Mar de Natal
1.Sorrirei sempre que a memória me possa exibir as imagens desta
pescaria. Catálogo de luxo, com cenas de exuberância e de beleza.
Diria, que estavelmente, as choupas negras e gordas iam-se fazendo aos
iscos freneticamente, a juntarem-se aos prateados sargos e aos buliçosos
besugos rosa.
Dobravam-se as canas até ao limite e gritavam-se euforias, no acto de
içar dois e três peixes enormes, quando assomavam à superfície da água e
entravam no barco com jeitinho.
Como raridade, até saiu decreto a adiar a hora do almoço, para quando
os peixes se quedassem, pelo que uma hora para além da hora, os 4 barões
assinalados iam comendo massa de coelho e simultaneamente iam pescando. É que
antes, na senda do aperitivo, como se costuma dizer e fazer, à volta do
presunto, do queijo, do paté e do espumante, os sabores só tinham olhos para as
ponteiras das canas, constantemente a incomodarem, buliçosas. E parava-se a
mastigação e alçavam-se os peixes. Jamais tinha tido oportunidade de aperitivar
e almoçar deste modo.
Dizia o Cheta: - Nunca vi coisa igual. Tanto peixe e desta qualidade?
O Óscar premiou-se com o maior besugo (quase 1 kg); o Malheiro com a
mais roliça, escura e comprida choupa (1,2 kg); o Cheta com um sargo de forno
(1,3 kg) e eu com um carapau de cinquenta. Porém, refira-se por ser verdade e
relevante, que estas proezas recordistas não excediam tanto assim as restantes capturas,
todas elas proeminentes.
Foi um dia grande, um dia de sol doirado, um dia de aragem fina e
leve, um dia com um mar levemente cadenciado.
2.Começámos a pescaria às 08h00 no mar de Valongo e fez-se a poitada
com muito cuidado e precisão.
Às 16h00 rumou-se a um Matosinhos brumoso, com a Marina a acolher-nos
em silêncio.
Foi o nosso Mar de Natal e um encerramento de 2014 como nenhum. Que
2015 nos favoreça de igual modo!
Leça da Palmeira, 26 de Dezembro
de 2014
Luís M. Borges