A MALA DE CARTÃO
Eu já tinha saudades!
Saudades do vento gelado a entrar de fininho na pele; saudades do linguarejar
brejeiro do grupo; saudades do frémito defensivo dos peixes do mar de
Matosinhos.
Passado que foi um mês no Brasil, mais concretamente em Salvador da
Bahia, com 30 º C de temperatura, de comidas exóticas, de praias de fixar
longamente e de mulheres de esquecer o mundo à volta, eis-me de novo no meu
cantinho, neste Portugal dos pequeninos.
Mas, dizia, que já tinha saudades deste grupo, que estranhamente se
parece com uma ideia tão grande e viva, como se fosse o Brasil. Perante a
singularidade destes cinco homens, nada, mas mesmo nada, me poderá afastar
desta barcaça de vida activa, desta jangada de prazeres e de folia. Só alguma
infelicidade, um azar qualquer de saúde ou o término existencial, me forçarão a
desistir.
Que lengalenga! Bisonha e triste! Deixemos isto, pois quero focar-me
numa arca especial, nova, que o Malheiro apresentou à malta. Com acrescentos
especiais aplicados por ele, tendo em vista a melhor funcionalidade do objeto.
Comecemos pela cor: indefinida, a tender para o castanho e encimada
por uma tampa a parecer laranja; a frente tinha incorporada uma argola
foleira para meter a cana, provavelmente destinada à prática da pesca à tainha;
o mais interessante era o sistema de rodinhas e uma lata, esta destinada a
equilibrar e a travar a arca. Simplesmente brilhante este conjunto de ideias!
Só que ao 1º teste, a lata dobrou, tendo-se vergado ao peso dos 120 kg do seu
proprietário. Arreou, para desespero do próprio e gáudio dos demais.
Perante a galhofa geral, o que mais me impressionou, foi a calma
olímpica e o enorme “fair-play” do Malheiro, alinhando com o tom geral dos
companheiros. Sorridente, até se prontificou a tirar foto com a esquisita mala.
Gostei!
Sobre a pesca e os seus intérpretes, a começar, diga-se, afirme-se,
reitere-se, se possível repita-se até à exaustão – o melhor pescador do barco
é, sem dúvida alguma, o Forte.
O pescador mais simpático, menos rezingão e que menos festeja a
captura de bons escamas é, sem dúvida, o Cheta.
O pescador mais comodista, o que cozinha petiscos fabulosos, pilota a
embarcação, pesca que se farta carapaus, conta histórias aciduladas e ainda
divide a pescaria é, sem dúvida alguma, o Óscar.
O pescador mais jarreta, que nunca ensarilha com ninguém, que mais
caprichou na compra de um colete elegante e ainda não aprendeu a meter o peixe
capturado no barco é, sem dúvida alguma, o Borges.
O pescador mais elegante e fotogénico é, sem dúvida alguma, o
Malheiro.
Estes cinco, equilibram-se em defeitos e em virtudes, por isso é que o
barco navega tão bem e as pescarias são prodígios. Entre o positivo e o
negativo de cada um, juntando tudo, a figura geométrica que me ocorre é a de um
pentágono. Será este o nosso símbolo da pesca a cinco.
O dia de pesca acabou sereno, com um mar a ajeitar-se e uma
temperatura a acomodar-se.
Acreditem, nem nos lembrámos de discutir a questão grega!
Leça da Palmeira, 7 de
Fevereiro de 2015
Luís M. Borges