a tossir
e a escarrar dejectos de brônquios inflamados. Estas condições deram-lhe duas
oportunidades: de mamar o resto do Whisky e ainda de abocar a melhor bagaceira
do barco- para limpar a tosse, dizia ele. Em resposta, o Malheiro entoava o
hino da alegria "Ai o que o álcool faz a este pobre rapaz" e
recontava, a pedido, a anedora do "Pica Miolos".
Reencentrando o discurso,
desta vez o Cheta pescou bem. Quando tal acontece, o que é óptimo, o meu casaco
verde fica todo lixado. É que ele pesca de pé e eu sentado. Mais, ele pesca
atrás de mim. Ora, quando o Cheta traz um, dois ou três peixes, o percurso
desta fauna passa-me por cima, primeiro, e depois são desenzolados sobre as
minhas costas, pelo que em desespero, os peixes borram-se todos em cima do meu
casaco. Sorte malvada! A minha esposa tem-me perguntado:
- Tu pescas de costas? O
casaco verde está muito mais sujo atrás do que à frente!
Ao que eu respondo:
- Pronto, está bem. Eu pesco e
depois deito os peixes para trás das costas...
Já o Óscar, pesca de frente
para o mar. Arranja sempre maneira de lhe sair um peixe singular, para se
recrear. Desta vez, foi a tal raia – disse que a pescou pela cona. Chiça...este
Óscar é tramado.
Até às 17h00 a animação da
malta foi-se tornando evidente. As choupas e os sargos deram connosco e nos
intervalos os carapaus competiam. Até com fios velhos encontrados na praia, já
causticados pelo sol, pela areia e pela água salgada, foram utlizados com
sucesso nesta cruzada de fim de jornada. O cabaz começava a ficar bonito.
A rematar, foi efectuada pelo
incansável Óscar a distribuição equitativa do pescado. Teve graça uma raia ao lado de uma pica; foi
uma desgraça o conjunto dos serranos
e nem de graça foram aceites as
bogas!
E assim, se arrumou mais um dia
de pesca, diga-se mais um maravilhoso dia de pesca, pleno de encantamento. Foi
rir constantemente; foi sentir-me extraordinariamente bem; foi estar muito bem
acompanhado, com amigos sinceros, em
jogo de pesca; foi ter a oportunidade de saborear uns mimos gostosos. Só faltou
o sorvete!
Uma vez na Marina, arriscaria dizer...tínhamos
à nossa espera...um grupo selecto de amigos. Nós gostaríamos, que eles tivessem
ido connosco, mas as impossibilidades moram no barco. Pena!
Já em casa, no amanhanço do
peixe, a esposa perguntou:
- Porque pescas tantos peixes?
Respondi-lhe:
- Não pesco. Os peixes nadam na
minha cabeça. É só orientá-los para os meus anzóis!
Marina de Leça, 3 de Outubro de 2015
Luís M. Borges